domingo, 16 de julho de 2017

Adriano Nunes: "O x da questão"- para Péricles Cavalcanti

"O x da questão" - para Péricles Cavalcanti


Do Ajax, de Homero,
A Obelix e Asterix,
De Uderzo e Goscinny,
De Marx a Max, ao mix
De tudo que surgir
Pode, como no poema
Polivox de Waly,
Cantado por Adrix.
Ou ad hoc o termo latim
Ex, como em ex libris.
Ou o nosso ex, para
Dizer que já era.
Fiat lux! Pax aeterna!
De Mad Max a Matrix,
De Frevox a Tropix,
De INXS a Bono Vox,
Dos óxidos ao botox,
Da fúria de Sufax
À Feira Mix.
Dos anúncios da OLX
Aos pedidos no Tex
Bar, lá da Consolação,
Que, ao acaso, descobri.
Os sons da Rádio Mix.
Da antiga Sfax
Ao satélite Sycorax.
Eis o X da questão.

sábado, 15 de julho de 2017

Adriano Nunes: "Nesta noite infinda"

Nesta noite infinda"

Vinte e três e trinta.
Nenhuma dor finda.
Queres que já minta?
Sonhos na berlinda.

Vinte e três e... ainda
Vinga em mim a tinta
Do que se deslinda
Em ser, e tudo pinta.

Do amor, a vez linda,
Os flertes, a finta,
Os truques. A vinda...
Da vida distinta.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Adriano Nunes: "Outra beleza"

"Outra beleza"


Teu nome: pedra.
Outra beleza
Que em mim impera

Através desse
Alegre flerte
Que de ti vem,

Sem medo, pressa,
Que me conecta
A mim, sem que

Todo o prazer
No olhar se perca.
Um norte: pérola

Métrica, pele
Morena. Nem
Sei dizer bem

Como te quero.
Do plano, a presa
Sem chance de

Fuga, sem ter
Como, assim creio,
Escapar mesmo

Deste desejo
Que mais desejo,
Agora, a esmo.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Adriano Nunes: "Há os olhos para depois"

"Há os olhos para depois"


Noite. Algum corpo finca-se
No horizonte das vontades.
Há os olhos para depois.
Há os lábios para o liame mais íntimo.
E esse espaço recoberto de silêncios
E sonhos de inexistências.
Tudo esfacelado? Tudo jorrando
Pela solidão de tudo enquanto tudo.
Vez ou outra, os ruídos da rua rasgam a vida.
Vez ou outra, o pensar se desprende
Do que parece ser acaso.
Aquela notícia no jornal de ontem.
Aquele homem já sem vida.
Aquela oferta com mercadoria vencida.
Tudo dói ainda. Porque não
Importa ter mais olhos para lágrimas,
E para apertos e angústias múltiplas
Ter coração.
Cadê o moço de frete que já não passa,
Por aqui, com sorrisos de delícias e desventuras?
Cadê a vendedora de milho cozido?
Tudo foi excluído pela noite.
Já não há as portas abertas, as vizinhas
A domar o mundo com as orelhas e as línguas.
Já não se veem as peripécias dos moleques,
Os passeios trôpegos das velhas.
Ó, noite, por que me dás a quântica tristeza,
Para que não findes despercebida?
Tudo que corrói e dilacera.
A ferida aberta. O calor. A meta.
Há os olhos de nós dois...
Este êxtase de amalgamar tudo que se foi
Com a ideia de retorno, de reinício.
A vaidade e o vínculo e o vício.

Adriano Nunes: "Flerte"

"Flerte"


Desprende-se
De ti
O flerte,

Porém
Não sabes.
O acaso

Levando-nos
A ser-nos
Dois entes

Estranhos.
Teus músculos,
A música

Do último
Instante:
Desejo

De apenas
Saber-te
Desejo:

A pele
Morena,
O laço

Ardente.
Não sentes,
Sei bem.

Enquanto
À espera
De um lance

De amor
Estou,
Silêncio,

Suor
E força
Alertam-me:

A vida
Ainda
É outra!

Adriano Nunes: "Não há escapatória"

"Não há escapatória"


Na guerra inescapável da política,
Todos estão
Procurando pelos culpados. 
Apontam os dedos então
Para cima, para baixo,
Para trás, para frente.
Ninguém ousa falar
A verdade. Ela pesa sempre
Mais do que a vaidade
De compactuar com
A miséria e a desgraça.
Ainda não se sabe
O que é potencialmente bom.

Os direitos
Na corda bamba das conveniências
Balançam-se,
Para lá, para cá,
Para além do que pode o pensar.
Vez ou outra, admitem
Os mais ousados:
"Somos todos os culpados!"
Depois, parece que, rápido,
Passa o tempo e,
Por esquecido, tudo dá-se.
Os símiles corruptos e corruptíveis,
Os conhecidos ladrões das verbas para a merenda
Das crianças escolares,
Os de ágeis e práticos discursos,
Os espúrios que nunca entram em apuros,
Os que jamais nenhum apoio dispensam.

Errado, tu, leitor, não me entendas.
Retirando de ti a tua venda,
Talvez, a visão do todo possa, um pouco,
Melhorar. Um pouco. De cada vez, um pouco.
Não vês? Como não vês?
Estamos numa sopa de podridão e amarguras,
De ideais que já não servem mais.
Nossos políticos -
Como tolos somos! -, queiramos ou não,
Dilaceraram a nossa já manca esperança,
Eles furtam, fazem o jogo sujo,
Conchavos contra o povo.
Não apontemos para um ou outro
Nome. Que nome da Justiça não se esconde?
Não é justo. O poço é sem fundo.
Não se salva ninguém? Não se salva?

No País das malas fartas
E das mesadas pagas,
Só ratos, gabirus, sanguessugas cantam alto,
Trazendo vida e êxtase ao submundo
Das negociatas e trapaças.
Ó, eleitor, por que choramingas agora
Que te puseram no pescoço a corda?
Da esquerda, da direita,
Não há escapatória.
Procurando pelos culpados,
Apontam os dedos inflamados
Para todos os lados.
Da ilusão, dentro e fora.
A sujeira não tem partido.
A astúcia não tem partido.
Apenas tu, leitor,
Queres ainda essa bitola?

domingo, 9 de julho de 2017

Stephen Crane: "In the Desert" (Tradução de Adriano Nunes)

"No deserto" (tradução de Adriano Nunes)


No deserto
Eu vi uma criatura, nua, bestial,
Que, agachando-se, 
Segurou seu coração,
E dele comeu.
Indaguei: "É bom, amigo?"
"É amargo - amargo", respondeu;
"Mas eu gosto
"Porque é amargo,
"E porque é o meu"

Stephen Crane: "In the Desert"

In the desert
I saw a creature, naked, bestial,
Who, squatting upon the ground,
Held his heart in his hands,
And ate of it.
I said, “Is it good, friend?”
“It is bitter—bitter,” he answered;
“But I like it
“Because it is bitter,
“And because it is my heart.”


CRANE, Stephen. "In the desert". In:_____. https://m.poets.org/poetsorg/poem/desert. Acesso 08/07/2017.

sábado, 8 de julho de 2017

Οδυσσέας Ελύτης «Περασμένα Μεσάνυχτα» (tradução de Adriano Nunes)

"Passada a meia-noite" (tradução de Adriano Nunes)

Passada a meia-noite em minha vida inteira
Como numa Via-Láctea rasante pesa a minha cabeça
Todos dormem com a face prateada, santos
Vazios de paixões são arrastados pelo vento
Até o cabo do Grã Cisne. Quem foi feliz e quem não e depois?
Todos findamos símile deixando enfim
Uma saliva amarga e gravados na face sem barbear
Caracteres gregos que tratam de ajustar-se um ao outro para que
A palavra de tua vida a única se...
Passada a meia-noite em minha vida inteira
Passam carros de bombeiros, até que incêndios
Ninguém sabe. Num quarto de quatro por cinco o fumo se condensou. 

Apenas se distinguem
A folha de papel e minha máquina de escrever. Deus
Golpeia as chaves e as incontáveis penas chegam até o teto
Perto da aurora
aparecem por um momento as costas e sobre
Elas verticalmente as montanhas são escuras e púrpuras.
Realmente parece que
Vivo para quando já não mais exista
Passada a meia-noite em minha vida inteira
Todos dormem sobre um de seus flancos, aberto
O outro para ver erguer-se a vida onda
Após onda e tua mão se estende
Como a de um morto no instante em que o apanha
a primeira verdade.


Οδυσσέας Ελύτης «Περασμένα Μεσάνυχτα»

Περασμένα μεσάνυχτα σ’ όλη μου τη ζωή
Σαν σε χαμηλωμένο Γαλαξία το κεφάλι μου βαρύ
Κοιμούνται οι άνθρωποι με τ’ ασημένιο πρόσωπο· άγιοι
Που άδειασαν από τα πάθη κι ολοένα τους φυσάει ο αέρας μακριά
Στον κάβο του Μεγάλου Κύκνου. Ποιος ευτύχησε, ποιος όχι
Και ύστερα;
Ίσα τερματίζουμε όλοι στερνά μένουν
Ένα σάλιο πικρό και στο αξύριστό σου πρόσωπο
Χαραγμένα ψηφία ελληνικά που το ένα στο άλλο ν' αρμοστούν
αγωνίζονται ώστε
Η λέξη της ζωής σου η μία εάν...
Περασμένα μεσάνυχτα σ’ όλη μου τη ζωή
Περνάν τα οχήματα της Πυροσβεστικής, για ποιαν από
τις πυρκαγιές
Κανείς δεν ξέρει. Σ’ ένα δωμάτιο τέσσερα επί πέντε ντουμάνιασε
ο καπνός. Προεξέχουν μόνον
Η κόλλα το χαρτί και η γραφομηχανή μου. Πλήκτρα
Χτυπά ο Θεός και αμέτρητα είναι τα βάσανα έως το ταβάνι
Κοντά να ξημερώσει
μια στιγμή φανερώνονται οι αχτές με κάθετα
Πάνω τους τα βουνά σκούρα και μωβ. Αλήθεια θα ‘ναι φαίνεται ότι
Ζω για τότε που δεν θα υπάρχω
Περασμένα μεσάνυχτα σ’ όλη μου τη ζωή
Κοιμούνται οι άνθρωποι στο ‘να τους πλευρό, τ’ άλλο τους
Ανοιχτό να βλέπεις που ανεβαίνει κύματα
Κύματα η ζωή και να ‘ναι τεντωμένο το χέρι σου
Σαν του νεκρού τη στιγμή που του παίρνεται η πρώτη αλήθεια.
Οδυσσέας Ελύτης. "Περασμένα Μεσάνυχτα". In:_____. http://odysseas-elitis.weebly.com/904xiiota-kappaalphaiota-….

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Adriano Nunes: "Eu não posso ir às tralhas dos sonhos"

"Eu não posso ir às tralhas dos sonhos"


Eu não posso ir às cinzas de Troia.
Sei que outros de mim há entre escombros
Que são mesmo a vida e a dor da cidade.
Do mar alto a fumaça me diz tudo.
Eu não posso ir às tralhas dos sonhos.
Cada gemido, cada grito têm-me
Inteiramente. Sou esta agonia
Desesperada de não saber o
Que acontece entre as chamas e as flechas.
Nossos deuses estão demais doentes.
Nossas fúrias estão atentas, bailam.
Ah, esta fumaça longínqua e fria!
Ah, este horror que é carne e tormento!
Não posso ir às mágoas de Troia.
Meus anseios de mar me agarram para
Que eu possa sentir o medo e a malícia
De saber que medo e malícia há
Entre as entranhas da manca esperança.
A esperança de Troia estar intacta!
Ah, por que me deste, como presente,
A ilusão da paz e do dia após?
Por que me incendiaste por beleza?
Do mar exausto, vejo o vasto fogo
Tomando conta do que era a praia,
O recanto, a fortaleza, um instante
De êxtase em existir. Para nada.
Cinzas e gritos, prantos, sangue e névoa.
Eu não posso ir às chagas de Troia.
Ao mofo cruel da memória, às lágrimas...
O meu coração vai-se arrebentar!

domingo, 2 de julho de 2017

Adriano Nunes: "22°C"

"22ºC"


Falta você
Entre os artigos científicos,
Pode até parecer ridículo.
Entre um verbo e uma
Preposição,
Falta você entre os
Despreparos das coisas que são
Quando são só ilusão,
Entre os detalhes mínimos
Dessa solidão que é tão absurda.

Antes que a rima suma, e o verso
Liberto de metro e regra assuma
A direção do que possa vir a ser
O esboço de uma canção,
Confirmo: falta algo, decerto.
Falta você naquele parágrafo que eu não
Consigo mesmo escrever.
Ah, e a temperatura do ar
Parece já sinalizar que irá
Cair, aos poucos: falta
Um corpo disposto a fincar-se noutro.

Por que você não vejo na tevê?
Por que a sua voz da rádio não vaza?
Por que seu ser faz-se memória e tudo marca?
Em algum decassílabo você
Faltava, eu sei. Nas metáforas, o âmago
Para tudo ou nada.
Falta você este poema ler
Para saber que você já não faz falta.