quinta-feira, 27 de maio de 2010

Adriano Nunes: "Retrato-falado" - Para a minha mãe

"Retrato-falado" - Para a minha mãe


Tantos palhaços no centro da praça,

Outrora. Eu era criança... Lembro-me 
De que um grande circo ali se instalara, 

Entre as batidas do meu coração.

Era a alegria imensa. Era festa 
De primos e parentes e amiguinhos 

Da minha rua. Era uma alegria e

Eu não sabia o que significava 
Ter Alegrias. Ela nunca passa.

Ela finge que passa, passa. Pássaro 

Pra longe voa. Por que pedra não 
Canta? Que canto? Por que pedra não 

Grita? Ela jamais responde nada.

Ela não me maltrata. Ela diz
Que quer mais. Ela sequer me arquiteta

De vez. A mesma vida vista. A vida.

A lida moldada em casa, pelos olhos 
De minha mãe, por comedida graça.

Era portento preso ao coração.

A língua solta da empregada, aquela 
Repleta de quimeras, de namoros 

À porta. A vida era a porta, era 

A janela, o sorriso dos rapazes,
Piscadela e flertes. Era o que era...

Cinderela, sempre à espera, mais real.

Banguela, sorrir ela não sabia, 
E sorríamos por ela. Sorríamos 

Tentando vê-la sorrir. Pressa tínhamos.

(Temo que em mim perceba que a tristeza 
A impedir-me de ver com a leveza

Dela, a vida, sem dentes, sem sorriso,

Sem sua língua solta) Ela tinha 
Planos e muitos retratos mofados

Guardados na gaveta do criado-
Mudo. (Que mundos havia em seu quarto?)
Ela sabia dizer 'I love you'.

Por enquanto, ela insiste em dizer
Que está cansada da velha batalha 
Diária de panela e prato e pia.

Ela está cansada de tudo. Ela 

Deu-se ao infinito, ao deus-dará, levando a
Vida no verso da vida do lar.

Ela é gigantesca. Ler Pessoa, 
Camões, Padre Vieira. Vez ou outra
Arrisca-se e recita Homero e Horácio.

Ela vinga em mim. Nada é mesmo fácil.
Tantos palhaços no centro da praça...
Agora se desdobra o tudo ou nada.




3 comentários:

Ana Tapadas disse...

Ah nossas queridas mães1
Adorei.
Beijinho

ADRIANO NUNES disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
betina moraes disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.