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terça-feira, 13 de junho de 2017


"ENTREVISTA COM MAURO STA CECÍLIA" (por Adriano Nunes)



Mauro Sta Cecília é um dos letristas que mais admiro. Autor de belíssimas canções como "Por você" e "Amor pra recomeçar", cantadas pelo Barão Vermelho e pelo grande Frejat, entre outras. É poeta e fotógrafo. Eis a entrevista que fiz com o amigo estimado, meu parceiro musical na nova canção do Frejat:



1) Quando se deu a consciência reflexiva de que música e a poesia estavam definitavamente ligadas à sua existência? 

A música veio primeiro. Sempre fui louco por música. Mas como ouvinte. Aprendi os acordes básicos no violão, mas logo me dei conta de que meu negócio era mais com as palavras... No colégio eu era aquele cara que era bom em português e redação. Daí para descobrir a poesia foi um pulo. Drummond foi um alumbramento, com 13, 14 anos. Comecei a escrever meus primeiros versos por essa idade. Chacal também foi muito importante, um pouco depois. E aí vi que não ia ter volta. Música e poesia, tudo junto e misturado, pra sempre.

2) Como se deu a amizade com os integrantes do Barão Vermelho? Como se deram as parcerias?

O primeiro integrante do Barão Vermelho que eu conheci foi o Frejat, desde a época do colégio, muito antes da banda existir. Depois foi o Maurício Barros, numa festa de seu irmão, meu amigo Pequinho (roteirista e coautor de algumas das primeiras músicas do Barão). Não por acaso, minha primeira música gravada foi com esses dois, Maurício e Frejat, a "Por você". A partir daí, eu conheci os outros integrantes do Barão da época, Guto, Rodrigo, Fernandão e Peninha, e as parcerias foram surgindo naturalmente. 

3) Que fatos marcantes, durante as composições, você poderia dizer como memoráveis e impactantes para a sua vida pessoal e artística?

O fato mais impactante para mim, via de regra, se dá quando o parceiro musical me mostra a melodia e a harmonia. Quando acontece o casamento da música com a letra. A hora em que a composição se revela. Esse momento para mim é sempre emocionante. Tenho a sorte de ter grandes parceiros, músicos talentosos, que transformam essa união da letra e da música numa terceira coisa que me encanta e surpreende. Agora há também o momento em que surge a ideia ou o título da canção. Gosto muito de começar pelo título. Para citar um exemplo, lembro de uma vez em que deitado, naquele estado de vigília, me veio o título "Lançado ao mar". Anotei num papel e voltei a dormir. Quando acordei fiz a letra. Virou a faixa-título do disco de um dos meus parceiros, Wilson Sideral.

4) Até que ponto confundem-se o artista e o cidadão Mauro Sta Cecília?

Desconfio que sejam a mesma pessoa... Mas sei que o lado "artista" domina a minha vida completamente. Tudo que faço e penso tem uma ligação visceral com a arte. É o que me move. Já a política e a cidadania são fundamentais para o homem-artista estar no mundo e se expressar. E vivemos tempos em que é impossível não se indignar diariamente com o estado das coisas.

5) Em 2001, Frejat lançava   "Amor pra recomeçar", seu primeiro disco solo, que impulsionaria a sua carreira e a dele. De lá para cá,  que mudanças aconteceram em seu modo de compor e ver-se artista? 

Acredito que tanto o disco quanto a canção "Amor pra recomeçar" representam a continuidade  de um processo que começou com "Por você", no disco "Puro êxtase", do Barão, em 1998. Inclusive é o mesmo trio de autores nos dois casos, Frejat, Maurício Barros e eu. Naquele ano de 98,  pedi demissão do meu emprego (trabalhava no Consulado do Japão) e passei a viver, desde então,  exclusivamente do que eu escrevo. Aí eu fui compondo cada vez mais, me tornando cada vez mais consciente das particularidades da letra de música. Me tornei um dos parceiros mais frequentes de Frejat em sua carreira solo. E passei também a escrever outras coisas: escrevi crônicas em jornal, publiquei dois romances, tive uma peça de teatro encenada. E mais recentemente comecei a fotografar e a estudar artes plásticas, tendo participado de três exposições ano passado.

6) Que composições e parceiros você toma como fundamentais para a completitude de sua obra?

Certamente "Por você" e "Amor pra recomeçar" estão entre elas, pois são minhas musicas mais conhecidas, foram as que me possibilitaram sobreviver de direitos autorais e, principalmente, me abriram caminho para novas composições e parcerias, para musicas em trilhas de novela, de cinema e também de teatro. Elas mudaram minha vida, mas muitas outras que não obtiveram o sucesso comercial também me dão orgulho de ter feito, como por exemplo, "Embriague-se", com Frejat (para o disco do Barão Vermelho de 2004), inspirado no poema em prosa homônimo de Baudelaire, ou "Nunca fui a Paris", com Humberto Effe, do Picassos Falsos, que gravei no meu disco autoral, de 2013, e o Picassos gravou no disco deles que acaba de ser lançado, agora em 2017. Mas na verdade eu estou de olho sempre é na próxima, independentemente do que possa vir ou não. Sobre os parceiros fundamentais, além do Frejat e do Maurício Barros, é evidente que o pessoal todo do Barão também é, Rodrigo Santos, Fernando Magalhães, Guto Goffi... mas tem mais gente aí que é muito importante para mim como o próprio Humberto Effe, George Israel, do Kid Abelha, Sérgio Serra, que foi do Ultraje a Rigor, mais recentemente o Leoni, o pessoal do Blues Etílicos... O Sideral, talvez um parceiro improvável, muito ligado ao Jota Quest e com uma carreira muito centrada em Minas Gerais, mas que fizemos algumas coisas que marcaram a discografia dele... Enfim, não vou citar todo mundo que é importante para mim porque posso deixar um ou outro de fora e não quero causar ciumeiras...

😎 O Frejat tornou-se um parceiro constante e, juntos, vocês fizeram grandes sucessos musicais, sendo elogiadas essas composições tanto pelo público quanto pela crítica. Como é compor com Frejat? Como se deu essa bela amizade? Parece haver uma relação familiar entre vocês e suas respectivas famílias. Seus filhos são músicos e tocam juntos, certo?

Sim, nossa parceria e grande amizade se refletiram em nossos filhos, Julio Santa Cecília e Rafael Frejat, que tocam e compõem juntos e têm uma banda bem legal, o Amarelo Manga. Nossas famílias se relacionam, nós já passamos vários finais de ano juntos. Eu e Frejat, a quem chamo de "Roberto", porque o conheço dos tempos de escola, estreitamos nossa amizade a partir do amor pela música. Lembro dele no pátio do colégio sempre com um disco debaixo do braço, ou ainda tocando "Eleanor Rigby", no bandolim, na hora do recreio. Compor com Frejat é uma delícia, porque além de ele ser um mestre, com quem muito aprendi, ele é um gentleman, que não impõe nada, nunca deixa de consultar o parceiro sobre eventuais mudanças e, apesar de pouco escrever letra de música, tem um olhar muito afiado para o texto. Afinal, foi parceiro do Cazuza, né, com quem compôs grandes pérolas não apenas do rock, mas da música brasileira.

9) Como surgiu "Amor pra recomeçar" e "Por você"?

"Por você" surgiu de um poema que fiz. Na época estava vivendo um romance que não estava dando muito certo e resolvi escrever em versos as loucuras que faria para conquistar a moça. Depois percebi que o poema tinha um ritmo musical e mandei pro Frejat. Ele e o Maurício Barros acabaram fazendo o recorte da letra, pois alguns versos não entraram na canção. Este poema está no meu segundo livro, "Olho frenético", de 2005. Já "Amor pra recomeçar", de 2001, surgiu a partir de um poema que circulou bastante na internet com o título de "Desejo" e era atribuído a Victor Hugo, o romancista francês (como se sabe, autoria na internet é um negócio complicado, nem sempre é o que se apregoa... nós nunca conseguimos descobrir a real autoria desse poema). Fiz uma adaptação livre deste poema. Cheguei a fazer umas duas versões antes da letra definitiva. E depois Frejat e Maurício fizeram a música.

10) O que há de bom na nova música brasileira? Quem Mauro anda ouvindo?

Acho que muito do que rola hoje de bacana na música vem da mistura de gêneros. Gosto muito do Lucas Santtana, do Marcelo Jeneci, do Criolo, do Jonas Sá, da Céu, da Mãeana, da Mariana Aydar, da Ava Rocha, do Thiago Amud, do Cidadão Instigado, do Passo Torto, do Romulo Froes... Tenho ouvido recentemente o último do BNegão, os discos do Baiana System, do Boogarins e do Alvaro Lancellotti.

11) E a poesia... Qual a sua relação com poetas e poemas? Que anda lendo o poeta Mauro Sta Cecília? 

É curioso que tudo que faço vem da poesia, mas tenho mais amigos músicos do que poetas. Em relação aos poemas, não sou daqueles que falam seus poemas prediletos de cor... Nem os meus eu consigo decorar. Mas ultimamente tenho gostado muito de falar em publico (com a devida cola) um poema de Charles Bukowski, "Definindo a mágica", que trata do fazer poético. Sobre as leituras, tenho lido muitas mulheres. Há uma safra muito boa de poetas como Ana Martins Marques, Angélica Freitas, Bruna Beber, Matilde Campilho, Masé Lemos, Maria Isabel Iorio. Mas curto também bastante o trabalho de poetas homens como Carlito Azevedo, Fabiano Calixto e Marcelo Montenegro.

12) Fizemos uma composição juntos. Como foi que aconteceu musicar com o Frejat um poema de um poeta alagoano, tão aparentemente distante do circuito artístico sul-sudeste?

Você, Adriano Nunes, é um poeta que colocaria também entre aqueles de que mais gosto do cenário contemporâneo. Nós nos conhecemos pela internet. Se não me engano, através do blog do Antonio Cicero, um poeta que nós dois admiramos muito. Logo percebi a sua enorme capacidade de versejar sobre qualquer tema, sua formação consistente, sua sede de conhecimento. E lendo seu livro "Laringes de grafite", me deparei com um poema, "Tudo ainda", que me chamou a atenção pela musicalidade dos versos. Fiz uma adaptação do poema e mostrei pro Frejat. Lembro do dia em que ele compôs a música. Era final de ano, estávamos viajando, e ele me chamou em seu quarto antes do almoço para ouvir a composição. Ali naquele momento caíram duas ou três lágrimas e me dei conta de que tínhamos feito uma bela canção, emocionante, e que ainda - espero eu - vai nos dar muitas alegrias. 

13) Previsão de livro novo? Canções novas? Parcerias novas?

Tenho dois projetos de livros novos: o primeiro, uma coletânea dos meus quatro livros de poesia, com 26 poemas e 26 fotografias, unindo o passado e a minha trajetória com o meu trabalho atual, que cada vez mais procura integrar texto e imagem, a partir do meu crescente interesse pelas artes visuais; o segundo, é um projeto de livro em parceria com o cantor, compositor e hoje poeta Leoni, que anda escrevendo coisas muito boas. Sobre canções e parcerias musicais, tenho muita vontade de intensificar a troca tanto com artistas da nova geração quanto com artistas de outros gêneros, seja do rap, da música eletrônica ou do samba. Me interessa cada vez mais borrar as fronteiras. 

14) O Brasil atual para Mauro: qual a sua visão político-crítica de tudo que está acontecendo?

Não só o Brasil mas o mundo passa por um momento muito delicado de intolerâncias, radicalismos religiosos, crescimento conservador. No caso específico do Brasil, ainda tem o câncer da corrupção generalizada. Vivemos uma época de pobreza intelectual. De muito google e pouca poesia... O mundo virtual anda ganhando de goleada do mundo real. Por outro lado, acredito que há também uma nova geração bacana aí, menos preconceituosa, menos machista, que reivindica seus direitos, mais ligada à alimentação natural, à ecologia e ao meio ambiente. Não sei. Posso estar errado. Mas, como gosto dos paradoxos, enquanto o mundo não acabar eu prefiro acreditar que nem tudo está perdido.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

"Entrevista com Frejat" (por Adriano Nunes)

"ENTREVISTA COM FREJAT" (por Adriano Nunes)



Para dar uma pequena introdução, Frejat é um dos grandes, um dos maiores compositores/cantores brasileiros, autor de belíssimas canções. Viva Frejat!

1) Quando se deu a consciência reflexiva de que música estava definitivamente ligada à sua existência?

Muito cedo, desde muito novo comecei a comprar discos e ouvir música de uma forma bastante atenta, acho que de uns dez anos em diante isso se cristalizou no fato de eu me tornar um ávido consumidor de discos e com o tempo ampliei os meus interesses iniciais do rock para outras formas de música, mas ter certeza que era isso que eu queria fazer na vida acho que só a partir dos dezesseis, dezessete anos, mesmo assim, sem ter a menor ideia de como isso aconteceria.

2) Como se deu a amizade com os integrantes do Barão Vermelho? Como surgiu a ideia da banda?
Fui convidado a participar de um evento que o Guto e o Maurício tinham marcado para a apresentação da banda que estavam formando, esse foi o motivo para o meu encontro com eles e o Dé, e também para a chegada do Cazuza uma ou duas semanas depois, assim se formou o núcleo original do Barão Vermelho.
Não os conhecia anteriormente, com exceção do Dé que cursava a mesma escola de música que eu.
Fui indicado por um amigo em comum chamado Edon de Oliveira, um grande guitarrista, por sinal.

3) Como era compor com Cazuza? Que fatos marcantes, durante as composições, você poderia dizer como memoráveis e impactantes para a sua vida pessoal?

Nós dois nos descobrimos compositores juntos e havia claramente o deslumbramento de perceber que estávamos fazendo algo que tinha consistência, mas era totalmente novo para nós dois.
Acho que a nossa alegria ao terminar essas canções era imensa e isso certamente fortaleceu a nossa amizade e a levou a um nível muito especial.

4) Até que ponto confundem-se o artista e o cidadão Roberto Frejat?

Acho que tem muitos pontos em comum, mas eu não saberia dizer quais são. risos
É muito difícil você não refletir nas suas canções a sua maneira de pensar, por outro lado, existe claramente o personagem de cada música e ele não sou eu.

5) Em 2001, você lançava "Amor pra recomeçar" que impulsionaria a sua carreira solo. De lá para cá, que mudanças aconteceram em seu modo de compor e ver-se artista?

Acho que tenho mais conhecimento do ofício e pude apresentar algumas canções de forma diferente do contexto de uma banda de rock.
Aprendi a entender um pouco mais as minhas obrigações dentro do meu dia a dia.

6) Você já compôs com vários nomes consagrados da música brasileira. Que composições e parceiros você toma como fundamentais para a completitude de sua obra?

Nomear uns em detrimento de outros seria muito constrangedor e indelicado.
Eu tenho um carinho enorme por todos os meus parceiros, pois dividir uma parceria é muito mais profundo que o resultado final, tudo que acontece no meio do processo da criação de uma canção também tem uma importância muito grande.
Tenho parceiros que trabalhei com mais frequência e isso torna nossa parceria mais visível, mas tenho um sentimento profundo por todos eles, inclusive você.

7) Você compôs "Bagatelas" com o filósofo e poeta Antonio Cicero. É uma belíssima canção. Como se deu a parceria e a composição?

Ela aconteceu imediatamente após a saída do Cazuza da banda. A maneira que encontrei para ocupar o espaço de letrista que ele exercia na banda com tanta qualidade.
Fui atrás de quem poderia me dar letras de qualidade para musicar e o Cícero foi uma dessas pessoas.
Agora recentemente fizemos outra, desta vez com Mauro Santa Cecília também na parceria, que ainda está inédita, mas brevemente devo gravá-la

8) O Mauro Sta Cecília tornou-se um parceiro constante e, juntos, vocês fizeram grandes sucessos musicais, sendo elogiadas essas composições tanto pelo público quanto pela crítica. Como é compor com Mauro? Como se deu essa bela amizade? Parece haver uma relação familiar entre vocês e suas respectivas famílias. Seus filhos são músicos e tocam juntos, certo?

Eu e Mauro fomos colegas de turma durante alguns anos e mantivemos nossa amizade mesmo depois de pararmos de estudar juntos.
Nossa parceria é fruto de muitas conversas e pensamentos convergentes, além da sensibilidade de cada um que estimula o parceiro a fazer algo à altura do que está sendo proposto.
Hoje além de parceiros musicais, temos a alegria de assistir a parceria dos nossos filhos numa banda muito legal que se chama Amarelo Manga.

9) Vê-se que você é admirado por jovens e pelos fãs da época do Barão. Como você explicaria tal fenômeno e o que ele representa para o Frejat?

Não tenho explicação, mas acredito que seja pelo fato do discurso não ficar datado.
Isso me traz uma alegria enorme e me considero presenteado por ter esse tipo de resposta de várias gerações, mas não faço isso premeditadamente,
até porque acho que seria impossível.

10) O que há de bom na nova música brasileira? Quem Frejat anda ouvindo?

Gosto da Céu, do The Baggios , de O Terno , Criolo, SILVA, não ouço mais coisas porque não tenho tido o tempo que gostaria para me atualizar.

11) E a poesia... Qual a sua relação com poetas e poemas? Que anda lendo o compositor?

Eu leio de forma dispersa. Adoro Quintana, Drummond, Manoel de Barros, Ricardo Chacal, os poetas beats e por aí vou.

12) Fizemos uma composição juntos. Como foi que aconteceu musicar um poema de um poeta alagoano, tão aparentemente distante do circuito artístico sul-sudeste?

Meu parceiro Mauro Santa Cecília me mostrou uma letra que tinha feito a partir de algo que você tinha escrito, não lembro se um poema ou um texto, eu gostei e disse que faria música para ela.
Algum tempo depois fiz e agora estou gravando.
Ela será lançada em breve junto com outra canção inédita.
Gosto muito da canção e estou tentando fazer um arranjo que lhe dê uma apresentação bonita.
13) Previsão de disco novo? E o show atual, em que se baseia, qual o formato?

Não pretendo lançar disco novo.
Penso em lançar músicas em grupos, como farei com essas duas em breve nas plataformas digitais, pois nesse momento, com exceção de um consumo de nicho como o vinil, não existe um formato físico que atenda o público de música.
Eu tenho dois shows que acontecem paralelamente: o "Frejat ao vivo", que é com minha banda e tem um conceito mais festeiro e dançante e o "Frejat voz e violão" que só faço em teatros com um repertório autoral que inclui músicas que nem sempre toquei ao vivo misturado com canções mais conhecidas.

14) O Brasil atual para Frejat: qual a sua visão político-crítica de tudo que está acontecendo?

A população tem obrigação de ficar atenta e mobilizada para que a classe política não faça mal maior ao país, pois nesse momento só se mobilizam para resolver seus problemas e não os interesses nacionais.
A necessidade de novos nomes é urgente, e temos de ficar atentos para não dar espaço para os "salvadores da pátria".
Não se constrói um país numa década, mas pelo menos o caminho certo tem de ser escolhido, caso contrário , anda-se para o lado errado que é o que fizemos e ainda não conseguimos resolver de forma definitiva.
Isso é motivo de muita angústia para mim, pois sempre acreditei no potencial do país de se tornar uma grande força mundial, mas acho que perdemos a grande chance e agora temos que colocar as coisas nos lugares certos.


Obrigado, grande amigo! Beijos mil
Adriano Nunes


terça-feira, 18 de abril de 2017

Adriano Nunes: entrevistando Péricles Cavalcanti

Adriano Nunes: Entrevistando Péricles Cavalcanti



Adriano Nunes:    Como você se descobriu músico, isto é, como se deu a consciência reflexiva sobre fazer canções e cantá-las?

Péricles Cavalcanti: Só tive consciência de que podia fazer canções interessantes (ou compor música ou letra, boas) quando comecei, no início dos anos 70, movido por uma paixão arrebatadora, a dizer coisas com música que, imediatamente, chamaram a atenção de alguns dos meus amigos mais próximos que, por uma feliz coincidência, eram Caetano, Gil e Gal.

Adriano Nunes:    Quais influências musicais e artísticas foram/são imprescindíveis ao seu instante criativo?

Péricles Cavalcanti:  Como quase todo mundo de minha geração, fui criado num ambiente muito musical, primeiro pela força do rádio (anos 50) e também do disco, notadamente com a presença de vitrolas e LPs. Depois com a própria TV, no início dos anos 60. Lá em casa tinha violão, piano, cavaquinho e flauta, que meu pai (que tinha noções de teoria musical) tocava um pouco. Assim, às vezes, fazíamos pequenos  conjuntos em que eu e ele tocávamos algumas valsinhas bem simples e antigas (“Sobre as ondas” por exemplo) e minha mãe e minha irmã cantavam. No entanto, cresci ouvindo tudo -de Ray Conniff  a  Cely Campelo, passando por Ray Charles, entre muitos outros - e, como muitos, na adolescência, me apaixonei por João Gilberto e a bossa nova, ouvia também um pouco de Jazz, depois Beatles e, depois ainda, Caetano, Bethânia, Gal e Gil. Mas continuo gostando de ouvir tudo, embora nesses tempos de hiper-informação caótica da Internet (e, também, de muita irrelevância!) dizer “tudo” é quase o mesmo que dizer “um pouquinho”. E ainda gosto de ser tocado pelo que ouço. Bem, para alguém que, como eu, tem uma personalidade um pouco melancólica, música é um transporte que leva a lugares e paisagens mais do que ideais.

Adriano Nunes: Muitas de suas canções têm temas relacionados com a Filosofia e filósofos. Quais filósofos são/foram impactantes na sua formação/construção como artista?

Péricles Cavalcanti:  Quando comecei a ler mais, logo me interessei por um tipo de literatura mais filosófica e por uma filosofia mais literária. Claro que quando conheci um pouco mais os gregos, no curso clássico  (e aqui me lembro das aulas sensacionais de filosofia da professora Marilena Chauí, muito jovem e bonita) fiquei logo entusiasmado, a ponto de ter decidido fazer faculdade de Filosofia e de ter pensado, até, em me tornar um professor. Acho, de todo modo, que isso teria influência em qualquer coisa que eu fizesse como profissão, depois, mas acabou, de uma certa maneira, acontecendo, meio que sem planejar, no meu trabalho com música.

Adriano Nunes:    Você morou em Londres no mesmo período em que Caetano Veloso e Gilberto Gil estavam exilados, e o Antonio Cicero estudando filosofia na capital inglesa . Você já os conhecia pessoalmente antes do exílio? Como foi esse período lá? Que fatos marcam a memória? Qual a importância dessa estada para a sua formação/consolidação artística?

Péricles Cavalcanti:  Caetano e Gil (e Gal, também) eu conheci ainda na casa de meus pais, levados por um primo, o psicanalista Luis Tenório Lima, que era amigo deles na Bahia. Eu era ainda adolescente e eles estavam chegando para trabalhar em São Paulo e no Rio. Me apaixonei imediatamente por eles, aprendi muito com as primeiras canções dos dois e, especialmente, com o violão de Gil que ficou uns dias, recém-casado com Belina, hospedado em nossa casa. Depois daí, ficamos amigos para sempre.
No período em que estive, primeiro em Paris e depois em Londres, onde Caetano, Dedé, Gil, Sandra e Guilherme Araujo, já moravam, eu não tinha planos definidos e me identificava mais com uma coisa bem geral e um pouco vaga, de ser um hippie. De todo modo, a proximidade com a música pop (shows e festivais) que se fazia  na “Swinging London”, na época, influenciou bastante a música que eles passaram a fazer lá e aqui e, também, a música que eu viria (mas não tinha ainda a menor ideia de que iria!) fazer depois. Um bom exemplo disso foi ter contato com o reggae quando ainda era uma música de gueto no bairro de Notting Hill Gate e pelo qual eu e Caetano ficamos, imediatamente, entusiasmados.
Já Antonio Cicero só conheci em Londres, onde ele morava e estudava filosofia. Gostei logo dele (da mesma forma que todo mundo, lá) e foi assim como conhecer um filósofo de verdade (lembro que ele estudava alguma coisa ligada à lógica matemática, matéria em que eu tinha muita dificuldade nos dois anos e pouco em que frequentei a faculdade) Mas, enfim, perto dele eu era apenas um amador. E ainda sou!.

Adriano Nunes:    Como se deu a parceria com Caetano para a  composição/transcriação de “Negro Amor”?

Péricles Cavalcanti: Isso foi no Rio, em 1975 ou 76, e foi ideia de Caetano me chamar pra fazer essa versão de “It’s all over now, Babe Blue”, para um show de Maria Bethânia que ele iria dirigir (não me lembro qual!). Fizemos meio que rapidamente, tentando estar o mais próximo possível da bela canção de Dylan. Só nos detivemos na tradução para a expressão “Babe blue” e, num outro dia, foi Rogério Duarte, quem veio com a solução perfeita: “Negro amor”.  Acabou que Bethânia não se interessou muito e foi Gal quem a lançou.

Adriano Nunes:    Bob Dylan é uma de suas referências musicais, certamente. Quando da conquista dele do Nobel de Literatura, como você viu e compreendeu tal momento?

Péricles Cavalcanti: Pois é, nos meses em que estive em Paris (no final de 1969) eu costumava, pra ganhar um dinheirinho, tocar com um violão e uma gatinha de boca (no estilo que consagrou o começo de carreira de Dylan), em estações do metrô e até na calçadas de bares (aí com uma amiga francesa) algumas canções como “Mr. Tambourine man”,  e outras de Luiz Gonzaga, como “Asa Branca”. Isso pra dizer que fiquei muito contente com o Nobel para ele. Além do mais, foi como se a geração que foi adolescente e começou a fazer música nos 60 e 70 fosse toda premiada através dele, no sentido de que para nós, como para ele, as distâncias entre a chamada “Alta cultura” (mais erudita) e a chamada “Baixa cultura” (de origem popular e oral), foram bastante diminuídas e confundidas em trabalhos que, desde então, as transcendem.

Adriano Nunes:    Assim como eu, sei que você é um leitor apaixonado por Montaigne. Qual a sua relação com o pensador francês?

Péricles Cavalcanti: Só comecei a ler Montaigne mais recentemente, neste começo de século XXI, novamente graças à indicação do mesmo primo psicanalista de que falei. E, como muita gente, fiquei  impressionado com sua profundidade e atualidade. Na verdade, ele, como escritor, se encaixa perfeitamente (talvez o mais perfeito, como certa vez Orson Welles disse dele!) naquela minha  predileção por Literatura filosófica e Filosofia literária, de que já falei. E, mais ainda, fiquei também impressionado com o fato de que eu nunca o tivesse lido antes e que, nos tempos de faculdade, nunca tivesse ouvido nenhum professor ou colega  falar de Montaigne!

Adriano Nunes:    Você tem grandes parceiros musicais, como a Adriana Calcanhotto e o Arnaldo Antunes. Como se deram essas parcerias? Qual a importância delas em sua vida de artista? Vocês ainda continuam compondo juntos? Têm planos para novas canções?

Péricles Cavalcanti: Adriana é mais uma parceira-inspiradora (que já me encomendou algumas das canções), que me foi apresentada pela nossa querida Susana Moraes, e com quem tenho muitas afinidades de gosto musical e poético.
Já Arnaldo, que conheço desde que ele era ainda quase um adolescente (antes da fase Titãs, portanto)  tornou-se parceiro e um grande amigo, especialmente a partir do início dos anos 90. Temos feito algumas coisas juntos, proposta por mim ou por ele meio ao sabor do acaso (sem muito planejamento) nos nossos constantes encontros (além de tudo, somos vizinhos há mais de 20 anos!)

Adriano Nunes:    Parece, ao que você relatou algumas vezes, que “Eva e eu”, composição sua e de Arnaldo, marcou-o bastante. Por quê?

Péricles Cavalcanti:     “Eva e eu”, que é uma de minhas parcerias com Arnaldo de que eu e ele mais gostamos, foi um caso muito especial de sincronicidade. Fiz a música, antes, pensando numa matéria que vi na TV sobre um casal de índios isolados encontrados na Amazônia que sequer falava uma língua conhecida. Bem, quando dei a Arnaldo, um poeta-letrista sensacional, para colocar letra ele, sem que eu tivesse dito ou indicado nenhum tema, me veio com essas palavras que não poderiam ser mais adequadas para o que eu havia sentido e pensado.

Adriano Nunes:                   Como se dá a composição quando ela é feita a várias mãos? Você musica primeiro? Ou faz a música quando a letra lhe é passada por um dos parceiros? Que método de composição você prefere e por que o prefere?

Péricles Cavalcanti:       Não sou bom para escrever letras sem música (em geral, minhas tentativas resultam bem fracas!). Prefiro fazer, sempre, numa canção, letra e música, juntas, uma informando a construção da outra ou realizando a ideia (ou a motivação) inicial da canção. Mas gosto de fazer só a música também, como no caso de “Eva e eu”, ou mesmo como um instrumental  (talvez aqui entre um pouco do meu gosto pela Jazz instrumental). Tenho poucos parceiros na composição e são poucos os casos em que trabalhei a quatro mãos. Tenho alguma dificuldade com isso e, também, uma predileção por fazer canções (ou músicas) inteiras e por compositores que assim o fazem.

Adriano Nunes:                 Fale como foi a produção e conclusão do trabalho “Mulheres de Péricles”.  O que você pode expressar ante tal homenagem?

Péricles Cavalcanti:       Não participei da produção desse disco, Como era o homenageado, fui proibido pelo DJ Zé Pedro, mentor do disco, e por Nina Cavalcanti, minha filha, curadora do projeto, de escutá-lo antes de ficar pronto. Ainda bem, porque foi uma das melhores surpresas que tive com minhas composições e o fato de não ter participado do processo de produção do disco me deu isenção e tranquilidade para desfrutá-lo. Acho que as cantoras que participaram e que produziram independentemente, umas das outras, suas faixas, trouxeram minhas canções para patamares musicais originais e, no caso de algumas delas, a níveis adequados de expressão, que ainda não tinham sido alcançados. Enfim, eu adorei!

Adriano Nunes:                   Você foi é muito requisitado para fazer trilhas para filmes e peças de teatro? Como se deu esse tipo de trabalho? Quais foram as obras mais marcantes?

Péricles Cavalcanti:      Não fiz, ainda, muitas trilhas para filmes ou peças de teatro, mas tem algumas que foram muito significativas e importantes pra mim nesses anos todos em que tenho trabalhado com música. Fiz a trilha para o único filme de longa-metragem de minha querida amiga Susana Moraes, “Mil e Uma” que resultou no disco homônimo que é um dos que mais gosto e  me orgulho, entre os que já fiz.  Também gosto muito da trilha que fiz para o curta-metragem, “Quem é Bardi”, do meu dileto amigo José Roberto Aguilar. E para o Teatro, fiz a trilha e depois a direção musical da montagem do “Ham-let”, com a direção maravilhosa de Zé Celso Martines Correia, no Teatro Oficina. E, bem, antes, convidado por Regina Casé, fiz canções para “A Farra da terra”, primeiro musical do grupo carioca “Asdrúbal Trouxe o Trombone”, dirigido por Hamilton Vaz Pereira.

Adriano Nunes:                 Conte-nos algo sobre a sua experiência com o “Asdrúbal trouxe o Trombone”

Péricles Cavalcanti:       Esse foi um outro trabalho de que me lembro com muita alegria, porque, ainda era o início dos anos 80 e fiz canções inspiradas em  ideias gerais ou mesmo títulos de cenas (que ainda não estavam escritas) de Hamilton ou, mesmo, sobre textos que ele escreveu, que estão entre as melhores que já fiz, se pensarmos naquele tipo de canção completa (letra e música como um corpo só), de que gosto mais de fazer e apreciar.

Adriano Nunes:                   Também é sabido que uma de suas admirações é a Cássia Eller. Como começou a sua amizade com essa grande cantora? Como se deu a construção da música “Eu queria ser a Cássia Eller”

Péricles Cavalcanti:      Até 1997, eu só conhecia a Cássia de vista. Foi depois de um show dela, no Rio, cantando Cazuza, dirigido por Waly Salomão que, no camarim, lhe fiz um elogio (porque ela, realmente ,era maravilhosa). Disse: se eu fosse um outro artista, queria ser você. E continuei, meio brincando: acho que vou fazer uma canção “Eu queria ser Cássia Eller”. Waly, que não estava presente mas soube disso, por Lan Lan, me telefonou e insistiu para que eu fizesse essa canção, para um próximo disco de Cássia que ele ia produzir. Então, essa minha brincadeira elogiosa acabou mesmo virando uma canção que ela, com  razão, ficou muito constrangida para gravar, mas que a deixou feliz quando eu gravei. De todo modo, fico contente que esses eventos tenham aproximado a mim, Lídia e nossos filhos de Cássia, e de toda força e beleza, verdadeiras, que ela tinha.

Adriano Nunes:                   Você também tem muita ligação com os poetas e a poesia. Musicou um poema de John Donne traduzido por Augusto de Campos que virou sucesso na voz de Caetano Veloso, a belíssima “Elegia”. Que poetas você admira, lê com freqüência?

Péricles Cavalcanti: Eu não conheço tanto poesia escrita (fora aqueles obrigatórios que eram citados na escola) como as pessoas, em geral, supõem. Muito do que conheço vem de indicações, de livros que ganho de amigos e poetas, como você Adriano ou como o Augusto de Campos que, além de sua própria bela poesia, me apresentou e ainda apresenta a poemas e poetas. Foi assim que surgiu, por exemplo, “Elegia”, depois que ele me mostrou a sua belíssima tradução de “Elegy, to his mistress going to bed” de John Donne.

Adriano Nunes:                 “O canto das Musas” é um reflexo dessas leituras poéticas? Fale um pouco sobre essa obra e seu desdobramento enquanto trabalho coletivo.

Péricles Cavalcanti:        Depois que eu e Zélia Cavalcanti, minha irmã, pensamos em fazer um livro sobre poesia clássica em português, que fosse, também, um disco pop de poemas musicados e cantados, as autoras da parte escrita do livro, Aline Evangelista Martins e Cibele Lopresti Costa, selecionaram alguns poemas, tanto de poetas brasileiros como portugueses para que eu experimentasse como canção. O curioso é que a maioria deles eu não conhecia e, mais, nem todos me soaram como possíveis canções interessantes.  De todo modo, a segunda parte do meu trabalho, a produção do disco, depois de escolhidos os poemas, fluiu mais rapidamente e trouxe ainda mais surpresas interessantes, na medida em que fui pensando nos intérpretes (muitos entre os novos da cena musical paulistana: Tulipa Ruiz,  Leo Cavalcanti, Juliana Kehl, Tatá Aeroplano, Arícia Mess, Péri) e músicos instrumentistas (Guilherme Held, Marcelo Monteiro, Décio 7, Atílio Marsiglia) pra cada faixa. Algumas faixas me agradam bastante, tanto pelo uso do poema como pela interpretação e arranjo. O disco foi gravado em julho de 2010 e o disco-livro só foi lançado em 2012, pela Companhia das Letras, que teve alguma dificuldade para classificar esse objeto híbrido e um pouco estranho, a ponto de, no início, oferecer às livrarias como um “livro para crianças”.

Adriano Nunes:                   Quais são seus novos projetos musicais? De “Canções”, de 1991, para “Frevox”, de 2013, como você poderia sintetizar essa trajetória musical?

Péricles Cavalcanti: Acho que dá pra dividir em dois períodos bem distintos a história das gravações de meus discos. Até o final dos anos 90, portanto ainda na época em que as gravações analógicas, os grandes estúdios ainda predominavam e a era do disco ainda estava no apogeu (mesmo com a introdução dos CDs), meu discos surgiam a partir de um conjunto de composições que eu tinha (inéditas ou não), entre as quais eu escolhia algumas para fazer parte de um disco que eu iria gravar (em geral com apoio de gravadoras ou selos distribuídos por elas).  A partir do início dos anos 2000, e com as possibilidades das gravações digitais em porta-estúdios, como muitos outros, comecei a fazer gravações (pelo menos as bases instrumentais e vocais) no meu próprio estudiozinho, o que me deu uma outra perspectiva (o tempo para experimentar, arranjar e gravar, por exemplo), então os discos passaram a fazer parte do momento final desse processo. A única exceção foi o disco da trilha de “Mil e Uma”, que foi gravado em 1993, num sistema misto (analógico e digital) no ótimo, avançado para a época, estúdio de meu amigo Cid Campos e que, como eu já disse, está entre os meus preferidos. Ultimamente tenho gostado de gravar, como fiz com os dois singles que lancei recentemente, no também ótimo e bem equipado estúdio de outro amigo, Pipo Pegoraro, que tem sido, também, meu produtor musical. Então meus discos tem saído a partir do que tenho gravado se bem que, ultimamente, tenho pensado em fazer um disco ao vivo, também (o que nunca fiz). Mas, como nessa época em que vivemos, as possibilidades são muitas  e as oportunidades mudam constantemente, os meus hábitos e planos fonográficos podem mudar, também.

Adriano Nunes:                   Praticamente, em quase todos os discos de Adriana Calcanhotto, há canções suas. Há uma identificação artística entre você dois. Como se deu esse liame? Quem é Adriana Calcanhotto para Péricles Cavalcanti?

Péricles Cavalcanti:       Como já disse, Adriana, é mais que a intérprete que mais tem gravado minhas canções. Ela tem sido uma parceira motivadora, com quem tenho muitas afinidades. Por exemplo, quando ela me pediu uma canção para o seu disco “Maré”, que tivesse a ver com esse tema, fiz “Príncipe das Marés”, que tem muito de um “épico” sobre o surf e, logo depois, outra, “Porto alegre (nos braços de Calipso)”, a partir de um trecho das peripécias de Ulisses com a deusa Calipso, na Odisseia. Mandei as duas pra ela que, a princípio, pensou gravar a primeira (que depois eu gravei), mas que terminou por gravar a segunda. Isso pra dizer que nosso diálogo como amigos e parceiros de trabalho tem sido, sempre, muito rico. E também, tudo isso, começou de uma maneira muito amorosa porque, como eu já disse, foi Susana Moraes quem nos apresentou e aproximou.

Adriano Nunes:                O que é cantar, compor para você? A cena musical atual está bastante complexa e múltipla. Que há de esteticamente belo na nova música produzida no Brasil?

Péricles Cavalcanti: Eu comecei trabalhando, meio que sem planejar, como compositor e foi assim que comecei a ganhar algum dinheiro com música. E era o que eu gostava mais de fazer. Depois, graças à iniciativa de Susana Moraes (de novo, ela!) gravei meu primeiro disco, “Canções”, cantando e arranjando e passei a gostar muito disso, também. Bem, mas o mundo (com suas demandas) vai mudando e a gente também e, de uns tempos pra cá, gosto cada vez mais de cantar e fazer shows, até mais do que gravar. Mas acho que sou, pelo meu tipo de personalidade e formação, fundamentalmente, um compositor.
Há, como sempre houve, muita coisa sendo produzida no Brasil com muita competência, nos diversos gêneros (ou “nichos”).  E agora, há cada vez mais ótimos instrumentistas, cantores e produtores musicais. São inegáveis as qualidades das produções de samba, sertanejo, Axé, música do Pará, Funk, a chamada nova MPB e, mais os híbridos entre todos esses estilos.
Pra não ficar sem destacar nada. Entre muitas coisas, amo os sambas, melódica e harmonicamente sofisticados de Arlindo Cruz e, num outro extremo, esse Funk do MC15, “Deu onda” (na sua versão sem censura, é claro, com o refrão original!) que combina inspiração poética crua e coloquial, com uma programação eletrônica básica, inspirada e eficiente (e há a questão, provavelmente não planejada, que foi notada por muitos músicos, da mistura, do tom maior da melodia com o tom menor da harmonia, em certo momento), mais um vocal com um timbre bonito e, ao mesmo tempo, confessional (um pouco tristinho!)  e sensual.

Adriano Nunes:                   A cultura de massa o atrai. você elogiou, assim como Caetano Veloso, Anitta, por exemplo. Também é muito fã de Zeca pagodinho, de Fernanda Abreu, da funk carioca, de Chico Science, entre outros estilos. Seria isso uma tradução da sua simplicidade e de sua generosidade, uma abertura para o novo?

Péricles Cavalcanti:      Sim, como já disse, gosto de ser de algum modo tocado por coisas feitas por novas gerações e isso, em termos mais gerais, com relação a outras manifestações artísticas e culturais. Quanto à música popular, desde a invenção do disco e, logo depois, do rádio, ela sempre mostrou essa vocação para atingir a chamada “massa”, de ser “pop”. Já li que um dos primeiros sucessos da grande “bluseira” Bessie Smith (em 78 rpm), nos anos 20, vendeu 800.000 cópias e olha que o mercado da música negra era separado do “mainstream” branco. E, além do mais, eu não acredito que alguém componha uma canção e grave um disco para que ninguém ouça ou goste ou repita. Isso seria um total contrassenso. Acho que isso não acontece nem com os trabalhos mais experimentais e “difíceis”.

Adriano Nunes:                 Você costuma tecer comentários no Facebook sobre questões artísticas e políticas. Como você vê, compreende a política nacional para Péricles?

Péricles Cavalcanti: Como todo mundo tem acompanhando, vivemos um momento dificílimo, de instabilidade política-institucional, mas é possível que (embora eu, confesso, tenha muitas dificuldades em pensar e entender a complexidade da política contemporânea!) depois desse tsunami de revelações tenebrosas de como nossa política tem “funcionado”, nossa ainda relativamente jovem democracia possa sair fortalecida. E se a gente se lembra como, desde de seus inícios na Grécia antiga (em Atenas particularmente), a democracia alternou momentos de paz e legalidade, com líderes e legisladores sábios, com outros períodos de grandes perturbações sociais, consequência da tomada do poder por tiranetes e demagogos (em geral corruptos!), a gente pode pensar que, talvez, a democracia, como o regime político mais aberto, estará sempre sujeito a instabilidades e, sempre, necessitará de aperfeiçoamentos. Torço para que esse seja o nosso caso!

Adriano Nunes:  Recentemente, Caetano teceu alguns comentários lúcidos sobre a problemática das drogas, qual o seu posicionamento ante a questão das drogas?

Péricles Cavalcanti: Li e gostei muito das considerações de Caetano sobre a questão!   Quanto a mim, posso lhe dizer que, na juventude, já experimentei algumas drogas ilícitas, tipo LCD e maconha  (quanto às lícitas, nunca fui adepto às bebidas alcoólicas!) mas poucas vezes e em muito pequenas quantidades, porque eu tinha medo e, porque, sempre preferi e tive mais prazer com meus “estados sóbrios de consciência”. E nunca  me senti, propriamente, mal, nessas experiências com drogas. Mas, ao mesmo tempo, já vi muitas pessoas pirarem gravemente (alguns a ponto de serem internados em hospitais!) por causa de uso de drogas alucinógenas, mas mesmo de terem o que era chamado uma “bad trip” apenas com algumas tragadas num cigarro de maconha (exatamente como Caetano se refere na sua fala sobre o assunto!). Essa é um outra questão contemporânea muito complexa e difícil para se encaminhar soluções mas, de todo modo, simpatizo com uma liberação inicial da maconha (como tem acontecido em muitos países), desde que se tenha em mente, nas campanhas educativas, que há pessoas que podem e outras (por características psicológicas próprias !) que não deveriam fumar, por colocar em risco sua saúde. E isso me parece óbvio!




Obrigado, estimado amigo!
Adriano Nunes