terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Adriano Nunes: "Manhã"

"Manhã"

Desprende-se a aurora
Do que o olhar agora
Agarra, pletora
De existir que cora
Por ti, sem demora.

Ó, nascer que aflora
Da esperança e doura!

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Adriano Nunes: "Em que vingava o amor, seus voos"

"Em que vingava o amor, seus voos"


Todas as vezes em que amou
Um homem a si mesmo amou.
Todas as vezes em que amou
Uma mulher amou um outro -
Nunca era pouco: deu-se todo.
O amor era o dar-se mais solto
De si, dos cárceres do corpo.
Todas as vezes, o amor mor
Amou, sob o intenso fulgor

Do ser, sob o sol sedutor.
Amar era o lânguido jogo
De astúcias em que ilhados olhos
Lançavam-se além dos propósitos
Da ilusão: bastava o amor, cosmo
De prazer, sem gênero imposto,
Sem o sexo ameaçador.
Tud' era pra fluir - um porto
Em que vingava o amor, seus voos.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Adriano Nunes: "Bauman"

                                                 "BAUMAN"


                                                  MoDeRnIdAdE
                                                  mOdErNiDaDa
                                                  MoDeRnIdAaM
                                                  mOdErNiDaMb
                                                  MoDeRnIaMbI
                                                  mOdErNaMbIv
                                                  MoDeRaMbIvA
                                                  mOdEaMbIvAl
                                                  MoDaMbIvAlE
                                                  mOaMbIvAlEn
                                                  MaMbIvAlEnT
                                                  aMbIvAlEnTe

Adriano Nunes: "O amor ainda é melhor"

"O amor ainda é melhor"

O amor ainda é melhor
Mesmo quando dá um nó
Em tudo que deve ser
Curtido por um ser só,
Quando verte-se em não-ser,
Sob os olhos do devir.
O amor é para mais vir
Do amor - por amar e ser
Dos acasos do porvir
A alegria: o amor é só
Alegria - de Espinoza
Isso outrora pude ouvir.
O amor ainda é melhor
Por ser mito, mas não só.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Adriano Nunes: "Dar-te uns versos só"

"Dar-te uns versos só"

Só o silêncio ignoto
Desse despropósito
Saberá que posso
Dar-te uns versos só
Com os olhos nossos.
Veloz parte a moto
Para além do óbvio.
Do desejo, os ossos.
Das taras, um nó
De nexos exóticos.
Ensaio monólogos...
Para o instante sóbrio,
O acaso, a seu modo,
Molda o amor-negócio.

Adriano Nunes: "Do Olvido - quem dá a sentença?"

"Do Olvido - quem dá a sentença?"


Como será que as estrelas
Expressam suas tristezas?
Como será que as anêmonas 
Bailam sobre a folha anêmica
Do Olvido - quem dá a sentença?
Ó, quando virás Euterpe?
Que até seja o instante breve,
Desde que em ti me reveles.
Ó, doce Erato, que queres
Do meu arriscado metro?
Ah, vida de vácuo e vendas!
Todos com as suas réguas
De desconfiança e éticas!
De Tróia, cruéis e eternos,
Como escapar dos incêndios?
Príamo, essa tua prece
Só te fere! Heitor esquece!
Esquece os tempos, as gentes
Ironizadas por Hera,
Pois já tudo muito fede.
A encenação toda, a velha
Encenação dos arquétipos,
Devorará teus desejos
De um Outro, as tuas inércias,
O teu medo de pretérito.
Ó, Musas mudas, que tédio!
Como voltarei à Grécia,
Se bem me levam a sério?
Como contar para Homero
As minhas grãs peripécias?

Adriano Nunes:"De tudo que será"

"De tudo que será"


Manhã, nova manhã.
Não há galos, há sonhos
De canto e sol se erguendo
Timidamente. A vida
Vai-se alerta compondo.
Somas de sóis adentro
Sondam a espera vã
De que tudo será
Diferente. Há gente
E gestos e a gangorra
De gostos. Mar de outro
Acaso. Aurora agora
Sobre as sobras do ontem.
Cantam carros ao longe.