segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Adriano Nunes: "A velha" - para a minha mãe"

 "A velha" - para a minha mãe


A velha levanta cedo
Como se já nenhum medo
Tivesse da astuta morte.
Sempre lhe se faz mais forte.
Às vezes, cansada, vem
À porta ver se ninguém
Espera o seu sol lá fora.
E o que se foi rememora.
O imaginar lento, leve,
Persegue a vida, não deve
Explicações às pessoas.
As ilusões soam boas.
Também não para. Sente
Que o porvir ser pode ausente
A qualquer momento. Poda
A ambiguidade da moda,
À rotina do lar cede.
Cose, cozinha, pede
Que rezem, cuidem-se, a todos,
Com os seus típicos modos.
Outras vezes, bem se atreve
A duvidar que até breve
Seja o existir. Dá-se logo
A pôr comida no fogo,
Brincar com netos, tecer
Mil planos para aquecer
O cerne de cada hora,
Sem receios, sem demora.
Deixa a torneira escorrendo,
Acesa a luz, como adendo.
Nas pernas pomadas põe.
Nunca as dores mais expõe.
Cantar ama. Bulas lê,
Vê novelas na tevê
Da sala, não se acomoda.
Tédio jamais a incomoda.
Ri como quem sabe além
Das coisas que são, mas sem
Outra intenção. Tão disposta
A tudo, no amor aposta.

Adriano Nunes

domingo, 23 de agosto de 2020

Adriano Nunes: "Brazillness"

                                                                    Brazillness





quarta-feira, 29 de julho de 2020

Adriano Nunes: "Cânone mínimo"

"Cânone mínimo"


Volto a Voltaire
E depois parto
Para Pasárgada.
Pouco me importa
Que dê em nada.
Que puis-je faire?

De gole em gole,
Gullar engulo.
De pulo em pulo,
Alcanço os Paulos,
Jorges, Joãos,
Sem queixas, juro.

Cecília, Emily,
Ana, Sophia,
Florbela, Safo,
E mais poetas
Fazem meu dia!
Vale o Vallias.

Rumino os russos.
Já com Drummond
Tranquilo durmo
Um sono grego,
Meio moderno.
Lê-los? tão bom!

Augusto, Arnaldo
E os concretistas:
Lindos seus livros!
Atiro ao Inferno
O Dante mesmo
Mal traduzido.

Melhor Cervantes
Antes que isso
Tudo termine.
E numa boa
Amo Pessoa.
O pensar voa!

O mestre Whitman
Também me instiga.
E quase até
Já Baudelaire
Esqueço a esmo!
Que fatal erro!

Logo me agrego
Mais aos latinos,
De versos finos.
Antonio Cicero
Está comigo
Desde o princípio.

De Goethe, gosto
Muito, e me assanha
Tanto Montaigne -
Fico até tonto!
A lista é longa,
A vida é breve.

Dou-me a sonhos?
Huidobro em dobro.
Tudo é íntimo,
Mundos sem fim.
Sigo seguindo,
Em mim, Secchin.

E só com esses,
E alguns ingleses,
Outros franceses,
Sem interesses,
Em verso, exponho
Cânone mínimo.


Adriano Nunes

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Adriano Nunes: "Ode to George Floyd"

"Ode to George Floyd"


George Floyd was murdered
As have been murdered
Black people since the century
When white european people forged the discovery
Of a brand new world,

- We share his distressing shortness of breath!
We still feel the weight of that inhuman knee on his neck!
Dying is so fast! -

Since the white murderous machine
Thought, through his gears,
That can decide who will live, who will die.
And, since then, black people have been murdered.
George Floyd was murdered

- We share his distressing shortness of breath!
We still feel the weight of that inhuman knee on his neck!
Dying is so fast! -

Under the view of many people,
As black men were whipped to death,
Enslaved in America.
His pleas were useless.
His supplications were ignored.

- We share his distressing shortness of breath!
We still feel the weight of that inhuman knee on his neck!
Dying is so fast! -

He was not breathing.
The human requests from others were despised.
George Floyd was out of breath.
The white murderous machine has no ears for black people.
The white murderous machine has no eyes for black people.

- We share his distressing shortness of breath!
We still feel the weight of that inhuman knee on his neck!
Dying is so fast! -

The white murderous machine has no limits
To dictate its cowardly and cruel rules
Against black people.
The white murderous machine always has new oil for its parts, pulleys, wires, hands, revolvers, truncheons, automatic pistols, feet, and its knees.
The white murderous machine has always updated revisions and warranty ad infinitum.

- We share his distressing shortness of breath!
We still feel the weight of that inhuman knee on his neck!
Dying is so fast! -

The white murderous machine has the legitimacy of many white people to be their white murderous machine.
It just forgot one important detail:
We have the strength to revive George Floyd.
We have the power to bring to the memory of the world
That we will no longer accept that other identical barbarities happen.

- We share his distressing shortness of breath!
We still feel the weight of that inhuman knee on his neck!
Dying is so fast! -

We know its failure.
We have eyes, ears, mouths, hands, feet, mind, blood,
And a myriad of tools and weapons
To destroy its dismal machinery.
George Floyd will breathe again, alive, very alive!


Adriano Nunes

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Adriano Nunes: "a sua"

"a sua"


a metade
do meu coração
que é minha.


a metade.
a meta.
a me a
- me


tá fora
desta ilusão
que me aninha.




Adriano Nunes

Adriano Nunes: "Era pra ser um soneto, perdão, mãe!"

"Era pra ser um soneto, perdão, mãe!"


Tudo mesmo difícil neste tempo
Estranhíssimo e obscuro. Nada temes,
Eu sei. Manténs-te atenta e até contente,
Ainda que pareças estar presa
Ao próprio lar, à vida que te resta.
Por telefone, alcanças teus parentes
Mais distantes, ausentes. Na tevê
Vês que estamos num barco sem os lemes,
Um barco já furado. Não tens pressa.
As notícias ruins já não te cegam.
Ah, mãe, doce mamãe! Tudo está tenso
Lá fora, nas cidades e fazendas,
Nas vilas e favelas, nos grãs centros
Urbanos, nas moradas dos colegas
E de amigos, nos postos e nos prédios!
Idêntico a um imenso pesadelo
Em que o começo assombra por inteiro.
Imaginei fazer outro soneto
Para ti, porém vi que todo verso
Não se mais ajustava, fixo e hermético,
Queria ainda espaço e movimento.
O teu aniversário, hoje, bem
Na grave pandemia. Que presente
Dar-te, sem esse medo de não ter
Como feliz fazer-te? Com que métrica
Perfeita decantar este portento
De luz e gratidão, em meio às trevas?
Ou com qual decassílabo sedento
De alívio e de saída dar-te a estética
Liberdade do amor? Quem sabe esta
Tentativa de ver-te sorrir, sempre,
Este vasto desejo, com prazer,
De ofertar-te minh'arte, o meu mais ser,
Como um abraço e um beijo, sem receios,
Dos que são teus. Então, eis o que peço
Ao devir, à existência: que a dor cesse,
Que o vírus destruído agora seja,
Que ninguém adoeça mais e que
Qualquer aniversário volte a ter
Festas, alegre gente, até presentes!
Ah, mãe, doce mamãe! Tudo está tétrico
Lá longe, em emergências e, aqui, dentro,
Nas orlas e alamedas, e nas praças
Do Brasil, nas estradas, nos colégios,
Nas igrejas, nos cines e nos templos!
Sim, parece um terrível pesadelo
Em que o desfecho assusta por completo.


Adriano Nunes

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Adriano Nunes: "Fluir" - para Chico César

"Fluir" - para Chico César


Um rio corre dentro do que sou,
E o que penso já ser é um outro rio.
Fluir é o próprio fim. E me inebrio
Do devir, do passar, do que cessou.

Corro em mim, para dentro e exterior,
Ousando o igual não ser, por ser só rio.
No fundo, areia e seixo, um arredio
Insólito mudar-se, mesmo humor.

Somente o relembrar é foz, semente.
Corto e curto cidades de passagem.
Miragens em meu ser mais interagem.

O sol alto, tão solto, transparente
Faz-me. À noite, o luar se vê na lente.
E os que adentram em mim sequer me sabem.


Adriano Nunes