sexta-feira, 29 de maio de 2020

Adriano Nunes: "Ode to George Floyd"

"Ode to George Floyd"


George Floyd was murdered
As have been murdered
Black people since the century
When white european people forged the discovery
Of a brand new world,

- We share his distressing shortness of breath!
We still feel the weight of that inhuman knee on his neck!
Dying is so fast! -

Since the white murderous machine
Thought, through his gears,
That can decide who will live, who will die.
And, since then, black people have been murdered.
George Floyd was murdered

- We share his distressing shortness of breath!
We still feel the weight of that inhuman knee on his neck!
Dying is so fast! -

Under the view of many people,
As black men were whipped to death,
Enslaved in America.
His pleas were useless.
His supplications were ignored.

- We share his distressing shortness of breath!
We still feel the weight of that inhuman knee on his neck!
Dying is so fast! -

He was not breathing.
The human requests from others were despised.
George Floyd was out of breath.
The white murderous machine has no ears for black people.
The white murderous machine has no eyes for black people.

- We share his distressing shortness of breath!
We still feel the weight of that inhuman knee on his neck!
Dying is so fast! -

The white murderous machine has no limits
To dictate its cowardly and cruel rules
Against black people.
The white murderous machine always has new oil for its parts, pulleys, wires, hands, revolvers, truncheons, automatic pistols, feet, and its knees.
The white murderous machine has always updated revisions and warranty ad infinitum.

- We share his distressing shortness of breath!
We still feel the weight of that inhuman knee on his neck!
Dying is so fast! -

The white murderous machine has the legitimacy of many white people to be their white murderous machine.
It just forgot one important detail:
We have the strength to revive George Floyd.
We have the power to bring to the memory of the world
That we will no longer accept that other identical barbarities happen.

- We share his distressing shortness of breath!
We still feel the weight of that inhuman knee on his neck!
Dying is so fast! -

We know its failure.
We have eyes, ears, mouths, hands, feet, mind, blood,
And a myriad of tools and weapons
To destroy its dismal machinery.
George Floyd will breathe again, alive, very alive!


Adriano Nunes

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Adriano Nunes: "a sua"

"a sua"


a metade
do meu coração
que é minha.


a metade.
a meta.
a me a
- me


tá fora
desta ilusão
que me aninha.




Adriano Nunes

Adriano Nunes: "Era pra ser um soneto, perdão, mãe!"

"Era pra ser um soneto, perdão, mãe!"


Tudo mesmo difícil neste tempo
Estranhíssimo e obscuro. Nada temes,
Eu sei. Manténs-te atenta e até contente,
Ainda que pareças estar presa
Ao próprio lar, à vida que te resta.
Por telefone, alcanças teus parentes
Mais distantes, ausentes. Na tevê
Vês que estamos num barco sem os lemes,
Um barco já furado. Não tens pressa.
As notícias ruins já não te cegam.
Ah, mãe, doce mamãe! Tudo está tenso
Lá fora, nas cidades e fazendas,
Nas vilas e favelas, nos grãs centros
Urbanos, nas moradas dos colegas
E de amigos, nos postos e nos prédios!
Idêntico a um imenso pesadelo
Em que o começo assombra por inteiro.
Imaginei fazer outro soneto
Para ti, porém vi que todo verso
Não se mais ajustava, fixo e hermético,
Queria ainda espaço e movimento.
O teu aniversário, hoje, bem
Na grave pandemia. Que presente
Dar-te, sem esse medo de não ter
Como feliz fazer-te? Com que métrica
Perfeita decantar este portento
De luz e gratidão, em meio às trevas?
Ou com qual decassílabo sedento
De alívio e de saída dar-te a estética
Liberdade do amor? Quem sabe esta
Tentativa de ver-te sorrir, sempre,
Este vasto desejo, com prazer,
De ofertar-te minh'arte, o meu mais ser,
Como um abraço e um beijo, sem receios,
Dos que são teus. Então, eis o que peço
Ao devir, à existência: que a dor cesse,
Que o vírus destruído agora seja,
Que ninguém adoeça mais e que
Qualquer aniversário volte a ter
Festas, alegre gente, até presentes!
Ah, mãe, doce mamãe! Tudo está tétrico
Lá longe, em emergências e, aqui, dentro,
Nas orlas e alamedas, e nas praças
Do Brasil, nas estradas, nos colégios,
Nas igrejas, nos cines e nos templos!
Sim, parece um terrível pesadelo
Em que o desfecho assusta por completo.


Adriano Nunes

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Adriano Nunes: "Fluir" - para Chico César

"Fluir" - para Chico César


Um rio corre dentro do que sou,
E o que penso já ser é um outro rio.
Fluir é o próprio fim. E me inebrio
Do devir, do passar, do que cessou.

Corro em mim, para dentro e exterior,
Ousando o igual não ser, por ser só rio.
No fundo, areia e seixo, um arredio
Insólito mudar-se, mesmo humor.

Somente o relembrar é foz, semente.
Corto e curto cidades de passagem.
Miragens em meu ser mais interagem.

O sol alto, tão solto, transparente
Faz-me. À noite, o luar se vê na lente.
E os que adentram em mim sequer me sabem.


Adriano Nunes

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Adriano Nunes: "Bolsa de Valores"

"Bolsa de Valores"


O preço da gasolina
É alto
O preço do gás de casa
É alto
O rol de desempregados
É alto
O grau do analfabetismo
É alto
O total de femicídios
É alto
O registro de racismos
É alto
O rol de desabrigados
É alto
O indicador de miséria
É alto
O valor do dólar, euro,
É alto
O preço da cesta básica
É alto
O cômputo dos contágios
É alto
O número de fanáticos
É alto
O quantum de presos pobres
É alto
O de crimes recorrentes
É alto
O de abusos e de estupros
É alto
O número de políticos
É alto
O rol de seus privilégios
É alto
O índice de inflação
É alto
O total já desmatado
É alto
O rol de gente doente
É alto
O nível do Presidente
É baixo


Adriano Nunes

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Adriano Nunes: "A Guerra"

"A Guerra"


Quando a Guerra começou,
Éramos indiferentes
A ela. Bombas, projéteis
Não nos alcançavam. Víamos
O instante com a suspeita
Dócil de que, logo, logo,
Seríamos, pelo óbvio,
Sugados. Porque afirmavam
Que, lá para o leste, corpos
E corpos se amontoavam
Sobre montanhas e vales.
As cidades já ruínas.
Mortos e mortos e mortos
Enchiam campos e ruas.
Cidades viravam túmulos
De tudo por tudo ser.
Depois, de algum tempo, voos
Metálicos atiraram,
De cima a baixo, a Surpresa
Trágica, de estrondos cheia,
A destruição sem medida.
E muitos corpos e corpos
E trapos, troços, destroços
E farrapos modelavam
A vida, em si já ferida,
Acumulavam-se em toda
Direção. Sequer sabíamos
Por que isto acontecia,
Por que foi preciso, assim,
Acontecer a chegada
Do deus Marte: vácuo e nada!
Até hoje ninguém mesmo
Sabe. Não, ninguém não sabe!
Mesmo que somem cadáveres!
Mesmo que sangrem destroços!
Mas naquela tarde em que
A prima bomba caiu
Sobre nós, mais percebemos
A irracionalidade
Feroz dos tais semelhantes.
Desses forjados sob leis
Dos Eus, pertencentes à
Essa espécie animalesca
Que na Terra habita e, vez
Ou outra, até tem bons modos,
Sorri, canta, filosofa,
Faz poemas. Põe-se à prova.
Restaram coisas inúmeras.
Muita coisa se foi cedo.
Quando a Guerra começou,
Desesperado o Amor foi-se,
Escondeu-se na caverna
Escura do medo. Fera
Coagida, ameaçada,
Não queria mesmo ver
Que tinha falhado, que
Em vão lançou suas flechas.
O que, máxime, importava?
Quanta gente se foi mesmo!
As existências perplexas
Assombra o Horror. Essa Guerra!
O Horror! O Horror! Toda Guerra!
Oh, destroços da Esperança!
Oh, verve vital da Dor!


Adriano Nunes

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Adriano Nunes: "Vai passar..." - para Roberto Bozzetti

"Vai passar..." - para Roberto Bozzetti


Sempre dizem: "vai passar"
E sempre passa.
Mas deixa marcas,
Mortes, metades menos metades, mágoas,
Memórias.
"Vai passar!" Lembram-nos a toda hora.
E tudo sufoca por ser tudo.
Tudo passou e passou com tudo.
85 milhões de mortos
Naquela Guerra de ódio.
Tudo passará. E tudo mesmo passou.
6 milhões de judeus exterminados
Nos campos do horror.
Sempre afirmam: "passa já!"
Como se apenas passasse
E não dilacerasse o espírito e a carne.
Aguentamos o horror com o conformismo
Que o horror espera de nós.
Como se só houvesse a mesma voz
Para repetir a cantilena do absurdo:
"Vai passar!"
E passa, como bem se sabe.
E passa, como tudo tem passado.
Depois, a lembrança da inércia,
Da cegueira, do embotamento,
Do fascínio controlador do imo e do tino,
Como se fosse isso outro início,
No mínimo.
É, no mínimo, vai passar,
Ainda que se finque no corpo e no olhar
Aquela dor de existências,
De essências, de futuros.
Ainda que só reste o silêncio,
A palavra por vir, o porvir sem palavra.
Ainda que entre escombros e remorsos,
Encontremos soterrado no óbvio
O nada.


Adriano Nunes