domingo, 25 de junho de 2017

Elinor Wylie: "Beauty" (tradução de Adriano Nunes)

Elinor Wylie: "Beleza" (tradução de Adriano Nunes)


Não digas da beleza boa é ela
Ou qualquer coisa mas bela,
Ou às asas de madeira das pombas suave
As suas asas selvagens de ave

Não a chames cruel; o toque dessa palavra
Consume-a como uma praga;
Mas não a ame de maneira infinda,
Pois isso é pior ainda.

Ó, ela não é má ou boazinha,
Mas inocente e selvagem!
Exalte-a e ela morre, quem tinha
O pétreo peito de um jovem.

Elinor Wylie: "Beauty"

Say not of Beauty she is good,
Or aught but beautiful,
Or sleek to doves’ wings of the wood
Her wild wings of a gull.

Call her not wicked; that word’s touch
Consumes her like a curse;
But love her not too much, too much,
For that is even worse.

O, she is neither good nor bad,
But innocent and wild!
Enshrine her and she dies, who had
The hard heart of a child.


WILYE, Elinor. Collected Poems of Elinor Wilye. New York: Alfred A. Knopf, 1932.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Adriano Nunes: "Das armadilhas íntimas e, ainda,"

"Das armadilhas íntimas e, ainda,"

Quem és que tanto atiças o desejo
De ter-te, a todo custo, de tocar-te
Plenamente, sem medos, outras artes,
Obra-prima de flerte e sóis, que almejo?

Quem és que quando a vida despejo,
Em êxtases, em tudo, me repartes,
Esfacelas meu mundo, por sonhar-te?
És da chance somente o relampejo?

Ah, mistério do agir, grácil paquera
Que me leva a pesar o que não era
Para só ser o instante que já finda!

Ah, sináptico escudo que me blinda
Das armadilhas íntimas e, ainda,
Faz-me refém do olhar que dilacera!

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Adriano Nunes: "Das bi" - para Leandro Colling

"Das bi" - para Leandro Colling


Ler o sex
O do sex
O do ser
Dar ao ser
O ser sex
O ser sol
To do ser
Sol to de
Si das bi
O gra fi
As das bi
Re ver os
E los de
E ros e
Es cre ver
As his tó
Ri as só
Fler tes e
Trans as trans
As das bi

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Adriano Nunes: "Átimo"

"Átimo"


Entre o
Ar
Que
Sai

Da
Boca
E o
Ar

Que
Para
Dentro
Vai,

O
Verso
Vivo
Faz-se.

domingo, 18 de junho de 2017

Adriano Nunes: "Tensa chuvosa noite"

"Tensa chuvosa noite"


Ninguém mesmo perto. Só
O relógio grita o seu ponto
De avisos, dá novo nó
Em tudo que se diz pronto.

Ah, eu não estou pronto
Para o que agora proponho
Aos versos, um trololó,
Sem metro certo, pra o sonho

Que não vem, depois do pó
Das horas: estou tristonho!
Volto ao inicial ponto...
Quem pra o devir disso pronto

Está? Ah, este acento em "o"!
Por que logo não me exponho
E a face pra o soco ponho,
Enquanto a voz arde e so-,

Pra o abrupto pranto pra o olho,
Enquanto rimas escolho?
Ah, vontade de ser solto
De mim, de dar vez aos outros

De mim, talvez, até todos,
Lerdos e leigos e loucos,
Um a um, livres, aos poucos.
Ah, tensa noite, estou só!


quarta-feira, 14 de junho de 2017

Adriano Nunes: "Da inocência"

"Da inocência"


Acredite
No requinte
Das parábolas,
No apetite
Das metáforas,
Nas laringes
De grafite,
No palpite
Das elipses,
No convite
Das silepses,
Na chatice
Das crendices,
No limite
De algum chiste
Que se preze.
A Afrodite
Quem resiste?

Acredite:
Nisto aqui
E mais, cri.
Até no
Que você
Pra mim disse.
Que tolice!

terça-feira, 13 de junho de 2017


"ENTREVISTA COM MAURO STA CECÍLIA" (por Adriano Nunes)



Mauro Sta Cecília é um dos letristas que mais admiro. Autor de belíssimas canções como "Por você" e "Amor pra recomeçar", cantadas pelo Barão Vermelho e pelo grande Frejat, entre outras. É poeta e fotógrafo. Eis a entrevista que fiz com o amigo estimado, meu parceiro musical na nova canção do Frejat:



1) Quando se deu a consciência reflexiva de que música e a poesia estavam definitavamente ligadas à sua existência? 

A música veio primeiro. Sempre fui louco por música. Mas como ouvinte. Aprendi os acordes básicos no violão, mas logo me dei conta de que meu negócio era mais com as palavras... No colégio eu era aquele cara que era bom em português e redação. Daí para descobrir a poesia foi um pulo. Drummond foi um alumbramento, com 13, 14 anos. Comecei a escrever meus primeiros versos por essa idade. Chacal também foi muito importante, um pouco depois. E aí vi que não ia ter volta. Música e poesia, tudo junto e misturado, pra sempre.

2) Como se deu a amizade com os integrantes do Barão Vermelho? Como se deram as parcerias?

O primeiro integrante do Barão Vermelho que eu conheci foi o Frejat, desde a época do colégio, muito antes da banda existir. Depois foi o Maurício Barros, numa festa de seu irmão, meu amigo Pequinho (roteirista e coautor de algumas das primeiras músicas do Barão). Não por acaso, minha primeira música gravada foi com esses dois, Maurício e Frejat, a "Por você". A partir daí, eu conheci os outros integrantes do Barão da época, Guto, Rodrigo, Fernandão e Peninha, e as parcerias foram surgindo naturalmente. 

3) Que fatos marcantes, durante as composições, você poderia dizer como memoráveis e impactantes para a sua vida pessoal e artística?

O fato mais impactante para mim, via de regra, se dá quando o parceiro musical me mostra a melodia e a harmonia. Quando acontece o casamento da música com a letra. A hora em que a composição se revela. Esse momento para mim é sempre emocionante. Tenho a sorte de ter grandes parceiros, músicos talentosos, que transformam essa união da letra e da música numa terceira coisa que me encanta e surpreende. Agora há também o momento em que surge a ideia ou o título da canção. Gosto muito de começar pelo título. Para citar um exemplo, lembro de uma vez em que deitado, naquele estado de vigília, me veio o título "Lançado ao mar". Anotei num papel e voltei a dormir. Quando acordei fiz a letra. Virou a faixa-título do disco de um dos meus parceiros, Wilson Sideral.

4) Até que ponto confundem-se o artista e o cidadão Mauro Sta Cecília?

Desconfio que sejam a mesma pessoa... Mas sei que o lado "artista" domina a minha vida completamente. Tudo que faço e penso tem uma ligação visceral com a arte. É o que me move. Já a política e a cidadania são fundamentais para o homem-artista estar no mundo e se expressar. E vivemos tempos em que é impossível não se indignar diariamente com o estado das coisas.

5) Em 2001, Frejat lançava   "Amor pra recomeçar", seu primeiro disco solo, que impulsionaria a sua carreira e a dele. De lá para cá,  que mudanças aconteceram em seu modo de compor e ver-se artista? 

Acredito que tanto o disco quanto a canção "Amor pra recomeçar" representam a continuidade  de um processo que começou com "Por você", no disco "Puro êxtase", do Barão, em 1998. Inclusive é o mesmo trio de autores nos dois casos, Frejat, Maurício Barros e eu. Naquele ano de 98,  pedi demissão do meu emprego (trabalhava no Consulado do Japão) e passei a viver, desde então,  exclusivamente do que eu escrevo. Aí eu fui compondo cada vez mais, me tornando cada vez mais consciente das particularidades da letra de música. Me tornei um dos parceiros mais frequentes de Frejat em sua carreira solo. E passei também a escrever outras coisas: escrevi crônicas em jornal, publiquei dois romances, tive uma peça de teatro encenada. E mais recentemente comecei a fotografar e a estudar artes plásticas, tendo participado de três exposições ano passado.

6) Que composições e parceiros você toma como fundamentais para a completitude de sua obra?

Certamente "Por você" e "Amor pra recomeçar" estão entre elas, pois são minhas musicas mais conhecidas, foram as que me possibilitaram sobreviver de direitos autorais e, principalmente, me abriram caminho para novas composições e parcerias, para musicas em trilhas de novela, de cinema e também de teatro. Elas mudaram minha vida, mas muitas outras que não obtiveram o sucesso comercial também me dão orgulho de ter feito, como por exemplo, "Embriague-se", com Frejat (para o disco do Barão Vermelho de 2004), inspirado no poema em prosa homônimo de Baudelaire, ou "Nunca fui a Paris", com Humberto Effe, do Picassos Falsos, que gravei no meu disco autoral, de 2013, e o Picassos gravou no disco deles que acaba de ser lançado, agora em 2017. Mas na verdade eu estou de olho sempre é na próxima, independentemente do que possa vir ou não. Sobre os parceiros fundamentais, além do Frejat e do Maurício Barros, é evidente que o pessoal todo do Barão também é, Rodrigo Santos, Fernando Magalhães, Guto Goffi... mas tem mais gente aí que é muito importante para mim como o próprio Humberto Effe, George Israel, do Kid Abelha, Sérgio Serra, que foi do Ultraje a Rigor, mais recentemente o Leoni, o pessoal do Blues Etílicos... O Sideral, talvez um parceiro improvável, muito ligado ao Jota Quest e com uma carreira muito centrada em Minas Gerais, mas que fizemos algumas coisas que marcaram a discografia dele... Enfim, não vou citar todo mundo que é importante para mim porque posso deixar um ou outro de fora e não quero causar ciumeiras...

😎 O Frejat tornou-se um parceiro constante e, juntos, vocês fizeram grandes sucessos musicais, sendo elogiadas essas composições tanto pelo público quanto pela crítica. Como é compor com Frejat? Como se deu essa bela amizade? Parece haver uma relação familiar entre vocês e suas respectivas famílias. Seus filhos são músicos e tocam juntos, certo?

Sim, nossa parceria e grande amizade se refletiram em nossos filhos, Julio Santa Cecília e Rafael Frejat, que tocam e compõem juntos e têm uma banda bem legal, o Amarelo Manga. Nossas famílias se relacionam, nós já passamos vários finais de ano juntos. Eu e Frejat, a quem chamo de "Roberto", porque o conheço dos tempos de escola, estreitamos nossa amizade a partir do amor pela música. Lembro dele no pátio do colégio sempre com um disco debaixo do braço, ou ainda tocando "Eleanor Rigby", no bandolim, na hora do recreio. Compor com Frejat é uma delícia, porque além de ele ser um mestre, com quem muito aprendi, ele é um gentleman, que não impõe nada, nunca deixa de consultar o parceiro sobre eventuais mudanças e, apesar de pouco escrever letra de música, tem um olhar muito afiado para o texto. Afinal, foi parceiro do Cazuza, né, com quem compôs grandes pérolas não apenas do rock, mas da música brasileira.

9) Como surgiu "Amor pra recomeçar" e "Por você"?

"Por você" surgiu de um poema que fiz. Na época estava vivendo um romance que não estava dando muito certo e resolvi escrever em versos as loucuras que faria para conquistar a moça. Depois percebi que o poema tinha um ritmo musical e mandei pro Frejat. Ele e o Maurício Barros acabaram fazendo o recorte da letra, pois alguns versos não entraram na canção. Este poema está no meu segundo livro, "Olho frenético", de 2005. Já "Amor pra recomeçar", de 2001, surgiu a partir de um poema que circulou bastante na internet com o título de "Desejo" e era atribuído a Victor Hugo, o romancista francês (como se sabe, autoria na internet é um negócio complicado, nem sempre é o que se apregoa... nós nunca conseguimos descobrir a real autoria desse poema). Fiz uma adaptação livre deste poema. Cheguei a fazer umas duas versões antes da letra definitiva. E depois Frejat e Maurício fizeram a música.

10) O que há de bom na nova música brasileira? Quem Mauro anda ouvindo?

Acho que muito do que rola hoje de bacana na música vem da mistura de gêneros. Gosto muito do Lucas Santtana, do Marcelo Jeneci, do Criolo, do Jonas Sá, da Céu, da Mãeana, da Mariana Aydar, da Ava Rocha, do Thiago Amud, do Cidadão Instigado, do Passo Torto, do Romulo Froes... Tenho ouvido recentemente o último do BNegão, os discos do Baiana System, do Boogarins e do Alvaro Lancellotti.

11) E a poesia... Qual a sua relação com poetas e poemas? Que anda lendo o poeta Mauro Sta Cecília? 

É curioso que tudo que faço vem da poesia, mas tenho mais amigos músicos do que poetas. Em relação aos poemas, não sou daqueles que falam seus poemas prediletos de cor... Nem os meus eu consigo decorar. Mas ultimamente tenho gostado muito de falar em publico (com a devida cola) um poema de Charles Bukowski, "Definindo a mágica", que trata do fazer poético. Sobre as leituras, tenho lido muitas mulheres. Há uma safra muito boa de poetas como Ana Martins Marques, Angélica Freitas, Bruna Beber, Matilde Campilho, Masé Lemos, Maria Isabel Iorio. Mas curto também bastante o trabalho de poetas homens como Carlito Azevedo, Fabiano Calixto e Marcelo Montenegro.

12) Fizemos uma composição juntos. Como foi que aconteceu musicar com o Frejat um poema de um poeta alagoano, tão aparentemente distante do circuito artístico sul-sudeste?

Você, Adriano Nunes, é um poeta que colocaria também entre aqueles de que mais gosto do cenário contemporâneo. Nós nos conhecemos pela internet. Se não me engano, através do blog do Antonio Cicero, um poeta que nós dois admiramos muito. Logo percebi a sua enorme capacidade de versejar sobre qualquer tema, sua formação consistente, sua sede de conhecimento. E lendo seu livro "Laringes de grafite", me deparei com um poema, "Tudo ainda", que me chamou a atenção pela musicalidade dos versos. Fiz uma adaptação do poema e mostrei pro Frejat. Lembro do dia em que ele compôs a música. Era final de ano, estávamos viajando, e ele me chamou em seu quarto antes do almoço para ouvir a composição. Ali naquele momento caíram duas ou três lágrimas e me dei conta de que tínhamos feito uma bela canção, emocionante, e que ainda - espero eu - vai nos dar muitas alegrias. 

13) Previsão de livro novo? Canções novas? Parcerias novas?

Tenho dois projetos de livros novos: o primeiro, uma coletânea dos meus quatro livros de poesia, com 26 poemas e 26 fotografias, unindo o passado e a minha trajetória com o meu trabalho atual, que cada vez mais procura integrar texto e imagem, a partir do meu crescente interesse pelas artes visuais; o segundo, é um projeto de livro em parceria com o cantor, compositor e hoje poeta Leoni, que anda escrevendo coisas muito boas. Sobre canções e parcerias musicais, tenho muita vontade de intensificar a troca tanto com artistas da nova geração quanto com artistas de outros gêneros, seja do rap, da música eletrônica ou do samba. Me interessa cada vez mais borrar as fronteiras. 

14) O Brasil atual para Mauro: qual a sua visão político-crítica de tudo que está acontecendo?

Não só o Brasil mas o mundo passa por um momento muito delicado de intolerâncias, radicalismos religiosos, crescimento conservador. No caso específico do Brasil, ainda tem o câncer da corrupção generalizada. Vivemos uma época de pobreza intelectual. De muito google e pouca poesia... O mundo virtual anda ganhando de goleada do mundo real. Por outro lado, acredito que há também uma nova geração bacana aí, menos preconceituosa, menos machista, que reivindica seus direitos, mais ligada à alimentação natural, à ecologia e ao meio ambiente. Não sei. Posso estar errado. Mas, como gosto dos paradoxos, enquanto o mundo não acabar eu prefiro acreditar que nem tudo está perdido.