sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Adriano Nunes: "A ideia poética e o alheamento: para que serve o eu?"

"A ideia poética e o alheamento: para que serve o eu?"



Alguns mitos precisam ser desmascarados: 


1) Que a poesia deve estar além do eu (seja ele de qualquer tipo, de qualquer forma assumida: lírico, íntimo, impessoal, não-eu, só-eu, eu-qualquer, eu-mundo, eu-eu) para que valha como poesia.

2) Que se pode determinar rigorosamente in totum quais caminhos a poesia deve seguir, que limites ela deve ter e, consequentemente, a partir daí traçar um conceito absoluto, um critério de validade e de estética.

Objeções e considerações:

1. Impossível extinguir, em um poema, todos os traços do eu. O máximo que se pode conseguir é disfarçá-los, isto é, engendrar um outro eu que, embora fictício, carrega, de algum modo, o eu originário. Criar um mundo novo, um personagem novo, uma outra realidade, não garantem, de forma alguma, que se está liberto do eu. Quando Fernando Pessoa diz que "todo poeta é um fingidor", ele efetivou magnanimamente toda a possibilidade de um poeta ser um outro ou outros, mas não descartou, decerto, que não se poderia ser ele mesmo, pois ao "fingir", ali já estava explícita a incapacidade de anular plenamente o eu primário, o eu que, se assim puder ser dito, engendrou, inaugurou o poeta, o eu que lhe dá as características de sua poesia, que faz com que se reconheça, por exemplo, que um poema de Fernando Pessoa, mesmo sob a forma de um dos seus 127 heterônimos, seja sentido como de Pessoa.

2. O eu detectável não é conditio sine qua non para servir como critério de invalidez ou anulabilidade estética. Isso porque, como todo tema, assuntos, realidades e irrealidades podem ser objeto, matéria prima da poesia, seria contraditório  e, ao mesmo tempo, ilusório, delimitar o que pode ou não ser poesia; Aqui, vale dar visibilidade ao engano grotesco de dizer qual palavra serve ou não serve para um poema. Talvez a sentença de Samuel Taylor Coleridge, em "Table Talk", “I wish our clever young poets would remember my homely definitions of prose and poetry; that is, prose words in their best order;—poetry the best words in the best order." seja mesmo válida. Mas não pode ela mesma esgotar o que esteticamente é possível em poesia. Por quê? Porque não se tem definitivamente um critério inquestionável para dizer quais são as palavras melhores ou a melhor ordem para elas.

3. O eu é poeticamente problemático. Uma incógnita, um x, uma variante sob uma perspectiva exponencial que tende ao infinito. Nada vai garantir que a anulação de um eu poético dê à poesia o título, os louros, a classificação, o timbre, o respeito, o gosto estético de bela. Do mesmo modo o contrário: a permanência do eu nada pode garantir, nesse sentido.

4. A priori, e, portanto, por causa dessas iniciais exposições, poder-se-ia dizer que a poesia caiu, sem volta, no báratro profundo e escuro do relativismo e do tudo-pode-em-poesia. Isso é um erro grave! O fato de abarcar, abraçar MATERIALMENTE qualquer coisa existente ou inexistente, a poesia ainda esteticamente segue FORMALMENTE algumas "regras", pois, se assim não fosse, bastaria que fossem postas palavras, num saco plástico, sorteá-las, aleatoriamente, e, depois, escrever, em versos, o absurdo possível dessa álea. Todo mundo seria poeta desde então, por artifício apenas e vontade. O que não se pode, peremptoriamente,  é dizer que regras são essas,  mas apenas que elas, como formais, atendem ao juízo de gosto.

5. O grande Samuel Johnson disse, em "The Life of Milton", que "poetry is the art of uniting pleasure with truth, by calling imagination to the help of reason.". Aqui, a esfera do prazer deve estar intimamente ligada à esfera das faculdades mentais, pois, ainda diz Johnson, numa passagem de 6 de julho de 1763, que "great abilities are not requisite for an Historian; for in historical composition, all the greatest powers of the human mind are quiescent. He has facts ready to his hand; so there is no exercise of invention. Imagination is not required in any high degree; only about as much as is used in the lower kinds of poetry." Até nos tipos mais baixos da poesia são percebidos caracteres de invenção  e imaginação. Não é exatamente então essa particularidade "inventora", "criativa" , "imaginativa" que também garantirá à poesia o seu lugar ao sol estético. A poesia ainda precisa despertar do sono pesado das amarras conceituais predatórias.

Concluo, lembrando a todos que em "Poesia e Filosofia", Antonio Cicero afirma que "em são juízo não se pode, portanto, decretar o que é admissível e o que é inadmissível num poema; nem estabelecer critérios a priori pelos quais todos os poemas devam ser julgados." Talvez, a poesia seja uma luta, uma batalha contra toda a previsibilidade e contra toda regra fixa, mas também isso já seria uma regra e que, para ser válida, teria que haver uma outra que lhe desse apoio. Iríamos ao infinito, se fosse o caso. Por isso, as regras aqui não se sustentam, não passam de conceitos abstratos fincados num solo movediço e instável. "A poesia tende a mesclar os elementos naturais e convencionais das coisas; e consegue encantar os homens de tal maneira que estes deixam de enxergar as costuras que unem tais elementos.", como constata Allan Bloom.



Adriano Nunes

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