domingo, 19 de novembro de 2017

Adriano Nunes: "Entre esperanças"

“Entre esperanças”

Novembro esvai-se.
Quase dezembro.
Quase me lembro
Do que não arde
Mais, nesta tarde.
Quase outro ano.
E foram tantos!
Presa, contida,
A eternidade!

Sem ti, segui.
Doeu bastante
Naquele tempo,
Porque do amor
O fim é, antes
De tudo, corte
Demais sangrento.
Ah, livre olhar
Que molda a arte

Do que não há
Entre esperanças
Sem norte! Sorte
De quem em ti
Pode pousar!
O verde estando
Mesmo presente
E assombros que
Do sol se valem:

Marrom e cinza,
O campo aberto
Mais se estende...
Ser de repente?
Sem ti, que tenho
Feito de ti
Em mim, se quase
Não há mais nexo
Para a saudade?

Adriano Nunes: "Manhã"

“Manhã”

Não sei
Se segue
O carro
Dourado
De Hélio
A trilha
Por Zeus
Traçada.

Será
Que Apolo,
De novo,
Sob manha,
Furtou
Do dia
As rédeas,
A saga,

E brinca
Co’ a sina
De tudo
Que a vida
Anima?
Ah, clara
Aurora
Sináptica!

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Adriano Nunes: "Saudade"

“Saudade”

A tarde
Desfaz-se.
Que fiz
De mim?
Que anseio?
Que vale
Ser mesmo?

Feliz
Quem é,
Se antes
Do fim
Até
A álea
Lançada

Já não
Diz nada?
Desfaz-se
A tarde
Perante as
Palavras
Sem rédeas.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Adriano Nunes: "Ars poetica"

"Ars poetica"

A arte
Com calma
Tem carne
E alma,

Não tem
A pressa
Que tudo
Tem, mas

Bem antes
De ter
O que
Tem tudo,

A arte
Tem tempo
Pra ter
Seu tempo

No mundo.
Pois bem:
A arte
Vez tem.

Alexander Posey: "Autumn" (tradução de Adriano Nunes)

"Outono" (tradução de Adriano Nunes)

No sonhador silêncio
Da tarde, uma
Veste áurea é tecida
Sobre o prado e a mata;
E o pássaro, há pouco
Caído do cosmo,
Acenos cordiais espalha,
E o ar é preenchido com
Folhas rubras, que, caindo,
Erguem-se de novo, como sempre,
Com um suspiro inútil para
Repousar - e é Outono.

Alexander Posey: "Autumn"

In the dreamy silence
Of the afternoon, a
Cloth of gold is woven
Over wood and prairie;
And the jaybird, newly
Fallen from the heaven,
Scatters cordial greetings,
And the air is filled with
Scarlet leaves, that, dropping,
Rise again, as ever,
With a useless sigh for
Rest—and it is Autumn.

POSEY, Alexander. "Autumn". In:_____. The Poems of Alexander Lawrence Posey (Crane & Co., 1910). This poem is in the public domain.

sábado, 11 de novembro de 2017

Adriano Nunes: “Canção da manhã”

“Canção da manhã”


Alto cantam os pássaros
A aurora anunciando.
Não só os galináceos 
Sobre o muro. Rápidos
Ritmos de periquitos
Vêm além e contínuos,
Como se fossem hinos
Em louvor matutino
À vida do que ferve
Ante a força das rédeas
Do deus Hélio. Decerto,
Os cavalos despertos
Estão! Sonhos tão novos!
Ah, quantos vãos propósitos
Abrem bocas e olhos
Pra desejos ignotos!
Avexam-se avestruzes
Ao primo raio. Urge
O devir que mais supre
O sol de cada um.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Adriano Nunes: “Yarelitzev”

“Yarelitzev”


Naquele dia, Yarelitzev morreu.
Não se ouviu pranto.
Não se ouviu pio de corujas.
Não foram vistos peregrinos na estrada
Que leva a Kranóvia.
Seu corpo estendido no piso frio do quarto
Apenas indicava que nada mais poderia
Ser feito para Yarelitzev.
Precisamos ter um pouco de calma.
Não se deve ter pressa para dizer dos mortos
Que eles não mais poderão ter sonhos,
Que eles não mais poderão ter sorte,
Que eles não mais poderão ter somas ou subtrações
Entre as subidas e descidas de escadas,
Entre o abrir-fechar das gavetas e o tilintar das moedas.
Sim, devemos ter cautela.
Os mortos podem não estar tão mortos
Como pensamos. Pode ser que sejamos
Nós os mortos e tudo se passa em flashback,
Como tortura ou alívio,
Como escárnio ou experiência de laboratório.
Naquele dia, sem saber por que morreria,
Entre o caos e o determinismo perigoso
Dos ponteiros do grande relógio da sala,
Yarelitzev constataria que a vida é breve.
Não se ouviu grito de desespero.
Lágrimas, quem poderia tê-las visto?
Ninguém acusou ninguém.
Nem o vazio de tudo pulsou seu horror.
A vida continua em Kranóvia. São dez para as dez.
Tudo se refaz. Parece que
Em algum lugar da casa, há um sentido
De ilusão ou desatino: o corpo
Despido, sem movimento algum.
Ah, vão dizer: é o velho Yarelitzev!
Será que irão mesmo dizer
Que a vida fora injusta e cruel
Para o velho Yarelitzev?
Naquele dia, Yarelitzev morreu.
Não se viu luz nas línguas de marfim.
Não se ouviu o uivo dos lobos.
Não foram vistos Dioniso e o séquito de ébrios na estrada de silêncios
Que leva ao vácuo da álea
De haver tudo e nada, perto do fim.
Seu corpo, outra metáfora, no liso piso do quarto
Apenas indicava que nada mais poderia
Ser feito para Yarelitzev.
Ninguém jamais perguntou se
A felicidade ao velho Yarelitzev
Ainda à verve serve?