quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Adriano Nunes: "Numa caixa d'osso" - para Antonio Cicero


"Numa caixa d'osso" - para Antonio Cicero


O cérebro pensa
Estar sobre tudo,
Ainda que mudo,
Além-imanência, 

Plantado no alto,
A eus-eixos preso.
Entre mil cabelos
E a vértebra Atlas, 

Numa caixa d'osso,
O cérebro sente
Ser só. Diferente-
Mente, do pescoço

Pra baixo, um liame
Faz-se pelos órgãos
Vassalos, então.
Ah, ninguém reclame

Do sol das sinapses!
Um amor perdido,
Os versos no olvido
Do trilhar do lápis!


Adriano Nunes


Adriano Nunes: “soneto ao pensamento”

“soneto ao pensamento”


preciso engendrar um
pensamento que
não se limite a vir 
de dentro, um pensamento
que não mais se limite
a ser só pensamento.
que ao ser sirva de liga,
o múltiplo de si,
que, de algum modo, diga
a que vem, um pensar
pensado, sopesado,
pra qu’ eu possa senti-lo
fundo e fora, no mínimo,
como bálsamo, agora.

Adriano Nunes

Adriano Nunes: "Doem-me os desassossegos de ser eu"

"Doem-me os desassossegos de ser eu"


Ó, tristeza, vê se somes, vê se
Deixas mesmo pra lá tudo o que esse
Instante quer marcar, ó, grã tristeza,
Vê se desapareces da cabeça,

Do peito, dos cansados braços, se
Podes, sem vis surpresas, sair desse
Espírito, do corpo, vã tristeza,
Vê se foges de mim, feito certeza!

Doem-me os desassossegos de ser eu
Os acasos de ser quem mais me penso
E peso! Doe-me tudo e tudo é denso

E ferve adentro: sentir é intenso!
Ó, labirintos do que aconteceu
Às ilusões! Tristeza, dize adeus!

Adriano Nunes

Adriano Nunes: "De sabê-los em mim, agora, assim"

"De sabê-los em mim, agora, assim"


Dizer do amor o amor já decantado
Em cada verso escrito, não por mim,
Mas por antigos bardos que a meu lado
Abrigo sempre, mestres do sem-fim

Estético, do gênio que tem dado
À existência o sentido raro, enfim,
Imergir em meu metro o sonho alado
De sabê-los em mim, agora, assim.

Oh, poetas queridos, qual o bem
Maior poderá ser do que o contato
Que tive com os sóis vossos e além?

Oh, quartos, Grécias, Ítacas! De fato,
Sei que estive em épocas que já nem
Têm como expostas ser de modo exato!

Adriano Nunes: "Da inquietude de tudo" - para Frejat

"Da inquietude de tudo" - para Frejat


Sim, já faz algum tempo
Que ouvi, além dos muros
Da inquietude de tudo,
O grito do alheamento
A reclamar de Métis
Um átimo a mais, talvez
A vida duma vez,
O desejo sem lei.
Sim, já faz certo tempo
Que senti, fundo, dentro
Da solidão de ser
Quem me percebo e penso
O susto dos que estão
Em apuros co'a verve
Dos sóis do coração.
Ah, quanto já sonhei!
Vem, Mnemósine, a tempo
De engendrar em mim mundos
Sonoros, o que excede
Do óbvio, à flor do Lete!
Sim, tanto tempo fez
Que abriguei no olhar quão
Do amor vinga canção.

Adriano Nunes: "Θάνατος" - para Gal Oppido

"Θάνατος" - para Gal Oppido


Da Noite, o filho mais temido,
É o que os tais humanos têm dito.
Do Destino, o lance fatal,
Súbito, às vezes, outras mal
Podemos descrever, qual nuvem
Escura no céu, tudo ilude.
Um gesto e... Traz o inesperado
À tona: a existência tão frágil
Parece render-se a seu ato
Nefasto. Dizem ser mais forte
Que o próprio pensar e que pode
Verter o Tempo que é contado
Em memória, em silêncio e olvido.
Ó Tânatos, deus dos acasos
Que a vida têm atormentado,
Como escapar de ti, se existo?


Adriano Nunes

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Adriano Nunes: "Ah, por que não o amor?"

"Ah, por que não o amor?"


Ah, pedir uma pizza nunca foi tão fácil!
Vem de moto, vem logo.
Ah, tudo é mesmo móvel, 
Ah, tudo é demais lógico!
Ah, por que não o amor?
Por que nunca chegou
A tempo de mordido
Ser, comido, sentido
Total? Por que não veio,
Via emeio, sem freios,
Através dos Correios
Etc e tal?
Pedir sushi nunca foi tão banal agora!
Vem de táxi, de bike...
Quando menos se espera
Até de drone já
Na janela, na porta!
Ah, por que o amor demora?
Como fazer pra vir,
Via sedex, embrulhado,
Feito presente, urgente,
Ligeiro, para ser
Um denso amor primeiro,
Pra ser pra sempre e ser
Devorado, com máximo
Prazer? Será que agora
É você?


Adriano Nunes