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domingo, 17 de fevereiro de 2013

Adriano Nunes: Por que Antonio Cicero merece a vaga deixada por meu amigo Lêdo Ivo na Academia Brasileira de Letras?

Por que Antonio Cicero merece a vaga deixada por meu amigo Lêdo Ivo na Academia Brasileira de Letras?




Porque, dos concorrentes atuais, nenhum possui a verve clássica e popular ao mesmo tempo. Cicero há muito vem fazendo um trabalho de divulgação da Poesia em seu belo blog "Acontecimentos", além de sair pelo Brasil e pelo mundo engendrando palestras tanto sobre a arte poética quanto sobre o pensar filosófico. A sua popularidade daria uma nova luz à Academia, uma dimensão alegre, viva. A sua poesia está entre as mais célebres da atualidade, seus textos e ensaios são de uma beleza rara, Cicero é versado e hábil em vários idiomas, tais como francês, inglês, russo, grego, latim, espanhol, alemão, o seu livro "O mundo desde o fim" é um marco na filosofia brasileira, sem dizer que as suas letras de músicas são um fulgor à parte. Ora, quem nunca cantou "O último romântico" e não sabe de cor o refrão? Quem nunca dançou ao som de "fullgás" e tantos outros sucessos emplacados pela sua irmã Marina Lima? Cicero é um gentleman acima de tudo: humilde, dado aos amigos, nem parecendo ser uma celebridade, sempre visto em sebos e livrarias, andando pelas ruas da cidade do Rio, nos eventos poéticos, disposto a divulgar os trabalhos de todos os poetas. E tendo o status que lhe cabe, nunca deixou de comunicar-se com seus leitores através do seu blog ou email. Antonio Cicero reluz. Além do fato de que Lêdo Ivo tinha uma grande admiração por ele, não só me relatando pessoalmente como explicitou isso em meu livro. A cadeira dez pertencia a um excelente poeta. Que volte para outro! Viva Cicero!

sábado, 29 de dezembro de 2012

Entrevista feita pela jornalista Janaína Ribeiro e publicada na Gazetaweb/Globo dia 29 de dezembro de 2012

Entrevista feita pela jornalista Janaína Ribeiro e publicada na Gazetaweb/Globo dia 29 de dezembro de 2012:


Admirado por Lêdo Ivo, policial alagoano lança primeira obraEm Laringes de Grafite, Adriano Nunes diz que escreveu sobre o que pensa e sente com relação ao mundo



“Sou médico e policial federal. Mas, além e acima de tudo, sou poeta”. É assim que ele se define. Entre a ciência que lhe permite cuidar da saúde das pessoas e a profissão que faz com que investigue crimes praticados na esfera da União por pessoas comuns e agentes públicos, Adriano Nunes prefere se ‘perder’ na criação de versos, que, ainda que por apenas alguns instantes, transcende-o para um mundo que permite o seu afastamento da vida cotidiana, daquela vida que, em tese, nem tem doentes e nem criminosos por perto. 

Há menos de um mês, no final de novembro, Adriano Nunes lançou sua primeira obra: Laringes de Grafite. O livro surge após três décadas de produção literária. Acredite! Ele escreve desde os cinco anos de idade. “Esse livro representa a minha vontade íntima e necessária de desafiar o infinito, de pôr à vista da crítica do leitor o meu mundo do pensamento e sentimento, de expor-me, sem medo”, disse ele. 

O nome do título é o mesmo de um poema escrito há tempos, mas que, após a seleção do conteúdo que seria incluído na publicação, foi guardado para outra oportunidade. “Sou médico e escritor, então, o nome do livro é uma mistura do que me penso e sinto. Já escrevi um poema chamado Laringes de Grafite, mas não nessa obra”, contou o escritor. 







A orelha de Laringes de Grafite foi escrita pelo imortal da Academia Brasileira de Letras Lêdo Ivo, alagoano falecido há uma semana após ter passado mal, em viagem a Espanha. “Lêdo deu-me imensa alegria quando se propôs a escrever sobre a minha poesia. Eu o admirava muito e ele me disse várias vezes gostar do que eu escrevia. Sinto-me honrado por terem as orelhas do meu livro sido escritas por ele. Perdi um amigo, um protetor, um poeta, o maior poeta alagoano de todos os tempos”, lamentou Nunes. 

O filósofo Antonio Cícero (irmão da cantora Marina Lima) escreveu o prefácio. “Cicero é meu amigo. Fiquei muito feliz ao saber que o meu livro o agradou bastante. Por ele ser um ser voltado para a razão, de medir o que se diz e escreve, as suas palavras são um prêmio. Sou bastante grato a ele por tudo o que fez por mim”, declarou o poeta. 




As motivações para compor 

Quando começa a escrever, Adriano Nunes tenta unir o que sente às formas de rima e métrica. “Quando inicio um verso, percebo, sinto, constato que a partir dali posso produzir um poema. A primeira palavra já vem carregada de uma grande responsabilidade estética, pois ela vai moldar as minhas ideias, vai ter que orientar-me feito bússola, terá que guiar-me, sem receios, até o fim do túnel, terá que acender todas as luzes ou mesmo criá-las, terá que me prender a atenção, terá que me oferecer, de imediato, uma direção: ou por seu número de sílabas poéticas, ou pelo seu significado, ou pelo impacto que pode causar visualmente, ou pela possibilidade de ofertar-me figuras de linguagem, a exemplo de metáforas, aliterações e quebras silábicas. Ou imprimir um ritmo em minha mente. Não aceito o poema pronto, não o vejo concebido para o público ainda, sem que o mesmo passe pelo crivo da minha razão crítica. Tento fazer o melhor para o poema. E tudo serve de inspiração”, explicou. 

E tanto amor à poesia não é fruto de uma relação recente entre criações e criador. O encantamento de Adriano Nunes pelos versos começou ainda na infância dele. “A literatura é anterior à medicina, em minha vida. Escrevo desde os cinco anos de idade. Quando eu era criança e pré-adolescente, as letras das canções eram poemas para mim e os meus poetas eram os compositores e cantores. A relação afetiva e efetiva que eu tenho com as palavras, com as letras, é de contemplação, de espanto, de susto, de milagre mesmo”, revelou o escritor. 





E foi o português Fernando Pessoa o maior inspirador de Adriano Nunes. “O primeiro poeta a entrar em meu mundo foi Fernando Pessoa, meu mestre maior. Com a vinda da medicina, outros poetas invadiram o meu eu para sempre. Aprendi, com todos os escritores que amo, a tratar os meus versos como um filho e como um paciente. Feito um filho, o meu verso precisa ser educado. Às vezes, rigidamente. Mas sempre amado, muito amado. Quando digo que trato um verso meu como um paciente, quero expressar o cuidado que tenho por ele, o carinho em expô-lo ao universo sem as amarras do tempo, sem o hermetismo da contemporaneidade, sem que a ferrugem, os estigmas, os dogmas caiam sobre ele, sem que o impregnem de classificação, rótulos. Não pertenço a nenhuma escola literária e não me ponho em nenhum estilo. Cito até Walt Whitman para me caracterizar: “Sou amplo, contenho multidões. Os meus poemas querem muito, eu sei. Mas querem a sua própria natureza, querem ser apenas poemas”, defendeu. 



“Nunes recebeu ainda influências dos poetas clássicos Horácio, Shakespeare, Homero e Camões. Mas ele também ‘passeia’ pela modernidade e adora ler os trabalhos de Arnaldo Antunes, Antônio Cicero e Eucanaã Ferraz. “E a música é outra fonte de inspiração e influência. Assim, inspiro-me em Caetano Veloso, Adriana Calcanhotto e Péricles Cavalcanti”, detalhou. 

E duas novas produções literárias já começaram a ser ‘desenhadas’ por Adriano Nunes. Elas ainda não têm nome, entretanto, seus formatos já estão definidos na cabeça do poeta. “Um será somente de sonetos. O outro, de poema visuais e concretos. Quero poder fazer literatura até meu último dia de vida”, idealizou.



Link da reportagem: http://gazetaweb.globo.com/noticia.php?c=330674&e=6



quarta-feira, 21 de novembro de 2012

CONVITE PARA O LANÇAMENTO DO LIVRO "LARINGES DE GRAFITE" DO POETA ADRIANO NUNES





Dia 29 de novembro de 2012, na Academia Alagoana de Letras, lançamento do meu livro LARINGES DE GRAFITE, com a presença do poeta acadêmico (ABL) Lêdo Ivo. 


LARINGES DE GRAFITE conta com capa do artista plástico Gal Oppido, orelhas de Lêdo Ivo e prefácio de Antonio Cicero Oficial.

Do maravilhoso poeta acadêmico Antonio Carlos Secchin sobre o livro LARINGES DE GRAFITE: 



"Uma bela surpresa, já antecipada no fino estudo introdutório de Antonio Cicero. Adriano Nunes consegue ser polígrafo num único gênero, desenvolvendo múltiplas vozes e inflexões. Seus textos são réplicas, não pastiches, aos poetas homenageados. 

Adriano Nunes vai muito bem em formas e ritmos variadíssimos, o que é raro. Gostei muito, igualmente, dos poemas que Adriano “dedica” a...Adriano, isto é, aqueles em que algum diálogo poético, se existe, é apenas implícito; caso de “Engasgo”, “Fuga”, e tantos outros textos de qualidade."

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Adriano Nunes: CRÍTICA LITERÁRIA: "Porventura" de Antonio Cicero


CRÍTICA LITERÁRIA: 
"Porventura" de Antonio Cicero


A poesia é indispensável. Isso seria um justo balanço para que um poeta dissesse às musas o quão importante é a poesia, para o próprio poeta, para os outros poetas, para o leitor, para o mundo, para a poesia, sim, para a poesia, porque a poesia que é indispensável é a boa poesia, aquela trabalhada, pensada, muitas vezes tardia, muitas vezes mutilada, dissecada, precisa, que pode demorar anos, meses, dias, horas, minutos ou surgir, súbita, em segundos, como um susto, um lampejo, um relâmpago, para, depois de plena, lançar cosmos no cosmo, existências sobre a existência. Bem, o leitor, no final das contas, no balanço geral, definitivo, é quem mais ganha com isso. O livro "Porventura" de Antonio Cicero, recentemente lançado pelo Grupo Editorial Record, com seus 35 belos poemas, justifica afirmar: A poesia é muito mais que indispensável!

Marcado por momentos intimistas, cotidianos (perdas de amigos, familiares) e reflexivos, "Porventura" se desdobra, multiplica-se a cada vez que é lido. O livro se abre com o denso e tenso poema "Balanço" com hendecassílabos instigantes, belos, nos quais o saldo alegre, nítido, colorido que o amor impõe à vida, anulando a morte, contrapõe-se com a presença fria, dura, pesada, da morte, que também tem arte.

"Porventura" é um grande achado na poesia contemporânea. Seus poemas, aparentemente simples, muitos dos quais fazendo referências ao dia a dia, como se fossem feitos para um leitor comum, desatento, não o são. São versos calculados, feitos com maestria, onde se percebem o rigor técnico apurado, uma sensibilidade superior e um viés poético único, universal, capaz de criar imagens especiais, impactantes, de uma beleza rara, ou melhor, dadas como portentos à vista de quem lê.

Cicero trabalha ainda um de seus temas preferidos, a mitologia, a Grécia Clássica, fazendo referências explícitas a Homero, a Horácio, à Guerra de Troia, a Ícaro, iluminando-nos com o seu saber.

Ao ler "Porventura", emocionei-me bastante. Algo me tocou profundamente. Como leitor. Como poeta. Como amigo que ganha de presente um poema dedicado - "Leblon" -. E chorei ao recitar o poema "Presente" dedicado ao poeta Eucanaã Ferraz, entendendo a pergunta: E Por que não dar a mim mesmo este presente?

"Porventura" é livro para se dar, dar aos amigos, é para louvar, levá-lo aonde se vai, para que a vida seja indispensável, porque é tudo e sagrada.

Adriano Nunes

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

ANTONIO CICERO: "Noite"

"Noite"




Vêm lá do canal
reverberações
do ladrar de um cão.

Uma dessas noites
tudo vai embora:
Leve-nos,
ladrão.

Abre-se o sinal
pra ninguém passar.
É melhor ser vão
tudo o que pontua
nossa escuridão.







De: CICERO, Antonio. GUARDAR. Rio de Janeiro: Record, 1996 / Vila Nova do Famalicão: Quase, 2002.





segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Adriano Nunes entrevista o poeta e filósofo Antonio Cicero

ADRIANO NUNES ENTREVISTA O POETA/FILÓSOFO ANTONIO CICERO



"A verdade é que a verdade, pelo menos no sentido convencional da palavra, não interessa ao poema." Que pode interessar a um poema? Que pode ou quer um poema? Com que peso e finalidade um poema invade a alma de tantas pessoas?

Falar sobre Antonio Cicero é sempre instigante e gratificante, é uma verdadeira viagem ao mundo insólito e intrigante das Artes e do Pensamento Humano. E entrevistar esse poeta/filósofo/letrista/tradutor/homem de rara beleza e encanto/ é uma dádiva.

Antonio Cicero é um dos grandes pensadores da Atualidade. Inicialmente, conhecido por escrever as letras das canções da sua irmã, a cantora Marina Lima, brindou-nos, com composições belíssimas, a partir dos anos 80, cravando de vez o seu nome na História da Música Pop Brasileira. É autor dos livros "O mundo desde o fim" (Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995) sobre Filosofia; "Guardar" (Rio de Janeiro: Record, 1996) seu primeiro livro de poemas, vencedor do Prêmio Nestlè de Literatura Brasileira; "A cidade e os livros" (Rio de Janeiro: Record, 2002) livro de poemas apresentado por José Miguel Wisnik; "Finalidades sem fim" (São Paulo: Companhia das Letras, 2005) onde há uma reunião de ensaios sobre Artes, Poesia, Vanguarda, Crítica, fundamental para quem desejar entender tais temas.

Assistir a uma palestra de Cicero é estar diante do que há de bom e lúcido no mundo literário e crítico. Ouvi-lo recitar poemas é como se pudéssemos voltar à Grécia Clássica e ver de perto um espetáculo iluminado de amplidão ímpar.

Nesta entrevista, procurei invadir a alma deste homem que nos alerta:

"Não sei bem onde foi que me perdi;
Talvez nem tenha me perdido mesmo,
Mas como é estranho pensar que isto aqui
Fosse o meu destino desde o começo."



ADRIANO NUNES: Como se deu seu interesse pela Poesia?

ANTONIO CICERO: Quando garoto, no ginásio, ao ler I-Juca Pirama, de Gonçalves Dias, na antologia escolar. Depois, quando fui com minha família morar nos Estados Unidos, no “high school”, ao ler Shakespeare, os poetas românticos ingleses, Walt Whitman e Emily Dickinson.

ADRIANO NUNES: Em que período da sua vida você sentiu/descobriu que era poeta? Esta descoberta não perturbou o seu "eu" filosófico já que a Filosofia é uma das suas paixões?

ANTONIO CICERO: Por essa época eu comecei a escrever textos que considerava poemas. Mas a poesia não é uma profissão. Ninguém vive de poesia, de modo que, quando eu pensava no que queria ser quando me tornasse quando adulto, jamais me passava pela cabeça ser poeta. Entretanto, eu escrevia esses textos que considerava poemas, de modo que talvez, se pensasse no assunto, me considerasse poeta, mas eu não pensava nesse assunto. Ser poeta era, nesse sentido, uma coisa que fazia parte de mim, como ter cabelos pretos. Mas demorou muito para que eu me definisse como poeta. Na verdade, isso só ocorreu depois que diferentes pessoas começaram a pensar em mim como poeta.
Muito cedo li Tolstoi, Dostoievski, Thomas Mann, Machado de Assis etc., de modo que o que eu queria mesmo ser era um romancista, ou melhor, ser um grande romancista, pois era muito ambicioso. Depois, quando comecei a ler filosofia, pensei em ser um filósofo, embora jamais – nem mesmo hoje, nem mesmo depois que algumas outras passaram a me chamar de “filósofo” – ousei me dizer tal. É que basta que uma pessoa escreva poemas – mesmo que não sejam bons – para que, de certo modo, eu ache certo chamá-la de poeta, mas não basta que uma pessoa escreva livros de filosofia ou dê aula de filosofia para que eu a considere um filósofo. Só considero filósofo aquele cujo pensamento conceitual seja capaz de me obrigar a aguçar ou a tornar mais profundo ou mais preciso ou mais sutil o meu próprio pensamento conceitual. Assim, para mim, “filósofo” é um título honorífico, que só pode ser atribuído pelos outros filósofos.

ADRIANO NUNES: Atualmente, a Poesia ou a Filosofia lhe dá mais alegria?

ANTONIO CICERO: A poesia, que é aberta ao princípio do prazer. A filosofia, por outro lado, obedece ao princípio do desempenho.

ADRIANO NUNES: Ter blog, escrever canções, fazer poemas, filosofar... como você utiliza o seu tempo no dia-a-dia para conciliar suas atividades artísticas?

ANTONIO CICERO: No momento, está muito complicada essa conciliação. Ando muito sem tempo, o que está me angustiando.

ADRIANO NUNES: Quais poetas diretamente e indiretamente influenciaram suas obras?

ANTONIO CICERO: Não é fácil saber o que foi que realmente nos influenciou. Tudo aquilo de que realmente gostei me influenciou. Entre os poetas de que mais gosto estão Homero, Horácio, Baudelaire, Goethe, Hölderlin, Rilke, Yeats, T.S. Eliot, Pessoa, Drummond.

ADRIANO NUNES: Vêem-se claramente em seus poemas temas mitológicos. Você consegue transpor tais temas para o cotidiano e o leitor se identifica com as imagens ali projetadas. Seria influência mesmo dos clássicos gregos ou fascínio pela Mitologia?

ANTONIO CICERO: O que chamamos de “mitologia” são histórias contadas nas obras dos grandes poetas gregos: Homero, Hesíodo, Píndaro, Sófocles etc. Essas obras, como todas as obras canônicas, fazem parte importante do patrimônio cultural dos poetas – e dos leitores de poesia – modernos. Elas fazem parte do vocabulário da nossa imaginação. Eu as uso mais ou menos como uso as palavras da língua. Elas são minhas, fazem parte do meu ser.

ADRIANO NUNES: Quando se discute Vanguarda no Brasil, o seu nome é frequentemente citado. O seu livro Finalidades Sem Fim trata deste assunto com clareza e requinte. Não há mais Vanguarda? Não é possível mais haver movimentos vanguardistas?

ANTONIO CICERO: A vanguarda é o que vai à frente, para mostrar o caminho para todos os demais. Só se pode falar do caminho quando se trata de um só caminho para todos. Ora, o único caminho que todos devem seguir é o de compreender que não há um só, que não há um único caminho, que há uma infinidade de caminhos possíveis: que cada um tem o direito de seguir o seu próprio caminho. Querendo ou não querendo, foi esse o caminho que a vanguarda apontou. Depois disso não há mais necessidade de vanguarda. Não é mais necessário mostrar que há uma infinidade de caminhos, porque isso já foi feito; e se, ao contrário, alguém quiser indicar um caminho diferente desse, estará, na verdade, voltando atrás, e não sendo vanguardista. A pretensão de ser vanguardista hoje é, portanto, algo reacionário. É claro que todo tipo de experimentação é e sempre será possível, mas seria errado chamá-la de “vanguarda”.

ADRIANO NUNES: Na apresentação do seu livro de poemas A Cidade e o Livros, José Miguel Wisnik diz:"Um livro espantosamente belo, e ainda capaz - homoeróticas - das mais límpidas declarações de amor que temos visto." Há preconceito na Poesia? Por que "ainda capaz" soa como se não fosse possível?

ANTONIO CICERO: Não considero preconceituosa a declaração do Wisnik. Eu a parafrasearia do seguinte modo: “um livro que, além de espantosamente belo, é capaz das mais límpidas declarações de amor – por acaso homoeróticas – que temos visto”.

ADRIANO NUNES: Você sempre procura alertar para que todo poema seja bem trabalhado. O que é ser bem trabalhado?

ANTONIO CICERO: Um poema é bem trabalhado quando o poeta não confia apenas na sua primeira intuição e não se contenta rapidamente com a primeira manifestação dele, mas dá chance a que essa primeira manifestação se desenvolva maximamente, empregando ao mais alto grau todas as faculdades de que ele (o poeta) for dotado.

ADRIANO NUNES: Em muitas antologias poéticas contemporâneas, o seu poema Guardar está presente e muitos críticos/poetas/artistas consideram esse poema um dos mais belos da Poesia Brasileira. Como se deu o processo de criação desse poema?

ANTONIO CICERO: Não sei explicar. Ele parece ter-se desdobrado por conta própria.

ADRIANO NUNES: Você esperava vencer o Prêmio Nestlé de Literatura?

ANTONIO CICERO: Não esperava, mas é claro que queria ganhá-lo.

ADRIANO NUNES: As letras de suas canções tratam de variados assuntos, mais e intensamente de amor e paixão e ao mesmo tempo de amores em que o amante/amado encontram-se como se afastados do amor e da felicidade, numa luta de egos e de fugas/entregas/medos...como se tivessem que aprender a amar. Por quê?

ANTONIO CICERO: É outra coisa que não sei explicar. Elas vêm assim.

ADRIANO NUNES: O seu blog Acontecimentos é muito visitado. Como consegue manter atualizadas suas postagens e ainda responder aos comentários dos leitores? É gratificante essa troca de informações pela Internet?

ANTONIO CICERO: Ponho no blog as coisas de que gosto muito. Sempre fui muito organizado nas minhas leituras. Desde estudante universitário, tomo notas, acompanhadas de observações minhas, de quase tudo o que leio. Mas, no blog, não tenho tido tempo de fazer tantos comentários quanto antigamente. De todo modo, quando o faço, não só os leitores me ensinam muitas coisas mas, quando tento lhes explicar o que penso, explico-o também para mim mesmo.

ADRIANO NUNES: Quais poetas em atividade você pode citar como bons, que estão produzindo poemas belos, que estão em busca de Poesia de Qualidade, se é que tal termo possa ser aplicado.

ANTONIO CICERO: Acho que tal termo pode ser aplicado. Há vários poetas bons em atividade. É sempre ruim citar porque a gente não pode citar todo o mundo e sempre esquece de alguém que não podia ter deixado de citar. Além dos já clássicos Ferreira Gullar, Augusto de Campos e Décio Pignatari, que continuam produzindo, há, por exemplo, em ordem alfabética, Arnaldo Antunes, Eucanaã Ferraz, Nelson Ascher e Paulo Henrique Brito. Dos novíssimos, Omar Salomão é muito bom.

ADRIANO NUNES: O que faz um poema ser considerado belo?

ANTONIO CICERO: Não há regra geral para isso. Isso não quer dizer que valha tudo. É que são muitos os elementos que entram em jogo na apreciação de um poema. Entretanto, a verdade é que, com o tempo, embora qualquer um, de qualquer origem, possa se manifestar, e embora muitíssimos efetivamente se manifestem, tende a haver consenso em torno de determinadas obras.

ADRIANO NUNES: Os poetas virtuais estão aí publicando poemas em blog/sites, já que há certa dificuldade/custo com editoras para que um livro seja publicado. O que seria preciso para que as Editoras publicassem mais livros de poemas? Nas livrarias, o espaço reservado para a área "POESIA" é sempre menor em comparação com outras áreas. Poesia não dá dinheiro?

ANTONIO CICERO: Não, poesia não dá dinheiro. Leminski dizia que isso é uma das grandes vantagens da poesia sobre as outras artes, pois significa que ninguém faz poesia por dinheiro. Observo que isso não é de hoje. Sempre foi assim, desde que surgiu a poesia escrita. E antigamente era pior, pois não havia Internet. Além disso, é muito mais barato publicar um livro hoje do que há poucos anos atrás.

ADRIANO NUNES: Quais seus próximos projetos literários?

ANTONIO CICERO: Um livro de poemas.

ADRIANO NUNES: Que há de "novo" e bom no gigantesco mundo das Artes?

ANTONIO CICERO: O reconhecimento internacional da importância das artes plásticas brasileiras. O caminho foi aberto pelas exposições de Hélio Oiticica na Europa e nos Estados Unidos. No momento, Cildo Meireles está tendo uma grande exposição na Tate Modern, em Londres.

ADRIANO NUNES: Há algum poeta nesse mundo virtual de blog/sites que você considera como bom e promissor?

ANTONIO CICERO: Sim: você, por exemplo.

ADRIANO NUNES: Qual o poder e o peso de um poema?

ANTONIO CICERO: A leitura cuidadosa de um grande poema é capaz de fazer o leitor dizer a si próprio, como Rilke, ao contemplar o torso arcaico de Apolo: “Tens que mudar tua vida”.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Antonio Cicero: "Guardar" (Começo o blog em sua homenagem!)


Guardar é o primeiro livro de poemas de Antonio Cicero
(Vencedor na categoria poesia do Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira 1997)




Antonio Cícero
"Guardar"



Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.