domingo, 24 de setembro de 2017

William Carlos Williams: "Portent" (tradução de Adriano Nunes)

"Portento" (tradução de Adriano Nunes)


Rubro berço da noite,
Em ti
O sombrio bebê
Dorme logo até que
Seu poder tenha fim
Tendão por tendão.

Rubro berço da noite,
O sombrio bebê
Dormindo fica em pé.
Ó como
Os ventos sopram agora!
Ele retorna,
Os ventos suaves já são.

Quando os braços estende,
Rubro berço da noite,
Berram os alarmes
Da árvore nua à árvore,
Selvagens
De repente!
Forças irá ter,
Rubro berço da noite,
O sombrio bebê.


William Carlos Williams: "Portent"


Red cradle of the night,
In you
The dusky child
Sleeps fast till his might
Shall be piled
Sinew on sinew.

Red cradle of the night,
The dusky child
Sleeping sits upright.
Lo how
The winds blow now!
He pillows back;
The winds are again mild.

When he stretches his arms out,
Red cradle of the night,
The alarms shout
From bare tree to tree,
Wild
In afright!
Mighty shall he be,
Red cradle of the night,
The dusky child!!

WILLIAMS, William Carlos. "Portent". In:_____. "The Tempers". In:____. The collected poems of William Carlos Williams. Vol. I. Edited by Walton Litz & Christopher MacGowan. New York: New Directions, 2001, p. 10.

Adriano Nunes: "Do mercado"

"Do mercado"


Caixa livre!
Em dinheiro 
Ou cartão?
Aproveita a
Promoção!
Façam fila!

Caixa livre!

Vê se não
Dá pra em dez
Dividir!
Paga aqui?
Quanto fica?

Caixa livre!

Olha o troco!
Olha a nota!
Pra presente?
Não divide,
Se comida!

Caixa livre!




"Do mercado II"


Esvai-se o expediente.
Tudo é lacrado à chave.
Pronto o alarme somente.
De repente, qual mágica

Abrem-se, em coro, ardem
As gavetas dos caixas
Como se houvesse nada
Mais a fazer: e fazem,

Indomáveis, as farras:
"Caixas livres à frente!"
"Caixas ágeis que atendem!"

Como se fossem gente!
"Caixas livres à frente!"
"Caixas hábeis que falam!"

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Adriano Nunes: "Amor"

"Amor" 


Contra o amor nada pode
Nem mesmo a morte


Nada pode a força
Nada pode a flecha
Nada pode o fogo
Nada pode o ferro
Nada pode a forca
Nada pode a farsa
Nada pode o fel
Nada pode o fim
Nada pode a fúria
Nada pode a foice
Nada pode o freio
Nada pode o fútil
Nada pode a física
Nada pode a fórmula
Nada pode o fato
Nada pode o fardo
Nada pode a fama
Nada pode a fala
Nada pode o faro
Nada pode o falso
Nada pode a firma
Nada pode a farpa
Nada pode o forte
Nada pode o fraco
Nada pode a farda
Nada pode a faca

Contra o amor a lei
Não pode nada

domingo, 17 de setembro de 2017

Adriano Nunes: "Marina" - para Marina Lima, por seu dia

"Marina" - para Marina Lima, por seu dia


Do mar
À margem
Da língua,


Do encanto
De Circe
À lida

Mais linda,
Aquela
Que ainda

Mais brilha
Por ser
Infinda:

Da nota
À música
Que a adota,

A marca
Da gata:
Marina.

sábado, 16 de setembro de 2017

Adriano Nunes: "Átimo"

"Átimo"


Cidade
À tarde.
Ruídos
E riscos.

Não há
Trem bala.
Não há
Silêncio

A não
Ser dentro.
Pra não
Ser, penso-o.

E neste
Vai-vai,
Vem-vem,
A vida

Encanta
Meu ser
Que já
Não sabe

Ser quem.
Quem ser?
É tanta
Voz íntima,

Estranha!
Sequer
Dá para
Saber

Se vinga
Lá fora
Ou na
Memória

Que aflora
Agora.
Cidade
À tarde...

Retinas,
Rebentos,
Rotinas
Retendo-os.

De mim
Que sei
Sem fim,
Quem sabe?

Adriano Nunes: "Som sempre" - para Mauro Santa Cecília

"Som sempre" - para Mauro Santa Cecília


Poderia
Ser textura
Cor mais pura

Alegria
Que até dura
Porventura

Poderia
Ser leitura
Que se apura

Rebeldia
Sem frecura
Travessura

Dia a dia
A estrutura
Da cultura

Que irradia
Desventura
Que captura a

Poesia
Que é semente
Do som, sempre,

De rasura
Em rasura.
Quem diria?

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Adriano Nunes: "Solilóquio"

"Solilóquio"


Verso, leva-me
Pra a Mongólia,
Para fora
Dos tentáculos
Dessa lógica
Que precisa
De sentido,

Para longe
Da memória,
Para além
De alguém ser,
Pra não ser
Coisa alguma,
Não ser nada,

Verso, vê
Se não falhas!
Se puderes,
Nem que seja
Por um breve e
Frio instante,
Bem carrega-me

Para lá
Onde há
Outro tempo
Pra pensar,
Pra sentir,
Para dar
Outra volta

Muito acima
Do que já
É possível
Mesmo dar.
Verso, joga
O meu âmago
E o meu corpo,

Para dentro
Do infinito
Do que vinga
Em ti, quando
Viras canto.
O que peço
Não é tanto.

Verso, deixa a
Folha em branco.