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quinta-feira, 12 de abril de 2018

Adriano Nunes: "A Mulher do Pau- Brasil"

“A Mulher do Pau-Brasil”


A grande compositora e cantora Adriana Calcanhotto está com um novo show “A Mulher do Pau-Brasil”, que inaugura turnê em Lisboa/Portugal. Adrix, para mim, é a mais brilhante compositora que a língua portuguesa já teve. Inteligentíssima, irreverente, dona de uma ars poetica capaz de impressionar pelas inovações estéticas tanto quanto pela beleza que emerge dos seus versos. Parte do que me penso e sinto como poeta tem muito de Adriana. A Safo da modernidade, ela representa as vozes de todas as poetas, desde as gregas e latinas antigas, passando por Emily Dickinson até romper com as fronteiras limitantes da língua, alcançando a brilhante Alice Ruiz. Parafraseando o compositor/cantor, amigo estimado, Péricles Cavalcanti, eu diria: “eu queria mesmo ser é a Adriana Calcanhotto”. Expressão máxima das Μοῦσαι, pode-se dizer, sem engano ou erro, que uma delas está entre nós, e que, em vez de uma lira, como tem Ἐρατώ, ou de uma flauta, como possui Ἐυτέρπη, Adriana traz a dor, o luto e a luta em seu violão. Múltiplo de si mesmo, o seu canto já foi sereia, mulher barbada, Partimpim. Agora vinga antropofágico, pronto para comer Caetano e devorar Oswald de Andrade. Mas não só. Medusa de olhos azuis, sabe bem como lidar com os estorvos e os portentos das palavras. Entre um “ultramar” rebelde e inalcançável e um “além-mar” acessível e claro, a sua métrica se desenvolve com íntimo liame com o mar. Mar que se encontra em Maritmo, em Maré, em Olhos de Onda, em amar, em Santo Amaro, em Porto Alegre (lembrem-se de que, para Spinoza, o amor é uma alegria!), em qualquer lugar que seja tocado pela genialidade ululante de Adriana. Homero, ao cantar “Παρὰ θῖνα πολυφλοίσβοιο θαλάσσης” (Ao longo da costa do mar barulhento), na Ilíada, sabia da miríade de sons advinda do mar, inclusive o próprio silêncio amedrontador. Silêncio necessário à vida, à sobrevivência. Aos 18 anos, fiz o poema “Vernáculo “ e dediquei a ela. Tinha-me deslumbrado com o que li/vi/ouvi no belíssimo disco “Senhas”. Ali, naquele instante, percebi a proximidade instigante que ela possuía com a língua de Bandeira e Pessoa. Depois, com o seu abordar/bordar o mar, senti algo muito forte de Sophia de Mello Breyner Andresen. Foi Sophia quem disse “gosto de ouvir o português do Brasil/onde as palavras recuperam sua substância total”. Ambas amantes do mar, do ignoto mar português, do enigmático mar do verso português. Calcanhotto poderia ser mais um heterônimo pessoano. Entretanto, a sua arte foge à prisão do ser e à da derivação. Certamente, ela é “qualquer coisa de intermédio” que vai dela às outras que em seu âmago habitam. A sua verve é voraz e viva. Viva Adriana Calcanhotto, herdeira das profundezas e mistérios dos signos, a Mulher do Pau-Brasil!


Adriano Nunes

sexta-feira, 2 de março de 2018

Adriano Nunes: entrevistando Alberto Lins Caldas, poeta e historiador



Tenho a honra e a alegria de compartilhar, com os amigos, a entrevista intrigante e instigante feita com o poeta e historiador, professor universitário Alberto Lins Caldas, amigo amado:


Entrevista

1) Alberto Lins Caldas, o escritor de densas e significativas imagens, de versos despreocupados com métrica e formalismos gramaticais. Quem é Alberto Lins Caldas? Quem se pensa e sente?

A primeira coisa é q não sou alberto lins caldas. A segunda é q não sou escritor ou poeta. A terceira é q não existe “língua portuguesa” ou “literatura brasileira”. Vamos por partes:

1.      “alberto lins caldas” é uma invenção/necessidade do estado, da família, do costume, da polícia, coisa q serve apenas para imobilizar fluxos, redes em vibração, discordâncias enfaixados num corpo, num nome, em números, em funções, em obrigações e deveres, em orgulho e preconceito, em vaidades e pobrezas. só imobilizado pode ser dominado e cobrado, pode ser punido, responsabilizado, tornado “autor”, “filho”, “pai”, “homem” “brasileiro”, “professor”. jamais me senti sendo um homem ou algo, sendo sujeito ou objeto, mas passagens q encontram passagem, intensidades, loucuras, vertigens: precisamente por isso não sou “brasileiro” nem digo “coisas em português”, não tenho um “sexo”, uma “cor”: uma língua é uma imobilidade, um respeito, redes simbólicas de dominação e impotencialização;
2.      não “sou” escritor ou poeta porq isso seria ser contra a primeira resposta. não assumo como prosa-poesia o escrito q dizem vir de “mim”: apenas deixo q as vibrações simbólicas, signicas, violentas do existir das manadas passem por mim e se expressem, tomem provisoriamente formas q fazem ver o horror q nos rodeia, nos habita, nos perfura e mantem a manada ordeira, trabalhadora e reprodutora. deixo passar, se condessarem, monstruosidades do existir na “máquina tribal”, “nossa” tribo q criou e dominou um mundo;
3.      nada do “escrito por mim” é escrito numa língua, a não ser q se creia possível uma língua, como exige o estado, a religião, a família e seguindo/fazendo essa coisa inútil e monstruosa q chamam de literatura (as palavras codificadas dos senhores/barbárie codificada): literatura exige, como tudo, uma cumplicidade de símbolos, de práticas, de crenças/principalmente de um deus e de palavras de deus ou deuses/ q fazem parte precisamente das formas de existência da máquina tribal (ocidente, cristandade, capitalismo). qualquer língua faz parte dos elementos constitutivos e formativos de servos, de escravos, de trabalhadores, de estados. não tem existência própria, mas existência formativa de servidões: crer numa língua é participar dos processos de servidão, da manutenção do horror, das misérias, dos tolos enganos, da agonia de viver numa desmesurada colmeia campo de concentração;
4.      a “literatura brasileira” não passa da escritura falsa de uma fantasmagoria de senhores e servos (brasil, q não existe, não tem um povo, uma constituição feita por esse povo, não tem cidadãos): é apenas a mais pura expressão do nada dizer, da inutilidade de dizer, do dizer sem pensar: uma forma fraca de fascismo literário;

2) Diga-nos um pouco da sua trajetória literário-acadêmica. Que livros já foram publicados? Quais sites em atividade? Como o ofício de professor de História influencia o poeta? Quando se deu a descoberta de que era preciso escrever versos? Quando se deu a consciência reflexiva de que você era/é poeta?

1.      nunca fui “professor”. pra ser professor seria preciso crer na educação, na cultura, no aprendizado, no melhoramento com os instrumentos da barbárie, ou melhor, os instrumentos q preparam escravos para se deixarem roubar naquilo e só naquilo q “possuem”, força de trabalho: a educação é o mais perverso, falso e deformador instrumento da máquina tribal: sua única função é preparar carne pra ser abatida no mercado, torcer o corpo até q ele faça o q é preciso no mundo do trabalho;
2.      pra mim universidade, enquanto “professor”, tentar abrir linhas de força, sempre foi um lugar de não aprendizagem, mas de desformatação, multiplicar e dissolver formatações: se “fui professor” sempre fui assim para o estado, a universidade, as redes imóveis do horror: sempre fiz o q essa barbaria jamais poderia esperar, lutar contra ela cada segundo: inutilmente – não há senhores, uns poucos, sem milhões de servos, de cumplices. a luta contra o horror é absolutamente inútil. Depois de 40 anos de sala de aula, sei q alunos querem apenas aprender porcamente para o mercado, a triste reprodução do mesmo;
3.      daí por uma “relação entre ser professor e poeta” só pode ser impossível: nunca houve professor (sem “sierras maestras”, só resta a sala de aula), jamais poeta. a luta com a escrita contra o horror, literariamente, só pode ser um engano de quem lê: não há ali nenhuma poesia, nenhum verso, apenas um texto q chamo “poema” como arma de exposição dos fragmentos do horror. cada leitor vai ler o q desejar, o q acreditar, o q pensa – jamais, como os alunos, dando origem a um pensamento, uma ação contra o horror, contra a máquina tribal. dessa maneira, não sou poeta, jamais me descobri poeta. sempre, desde a infância, foi feito uma guerrilha contra o existente como um todo: a forma q isso toma, depende de vários fatores, como leitores (os piores servos por acreditarem na escrita, na literatura, o imóvel, na respeitabilidade), editoras, universidades, amigos e inimigos.


3) O que é, para você, a ars poetica? Como você vê esteticamente um poema? É o poema um objeto estético, uma finalidade sem fim? Um poema tem ontologicamente capacidade de salvação?

  1. não existe “ars poetica”: para isso é preciso acreditar em coisas demais, em coisas “verdadeiras” e “falsas”, em leis, ordens, argumentos, fala, escrita, história e natureza (esses conceitos matam todo dia, toda hora, mulheres, gays, negros, pobres, lesbicas e tudo q parece fraco e não fazer parte): todo um arsenal, uma muralha, uma catedral – construções para q todas as imobilidades sejam o q dizem ser: “ars poetica” é mais um instrumento de imobilização e integração;
  2. um poema não pode ser visto esteticamente: apenas porq pode e deve ser visto, antes de tudo, politicamente, eticamente, é q pode ser transversalmente pensado esteticamente, mas a “beleza” esta comprometida demais com a imobilidade para ser devidamente relevante;
  3. toda arte, todos os elementos das artes, são bobices pra alegrar aos senhores. os artistas não passam de bobos da corte. a pergunta: “é o poema um objeto estético, uma finalidade sem fim” nos deixa no centro daquele pensamento q, sem saber, expos a arte a sua mais crua inexistência, a sua mais cruel forma de se exercitar, q é ser um dos divertimentos sem “finalidade” dos senhores (a “finalidade” é entorpecer ou criar ser vos orgulhosos), o pensamento de kant, q tornou a arte o q ela sempre foi, tolices pra formar tolos trabalhadores. nenhuma obra de arte consegue ser mais q “divertimento de marionetes num teatro de sombras”;
  4. precisamente por sua condição circesca, coisa de bufonaria, de inútil-inutilidade, a arte é o “ser”, o imóvel, o eixo, deus/estado/fábrica, o “centro” patético dos labirintos do capital, da burguesia, do capitalismo, uma fantasmagoria no centro das fantasmagorias (marx, benjamin, agamben). lugar de exposição do ridículo desse lugar, da ridícula inutilidade desse lugar.

4) O que importa no poema? A beleza importa em que sentido? O que é então um belo poema? As convenções têm validade estética quando delimitam cânones?

  1. o q importa seria a consciência do fragmento do horror, o narrador (personagem q fala o poema), abrindo os olhos do pensamento sobre o existente: mas essa “missão” é inútil. ela não acontece. o poema é apenas um resto de ação inútil num mundo onde isso não passa de impotência real de lutar. o poema inda ta preso a tudo q ele quer combater. serve aos senhores, a coleta da força de trabalho da mesma maneira. criando, fazendo parte da mesma coisa fria e ridícula da arte em geral, não uma “arma de guerra” como se pretende, um instrumento de ação.
  2. dai porq a beleza é a visibilidade da impotência, sua perversa e simétrica gozação. um “belo poema”, q não passa de um verso, não passa de uma arma quebrada, ou um verso de marionetes, os poetas, pra seus senhores passarem a página com a certeza do “reconhecimento” de classe q torna cada um deles um diferente, alguém q conquistou um lugar: o “poema”, na verdade sempre verso, é apenas uma armadilha, uma ilusão da vontade de ascensão e reconhecimento;
  3. só existem cânones pro gozo perverso das convenções, do estado, da nação, da vontade de imobilidade e dominação;

5) Quais influências poéticas marcaram a sua infância poética? Como se deu a construção desse poeta atual através das leituras de poemas alheios? Que poeta há mais no poeta Alberto?

  1. o q nasce de poetas e versos são poetas e versos: poemas nascem de um constante e vivenciam enfrentamento do horror, não nascem de livros, mesmo podendo usar carcaças, pedaços de livros de todos os tipos: os poemas se dão duma maneira diferente: apenas jorram dos fluxos de linguagem: aqui cessa borges e começa marx;
  2. nenhum poeta me marcou ou marca, mas alguns filósofos como marx, espinosa, hegel, nietzsche, foucault, deleuze, bachelard, blanchot, barthes: a literatura apenas enquanto caixa de instrumentos para testar ideias e sensações; porisso não carrego nas costas nenhum poeta, isso quem faz é o leitor e projeta no poema, não conseguindo ler esse poema com a devida precisão, cuidado, pensamento e ação.

6) Poesia como arte e como mercado? O que devora o quê? Por que é importante ler livros de poemas?

  1. nenhuma importância ler livro algum, principalmente de poesias. são integrados demais para valer a pena. poesia, arte, livros não passam de produtos do mercado e não algo além dele, algo q possa fazer compreender o q seria o próprio mercado. aqueles “livros” q escapam a isso terminam fazendo parte e entrando na dança.

7) Os clássicos são insuperáveis? Tendemos a superá-los?

  1. “clássico” é o q mantem a tribo com seus pilares imaginários, suas certezas, domínios nos lugares bem colocados. eles são os pregos dos tecidos das teias simbólicas tornadas realidade, naturalidade. sem deus, estado, família, língua, povo não existe “clássico”, q é um dos elementos necessários de estabilização, reconhecimento e identidade;
  2. clássicos pulam os círculos de modificação social para garantirem novos reconhecimentos, identidades, respeitos e naturalizações – continuidades: daí a sensação de não serem superados: eles são marcos de qualquer boa ditadura do único, do mesmo, do igual q quer aparecer diferente.

8 ) Como desmascarar o horror, como desnudá-lo e expô-lo ao público? Por que o horror choca e escandaliza? Por que o horror é medida humana? Há poesia no horror? Como a poesia atua na denúncia do horror?

  1. nada mais evidente q a maquina tribal, parafraseando o nada mais evidente q deus ou substancia de espinosa. precisamente por isso ela não pode ser exposta a não ser em pequenos fragmentos, o q precisamente impossibilita um desmascaramento, só possível em quem esta numa totalidade monstruosa onde a maquina tribal inteira se joga na destruição do outro: só assim ela pode ser desmascarada: ou parcialmente desmascaradas naqueles q dentro da maquina tribal é tratado a vida inteira como um monstro, uma exceção, uma cois a parte da natureza, da beleza. expor o horror seria descrever, seria representar, seria fotografar e isso apenas seria nada mais q o próprio horror se escondendo, se tornando superfície, visibilidade, apenas um momento, um traço, quando nada é mais evidente q o horror, isto é, tudo é ele, precisamente tudo;
  2. o horror q choca é apenas o individualizado, o q pode ate ser mudado, o feito pelo monstro ou por um momento de uma tribo: sem ser visto em sua plenitude ele não pode chocar, nem ser sabido, nem ser mudado;
  3. o conceito de “humano”, “humanidade”, “homem” é o mesmo q “natureza, “sociedade” “raça”, “gênero”, “universalização”, etc, q não passam de conceitos q fazem parte de todos os tecidos do horror: esses conceitos são instrumentos vivos do horror da maquina tribal, principalmente pra dominar, excluir, explorar, desmoralizar e destruir. todos esses conceitos-vivencias só existindo como instrumentos de dominação e exploração (não existindo raça não pode haver racismo e com isso se esconde a essência nazista da máquina tribal; não existindo macho/fêmea podemos esconder essa essência como se fosse uma briga de diferenças; não existindo heterossexual/homossexual se esconde q a questão não é “natural”, porq não existe “natureza”)/ redes imaginarias, ficcionais, simbólicas, todas crenças nazistas de funcionamento, separação, produção, reprodução: garantias da normalidade.
  4. a poesia “não atua contra”, ela faz parte do horror e sempre fez, principalmente nesses 200 anos (romantismo, modernidade) onde o capitalismo se tornou a única realidade, a única ordem: o poeta é um fujão dessa tribo nazista q criou um mundo nesses pouco mais de 500 anos. sua função é esconder com a simetria e a beleza, com a norma e a língua precisamente a essência nazista do “nosso existir”.

9) Quando o artista trabalha com a realidade fatual, em poesia, com a política, por exemplo, corre o risco de ser panfletário ou mesmo um ideólogo. Como evitar isso? Ou não importa? A poesia aceita e legitima quaisquer discursos sob a alegação de que tudo é poético?

  1. essa é uma questão geral q diz respeito a poesia, o q não é meu caso. acho q responderia melhor um poeta sobre seus versos e a politica;
  2. quanto ao poema ele é, sempre, de esquerda, libertino, libertário, livre, guerrilheiro, uma arma provisória: sua essência é a luta contra o existente. ser panfletário ou ideológico diz respeito ao poeta, a poesia e a literatura enquanto “escrituras falsas” da-nação.

10) Como delinear e decidir que um objeto estético pode ser considerado uma obra de arte?

  1. essa é uma questão q diz respeito a uma disciplina, a estética, deformação filosófica do pensar as coisas enquanto igualdade e não enquanto diferença e multiplicidade: por exemplo, não existe “obra de arte” no centro da estética porq essa seria de cada grupo e cada tribo, não podendo haver mais um universal, o q deformaria e esvaziaria seu sentido: apenas universal a “obra de arte” poderia ser pensada, logo, negada e posta, “inconscientemente” enquanto “obra de arte” pra maquina tribal.

11) Todo aquele que faz versos é poeta? Harold Bloom diz que há poetas e versificadores. Como você enxerga essa perspectiva?

  1. mais uma vez, essa é uma questão de poetas (faz versos, faz poesia), não de poematas (faz poemas). Tanto poetas quanto versificadores tão no mesmo lócus, mesma perspectiva, mesmo sistema de crenças.

12) Como o poeta vê o Brasil atual? As instituições funcionam democraticamente? O fascismo está ganhando forças? Por quê? A poesia pode ser corrompida e atender a objetivos ideólogos ou mesmo nefastos?

  1. não existe nem jamais existiu “brasil”, país, povo, leis, sociedade, história, cultura, civilização, isso “brasil”: essa generalidade, esse global, esse universo “brasil” (já inexistente por sua universalidade de existência querendo abarcar numa unidade e identidade as inumeráveis formas do mesmo: o cada-um fazendo o torno “brasil” girar e funcionar) sempre foi feito pela “servidão voluntária” do imenso cardume, lixeiro, chorume – agregados, funcionários, empregados, servos, trabalhadores – uma coisa média, uma alma pequena, uma coisa servil (“alma brasil”): “brasil” é a fantasmagoria pesadelo “inicial” do capital mercantil, não dum grupo, uma casta, uma rede financeira-industrial, dum povo: específica junção/articulação entre servidão-voluntária-classes-dominantes é apenas parte do visível, do permitido, do quase sabido: a coisa, o isso, é mais simples e por isso mesmo se escondeu normalmente, naturalmente, socialmente: só há servidão voluntária e seus fantasmas (sua rede de crenças, uma normose) se entendermos esse voluntário enquanto um não sabido involuntário, um consciente sabichão, agregado com subclasses mamando o produzido por essa servidão voluntária), “inconsciente”, um não dito porq não plenamente sabido, aproveitado, feito segundo a segundo em práticas, crenças, desejos, saberes, experiências e sonhos, mas não sabido – servido sabido aos “senhores”: o espectro projeto martitica (“brasil”), o quase reprimido porq não se viveu, é vivência construída dia a dia pela servidão voluntária: “brasil” é o aparecer crente, o construído, a visibilidade de martitica, a polpa q se apalpa sem ser e não se apalpa quase sendo, esse nada, o permitido, o aceito, a ponta, a pele do espectro mantido, reproduzido e guardado pela servidão voluntária como se fosse;
  2.  se há o “brasil” há o “povo brasileiro” – mas não há “povo” algum porq um “povo” se faz com uma ou várias revoluções onde uma massa, uma “plebe” indigesta e cordeira, “passa a se reconhecer e lutar em comum”: no “brasil” (matrix de martitica, fantasmagoria monstruosa, carnaval onde a “plebe” imita os senhores, os sonhos e desejos dos senhores) jamais houve revolução nem pode haver enquanto houver o “brasil” enquanto pele dobrada de martitica, a pele, a polpa do nada, o projeto dos senhores tornado quase realidade, quase vivido, quase gente, transe entre fantasmagoria e existência – uma forma de existência como a dos centauros, de gregor sansa ou k.): apenas depois de revoltas, resistências, revoluções uma massa bruta, cordeira, se torna “povo” e pode e tem o poder de fazer suas leis, ele mesmo, sua constituição, feita por ele, por sua coragem depois de muito sangue onde foi visto q “agora e daqui pra diante podemos”, logo, o “povo” se torna “cidadão”, nasce a coragem e a confiança em sua força e poder, q se tona ponto de partida dum “viver social”: no “brasil”, matrix de martitica, jamais houve um “cidadão”, jamais houve leis, jamais uma constituição, jamais um país, jamais liberdade alguma, sociedade, cultura: as identidades (“brasil”, brasileiro, território nacional, literatura, arte, costumes, branco, negro, macho, senhora, etc.) são apenas biombos construídos pelas servidões voluntárias (imitações das “metrópoles”) e seus instrumentos ou dispositivos como a educação, por exemplo (essa coisa sempre falsa, sempre farsa, sempre útil ao “projeto martitica”, sempre “cúmplice”), pelas mídias, pelas crenças, pelos discursos, pelas práticas mantenedoras, pela literatura (letra falsa, oligarquia das letras, realismo de botequim, crônicas, memorialismos, sociologismos: escritura falsa): “aceitamos e obedecemos”: “mantemos os sonhos dos senhores”: “agiremos como se fosse e terminará sendo”: “mentiremos tanto q se tornará verdade: brasil”: mas não se sabe disso: o “brasil” como cenário perverso, nazista, campo de extermínio, onde os “primeiros senhores” deixaram de atuar e entregaram a outros senhores e outros senhores e mesmos senhores uma matrix, um cenário, atores, palhaços, cretinos, trabalhadores e defensores dessa péssima opera bufa “brasil” q criou seus próprios senhores e cuidam deles com deleite cordeiro: esse cuidado dos cordeiros com seus lobos, q são cordeiros com postura de lobo, é uma das forças bufas da fantasmagoria “brasil”: parece política e não passa de teatro de quintal;
  3. O “brasil” sempre foi um rosário de ditaduras e a literatura apenas letra falsa e reza pra esse rosário.

13) Como você percebe a relação entre poesia e crítica?

  1. inútil e ridícula. na verdade, uma relação obscena porque esconde q nada uma tem a dizer a outra ou q uma nasça da outra: é preciso q se acredite q as palavras de um deus criem livros, nasçam de autores, q possam ordenar e vir de ordenações: apenas uma grande vergonha teológica.

14) Como você encara a discussão poema e letra de música?

  1. simples: uma tolice cercada de música, q é outra tolice e uma tolice sem música se é um poema a música nada acrescentará ou retirará. nada mais a dizer.

15) Se tivesse que nomear escritores não poetas (ou mesmo obras em prosa), quais são fundamentais para o poeta Alberto?

  1. tenho com os livros uma relação diferente da maioria: não entendo como algo a ser seguido ou q com ele se aprenda algo, mas um lugar de luta, de roubo, de saque, de construção das minhas armas em minha luta. todos os livros são insuficientes pra uma luta contra o horror, uma guerra presente, política, ética. eles não são objetos de prazer, mas de depósito de possíveis balas, pólvoras, lanças, flechas, tacapes, fuzis, pedras. mas nada disso é certo. eles não são daqui e dagora. são apenas instrumentos possíveis. a lista abaixo é o de um arsenal já usado, já gasto e reusado. uma rede conhecida mínima pra luta dagora. nada quanto a "grandes livros e grandes autores". eu detesto livros. acho uma coisa desprezível, um artefato limitante. é por isso q não há nada da "língua portuguesa": essa coisinha do senhor encravada na carne, impotente e sem arsenais realmente violentos e radicais. o resto se dirá com a vida.
  2. segue uma antiga lista (nada, jamais, da “língua portuguesa”), sem ordem pessoal, de obras e autores q são a base mínima do meu solo literário (solo construído pra ficar em pé e poder escrever segundo minha perspectiva): ao redor e além centenas de outros autores e livros cada um enfrentado conforme o tipo de batalha.
  3. Livros e Autores: O Mestre e Margarida – Bulgákov; Jakob von Gunten – Walser; Otelo – Shakespeare; As Brasas – Marai; Juventude – Conrad; A Metamorfose – Kafka; Todas as Manhãs do Mundo – Pascal Quignard; Silvia – Nerval;  O Perfume – Suskind; Viagem ao Fim da Noite – Céline; A Casa das Belas Adormecidas – Kawabata; Memória de Minhas Putas Tristes – Garcia Márquez; O Barão nas Árvores – Calvino; À Espera dos Bárbaros – Coetzee; O Sobrinho de Rameau – Diderot; Um Médico Rural – Kafka; O Jovem Törless – Musil; Morte em Veneza – Mann; O Náufrago – Bernhard; A Tentação de Santo Antônio – Flaubert; O Imoralista – Gide; Breve Romance de Sonho – Schnitzler; Bartleby – Melville; Hamlet – Shakespeare; Woyzeck – Büchner; Baal – Brecht; Memórias do Subsolo – Dostoievski; Édipo Rei – Sófocles; Crônica de uma Morte Anunciada – Garcia Márquez; Odisséia / Ilíada – Homero; O Visconde Partido ao Meio – Calvino; Billy Budd – Melville; O Penitente – Singer; O Veredicto / Na Colônia Penal – Kafka; Macbeth – Shakespeare; O Desaparecido – Kafka; Palomar – Calvino; No Coração das Trevas – Conrad; Michael Kohlhaas – Kleist; Os Últimos Dias de Immanuel Kant – Thomas de Quincey; A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock – Eliot; Ricardo III – Shakespeare; O Velho e o Mar – Hemingway; Morte a Crédito – Céline; O Duelo – Conrad; O Declínio do Egoísta Johann Fatzer – Brecht; Retrato do Artista Quando Jovem – Joyce; Ficções – Borges; O Castelo – Kafka; Alice / Alice Através do Espelho – Carroll; Histórias Extraordinárias – Poe; As Cidades Invisíveis – Calvino; Contos – Voltaire; O Deserto dos Tártaros – Buzzati; Conversa na Sicília – Vittorini; Novecentos – Alessandro Barico; As Flores do Mal – Baudelaire; O Nome da Rosa – Eco; As Mil e Uma Noites; O Processo – Kafka; Ulysses – Joyce; Em Busca do Tempo Perdido – Proust; Omeros – Walcott; Ana Karenina – Tolstoi; Jacques, o Fatalista e seu Mestre – Diderot; Madame Bovary – Flaubert; Gargântua / Pantagruel – Rabelais; Aventuras do Bravo Soldado Schweik – Hasek; Dom Quixote – Cervantes; Divina Comédia – Dante; O Parasita – Luciano; Terra Desolada – T. S. Eliot; Rei Lear – Shakespeare; Moby Dick – Melville; Danton – Büchner; Hadji Murat – Tolstoi; O Livro de Areia – Borges; Um Artista da Fome – Kafka; Auto-de-Fé – Elias Canetti; O Pequeno Zacarias – Hoffman; Balada do Velho Marinheiro – Coleridge; Grandes Esperanças – Dickens; Clube da Luta – Chuck Palahniuk; Ferdydurke – Witold Gombrowicz; Homem Invisível – Ralph Ellison.
  4. Em guerra: Mary Shelley; Tchekhov; Cortázar; Beckett; Ibsen; Duras; Beauvoir; Anaïs; Virginia Woolf; Kundera; Balzac;Austen; Agatha; J. K. Rowling; Heiner Müller; Sófocles; Pirandello; Gogol; Dorothy Parker; Katherine Mansfield; Swift; Sterne; Defoe; Lezama; Isabel Allende; Marguerite Yourcenar; Cabrera Infante; Ionesco; Montaigne; Moliere; Toni Morrison; Anne Rice; Aristofanes; Svevo; Sade; Dostoievski.
  5. Poemas de: Seferis; Corbiere; Gertrude; Dickinson; Rimbaud; Ducasse; Celan; Akhmathova; Enzensberger; Benn; Lorca; Donne; Ingeborg; Hopkins; Safo; Heine; Szymborska; Pound; Elizabeth Browning; Ginsberg; Cummings; Milton; Villon; Plath; Brecht; Carlos Williams; Rilke; Stevens; Bukowski; Marina Tsvetaïeva; Donne; Bishop; Juana Inés de la Cruz; Kaváfis; Sexton; Creeley; Whitman; Hopkins; Marianne Moore; Lautréamont; Yeats; Mallarmé; Laforgue; Laura Riding; Quasimodo; Hölderlin; Auden; Trakl; Montale; Guido Cavalcanti; Blake; Arnaut Daniel; Catulo; Virgílio; Ungaretti; Vasko Popa; Nelly Sachs; Óssip Mandelstam.
  6. Filósofos essenciais a esse solo literário: Heráclito, Platão, Aristóteles, Agostinho, Maquiavel, Hobbes, Descartes, Espinosa, Rousseau, Diderot, Kant, Shelling, Hegel, Marx, Nietzche, Freud, Benjamin, Blanchot, Barthes, Foucault, Lacan, Deleuze, Agamben, Rancière.

16) Seus poemas têm uma forte relação com o conceito de tribo/clã, ao que parece. Isso se dá por causa de suas convicções acadêmicas e políticas? Até que ponto o  historiador transparece no poeta enquanto arauto da civilização? Somos civilizados ou bárbaros?

  1. como disse antes, fui professor de história e filosofia por 40 anos pra ser contra a imobilidade das coisas, não pra ensinar. a história jamais existiu. não passa de uma mega construção imaginaria para garantir a identidade da produção, dos servos e das naturalizações. daí não haver nenhuma relação entre poemas e “história”, mas uma pequena relação entre os poemas e a luta contra o horror e a “história” enquanto um dos seus elementos.
  2. “civilização” e “barbárie” são componentes da mesma visão de existência da história. duas inexistências inúteis por não poderem dar conta de nada, nem mesmo do q ascene ou cai, relativismos num fluxo múltiplo e violento;

17) Que poetas e livros anda lendo Alberto Lins Caldas?

  1. sempre os mesmos há muitos anos: os da pergunta 15.

18) Por que a culinária é um traço forte em seus escritos? Que relação há entre a denúncia do horror e a culinária?

  1. a culinária, as coisas, os corpos são matérias repetidas tanto num mesmo poema quanto em estruturas de poemas. assim como as mesmas palavras, a mesma pobreza de palavras: sem estar na “literatura brasileira”, a pobreza faz parte constitutiva por ser ela sempre a mesma: mesmo quando o narrador é um fascista (o q é normal mesmo quando não parece) essa pobreza, essa repetição esses elementos culinários tornam esses narradores “animais”, “aquilo q come e só come”, a redução de tudo ao q é devorado.

19) Que poetas contemporâneos são, para você, grandes poetas, isto é, que impressionam o poeta Caldas?

  1. sem poetas. todos integrados, todos funcionários, todos fazendo parte da-nação, no brasil martitica, a ilha brasil dos colonizadores, quanto em outras línguas ocidentais e nenhuma violenta revolução em línguas, em povos q foram colonizados, escravizados, destroçados; humilhados: a poesia não redime nem faz revoluções. a poesia faz parte do horror.

20) Há esperanças? Há Deus? Há o instante em que a existência pode ser comemorada sem rancor ou ódio?

  1. sem esperança nenhuma, nem para “nós” nem para “eles”/ sem deus, sem natureza, sem sociedade, sem comunidade, sem a possibilidade da comunicação, sem o amor (invenção reprodutiva quando enfraqueceu e cessou o pátrio poder no ocidente, o poder q casava), sem a amizade, o existente apenas como formas do ressentimento, rancor e ódio, a essência do capitalismo, nazista há mais de 1000 anos, nada há q possa ser comemorado: a alegria é apenas um conceito fraco diante do horror;

21) Você também traduz. Que idiomas costuma traduzir e quais obras já foram por você  traduzidas?

  1. Desde 1988 (quando passei a entender as existências da maneira da “máquina tribal”) fui perdendo as línguas e me dedicando a escapar do português, língua q detesto e me sinto mal quando ouço, principalmente de portugueses;
  2. Nunca traduzi nenhuma obra. Eles não precisam disso. O caminho seria a tradução do brasileiro, do poema, da diferença radical ser traduzida pra eles, q inda pensam e escrevem em mundos ridículos, imóveis, voltados pro dinheiro e pra verdade q matou bilhões de pessoas nesses 500 anos no mundo inteiro.

22) Uma citação. Um livro de cabeceira. Uma canção.  Um filósofo. Um historiador. Um lugar. Uma comida. Um tempo/era. Um desejo. Um medo. Uma alegria. Um amor.

  1. os livros aqueles lá de cima, mas nenhum de cabeceira;
  2. nenhuma canção: considero a música a mais perfeita forma fascista de arte: ela nada significa e se mostra como se fosse o supremo, o pleno, a essência: delírios fascistas compreensíveis;
  3. a “linhagem” de filósofos acima: heráclito, platão, aristóteles, agostinho, maquiavel, hobbes, descartes, espinosa, rousseau, diderot, kant, shelling, hegel, marx, nietzche, freud, benjamin, blanchot, barthes, foucault, lacan, deleuze, agamben, rancière;
  4. nenhum historiador. todos eles não passam de servos imobilizadores de uma coisa q é apenas o q se dissolve do existente, jamais da história, uma ficção ridícula pra imobilizar os fluxos do existente;
  5. nenhum lugar. não gosto dos lugares, apenas são dimensões a serem atravessadas;
  6. comidas: qualquer uma: quem já passou muita fome, quem já comeu comida do lixo, não terá jamais uma comida preferida, apenas q haja comida;
  7. nenhum tempo: o tempo é o q se esfarela sem se ver do existente;
  8. nenhum desejo, ou apenas uma certa vontade de morrer, pois já estou velho e tudo doi e tudo cansa pra nada;
  9. nenhum desejo, nenhum medo, nenhuma alegria, nenhum amor: apenas a vida enquanto não cessa.

*

essas ideias estão espalhadas em livros e artigos desde o começo da década de 80 até o ano passado 2017 (quando me aposentei e fugi pra viver em paris antes de ser assassinado por-nada nessa última ditadura), quando deixei de escrever a “escrita de ideias” e fico mais desaparecido vendo aparecer narradores livres e plenos dizendo seu horror, o horror nos poemas.



Alberto,muito obrigado!
Adriano Nunes

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Adriano Nunes: "Poesia e urbanidade" - Para Antonio Cicero

"Poesia e urbanidade" - Para Antonio Cicero




Por ter sido convidado pelo SESC nacional para participar da mesa redonda "Poesia e Urbanidade", na Sétima Bienal Internacional do Livro de Alagoas (22 de novembro de 2015), ao lado dos poetas Antonio Cicero e Tainan Costa, fiz este pequeno ensaio. Inicialmente, cabe dizer que a palavra "urbanidade" abrange múltiplos significados, tendo, principalmente, como os mais frequentes, os usados para: 1) referir-se à cidade, ao grande centro citadino, como uma oposição à ruralidade; 2) referir-se à civilidade, isto é, ao que é civilizado em oposição ao que é bárbaro.

Assim, a palavra "urbanidade" tem origem latina, vem de "urbanitas"/"urbanitatis" que significa morada, morada na cidade (Roma, a cidade por excelência), civilidade, elegância, graça de linguagem. "Urbanitas" possivelmente vem de "urbs/urbis" que significa cidade ou população de uma cidade. Logo, "urbanus" seria o urbano, o civilizado. E "urbane", com urbanidade, civilizadamente, espiritualmente, polidamente.

O grande desafio seria relacionar urbanidade e poesia. Que critérios seriam possíveis de mesclar ambas as esferas, que relações íntimas haveria entre a poesia e urbanidade. Portanto, precisaríamos fazer alguns questionamentos e respondê-los:

1) A poesia é urbana? Em que sentido? Sua origem é urbana, isto é, deu-se na cidade? Ou nos arredores da cidade? Ou sua origem é anterior às cidades?
2) Terá sido (ou é) a poesia fator indispensável para a civilidade, para a formação da urbanidade (em qualquer sentido que a palavra originalmente seja empregada)
3) Os poetas se preocuparam, em algum momento, com a civilidade, com a urbanidade? Se sim, ainda se preocupam?
4) Que pode a poesia contra a barbárie?
5) As cidades cantadas pelos poetas

Estes questionamentos iniciais precisam de uma investigação minuciosa, rigorosa, o que, aqui, neste momento, não irei fazer, porque adianto-lhes que me interessa apenas a superfície explícita e visível do tema para que eu possa expor, sob os ditames da razão, algumas relações interessantes que há/houve entre poesia e urbanidade, senão vejamos:

Para Lewis Mumford,  as cidades passaram a existir: "nos primeiros aglomerados ao redor de um túmulo ou de um símbolo pintado, uma grande pedra ou uma caverna sagrada, temos o início de uma série de instituições cívicas que vão do templo ao observatório astronômico, do teatro à universidade".

Possivelmente, a poesia é anterior à civilização no sentido de "civilitas", pois, inicialmente oral, praticada por aedos, deve ter contribuído para a formação da "urbanidade". Outro fato importante que deve ser lembrado é que os poetas participavam ativamente do processo civilizatório, tanto é verdadeira esta afirmação que Platão praticamente os excluía da sua "República" ideal, pois a influência dos poetas poderia "perverter"/ "desvencilhar" os jovens, enquanto aprendizes em formação intelectual, das regras da ditadura do conhecimento platônico. Na "cidade" idealizada por Platão, a poesia era uma "persona non grata". Eis que no Livro III da República, ele diz que as palavras “quanto mais poéticas, menos devem ser ouvidas por crianças e por homens que devem ser livres”. Na tradução primorosa de Allan Bloom (BLOOM, 1991, p. 64):

"We'll beg Homer and the other poets not to be harsh if we strike out these and all similar things. It's not that they are not poetic and sweet for the many to hear, but the more poetic they are, the less should they be heard by boys and men who must be free and accustomed to fearing slavery more than death"

Pois, para Platão, importava a “verdade” e não “imitadores da imagem da virtude”, "shouldn't we set down all those skilled in making, beginning with Homer, as imitators of phantoms of virtue and of the other subjects of their making? They don't lay hold of the truth” (BLOOM, 1991, p.283)

Mas a cidade, o centro urbano, também não era bastante do agrado de alguns poetas, é o que parece no começo. Muitos preferiam o isolamento, o silêncio dos campos, da vida dada à natureza e à paz, para assim poderem escrever os seus poemas. A exemplo, o grande Horácio, Quintus Horatius Flaccus, que preferiu residir na região sabina, perto do Monte Corgnaleto, sob o sossego campestre, visto ter recusado o convite de Augusto, que o desejava como seu secretário. Ao contrário do que Platão afirma sobre os poetas, de eles não se preocuparem com a verdade, Horácio diz em sua Sátira Primeira “Investiguemos seriamente a verdade”. Outros preferiam o cerne das cidades, pois havia nestas, como em Atenas, competições poéticas que davam aos poetas louros, glória, fama.

Pode ser também a cidade uma algaravia, uma babel, uma multiplicidade de sons e imagens, como podemos perceber pelo impactante e intrigante poema concreto-visual do mestre Augusto de Campos:

“Cidade City Cité”

atrocaducapacaustiduplielastifeliferofugahistoriloqualubri
mendimultipliorganiperiodiplastipubliraparecipro
rustisagasimplitenaveloveravivaunivora
cidade
city
cité

As cidades dos poetas podem ser tanto reais quais Roma, Atenas e Troia tão cantadas pelos antigos, Lisboa (Fenando Pessoa), Recife e Sevilha (por João Cabral de Melo Neto),  Barcelona (Alex Varella), Rio de Janeiro (por Antonio Cicero), Maceió (por Lêdo Ivo) quanto imaginárias quais Ítaca, Macondo, Atlântida, Pasárgada e muitas outras que o imaginário humano foi capaz de inventar.

Os acontecimentos nas cidades, as pessoas, os lugares, tudo foi, é e pode ser cantado pelos poetas. Até a possibilidade da chegada de bárbaros (que não chegam, para desencanto de todos!) – “Porque é já noite, os bárbaros não vêm” - como fez, com toda a beleza, Konstantínos Kaváfis em seu magnânimo poema “À espera dos bárbaros”. Ou os poetas constatam o modo de vida nas cidades como fez Fernando Pessoa sob o heterônimo Alberto Caeiro “nas cidades a vida é mais pequena”, em “O Guardador de Rebanhos”. Tema para um tratado ad infinitum, decerto. Abaixo um poema que consta em meu livro “Laringes de Grafite (Vidráguas, 2012):

"Eu não sei cantar cidades"



Eu não sei cantar cidades.
A minha é bela.
Que bom para ela.
Possui pássaros tantos
De variados cantos,
Peixes exóticos que expressam ódio,
Pedras que gritam
Pelas pontas dos dedos,
Planaltos de altos e baixos,
Planícies de disse-não-disse,
Becos de palavras distraídas,
Ruas que precisam ser digeridas,
Uma ponte pênsil,
Postes postos em prontidão,
Praças que abraçam alegrias
E graças - Às vezes,
Algum incidente que machuca.
Gente?
Eu não sei cantar cidades...
A minha é bela.
Que bom para ela. 


Ao menos, uma coisa é certa: a maior de todas as cidades, o maior de todos os lugares é a poesia, a própria poesia. Nela tudo pode ser criado, tudo pode destruído, tudo pode ser reconstruído, tudo pode ser  engendrado sob os matizes múltiplos da imaginação, com as palavras escolhidas para serem as melhores, na ordem que parece ser escolhida por elas. É a poesia capaz de “lançar mundos no mundo” como escreveu precisamente Caetano Veloso em sua canção “Livros”.


Adriano Nunes 






domingo, 2 de agosto de 2015

Adriano Nunes: “Um equívoco popular e o fulgor da Poesia” - Para Antonio Cicero

Um equívoco popular e o fulgor da Poesia”  - Para Antonio Cicero




Quando, em sua Poética, Aristóteles (ARISTÓTELES; 2008, p. 38-39) diz que:

Com efeito, as pessoas, juntando ao nome do metro a palavra poeta, chamam a uns poetas elegíacos e a outros poetas épicos, não os designando poetas pela imitação, mas pela semelhança do metro. E, se escrevem alguma obra em verso sobre Medicina ou sobre Física, costumam designá-los igualmente por poetas. Ora nada há de comum entre Homero e Empédocles a não ser o metro; por isso será justo chamar a um poeta e a outro naturalista, em vez de poetas.”,

fica evidente que, desde tempos remotos, nem toda pessoa que escreve versos é tomada como poeta. Logo, não é a estrutura formal que vai ditar as regras para classificar um escritor como poeta, porque se assim fosse, um engenheiro, um químico, um matemático que expressassem os seus cálculos, suas teorias, seus postulados em versos, seriam considerados poetas. Nessa possibilidade formal de redução, qualquer um seria então poeta pelo simples ato de tecer qualquer texto escrito em versos. Como as obras dos verdadeiros (entenda-se, aqui, a palavra “verdadeiro” no sentido do escritor que tem em si a consciência de ser poeta e que é reconhecido por outros poetas como poeta) eram, quase sempre, escritas ou recitadas em versos, com ritmo e métricas marcados, perceptíveis, convencionou-se chamar de poeta todo aquele escritor que faz versos para distinguir daquele outro que escreve prosa. O estorvo está aí, pois, como atesta belissimamente Antonio Cicero em Poesia e Filosofia (CICERO; 2012, p. 37):

"Escrever versos não é necessariamente escrever poemas. Pensa-se comumente que a palavra "poesia" é antônima de "prosa". Trata-se de um equívoco. "Poesia" não tem antônimo em português. Se quisermos falar do oposto à poesia ou ao poema, temos que usar algo como as expressões "não poesia" e "não poema".
É a palavra "verso" que é antônima de "prosa". Essa oposição pode ser esclarecida etimologicamente. "Prosa", do vocábulo latino "prorsus" e, em última instância, de "provorsus" que quer dizer "em frente", "em linha reta", é o discurso que segue em frente, sem retornar. "Verso", do vocábulo latino "versus", particípio passado substantivado de "vertere", quer dizer "voltar", "retornar", é o discurso que retorna."
 
Entretanto, se e somente se a diferença vulgarmente tida entre poesia e prosa se estabelecesse pela diferença entre verso e prosa, deixaria à poesia o perigo de ser tomado como poema todo e qualquer escrito em verso. Seria então todo escrito em verso um poema legítimo? Seria necessário que para ser um poema a construção deva ter a capacidade intrínseca de “voltar”, retomar um percurso antes trilhado, retornar? E o que dizer, destarte, dos textos em prosa versificados? Que outro recurso estético, formal e/ou material, poderia ser utilizado para evidenciar in totum as diferenças, talvez definitivas, entre prosa e poesia, ou melhor, diferenciar a poesia de qualquer escrito que não seja poesia? Há essa possibilidade estética? Antecipadamente, respondo: sim!

Para tanto, inicialmente, recorrerei a Samuel Taylor Coleridge que explicitou, como tantos, uma tentativa de estabelecer a diferença entre poesia e prosa, em seu aspecto formal, obviamente, pois, desde já, afirmo que materialmente/substancialmente não há diferenças entre ambas, pois tanto a prosa quanto a poesia podem tomar para si quaisquer assuntos, temas. Neste aspecto material, a diferença será de como o material fático, verbal, os signos serão usados, trabalhados. Então o uso deste material ainda assim é um critério formal. Vamos a Coleridge (COLERIDGE; 1917, p. 73):  “I wish our clever young poets would remember my  homely definitions of prose and poetry ; that is, prose =  words in their best order ; — poetry = the best words in  the best order.” Vejam que o poeta e crítico literário inglês dá uma dica para os jovens poetas, uma dica “caseira”, ou melhor, pessoal, para que eles percebam qual a diferença entre poesia e prosa. Aqui, não há dúvida de que também se trata de uma diferença formal, pois ao igualar a poesia a melhores palavras na melhor ordem, ele apenas expõe que para um texto ser poético as melhores palavras e a melhor ordem devem ser escolhidas, mas não diz como é essa ordem e nem quais palavras são as melhores, e, ainda que dissesse que ordem seria essa e quais palavras seriam essas, não eliminaria definitivamente o critério formal, porque teria que estabelecer um critério axiológico que fizesse o poeta escolher sempre aquela mesma palavra em determinada situação, o que seria embaraçoso e reduziria a amplidão estética que realmente possui a grande poesia. Aqui, posso aplicar, analogicamente, a tese de Ronald Dworkin (DWORKIN: 2011, p. 41-45) sobre o uso dos princípios no Direito, pois em caso de haver uma escolha entre palavras na elaboração de um poema e que sabendo que nenhuma palavra exclui em definitivo outra, mas apenas, momentaneamente, por uma questão estética, como um princípio no Direito não exclui um outro em definitivo, mas, sim, que pesa mais que outro em dados momentos, numa decisão concreta, por exemplo, pois não se pretende estabelecer condições que tornem obrigatória e necessária a sua aplicação. Concluindo: não há nenhuma palavra melhor do que outra num vernáculo, ainda que haja critérios para estabelecer que ordem seja pretensiosamente melhor. O quebra-cabeça se monta trocado, pois em vez de oferecer uma forte diferença, leva-nos a ter que estabelecer um critério formal praticamente impossível para esteticamente dizer que palavra é melhor do que outra numa dada ordem, supostamente melhor. Como saber então, ao menos, essa ordem? Seria ela determinada pelos elementos do ritmo e da métrica? Se só fosse o elemento simples e puro de ritmo e métrica, acredito que não, pois um texto em prosa pode ser ritmado e até mesmo metrificado. Elementos rígidos e fixos de ritmo e métrica? Talvez.

É essa junção de metro, rima, ritmo, palavras, ordem, formas, todo este conjunto estético que tende a estabelecer uma certa diferença entre um texto poético e um texto em prosa. Atento a isso, Allan Bloom citado por Harold Bloom (BLOOM; 2005, p. 52) diz que "a poesia tende a mesclar os elementos naturais e convencionais das coisas; e consegue encantar os homens de tal maneira que estes deixam de enxergar as costuras que unem tais elementos."  Apesar de que possam vir com objeções, creio que posso dizer que a poesia é desde a sua origem um rito estético, pois lembremo-nos da narrativa de Herôdotos sobre o primeiro cantor de Ditirambos, Aríon, que antes de ser lançado ao mar, para ser morto por ladrões, pediu para antes de morrer recitar seus versos, trajando roupas típicas de aedos, ou seja, ele não cantou por cantar, mas teve que ritualmente visualizar-se como aedo em seus trajes de rito em honra de Apolo. (HERÔDOTOS, 1988, p. 25). Em homenagem a Aríon compus o poema* abaixo:


"Ôrthios nomos"


Aqui, de pé na popa, Apolo, poupa-me
Da artimanha desses nefastos homens,
Ouve o meu canto de dor e de assombro,
O mar revolto amansa, porque pronto
Para o salto estou. E como fui tolo
Contratando, sem saber, esses lobos
Famintos pelo ouro, o lucro todo
Que tive ditirambos a tal povo
Ensinando! Poupa-me, Deus dos Corvos,
Do líquido destino, sob meus olhos,
Leva-me de volta a Corinto, outro
Canto permite-me dar-te, em louvor,
Pra que saibam de Aríon, o cantor,
Que da morte foi salvo por Apolo!

Se outrora o rito poético era em honra de Apolo, hoje se pode dizer que é em honra do próprio poema. Não se deveria usar termos como “escravo da poesia”, “escravo da arte”. A arte também não deve ser vista como forma de libertação. No primeiro caso, não se deve dizer “escravo da arte ou da poesia” porque a poesia está voltada para a esfera do prazer. Mesmo os poetas, quando em suas tristezas máximas, sentem-se felizes e agraciados quando contemplam o fruto do seu labor poético. Tanto é que até no leito de morte muitos poetas escrevem versos. No segundo, porque ver arte como forma de libertação é dar uma finalidade a ela, o que não é possível enquanto arte, já que, por ser arte, é uma finalidade sem fim, conforme a estética kantiana (KANT; 2009, p. 71):  

“O prazer provocado por um objeto, pelo qual qualificamos este de belo, não pode basear-se na representação de sua utilidade, pois, caso contrário, não seria um prazer direto pelo objeto, condição essencial de juízo sobre a beleza. Em contrapartida, uma finalidade interna objetiva, quer dizer, a perfeição, se aproxima já muito do predicado da beleza, e isso induziu alguns filósofos famosos a considerá-la idêntica à beleza, embora com a nota restritiva de ser uma perfeição concebida confusamente. Por conseguinte, numa crítica do gosto, e de suma importância decidir se também a beleza pode dissolver-se no conceito de perfeição.”

Bem explicita o labor poético Hannah Arendt (ARENDT; 2013, p. 74) quando afirma que "a tarefa do poeta e historiador (postos por Aristóteles na mesma categoria, por ser o seu tema comum práksis) consiste em fazer alguma coisa perdurar na recordação. E o fazem traduzindo práksis e léksis, ação e fala, nesta espécie de poíesis ou fabricação que por fim se torna a palavra escrita." A poesia é a necessária linguagem para todos os corações e mentes que procuram pela infinita amplidão estética de cada palavra. Destituída de utilidade, a arte poética apenas acontece. É esse um instante de fulgor e de felicidade para o poeta quando emerge do seu labor e percebe que dali há a possibilidade palpável de brotar a beleza. Talvez seja por isso que a poesia não precise dar explicações sobre a que veio. Bastando a si, ela é o seu próprio fim e o seu próprio meio. E gera cosmos sem quaisquer receios de realidade. Seu horizonte é a prova nítida de que ela de tudo, para só ser poesia, se vale. A poesia é o único meio pelo qual uma palavra consegue realmente ser sentida, ser percebida, ter brilho e amplidão enquanto palavra. A fala e a prosa não denotam a palavra enquanto palavra: passam as palavras a ser um todo cujo resultado depende mais da ideia e do que se quer expor do que de uma palavra em particular. Na poesia, isso não acontece, pois uma palavra pode fazer gerar todo o universo e, por isso, ser notada como o gérmen, como a força criadora desse instante mágico.

A “melhor ordem”, dita por Coleridge, significa que há um requisito mínimo para que um texto seja um poema: ela nos leva à percepção de que a poesia requer para si determinada harmonia, certo arranjo estético em que cada palavra é evidenciada por si e brilha por si e todas elas reunidas fazem com que o brilho individual de cada palavra aumente mais. No texto em prosa, a palavra paga o caro preço de ser só mais uma palavra. Consequentemente, não devo considerar como poesia quaisquer vestígios em que na elaboração de versos não estejam presentes o fulgor e o impacto dos artifícios intelectuais cujo efeito final é, máxime, uma estrutura formal adequada esteticamente e tenha, no mínimo,  leve organização inteligível. A bela poesia necessariamente requer tais demandas estéticas que a arte proporciona. Logo, como supracitado, é na poesia que uma única palavra passa a ter potência e luz própria, que é visualizada em meio à miríade de palavras que compõem um vernáculo. É na poesia que a palavra pode representar in totum a beleza.

Sempre inteligente e com lucidez, Antonio Cicero (CICERO; 2012, p. 7) define o labor poético com elegante ironia:  

"A poesia é ciumenta e não aparece a menos que eu lhe dedique todo o meu espírito, todos os meus recursos, todas as minhas faculdades, sem garantia alguma de que, mesmo fazendo tudo o que ela exige, eu consiga escrever um poema. Não me basta trabalhar para que nasça um poema."


Por isso, em meu poema concreto “Ars poetica”, chamo a poesia de “poder que tudo pode”. Descontruíndo um único verso “podetudoopoderquepodetudo” e contruindo um outro verso dentro da própria desconstrução, evidencio que pode ser que surja um poema, ou seja, “podeserquesejaumpoemanovo”, porque, os poetas sequer sabem como findará o poema, a não ser que este lhes diga e oriente como a arte precisa alcançar um fim sem fim esteticamente luminoso:


 "Ars poetica"

Podetudoopoderquepodetudo
Podetudoopoderquepodetudp
Podetudoopoderquepodetupo
Podetudoopoderquepodetpod
Podetudoopoderquepodepode
Podetudoopoderquepodpodes
Podetudoopoderquepopodese
Podetudoopoderqueppodeser
Podetudoopoderquepodeserq
Podetudoopoderqupodeserqu
Podetudoopoderqpodeserque
Podetudoopoderpodeserques
Podetudoopodepodeserquese
Podetudoopodpodeserquesej
Podetudoopopodeserqueseja
Podetudooppodeserquesejau
Podetudoopodeserquesejaum
Podetudopodeserquesejaump
Podetudpodeserquesejaumpo
Podetupodeserquesejaumpoe
Podetpodeserquesejaumpoem
Podepodeserquesejaumpoema
Podpodeserquesejaumpoeman
Popodeserquesejaumpoemano
Ppodeserquesejaumpoemanov
Podeserquesejaumpoemanovo



 Adriano Nunes



Referências:



ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. Tradução de Mauro W. Barbosa. São Paulo: Perspectiva, 2013.

ARISTÓTELES. Poética. Tradução do texto grego de Ana Maria Valente. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2008.

BLOOM, Harold. Onde encontrar a sabedoria?. Tradução de José Roberto O'Shea. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005.

CICERO, Antonio. Poesia e filosofia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012.

COLERIDGE, Samuel Taylor. Table Talk and Omniana of Samuel Taylor Coleridge. With a note on Coleridge by Coventry Patmore. London:  Oxford University Press, 1917.

DWORKIN, Ronald. Levando os direitos a sério. Tradução de Nelson Boeira. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

HERÔDOTOS. História. Tradução do grego, introdução e notas de Mário da Gama Kury. Brasília: UnB, 1988.

KANT, Immanuel. Crítica da faculdade de julgar. Tradução de Daniela Botelho B. Guedes. São Paulo: Ícone, 2O09.

NUNES, Adriano. Quefaçocomoquenãofaço. Blog de poesia do poeta e tradutor Adriano Nunes. URL: http://astripasdoverso.blogspot.com.br/ . Acesso em 02/08/2015. 16:00.


domingo, 19 de abril de 2015

Entrevista concedida à escritora Arriete Vilela para a Gazeta de Alagoas

Entrevista concedida à escritora Arriete Vilela, publicada na primeira página do Caderno B da Gazeta de Alagoas (http://gazetaweb.globo.com/gazetadealagoas/acervo.php?c=264475), no dia 18 de abril de 2015




 Adriano Nunes é médico, funcionário público federal, estudante de Direito da Universidade Federal de Alagoas, poliglota, tradutor, poeta, tendo escrito os seus primeiros poemas aos 5 anos e publicado o primeiro, aos 11 anos num jornal alagoano, autor dos livros “Laringes de Grafite (Vidráguas, 2012) e “Antípodas Tropicais”(Vidráguas, 2014). Lançará este ano a tradução do livro “Areopagitica”, de John Milton, escrito em 1644.



1.   “A vida verdadeira, a vida afinal descoberta e tornada clara, por conseguinte a única vida plenamente vivida, é a literatura”?  (Marcel Proust)

Adriano Nunes: a vida verdadeira, quem a saberá? Na Arte, quaisquer vidas são válidas porque somos todos levados a desdobrar-nos para poder vivê-las. A literatura é capaz de dar-nos múltiplas vidas, existências, mas suponho ser impossível determinar que, mesmo múltiplas, são as únicas plenamente vividas. A vida palpável, intangível, por mais dura e amarga que possa ser, ainda tem o aprazível matiz da esperança, do contato, da realidade. Em 1933, Fernando Pessoa, contemporâneo de Proust, escreveu, com beleza magnânima, que “Temos, todos que vivemos,/Uma vida que é vivida/E outra vida que é pensada,/E a única vida que temos/É essa que é dividida/Entre a verdadeira e a errada.” Das vidas que há, valerá qualquer uma desde que tenhamos sonhos. William Shakespeare sentencia em “The Tempest”: “We are such stuff as dreams are made on, and our little life is rounded with a sleep.” É bom que saibamos, conforme o dito shakespeariano, que somos feitos da símile matéria que faz os sonhos.


2.   “Mesmo quando você escreve sobre algo doído, você cria uma alegria estética. Você escreve para sublimar, superar, não para maltratar mais ainda.”  (Ferreira Gullar)

Adriano Nunes: escrever com arte requer um certo afastamento, uma certa possibilidade estética. O belo enquanto elemento estético é destituído de conceitos e apresenta-se como um prazer universal. Mesmo que representemos a realidade doída, nua e crua, num escrito, ela poderá ser esteticamente bela e agradável se ultrapassarmos o limite da escrita comum. Tão simples e forte parece e é dizer que se estar a sofrer, como tão belo e denso será também dizer a mesma sentença com o uso de todas as faculdades intelectuais, com todos os artifícios que a Arte proporciona, com todas as técnicas literárias que, após as vanguardas, foram postas à mão dos escritores. Immanuel Kant na “Crítica da faculdade de julgar” advertia que “o prazer provocado por um objeto, pelo qual qualificamos este de belo, não pode basear-se na representação de sua utilidade.”

3.   “Radical é um sujeito que, ao primeiro sinal de um resfriado, toma a extrema-unção”?  (Millôr Fernandes)

Adriano Nunes: a ironia alegre de Millôr nos transporta para a realidade que também há, pois, dia após dia, convivemos com o outro, que é igual e diferente ao mesmo tempo. Os seres humanos têm uma linha existencial que vai de extremo a extremo, da barbárie à razão plena. E é a razão que o faz afastar-se, cada vez mais, do extremo abjeto da barbárie. Mas essas mudanças não se efetuam ‘radicalmente’. Cada degrau da evolução racional e do progresso cultural percorrido pela humanidade deve ser alcançado um a um, sem pressa ou exageros, para que sejam bem evidenciados os erros e as falhas trilhados.  Parafraseando-o digo: radical é aquele que é capaz de rasgar um poema porque achou que uma rima era uma ameaça armada à beleza além-poema.

4.   “Não conseguirá nunca / tua lança / ferir o horizonte. / A montanha / é um escudo / que o guarda.”  (F. García Lorca)

Adriano Nunes: O inatingível sempre será alvo das lanças. E há uma miríade de horizontes protegida por montanhas. Horizontes estes que criamos, que burlamos, que engendramos nossos por uma questão freudiana de defesa, tais como o amor, a amizade, o outro, as religiões, a felicidade, o bem e o mal, quem somos. Nada deve, entretanto, escapar às flechas e às lanças da crítica e da razão. Tudo que tende a escapar da crítica deve ser tomado como suspeito e perigoso.

5.   “A poesia não pode nem deve ser um luxo para alguns iniciados: é o pão cotidiano de todos, uma aventura simples e grandiosa do espírito.”  (Murilo Mendes)

Adriano Nunes: Se o que é belo independe de conhecimento e conceito, isto é, é um juízo de gosto, um juízo estético ("sensação") cujo prazer é alheio a quaisquer interesses, ou seja, baseia-se em fundamentos a priori, reconhecendo-se como objeto de um prazer necessário, não há então como considerar belos os poemas que abdicam de sua estrutura determinados aspectos formais e traços imprescindíveis de inteligibilidade. Não há como considerar como belo um emaranhado de palavras colecionadas, como se fosse ao acaso, sem nenhuma conexão aparente, sem a mínima lógica. Ora, se a isso puder ser chamado 'poesia' então para se fazer um poema bastaria colocar num saco plástico uma miríade de palavras e sorteá-las para aleatoriamente compor um poema. O que não é verdade, saibamos. Por isso, concordo com Harold Bloom quando distingue que há poetas e versificadores. Pois se convencionou chamar de poema todo escrito em verso. Entretanto, não posso chamar, por isso e consequentemente, todo escritor de versos de poeta. E nem devo jamais dizer que haverá beleza em uma massa dismórfica de palavras, ao acaso, de um belo poema, até de poema! Não se deve considerar asneiras supostamente poéticas como algo concebido esteticamente, que possa agradar necessariamente. Sempre válido, mais uma vez, repetir o ensinamento de Coleridge: poesia - melhores palavras na melhor ordem! Aí, sim, após essas considerações estéticas, posso concordar que a Poesia, a legítima Poesia, servirá como alento e beleza a todos.

6.   “A crítica do outro começa com a crítica de si mesmo”?  (Octavio Paz)

Adriano Nunes: Octavio Paz apenas confirma o ensinamento grego do “conhece-te a ti mesmo”. O mundo depois da crítica kantiana não é mais e nem deve ser o mesmo. Tudo deve se sujeitar à crítica, inclusive e, principalmente, nós mesmos. Kant submeteu a própria crítica à crítica e alertou para a suspeição daqueles que tendem a escapar à crítica. O estudo íntimo, pessoal, crítico e interior de quem somos é que pode, a partir desse exercício, levar-nos a criticar, com responsabilidade, o outro. Só assim é que a razão impera e permite que as frestas do acesso à felicidade se abram.