"Súplica"
Retirem-me desse estorvo,
Não necessito de cofre,
De prisão, de dentro estar
Do nada, não mais me forjo
Co' os nervos, músculos, ossos,
Resgatem-me disso logo,
Não me larguem nos grilhões
Da matéria, nessa treva.
Formem-me sem uma forma
Fixa, sem arquitetura
Ferida de pedra ou ferro,
Deixem que me saiba signo,
Cravem-me em outras moradas,
Entre oxímoros, metáforas.
Projetem-me feito um mote,
Protejam-me dessa esfera
Forjada em óbvios, à força,
Fundem-me numa figura
De linguagem, sem o nexo
Espúrio do status quo
Do mundo que se diz tudo.
Libertem-me deste espírito,
Devolvam-me o alívio, a vida,
Deixem-me virar um peixe,
Uma ave exótica, víbora,
Uma libélula alegre,
Um tigre dente-de sabre,
Em um verso, mesmo breve.
sexta-feira, 26 de junho de 2009
terça-feira, 23 de junho de 2009
Adriano Nunes: "Canto irreverente XI"
"Canto irreverente XI"
Eu canto o não-canto,
A vida sem volta,
O vestido velho
Das novas lembranças,
O canto das ditas,
O canto dos véus,
O canto dos mudos,
Dos muros, do caos
Escuro, do céu
Sem nuvem, sem Deus,
Canto a outra voz
Dos tantos assombros,
Os grilos, as grutas
Grávidas dos ecos,
Laringes de pedras,
Grilhões de traqueias,
Gargantas de vidro,
Provetas e pelves
De plástico, tubos
De ensaio de músculos,
Contrações e traumas,
Eu canto a babel,
Todos os projetos
Dos desiludidos,
Todas as cigarras,
Atritos e tédios,
Termômetros, trânsitos,
Greves, grades, grãos,
O rosa no azul,
O verde dos olhos,
Grandes precipícios,
Poemas rasgados,
Eu canto propósitos,
Promessas, retinas,
O silêncio em si,
As sombras, as preces,
Os bêbados bardos,
Os buracos negros,
Os sebos, os sonhos
Das iranianas,
A tristeza, as sombras
Na Faixa de Gaza,
Delícias, delírios,
Eu canto o infinito
Do verso, a beleza
Na vitrine, o luxo
Dos tapetes persas,
O nexo dos loucos,
O plexo dos nervos,
Medusas, sereias,
Travestis, mulatas,
As rotas, os jorros,
As cartas marcadas,
O medo dos homens,
Eu canto o vazio
Das almas, a luz
Dos bares, o som
Dos carros, a cor
Das aves, a voz
Dos rádios, a vez
Da televisão,
Todos os palhaços,
Todos os profetas,
Todos os profanos,
Todos os programas,
Eu canto o tormento,
O canto não-cântico,
O eterno retorno,
O cinema novo,
O amor sem ser medo,
O amor sem ser mofo,
O amor sem ser mudo,
O amor sem ser mídia,
O amor sem ser média,
O amor sem ser moda,
O amor sem ser merda,
Eu canto o lá fora,
O momento agora,
Passado, porvir,
Festas, funerais,
Passeios, paradas,
Pecados, perigos,
Os sextos sentidos,
Buda, Cristo, Alá,
Os livros, os discos,
Convites, conchavos,
Tropeços, estradas,
Eu canto mentiras,
Verdades, vontades,
Angústias, agostos,
Galeras, exílios,
Os quadros, os círculos,
Vênus e Vesúvios,
Quedas, saltos, vôos,
Pernas, braços, paus,
As vulvas, as vendas,
Vínculos e vícios,
Começos e fins,
Eu canto o que sou.
Eu canto o não-canto,
A vida sem volta,
O vestido velho
Das novas lembranças,
O canto das ditas,
O canto dos véus,
O canto dos mudos,
Dos muros, do caos
Escuro, do céu
Sem nuvem, sem Deus,
Canto a outra voz
Dos tantos assombros,
Os grilos, as grutas
Grávidas dos ecos,
Laringes de pedras,
Grilhões de traqueias,
Gargantas de vidro,
Provetas e pelves
De plástico, tubos
De ensaio de músculos,
Contrações e traumas,
Eu canto a babel,
Todos os projetos
Dos desiludidos,
Todas as cigarras,
Atritos e tédios,
Termômetros, trânsitos,
Greves, grades, grãos,
O rosa no azul,
O verde dos olhos,
Grandes precipícios,
Poemas rasgados,
Eu canto propósitos,
Promessas, retinas,
O silêncio em si,
As sombras, as preces,
Os bêbados bardos,
Os buracos negros,
Os sebos, os sonhos
Das iranianas,
A tristeza, as sombras
Na Faixa de Gaza,
Delícias, delírios,
Eu canto o infinito
Do verso, a beleza
Na vitrine, o luxo
Dos tapetes persas,
O nexo dos loucos,
O plexo dos nervos,
Medusas, sereias,
Travestis, mulatas,
As rotas, os jorros,
As cartas marcadas,
O medo dos homens,
Eu canto o vazio
Das almas, a luz
Dos bares, o som
Dos carros, a cor
Das aves, a voz
Dos rádios, a vez
Da televisão,
Todos os palhaços,
Todos os profetas,
Todos os profanos,
Todos os programas,
Eu canto o tormento,
O canto não-cântico,
O eterno retorno,
O cinema novo,
O amor sem ser medo,
O amor sem ser mofo,
O amor sem ser mudo,
O amor sem ser mídia,
O amor sem ser média,
O amor sem ser moda,
O amor sem ser merda,
Eu canto o lá fora,
O momento agora,
Passado, porvir,
Festas, funerais,
Passeios, paradas,
Pecados, perigos,
Os sextos sentidos,
Buda, Cristo, Alá,
Os livros, os discos,
Convites, conchavos,
Tropeços, estradas,
Eu canto mentiras,
Verdades, vontades,
Angústias, agostos,
Galeras, exílios,
Os quadros, os círculos,
Vênus e Vesúvios,
Quedas, saltos, vôos,
Pernas, braços, paus,
As vulvas, as vendas,
Vínculos e vícios,
Começos e fins,
Eu canto o que sou.
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sábado, 20 de junho de 2009
Adriano Nunes: "À palavra" - Para José Mariano Filho
"À palavra" - Para José Mariano Filho
Trama viva,
A palavra
Tudo abraça.
O seu flerte
Não reflete o
Que paquera.
Uma pérola?
Uma pétala?
Ao poeta,
Que revela?
Com seus véus,
Como vê-la?
Com que golpe,
Desfigura-se?
Com que gesto,
Desafia
A visão
Que a divisa?
Vem da alma
Do universo?
Que galáxia
De utopia
Amalgama
Os seus âmagos?
Agasalha-se em
Quantas mágicas?
Com que grito,
Dos grilhões,
A palavra
Tudo assalta?
Garimpando-a,
Com destreza,
O que falta?
Dá-se aos voos,
Com quais asas?
Com que pressa?
Teme, às cegas,
Desgastar-se?
Tece planos,
Pondo, à prova,
Todo o canto,
Corações,
Pensamentos,
O impossível
De um momento?
Por que calha,
À palavra,
O infinito?
Por que colhe
Até lágrimas,
Presa às páginas?
De que gosta?
Como goza?
Por que vibra
O chocalho,
Em vigília,
Feito víbora?
Em alarme,
Feito gado?
Por que quer
Mastigar
As metáforas,
Os metâmeros,
Dos sentidos,
Ser mais que
Qualquer signo?
Retalhando-se e
Espalhando-se,
Através
Dos espelhos
Dos vernáculos,
Feito espectro,
Estilhaços
Dos ocasos
Dos acasos,
A palavra
Quer vingar,
Ser somente,
Neste instante,
Alegria,
Ser além,
Ser maior,
Quer só ser
Poesia.
Trama viva,
A palavra
Tudo abraça.
O seu flerte
Não reflete o
Que paquera.
Uma pérola?
Uma pétala?
Ao poeta,
Que revela?
Com seus véus,
Como vê-la?
Com que golpe,
Desfigura-se?
Com que gesto,
Desafia
A visão
Que a divisa?
Vem da alma
Do universo?
Que galáxia
De utopia
Amalgama
Os seus âmagos?
Agasalha-se em
Quantas mágicas?
Com que grito,
Dos grilhões,
A palavra
Tudo assalta?
Garimpando-a,
Com destreza,
O que falta?
Dá-se aos voos,
Com quais asas?
Com que pressa?
Teme, às cegas,
Desgastar-se?
Tece planos,
Pondo, à prova,
Todo o canto,
Corações,
Pensamentos,
O impossível
De um momento?
Por que calha,
À palavra,
O infinito?
Por que colhe
Até lágrimas,
Presa às páginas?
De que gosta?
Como goza?
Por que vibra
O chocalho,
Em vigília,
Feito víbora?
Em alarme,
Feito gado?
Por que quer
Mastigar
As metáforas,
Os metâmeros,
Dos sentidos,
Ser mais que
Qualquer signo?
Retalhando-se e
Espalhando-se,
Através
Dos espelhos
Dos vernáculos,
Feito espectro,
Estilhaços
Dos ocasos
Dos acasos,
A palavra
Quer vingar,
Ser somente,
Neste instante,
Alegria,
Ser além,
Ser maior,
Quer só ser
Poesia.
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quinta-feira, 18 de junho de 2009
ADRIANO NUNES: "(PER)VERSOS" - PARA ANTONIO CICERO.
(P E R)V E R S O S - PARA ANTONIO CICERO
P á g i n a a
P á g i n a
V ô o s
V e n d o o s
V e r s o s
V i v o s
P a s s o o s
P a s m o
P á s s a r o s
V í b o r a s
V i n g o o s
P r a n t o s
P o n t o a
P o n t o
V í r g u l a a
V í r g u l a
P á g i n a a
P á g i n a
V ô o s
V e n d o o s
V e r s o s
V i v o s
P a s s o o s
P a s m o
P á s s a r o s
V í b o r a s
V i n g o o s
P r a n t o s
P o n t o a
P o n t o
V í r g u l a a
V í r g u l a
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terça-feira, 16 de junho de 2009
Adriano Nunes: "Noite avulsa" - Para Arnaldo Antunes
"Noite avulsa" - Para Arnaldo Antunes
Enfim, a noite finda
Triste, sem uma estrela,
Fugaz e sem fulgor.
Entre as trevas que invento,
A lua. Posso vê-la a
Lutar contra o momento,
Abrigando-se, agora,
No horizonte, engolida
Pela penumbra, expulsa
Da calota, da vida
Da aurora que a devora,
Ante um céu ditador.
À beira da berlinda,
Tudo sangra, pra espanto
Do observador, enquanto
A noite esvai-se avulsa.
Enfim, a noite finda
Triste, sem uma estrela,
Fugaz e sem fulgor.
Entre as trevas que invento,
A lua. Posso vê-la a
Lutar contra o momento,
Abrigando-se, agora,
No horizonte, engolida
Pela penumbra, expulsa
Da calota, da vida
Da aurora que a devora,
Ante um céu ditador.
À beira da berlinda,
Tudo sangra, pra espanto
Do observador, enquanto
A noite esvai-se avulsa.
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terça-feira, 9 de junho de 2009
Adriano Nunes: "Noite aberta"
"Noite aberta"
Abro as frestas
Do meu âmago,
Para mundos
Ter em mim.
Nesta noite
Estrelada,
Minha vida
Que quer ver?
Que suporta
Mais sentir
A minh'alma?
Da varanda
Do sobrado,
Vejo as ruas,
Gris telhados,
Grandes muros,
Portões, grades,
Verdes árvores
Quase templos,
Outras casas...
Mas o caos
Cai do céu
Feito lágrima
Ou são tempos
Apagados
Pelas dobras
Dos amassos
No papel?
Candelabros?
Velas? Lâmpadas?
Sóis? Lanternas?
Ou faróis?
Nesta noite,
Por que não
Ponho vendas
Em meus olhos?
Abro as frestas
Do meu âmago,
Para mundos
Ter em mim.
Nesta noite
Estrelada,
Minha vida
Que quer ver?
Que suporta
Mais sentir
A minh'alma?
Da varanda
Do sobrado,
Vejo as ruas,
Gris telhados,
Grandes muros,
Portões, grades,
Verdes árvores
Quase templos,
Outras casas...
Mas o caos
Cai do céu
Feito lágrima
Ou são tempos
Apagados
Pelas dobras
Dos amassos
No papel?
Candelabros?
Velas? Lâmpadas?
Sóis? Lanternas?
Ou faróis?
Nesta noite,
Por que não
Ponho vendas
Em meus olhos?
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quinta-feira, 4 de junho de 2009
Adriano Nunes: "Entre os versos"
"Entre os versos"
Sigo o rastro
Dos poemas,
Em silêncio.
Tudo encontro,
Entre os versos:
Signos, sonhos,
Tempos, Ítacas,
Alegrias,
Láureas letras,
O infinito
Ante o enigma
Voraz, íntimo,
De ser só
Quem me sinto...
E os fragmentos
Do que lera
Em mim fincam-se e
Edificam-me.
Sigo o rastro
Dos poemas,
Em silêncio.
Tudo encontro,
Entre os versos:
Signos, sonhos,
Tempos, Ítacas,
Alegrias,
Láureas letras,
O infinito
Ante o enigma
Voraz, íntimo,
De ser só
Quem me sinto...
E os fragmentos
Do que lera
Em mim fincam-se e
Edificam-me.
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