sábado, 31 de dezembro de 2011

Adriano Nunes: "Prece no Templo de Palas Atena" - Para André Vallias

"Prece no Templo de Palas Atena" - Para André Vallias



Do frio Norte, Bóreas, feroz vem.
Nótus, do extremo Sul, súbito, vem.
O Aquivo domestica o coração,
Pensando... Ponderar, muito convém?

Zéfiro zarpa rápido... A canção
Ouve-se, co' agudez, entre os rivais.
O Aquivo dilacera o coração,
Sentindo... De tudo os deuses se abstém!

Voraz, Eurus, do Leste, investe mais
Contra os vales, traz torpe tempestade.
O Aquivo desafia o coração,
Sonhando... Que louros levam além?


Aos poucos, o Cavalo Troia invade,

E fundem-se festa e fatalidade.




Adriano Nunes: "Ano Novo"

"Ano Novo"



Fulano
Sicrano
Poema
E música.
E não eram os trezentos de Esparta
Nem brincavam de cabra-cega às dez
Para dez, toda noite, com dragões,
Tigres dente-de-sabre, mil libélulas
Loucas. Não eram aquelas meninas
Paradas na esquina, depois das dez.
O intervalo de vácuos sobre o vácuo
Do coração. Não eram cento e onze
Detentos esmagados na ilusão
De ter ilusão. Fulano, Sicrano,
Poema e música. Não haveria
Tempo para haver tempo e frágeis sonhos.
Ai, todas essas páginas viradas!
Ai, todos esses sentidos não tidos!
E o buraco negro sugava a mágica
Quimera de um dia que vingará.
Não eram os exilados de Cuba
Nem o rapaz ante o tanque chinês.
Não eram as luzes de Paris, não
Eram palavras presas ao vernáculo,
O espetáculo de um circo estrangeiro.
O ano para todos, o instante raro
De paz e luz, de humanidade plena.
Não eram aqueles reis peregrinos,
Seguindo um disco-voador, a vida.
Não eram os carrascos de Nuremberg
Nem mesmo o vídeo de Kadafi
Diante da morte. Não poderia
A existência ser um simples anexo.
Fulano
Sicrano
Poema
E música.




Pablo Neruda: ""Canto General XV/II"

"Canto General XV/II" - Pablo Neruda


Amor, tal vez amor indeciso, inseguro:
sólo un golpe de madreselvas en la boca,
sólo unas trenzas cuyo movimiento subía
hacia mi soledad como una hoguera negra,
y lo demás: el río nocturno, las señales
del cielo, la fugaz primavera mojada,
la enloquecida frente solitaria, el deseo
levantando sus crueles tulipas en la noche,
Yo deshojé las constelaciones, hiriéndome,
afilando los dedos en el tacto de estrellas,
hilando hebra por hebra la contextura helada
de un castillo sin puertas,
oh estrellados amores
cuyo jazmín detiene su transparencia en vano,
oh nubes que en el día del amor desembocan
como un sollozo entre las hierbas hostiles,
desnuda soledad amarrada a una sombra,
a una herida adorada, a una luna indomable.
Y entonces dulce rostro, azucena quemada,
tú la que no dormiste con mi sueño, bravía,
medalla perseguida por una sombra, amada
sin nombre, hecha de toda la estructura
del polen,
De todo el viento ardiendo sobre estrellas
Impuras:
oh amor, desenredado jardín que se consume,
en ti se levantaron mis sueños y crecieron
como una levadura de panes tenebrosos.



Canto Geral XV/II
(Tradução de Adriano Nunes)


Amor, talvez amor indeciso, inseguro:
Somente um golpe de madressilvas na boca,
Somente umas tranças cujo mover-se subia
fez minha solidão como uma pira negra,
e tudo mais: o rio noturno, os vestígios
do firmamento, a fugaz primavera aguada,
a enlouquecida frente solitária, o desejo
levantando suas cruéis tulipas na noite.
Eu desfolhei todas constelações, ferindo-me,
Afiando os dígitos no tato de estrelas,
tecendo fio por fio a contextura fria
de um castelo sem portas,
oh estrelados amores
cujo jasmim detém sua transparência em vão,
oh nuvens que no dia do amor desembocam
como soluços entre as herbáceas hostis,
desnuda solidão amarrada a uma sombra,
a uma ferida adorada, a uma lua indômita.
Nomeia-me, disse talvez aos roseirais:
eles talvez, a sombra de confusa ambrosia,
cada tremor do mundo conhecia meus passos,
me esperava no canto mais oculto, a estátua
da árvore soberana na planície:
tudo na encruzilhada chegou a meu desvario
dissecando meu nome sobre a primavera.
E sendo assim, doce rosto, açucena queimada,
tu a que não dormiste com meu sono, bravia,
medalha perseguida por uma sombra, amada
sem nome, feita de toda a estrutura do pólen,
de todo o vento ardendo sobre estrelas impuras:
oh amor, desenredado jardim que se consome,
em ti se levantaram meus sonhos e cresceram
como uma levedura de tenebrosos pães.






In: NERUDA, Pablo. "Canto General". Mexico: Ediciones Oceano, 1954; Canto XV (Yo Soy); II; páginas 534/535.




quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Severo Sarduy: "Soneto Meridiano"

"SONETO MERIDIANO" - SEVERO SARDUY



La transparente luz del mediodía
filtraba por los bordes paralelos
de la ventana, y el contorno de los
frutos; o de tu piel — resplandecía.

El sopor de la siesta: lejanía
de la isla. En el cambiante cielo
crepuscular, o en el opaco velo
ante el rojo y naranja aparecía

otro fulgor, otro fulgor. Dormía
en una casa litoral y pobre:
en el aire las lámparas de cobre

trazaban lentas espirales sobre
el blanco mantel, sombra que urdía
el teorema de la otra geometría.




"Soneto Meridiano"
(Tradução/transcriação de Adriano Nunes)

A transparente luz do meio-dia
filtrava pelos paralelos bordos
das janelas, e o perímetro dos
frutos; ou de tua pele - luzia.

O torpor da sesta: o que distancia
da ilha. Nas permutáveis nuvens dos
crepúsculos, ou nos véus ocultados
ante o roxo e o laranja aparecia

outro fulgor, outro fulgor. Dormia
em uma casa litorânea e pobre:
e na atmosfera as lâmpadas de cobre

trançavam as lentas espirais sobre
a branca toalha, sombra que urdia
o teorema d'outra geometria.




In: SARDUY, Severo. Obra completa. Tomo I. Edición crítica. Gustavo Guerrero – François Wahl coordenadores. Madrid: ALLCA XX, 1999.





quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

José Gorostiza: "Panorama"

"Panorama" - José Gorostiza


EN LA esfera celeste de tus ojos
de noche.
La luna adentro, muerta,
en el gracioso número del naufrágio.
Después apenas una atmosfera delgada
tan azul
que el azul era distancia, solo distancia
entre tu pensamiento y tu mirada.

"Panorama"
(Tradução de Adriano Nunes)

E na esfera celeste de teus olhos
de noite.
A lua adentro, morta,
no gracioso número do naufrágio.
Depois apenas uma atmosfera delgada
tão azul
que o azul era distância, somente distância
entre teu pensamento e tua olhada.






In: GOROSTIZA, José. "Poesía y Poética". Madrid: ALLCA XX, 1997, p. 48.




Adriano Nunes: "Menelau"

"Menelau"



Esqueça tudo
O que você imagina e

Vire a página
Vire a página
Vire a página
Vire a página
Vire a página e

Aquela mágoa apague
Aquela mágoa apagu
Aquela mágoa apag
Aquela mágoa apa
Aquela mágoa ap
Aquela mágoa a
Aquela mágoa
Aquela mágo
Aquela mag
Aquela ma
Aquela m
Aquela
Aquel
Aque
Aqu
Aq
A




José Gorostiza: "Presencia y fuga I"

‎"Presencia y fuga I" - José Gorostiza



En el espacio insomne que separa
el fruto de la flor, el pensamiento
del acto en que germina su aislamiento,
una muerte de agujas me acapara.

Febril, abeja de la carne, avara,
algo estrangula en mí a cada momento.
Usa mi voz, se nutre de mi aliento,
impone muecas turbias a mi cara.

?Qué amor, no obstante, en su rigor acierta
a destruir este hálito enemigo
que a compás con mi pulso me desierta?

!Templado hielo, sí, glacial abrigo!
!Cuanto -para que dure en él- liberta
en mí, que ya no morirá conmigo!



"Presença e fuga I"
(Tradução/transcriação Adriano Nunes)

E nesse espaço insone que separa
o fruto duma flor, o pensamento
Do ato em que germina seu afastamento,
Uma morte de agulhas me captura.

Febril, abelha da carne, segura,
Algo estrangula em mim, por um momento.
Usa minha voz , se apraz de meu alento,
Impõe faces turvas à minha cara.

Que amor, contudo, em seu rigor acerta
a destruir este hálito inimigo
que em passo com meu pulso me deserta?

Rijo gelo, sim, glacial abrigo!
Quanto -pra que dure nele- liberta
em mim, que já não morrerá comigo!





In: GOROSTIZA, José. "Poesía y Poética". Madrid: ALLCA XX, 1997, p. 55.



Adriano Nunes: "O elo aparente"

"O elo aparente"


Espreita a ampulheta
O coração, sempre
Que pode, sem pre-
Ver o que decreta

O tempo. ( A escopeta
Que dispara sempre,
Sem falhas, sem pre-
Sumir nada e acerta:

O tempo) Somente
De sonhos se enfeita a
Lida, persistente-

Mente e assim estreita
O elo aparente,
A linha desfeita.



terça-feira, 27 de dezembro de 2011

José Gorostiza: "Caminos"

"Caminos" - José Gorostiza


!Qué caminos azules
sobre tus ojos!
En el amanecer azules.
Con sol, más congelados
a la sombra de las pestañas,
azules.
De noche - !oh tus ojos míos
despiertos como números de fósforo
en un reloj sombrío!



"Caminhos"
(tradução de Adriano Nunes)

Que caminhos azuis
sobre teus olhos!
Em um amanhecer azuis.
Com sol, mais congelados
sob a proteção das pestanas,
azuis.
De noite - oh teus os meus olhos
despertos como números de fósforo
num sombrio relógio!




In: GOROSTIZA, José. "Poesía y Poética". Madrid: ALLCA XX, 1997, p. 49.






sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Adriano Nunes: "A ideia, o pensar!" - Para Leo Cavalcanti

"A ideia, o pensar!"  - Para Leo Cavalcanti


É ela! É ela!
Além da vidraça
Que, aos poucos, embaça,
Além da janela
Que o alcance esfacela,
Fragmentos ao ar!

É ela! É ela! -
Todo o cosmo a acusa.
Ó múltipla Musa,
Que em magno infinito
Finca-se, tal mito,
Adentro, no olhar!

É ela! É ela!
A louca libélula
Que a lida especula,
A ululante luz
Que o mundo traduz:
A ideia, o pensar!




Ezra Pound: "Aria"

"Aria" - Ezra Pound



My love is a deep flame
that hides beneath the waters.

- My love is gay and kind,
My love is hard to find
as the flame beneath the waters.

The fingers of the wind
meet hers

With a frail
swift
greeting.

My love is gay
and kind
and hard
of meeting,

As the flame beneath the waters
hard of meeting.

"Ária"
(Tradução/Transcriação Adriano Nunes)


Meu bem é densa chama
Que se esconde sob as águas.

- Meu bem é alegre e grácil
Meu bem achar né fácil
Tal a chama sob as águas.

Os dígitos do vento
lhe acenam

Com um frágil
rápido a-
cenar.

Meu bem é grácil
e alegre
não fácil
de achar,

Tal a chama sob as águas
Por achar.




In: POUND, Ezra. "Canzoni". London: Elkin Mathews, Vigo Street, 1911/US.Archive.Org.







Adriano Nunes: "O verso" - Para a minha amada mãe

"O verso" - Para a minha amada mãe



Muitas vezes,
Debruçado sobre o catre,

Não sei se pela pressão
Entre os dois
Corpos - vivo e vegetal -
Ou por pura percepção,

Eu ouço o meu coração
Batendo, ter que bater.

De repente,
Um estranhíssimo susto
Investe contra a estrutura
Do meu ser.

Com medo, súbito, afasto-me
- Bobagens em minha mente? -

E dou-me ao pensar:  preciso
Ter-
Minar o ver-
So.





Adriano Nunes: A poesia"

"A Poesia"


Nas savanas secretas
Da minha mente,
Brincam de cabra-cega
Dragões, tigres dente-de-sabre, rêmoras,
Princesas e
Loucas libélulas,

Bandeira, Brossa, Baudelaire,
De repente.

A poesia é
Perigosamente
Pra sempre.




quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

José Gorostiza: "La casa del silencio"

"La casa del silencio" - José Gorostiza



La casa del silencio
se yergue en un rincón de la montaña,
con el capuz de tejas carcomido.
Y parece tan dócil
que apenas se conmueve con el ruido
de algún árbol cercano, donde sueña
el amoroso cónclave de un nido.

Tal vez nadie la habita
ni la quiere,
Y acaso nunca la vivieron hombres;
pero su lento corazón palpita
con un profundo latir de resignado,
cuando el rumor la hiere
y la sangra del trémulo costado.

Imagino, en la casa del silencio,
un patio luminoso, decorado
por la hierba que roe las canales
y un muro despintado
al caer de las lluvias torrenciales.

Y en las noches azules,
la pienso conturbada si adivina
un balbucir de luz en sus escaños,
y la oigo verter con un ruido
ya casi imperceptible, contenido,
su lloro paternal de tres mil años.




"A casa do silêncio"
(tradução de Adriano Nunes)


A casa do silêncio
ergue-se em um recanto da montanha,
com capuz de azulejos carcomido.
E parece tão dócil
que apenas se perturba com ruído
de alguma árvore próxima, onde sonha
o amoroso aconchego de um abrigo.

Talvez nada lá habita
nem mesmo quer,
e talvez nunca ali viveram homens;
mas o seu coração lento palpita
com profundo bater tão resignado,
quando o rumor a fer-
e a sangra do estremecido costado.

Imagino, na casa do silêncio,
um pátio luminoso, decorado
pelas ervas que roem as estruturas
e um muro sem pinturas
ao cair das chuvas torrenciais.

E nas noites azuis,
penso-a conturbada se pressagia
um murmúrio de luz em sua entranha,
e a escuto verter com ruído
já quase imperceptível, reprimido,
seu pranto paternal de três mil anos.





In: GOROSTIZA, José. "Poesía y Poética". Madrid: ALLCA XX, 1997, p. 12.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

José Gorostiza: "Pausas I"

"Pausas I" - José Gorostiza


¡El mar! ¡El mar!
Dentro de mí lo siento.
Ya sólo de pensar
en él, tan mío
tiene un sabor de sal mi pensamiento.


"Pausas I" - Tradução Adriano Nunes

O mar! O mar!
Sinto-o de mim adentro.
E apenas por pensar
No mar, tão meu
Tem um sabor de sal meu pensamento.



Esse poema foi escrito em 1925. Traduzi-o do livro "Poesía y Poética". Madrid/Espanha: ALLCA XX, 1997, p. 18.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Adriano Nunes: "Cedente: o amor bem sabe a que veio"

"Cedente: o amor bem sabe a que veio"


Estou-te querendo, sem receio,
Dessa vez. Eu sei, é para sempre.
Dessa vez, eu sei, será sem pre-
Cedente: o amor bem sabe a que veio.

Estou-te dizendo, sem bloqueio...
És um instante raro, sem pre-
Tender aos instáveis clichês, sempre.
Com tal fulgor, agora alardeio

O que o meu coração, satisfeito,
Tem clamado, pleno, indiferente
Às dúvidas, ó verso, tem feito

Por ti, batendo em furor, urgente.
Dessa vez, eu sinto, não tem jeito:
Sou mesmo sincero, confidente.

Adriano Nunes: "dos instantes, do faz-de-conta"

"dos instantes, do faz-de-conta"




uma sinapse vem à tona...
a qualquer momento esse amor
salta à vista, devastador,
preciso, vinga e impressiona

por sua força, seu clamor.
tal maravilhosa amazona
que os inimigos espiona,
que às feridas sabe se impor,

insólito amor amedronta,
por instinto. ameaçador
dos instantes, do faz-de-conta,

às vezes, finge-se indispor
com a vida e a sonhos remonta.
às vezes, é pétreo opressor.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Adriano Nunes: "do propósito"

"do propósito"



os meus olhos
- projetores
do propósito -
estão soltos...

sem ter rotas,
pelas tocas,
pelas docas.
sem um dono,

querem olhos,
outros olhos,
querem todos,
querem cosmos.

os meus olhos
- promotores
de alguns sonhos -
estão prontos

para os tombos,
pra o abandono,
pra tal óbvio,
para o amor.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Adriano Nunes: "o amor"

‎"o amor"


às vezes, desafio o

infinito...

o amor não pode ser só
isso que violentamente vem

se repetindo:
frágil,
fútil,
fácil,
fixo.

Adriano Nunes: "as frestas do inesperado"

"as frestas do inesperado"



estás triste.
dás-te por vencido.
todos aqueles sonhos já não te assustam.
todas aquelas fugas já não te embaraçam.
a madrugada cai tal desmoronamento -
alguma favela em tua alma grita,
reclama socorro -
arrastando tudo, levando o
alicerce de um sorriso qualquer.
não há vestígios do porvir.
não há restos de esperanças.
não se veem os fósseis das boas-novas.
as frestas do inesperado
não te permitem ver onde
se esconde o instante raro,
aquela alegria aguda, tátil.

entregas-te aos dragões
das medievais alcovas íntimas
do teu coração.
não sabes que rumo pode haver
para o último lance.
onde se infiltrou o infinito?
com que silêncio de silício
é possível não ser quem te sentes?
estás triste e
a paisagem não pesa mais.
a escrivaninha se desespera
à-toa. os cadernos
se ferem. dás-te ao tédio, tentando
escapar, à socapa, dos tentáculos
desse desassossego-clichê.
todas aquelas festas já não te forjam.

todos aqueles socos já não te desenham.
és talvez um tímido espectro
sem receio de ser um
tímido espectro
de alguma intempérie corrosiva.
que queres - que podes
querer a essa altura
em que a roleta-russa falha,
em tua tentativa de existência,
em que a solidão é
a cocote única,
disponível, para a valsa das lágrimas?
dás-te por vencido...
estás triste
e isso não
mais trucida o universo.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Adriano Nunes: "era apenas um labirinto"

"era apenas um labirinto"



madrugada...
a existência de tudo me capta.
o rompante se desfez: agora
só há o instigante vestígio
da tua tez. mero instante.

às vezes desafio o infinito
e assim sem receio ou
medo - esqueçamos o íntimo -
sinto-te:

o teu corpo, por sorte,
era apenas um labirinto.





segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Adriano Nunes: "mergulho em águas rasas seguido de trauma"

"mergulho em águas rasas seguido de trauma"



o meu coração é violentamente frágil.
decido ir à rua. (há um mover de mundos
envolto dos meus
medos)
ai, essa alegre fonte
de existir!
agarro-me às laringes
do dia.

tudo se fez...
talvez última grande aposta.
é que ando sem vontade de arriscar de novo,
dar o braço a torcer, mergulhar
de cabeça,
nas águas rasas e bem geladas do amor.
(enfrentar outro jogo,

todo o infinito feito
desafio?)
retorno do passeio,
confuso.
que mais
deve haver

lá fora, além da ilusão
do tempo,
de haver lá fora a atlântida inteira,
intacta?
a vida

esvai-se, através das vidraças, desgastada
do tudo-nada.
o verso...
repouso,

em silêncio.
volto à sala.
o sonho voa, pássaro

rebelde. o meu coração é
violentamente táctil.


ó labirinto de solidão!







domingo, 11 de dezembro de 2011

Adriano Nunes: "esse poema" - Para Romério Rômulo Campos Valadares

"esse poema" - Para Romério Rômulo Campos Valadares




não consigo me livrar desse poema
ele me assombra
feito fantasma
nos porões da minha consciência
retorna dos rascunhos
- testa-de-ferro dos rabiscos -
salta à vista
do fundo da lixeira (quase
não dou por isso)

agita-se no escuro das gavetas
da escrivaninha
quer vir à tona
de qualquer jeito
sem ritmo
sem métrica
sentido ou
assunto (a esmo
ele não quer ter autor)




Adriano Nunes: "instante raro" - Para Tiago Asle Pires Corrêa

"instante raro" - Para Tiago Asle Pires Corrêa



conquistar o
começo caro.

descobrir a
luz, tê-la em mira.

refazer a
frágil esfera

do ser, dar a
vida, de cara,

ao acaso, claro.
construir o

que tanto admiro.
reverter o

que reverbero.
e cantar o

instante raro.






sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Adriano Nunes: "o lance da poesia"

‎"o lance da poesia"




essa quimera palpável,
esse recanto sombrio,
essa descida precisa,
às pressas, às tais crateras
da satisfação, as sobras
desses vínculos , que são?

esse instante inatingível,
essa fresta na fronteira
do olvido, esse filme-fim,
essa vírgula perdida,
à-toa, na imensidão,
esse conchavo, que são?

e mais além e pra sempre...
é verdade sim: mentimos
de acordo com nossa carne,
esse acúmulo de sonhos,
esse tumulto de tédios,
esse eclipse de sinapses,

e o que foi e ainda mais...
porque pesávamos tempos,
não tínhamos sequer Ítaca
pra regressar, nem saídas
desses labirintos íntimos,
vivíamos a exceção:

o amor-mor, desafiando
o infinito de uma folha
em branco, essa trajetória
do existir, a alegre fonte
mágica, essa descoberta:
o lance da poesia.












quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Adriano Nunes: "epílogo"

"epílogo"




desafiar o infinito:
despir-se
do íntimo, imergir
no âmago do labirinto
do olvido,
não decifrar sequer isso,
cortar todos os fios,
atirar-se às garras da esfinge,
ficar à espera do touro de minos,

sentir.





sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Adriano Nunes: "Peri" - Para Nelson Ascher

"Peri" - Para Nelson Ascher


Sem anteparo,
Gaiola ou galho,
Peri, protótipo
De pterodáctilo,
Passa ao assoalho,


(Dragão chinês
Sempre indomável)
Agora, rápido,
Penas, voo, olhos,
Pouso. Infinito,

O seu perímetro
É o próprio espaço
Imaginário,
Bico por bico,
Instante, instinto.











domingo, 27 de novembro de 2011

Adriano Nunes: ‎"Sorteio"

"Sorteio" 



O amor, o inaudito 

Ou isso que se 
Condessou em leis 
E livros, ou esse 
Vínculo propício,
Pleno, irresistível,
De desafiar 

O infinito, de 
Tecê-lo, acertando o
Recheio do ser


Alheio, no seio,
Por ser o que for,
Contrato, conflito,
Receio ou recreio,
Um cálculo exato,
Um rito, um sorteio
Entre tara e tédio,

Tragédia e temor,
Intrigas e medos,

Insônia e desejos...

Mesclado aos vexames, 

À verdade e aos vícios,
Entre devaneios,
Astúcia e artimanha, 

Misto de desculpa, 
Descuido, destino,
Porvir garantido,
Sonho, sangue, signo e 

Sentido tão íntimo,
Confesso: provei-o!




sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Adriano Nunes: ‎"às laringes de grafite" - Para Manuel Bandeira

‎"às laringes de grafite" - Para Manuel Bandeira



lanço-me às mil intempéries
do meu âmago, à mobília
disforme, do que me penso.
(como regressar à Ítaca?)

lanço-me a fazer um verso...
que reis não se renderão
às laringes de grafite,
aos silêncios de silício,

à minha ágil solidão,
à vez, sobre a escrivaninha?
que rompante romperá
os vis grilhões do infinito

esculpido na ilusão
de que enfim certo dará
toda essa investida, o sonho?
(como voltar à Macondo?)

quando as pálpebras pesavam,
quando as paredes pulsavam,
quando o impossível pendia
sobre a vida, uma armadilha:

a poesia arriscava-se
a vir, fragmentada, incógnita.
a sua efígie frágil ia
além dos rabiscos, riscos,

entrelinhas, entreveros,
instintos, instantes, íntimos,
em fuga. as folhas foram-se
(Como retornar à Atlântida?)

acumulando, alvas, ( pontes
para outro desassossego )
soltas, revoltas, fundidas
às tentativas vãs, quando

nada mais me interessava,
a não ser fazer um verso,
apenas um verso. insone,
atirei-me no vernáculo

à beira do catre, em busca
de algum resgate, a quimera
mágica: eis a tal palavra!
('Vou-me embora pra Pasárgada')







Adriano Nunes: "Do olvido, efígies frias"

‎"Do olvido, efígies frias"



Disseste, Euterpe, que tinhas
O infinito e dar-mo-ias,

Sem grunhidos ou gracinhas.
Contente, a sonhar, contente,

Entreguei-te as ladainhas,
Riscos, rimas, planos, patifarias,

Porque supus que vinhas,
Tão luzente, ligeira, ubíqua, urgente,


Inadimplente rainha,

Pra alicerçar, com ritmo, os meus dias.

Agora as ervas daninhas
Do olvido, efígies frias

Dos báratros dos acasos, violentamente,
Vingam e vibram, porque não vieste. E

Entre o mar de motes e as entrelinhas,
Ainda espero, alegre,  o que não me darias.





terça-feira, 22 de novembro de 2011

‎Adriano Nunes: "Ao imaginar que tudo isso é somente sonho"

‎"Ao imaginar que tudo isso é somente sonho"



Ao vale quando vou, Favônio me acompanha.
Levo a lira e a lembrança da jovem Erato
Em todo pensamento (o amor é mesmo exato!)
E canto o cosmo afora, a paisagem: a montanha,

Os campos, os desertos, o vivo regato,
O horizonte... A alegria é suprema, tamanha.
Euterpe e sua flauta têm-me (que façanha!)
E domam-me. Alguns Faunos veem-me estupefato

Diante dessa mágica música, aflito
Ao imaginar que tudo isso é somente sonho,
Artimanha de Baco, do vinho, do mito

(Esse tímido escrito que agora componho?)
Adormecido em mim, esculpindo o infinito
Que o grafite traduz, com um medo medonho.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Adriano Nunes: ‎"deleite" - Para Leo Cavalcanti

"deleite" - Para Leo Cavalcanti



de longe ao longo itinerário,
avançando, (voo ao âmago?) quântico,
para onde o sonho embrionário
salta à vista, um tímido cântico

atlântico. (sol? relicário?)
de leve ao lance ultra-romântico,
transcriando o corpo semântico,
o corpo, em gozo imaginário.

de lado a lado, o ser amado,
além do dicionário, (ufano?)
medido, sem meridiano,
paralelo, culpa ou pecado.

de lapso em lapso, o ser humano
lança-se ao inusitado, (instado?)
como se fácil fosse o fado
de acreditar no desengano.

de livro em livro, imenso hiato
é feito. (de feras, um bando?)
ou seria o homem se formando,
anônimo, afinal, abstrato?

de lida em lida, algum substrato
mágico fica à vida, a mando
do coração, (sempre o admirando?)
voltado ao olvido, animal, nato.



quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Adriano Nunes: ‎"eco-doppler" - Para a minha mãe

"eco-doppler" - Para a minha mãe


esse ruído rítmico
desesperado

- grito? -

é o meu coração
aflito, desafiando o

infinito.









Adriano Nunes: "Os bárbaros" - Para Fabiano Calixto

"Os bárbaros" - Para Fabiano Calixto




Os bárbaros
Abrigaram-se no báratro
Do meu cansado cérebro,
Deram-se às labaredas
Da vida,
Sem levantar bandeiras,
Sem um brinde qualquer.

Penso agora o silêncio
De silício - reerguido
Perante o emaranhado 

Desses circuitos íntimos, 
Condenados às constantes,
Aos conceitos da corte ,
Aos credores da morte,


Aos déspotas unidos,

Aos demônios dos dígitos -
E peso-o, agasalhando-me
Nos sóis do que me sinto.
Os bárbaros
Abarcaram os meus
Instintos, para tudo.

Desde os ofícios públicos
De fachada, fascista, à

Burocracia bruta
Dos bureaus literários
Água e cicuta, sempre
Dulcíssima, dos beat-

Níqueis comerciais,

Da crítica 

Antikantista, cítrica,
Dos deuses de grafite
Insuportáveis, mitos
Instantâneos dos atos
Repletos de  morfina e
Mofo, dos clichês chiques


À moda pós-moderna,
Disso, de mais e ainda 

Mais, do lixo, do nicho 
Mesquinho e 
Insalubre das salas
Das reuniões pra nada, 
Do surto psicoestético,
Salvaram-me



Os bárbaros.






Adriano Nunes: "À língua" - Para Hélio Pellegrino

‎"À Língua" - Para Hélio Pellegrino


De Sagres,
Singrava
O sangue
Ibérico.

O mar
Mostrava-se
Disposto a
Ser porto,

O lar
De um povo
Atlântico,
Além.





Adriano Nunes: "Como se não bastasse" - Para Antonio Cicero

‎"Como se não bastasse" - Para Antonio Cicero



No dorso móvel
Do monstro
Atlântico,

Verde-anil,
As três caravelas
Vão vagando.

Às vezes, as nuvens
Reverenciam o nume e
O infinito

Surge súbito
Sob formas diversas.
O caos

Causa ao lábio calcarino
Um medo líquido,
Ensolarado.

O corre-corre
(A via-crucis
Do convés), o salto

À vida, náufrago:
Até parece que
A bússola busca

Outro sonho magnético,
Outro solo submerso,
A Atlântida

Íntima,
Insólita, intensa.
Feito ímã,

Nasce a imagem
Da qui-
Mera mágica,

Através dos rumores
Da linguagem,
Enquanto o rumo

Dos barcos
Abriga-se no acaso
Temperado

Das intempéries.
Alimentados de além-porto,
Os marujos

Amarram-se a mares
Emaranhados,
Agora navegados.

Os sustos
Somam-se ao sumo
De tudo

E o mundo
Espelha-se miúdo,
Espúrio,

Na aventura prematura
De Portugal.
Singra o sangue

À procura da pátria
Tropical, sob a astúcia
De sagres.

As dez naus
Avançam... ( Gaivotas
Gritam, fazem graça

Na calota azulada)
Sem mistérios,
As velas vibram

Enquanto, de vez,
Fecha-se
A caixa de Pandora.

Quase ao fim,
Abril
Aborta Cabral

E sua esquadra,
Como se não bastasse
Mais nada.

Terra à vista!
Em porto oportuno,
O Brasil.





segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Adriano Nunes: "D'uma maneira inconfessa"

‎"D'uma maneira inconfessa"



O verso, com sua seta
De amplidão, tudo atravessa.
Talvez, seja mesmo dessa
Vez que o poeta pateta

Pasme-se co'a luz impressa
Em cada linha, a secreta
Voz que se desengaveta,
Uma cumprida promessa.

Prêmios? Ao vate interessa
O infinito quando o afeta.
De uma maneira inconfessa,

Só, decrépito, decreta:
Para que tamanha pressa,
Se a vida se esvai completa?



quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Adriano Nunes: "QUASE PARNASIANO"

‎"QUASE PARNASIANO"




DOZE PEQUENAS PARTES, UM DODECASSÍLABO.
PERDIDA AQUELA LÁ, SOMAM-SE ONZE SÍLABAS.
PARA O SONETO SÁFICO, UM HERÓICO
MOVIMENTO DE NOVE PARTÍCULAS:

UMA A UMA SONDAM OITO SONS,
QUASE QUEBRANDO A MAIOR
DE TODAS AS SEIS FILHAS,
MENOR REDONDILHA.

QUATRO UNIDADES,
OUTRAS TRÊS.
DISSÍLABOS?

VERSO UM
A
UM.










Adriano Nunes: "Atonement"

‎"Atonement"


Um dia tive a
Impressão de que amava
O mundo

E amei-o,
Sem receio.
Outra vez,

Tive a certeza
Disso -
Mero compromisso

Íntimo,
Profícuo, profundo -
Então chorei.





quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Adriano Nunes: "a flertar o que quer que seja"

‎"a flertar o que quer que seja"



emerge do âmago da terra,
a torre de pedra, perfeita
síntese de silício, feita
à beira-mar, que o ver encerra.

salta do solo, sequaz serra
sempre dada ao longe, sujeita
à voz da violência, insuspeita,
das águas, dos ventos, tal guerra.

resta da arquitetura, à vera,
o pó-silêncio d'uma igreja
destroçada, pós-voraz era.

d'algum horizonte se veja
'inda a pétrea fronte, severa,
a flertar o que quer que seja.






Adriano Nunes: "agora é uma lágrima"

‎"agora é uma lágrima"




o lance raro
outra vez adiado...

a hora era de fazer brilhar o
estranho espetáculo - o mágico

incendiando a platéia - o recado
dado às pressas, claro:

o inesperado salto
do roedor, que trágico!

o instigante instante (amado
pelo público - o templo lotado! -

odiado por seu autor, tal palhaço)
desfeito em embaraço.

o momento caro
dessa vez - entre risos - ovacionado

sob súbito susto. de fato,
quem esperaria o ágil ato

inesperado - desesperado? -
nem mágico

nem gente pagante - rápido
pulo do peludo coelho, plástico,

do caixote mal lacrado,
por descuido, trabalho falho

do assistente, agora xingado
por rompante telepático,

nessa noite de sábado?
o instante raro,

tantas vezes imaginado,
pôde enfim ser captado.




segunda-feira, 7 de novembro de 2011

"o que ainda deles ressoa?" - Para Lidia Chaib

"o que ainda deles ressoa?" - Para Lidia Chaib




outrora a mágica e a miragem
envolvendo a vida, escavando-a,
por ver que o sonho não perdoa
clichês... as ideias interagem

entre si, criando uma imagem
imprecisa, talvez, à-toa.
o verso? mundos amontoa
e infinitos, feito bagagem,

dele emergem e nele cabem,
não mera mensagem que soa
no âmago de qualquer pessoa.

as quimeras? que delas sabem
os fósseis vítreos da linguagem?
o que ainda deles ressoa?




segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Adriano Nunes: "Procura-se" - Para Carlos Drummond de Andrade

"Procura-se" - Para Carlos Drummond de Andrade



Há vinte e três anos sem
Vê-lo. Às vezes, ouço-o
Vindo do arcabouço
Da memória, alguém

Familiar, rosto bem
Típico, com traço
Moderno. (Refaço o
Seu trajeto) Além

Dos óculos, lápis, caço o
Algo que vai... Vem...
A vida é refém,
Claro enigma, laço

Infinito, intenso. Abraço-o,
Calados. No paço
Do livro, o embaraço...
E nada o detém:

Caminha (observo-o) mas quem
Ousaria... Quem?
E vemos o harém
Pelo inverso, baço.









sábado, 29 de outubro de 2011

O poeta Adriano Nunes entrevista o poeta e amigo Lêdo Ivo




O POETA ADRIANO NUNES ENTREVISTA O POETA LÊDO IVO




O plantão no Aeroporto Zumbi dos Palmares estava passando tranquilo. O movimento rotineiro das horas anunciava o vestígio do porvir, a aurora do dia 28 de outubro de 2011. Sim, a mesa redonda "Poesia em Movimento" na V Bienal Internacional do Livro de Alagoas traria à manhã uma dimensão quântica, mágica, um sentido além. Estariam presentes amigos, poetas e o Senhor Lêdo Ivo, o alagoano imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), o poeta que muito admiro e amo, o ancião-menino de lucidez cítrica, de sorriso doce, o filho de Floriano Ivo e Eurídice Plácido que neste ano completara 87 anos no dia 18 de fevereiro, que em 13 de novembro fará 25 anos que vem ocupando a cadeira 10 da ABL. Rabisquei algumas perguntas na madrugada e esperei pelo instante de luz.

Após a mesa redonda, do qual participaram os poetas José Inácio e Ricardo Cabús, resolvi que era a hora do bote, do salto à busca poética e, sem receio, abordei o mestre que, gentilmente, concedeu-me esta entrevista (gravada) transcrita abaixo:


ADRIANO NUNES: Como e quando a Poesia entrou em sua vida?

LÊDO IVO: Ela entrou praticamente desde a infância, desde que eu comecei a existir, que eu no grupo escolar comecei a ler os primeiros poemas e lembro-me especialmente do poema "Queimada" de Castro Alves, que me impressionou muito, de modo que, como desde a adolescência eu desejava ser um poeta, a Poesia tem permanecido ao meu lado, dentro de mim a vida inteira.


ADRIANO NUNES: Que poetas influenciaram a sua obra?

LÊDO IVO: Respondo como Manuel Bandeira: As minhas influências são tantas, são mais que a areia do mar, mais que as estrelas do céu.


ADRIANO NUNES: Além dos poetas, que escritores o Senhor admira, gosta de estar perto?

LÊDO IVO: São milhares de escritores. Dada a minha idade, eu tenho mais de setenta anos de leitura, e, ao longo desses setenta anos, centenas ou milhares de escritores me têm acompanhado, de modo que eu não saberia, quer dizer, "fulanizar" as minhas admirações, de tal maneira que elas são incontáveis.


ADRIANO NUNES: O seu primeiro livro foi "As imaginações" de 1944. O que difere o Lêdo Ivo de "As imaginações" do Lêdo Ivo de "Réquiem"?

LÊDO IVO: É diferente porque um é o do começo e, o outro, quase fim, de modo que há uma distância que foi percorrida e, dentro dessa distância, o leitor terá de observar, verificar as mudanças, os câmbios, que ocorreram.


ADRIANO NUNES: No dia 13 de novembro deste ano, o Senhor fará 25 anos que foi eleito para ABL. O que é ser um imortal?

LÊDO IVO: Não é... (Sorri) Não é ser nada. Apenas o que caracteriza a Academia é o espírito de convívio que une uma determinada comunidade, quer dizer, não apenas literária, porque a Academia não é um sindicato de escritores, a Academia abriga personalidades, pessoas de várias profissões, de modo que a lição que eu recebo da Academia é uma lição de convívio, o que eu digo é que a Academia é um porto que abriga navios dos mais variados calados e é um ninho que acolhe pássaros das mais diferentes plumagens.


ADRIANO NUNES: Como anda a Poesia no Brasil e em Alagoas?

LÊDO IVO: Eu acho que anda muito bem, continua o seu caminho, que a Poesia é necessária, é indispensável, movimentos se sucedem, novos nomes surgem. de modo que o meu desejo é que, toda essa ebulição, surjam poetas diferenciados, cada um com sua voz inconfundível.


ADRIANO NUNES: Como se dá o processo de criação? As musas existem?

LÊDO IVO: O processo de criação na minha opinião é o momento... Quer dizer, o momento do surgimento do poema é o momento em que uma determinada experiência se converte em linguagem, de modo que musas aí é uma metáfora para aludir à pessoa dotada de espírito poético, da capacidade, da habilidade de fazer poemas.


ADRIANO NUNES: O que são os "tintureiros de si mesmo" ?

LÊDO IVO: (Sorriso) Isso é uma parte polêmica, são aquelas pessoas que enganam a si mesmas.


ADRIANO NUNES: O que o Senhor diria a um jovem poeta?

LÊDO IVO: Eu diria a jovem poeta que Poesia não é apenas um problema de vocação, de inclinação, que é um problema de Cultura, de aprendizagem, que o poeta deve procurar ser o protagonista mais culto da comunidade literária, que ele não dê apenas atenção à Poesia que se faz atualmente, mas a Poesia da grande tradição literária. Como diz Eliot, o poeta se faz com a tradição e o talento individual, de modo que eu desejo que um jovem poeta tenha sempre essa consciência de que ele pertence e é o elo de uma corrente memorial, que ele pertence a um sistema poético, que se iniciou com o início do mundo e que só terminará naturalmente com o fim do mundo.



LÊDO IVO: "O trapiche"

"O trapiche"





Queres que guarde para ti o orvalho.

Mas como posso guardar o que se dissolve
ao sol, como o vento, o amor e a morte?
Como guardar os sonhos que sonhamos
enquanto caminhamos acordados
no escuro e sem ninguém ao nosso lado?
E os sussurros de lábios encantados
no outro lado do muro? E a relva que se alastra
na pista do aeródromo? E a mancha aparecida
na casca da manga madura?
Como guardar a brisa sibilante
no convés do navio? E o vôo do pássaro?
E a barca abandonada que atravessa o rio
e pára sob a ponte?
Como e por que guardar um arreio enferrujado
e a cinza de coivara
e a chuva que chovia e o vento que ventava?
A nada guardaremos, nós que somos
o depósito de tudo, a arca e o trapiche.
O orvalho, que é eterno, se evapora
chegada a sua hora. E nossos sonhos
nos guardam fielmente nos seus túmulos.






In: IVO, Lêdo. "Crepúsculo Civil". Página 19. Rio de Janeiro: Record,1990.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Adriano Nunes: "Hemisférios" - Para Dr. José Mariano

"Hemisférios" - Para Dr. José Mariano



Abasteça
A cabeça,

Ponha peça a
Peça, impeça

Que a cabeça
Permaneça

Só cabeça,
Osso, couro,

Logradouro
Sem tesouro,

Véu vindouro,
Grave agouro,

Triste touro
Morredouro,

Sumidouro.
A cabeça?

Abasteça-a
Bem à beça,

Enriqueça-a
Co' Emil, Eça,

Mude-a, meça-a,
Sem mordaça:

Reconheça-
A luz, ouro.





Adriano Nunes: "no way out" - Para Péricles Cavalcanti

‎"no way out" - Para Péricles Cavalcanti




f i n d...m e
f i m...e n d

f i n
..... d(e)
...........m e











quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Adriano Nunes: "Poética"

‎"Poética"



Como se não houvesse mais
Alternativas, nenhum alvo
À vista, lanço o vão projétil
De silêncios... À margem, ver-

Tem-se as miragens de grafite
Em bel-prazer, grave alegria.
Depois? Não precisará mais
Haver depois: A eternidade

Já não se abriga nessa página
De silício, sob os tentáculos
Do Sol, insólita, sonâmbula,
Onde grita o meu coração?







Adriano Nunes: "Desestruturando Lucrécia"

"DESESTRUTURANDO LUCRÉCIA"



A noite não fora lá essas coisas. Voltara arrependida e sentira que o seu coração, por um segundo, tinha parado e, subitamente, voltara a bater acelerado como se estivesse para parar de vez. Apressara o passo. Toda diversão exige comedimento e, em plena madrugada, deambular por aí sozinha é sempre bem arriscado. Lucrécia olhou para o seu relógio e percebeu algo estranho. Ainda eram onze horas da noite. A pilha acabara? Fazia tempo que ganhara de presente esse relógio e nunca pensou em trocar a pilha.

Esquecidas as horas, Lucrécia partira em busca de seu destino ou da sua loucura. Opa! Alguém se aproxima com uma rapidez violenta em direção da nossa lânguida fêmea solitária. Pelo andar robusto e pelo espectro que a imaginação cria nesses momentos, pela postura viril e decidida, vê-se logo que é um homem, um macho de corpanzil. Duplo som de pegadas no rumo de uma rua sem movimentos, de uma estreita rua comum onde bêbados, drogados e prostitutas congregam-se numa harmonia mórbida e desumana.

O alcance foi silencioso e o susto dera lugar a riso e... Ai! Rapaz! Desse jeito você termina por me ver em um caixão! O sorriso oposto poderia completar a frase e dizer algo que as paixões não conseguem mesmo com palavras decoradas ou versos de poesias, mas os hálitos tiveram força e química e um roçar de línguas e uma embriaguez de saliva calaram os amantes.

Zarig pusera-se a esbravejar, enfim, todo o seu rancor de quem não está mais satisfeito com algo. Sua vida estava virando pelo avesso e esses encontros noturnos eram miríades de discussões em sua casa. Homem casado. Três filhos. Esposa dedicada. Um lar abençoado e, quem sabe, feliz. E era. Lucrécia agora era a outra margem do rio. A face secreta dos impulsos primitivos. Sabia que não a amava. Queria terminar tudo e seguir a rotina de um bom pai e de Senhor de família. Decidira ali mesmo.

As explicações convincentes nas paixões diferem da realidade. Dizer que não mais ama, que prefere esquecer, que o amor está corroído e gasto, que não há outra pessoa, que quer dar um tempo são argumentos repetidos e todos os amantes já provaram de algum desses venenos do arrependimento e da culpa.

Pulsos cortados, vexames e escrachos, vulgaridades e intimidades expostas, lar abalado, perguntas sem respostas, dúvidas e medos, comprimidos ansiolíticos e antidepressivos... Nada foi capaz de refazer aquele sentimento que unira carnalmente Lucrécia e Zarig.

As ameaças cumpridas e as chantagens concretizadas só desvencilharam ainda Lucrécia do seu objeto de cobiça. O ódio nascera da rejeição não idealizada, do fim não esperado, da ruptura não programada... Ah! Quantos sonhos desfeitos! Quantas viagens adiadas! Quantas datas comemoradas sozinha e com uma esperança infinita recheando o seu miolo de sinapses afetivas!

Até os livros de romances e ficção tinham sido largados à beira do fatalismo e do tédio. Maços e maços de cigarros não resolviam o caos da solidão. Que fazer? Que mais sentir? Os homens agora eram monstros e, os seus dias, trevas e ruínas. Pensou em mudar de bairro, cidade, país. Quis arranjar outro amante, um namorado...

O ciúme não fora um bom remédio e dores espirituais cercaram todo o seu ser. Quase decididamente preparada para seguir pela estrada do nada. O nascer do sol, naquele dia, não trouxe luz nem perdão.

Zarig soube do ocorrido e sequer afastou-se de onde estava para pensar um pouco. A vida iria continuar sem lembranças e sem infortúnios. O velório, simples e cheio de lamentações, desfez-se. A terra engoliu mais uma massa de células sem vida que apodreceria em poucos dias e os vermes festejariam e dariam à luz os seus descendentes.




Adriano Nunes






Adriano Nunes: "Cacilda e a caixinha de música"

"CACILDA E A CAIXINHA DE MÚSICA"


(para as minhas sobrinhas Rebeca e Yasmin)



Aquele entulho alojado no guarda-roupa era o habitat de duas pequeninas traças. Anastácia e Cacilda reinavam em seu mundo de panos velhos e mofados. Elas dividiam todo o seu tesouro têxtil com os fungos e os ácaros. Eram felizes, mas receavam do futuro, todas as vezes que bombas atômicas redondinhas, esbranquiçadas e ligeiramente perfumadas eram jogadas em seu terreno soberano.

Ficaram viúvas muito cedo. Seus maridos mal chegaram a roer o desbotado vestido de casamento da agora velha viúva Constantina. O espanador de Dona Sinhá também era um inimigo mortal. E... Lá vem novamente Dona Sinhá com os seus cem quilos distribuídos irregularmente, com as suas ancas balançando e parecendo um hipopótamo. Anastácia e Cacilda estavam velhas demais, e os seus esforços máximos eram microscópicos passos-miúdos.

--Ai, ai, ai! Quanta poeira, Jesus! Dona Constantina deveria doar esse monte de pano velho para algum asilo!

O espanador ferozmente sacudia camisas, vestidos, anáguas, saias, paletós, suéteres, jalecos, blusas, sobretudos, lençóis, toalhas... Cacilda voou longe e caiu tonta em cima de uma cômoda com gavetas, estilo colonial, de madeira de lei... Jacarandá? Cerejeira? Pinho?... Dentro da caixinha de música da velha viúva Constantina.

Anastácia até que tentou escapar aos golpes violentos e pesados, mas sucumbiu e foi esmagada contra a lateral direita do guarda-roupa.

--Ora, ora! Eu sabia que havia traças aqui!

Sinhá pegou a traçazinha esmagada, com seus dedos grossos e com artrose, e ficou admirando a criaturazinha por segundos. Depois foi ao banheiro e jogou no vaso sanitário a pobre Anastácia. Puxou a descarga e...

--Sinhá, venha aqui, minha linda!
--Já vou, Dona Constantina!
--Venha logo, mulher! Venha!

Os cem quilos decolaram como uma libélula em direção à sala.

--Que foi, minha Senhora?
--Sinhá, tenho um presente que lhe quero dar! Uma caixinha de música que ganhei da minha irmã mais velha quando eu tinha quinze anos. Pode pegá-la no quarto. É sua! Dê a sua filha Esmeralda!
--Oh, minha Senhora! Não posso aceitar isso!
--É sua! Fique com ela e não discuta! Mas antes traga o meu chá de erva cidreira e umas bolachas sem sal.
--Só um instante, Dona Constantina!

A cozinha era um espetáculo de beleza, luxo e limpeza. Porcelanas, pratarias, utensílios importados e modernos, talheres decorados, enfim, era o local da casa onde as duas anciãs conversavam e lastimavam a perda dos maridos.

O chá já estava pronto. Sinhá pegou uma xícara de porcelana chinesa, um pires, um guardanapo bordado e as bolachas. Retornou cansada à sala. Serviu a sua Senhora. Fez um gesto de quem sente dores na coluna e dirigiu-se outra vez ao quarto.

Cacilda, contente e confusa, percebeu que estava presa num porão azul de veludo. Quis subir, mas despencava em suas tentativas vãs. Estava exausta. Ficou quieta e, de repente, pôs-se a ouvir uma música. Mozart? Vivaldi? Bach? Não compreendia bem os sons e sonhou que era uma bailarina.

--Senhoras e Senhores, eis aqui a maior bailarina de todos os tempos! Cacilda!
E saltava, rodopiava, deslizava e sorria. Sentira os aplausos roçarem a sua alma.

--Ai!

Último suspiro. Sinhá não é dessas mulheres que têm pena de coisa alguma. Esmagou Cacilda ali mesmo contra o veludo azul da caixinha de música. Depois, limpou a sujeira e orou agradecendo a Deus por mais um dia de vida. A sua lombalgia ainda iria perturbá-la por muito tempo, e imaginou que era como traças roendo os seus ossos.





Adriano Nunes





terça-feira, 25 de outubro de 2011

Adriano Nunes: "As quimeras quânticas ainda não"

‎"As quimeras quânticas ainda não"




Eu não sou domesticado
Por vis vírgulas ou margens,
Parênteses ou parágrafos.
Sequer por pontos finais.
Eu sou do clã dos sentidos 

Sortidos. Por que entregar-me
- Cabeça, existência, carne -
Numa bandeja de dígitos,
Lançar-me, intacto, aos dragões
Dos artigos articulados
Do íntimo coletivo?
Não vou deixar que me levem
Ao tédio, ao que em mim não quero.


É sério: mais dores surgem, 

Em série, súbitas, feito 
Anáforas duplicadas
Na página da minh' alma.
O sol deve estar sorrindo, 

Onde a vida não precisa 
De marca d'água, de código 
De segurança, de folha 
De ponto, de despropósito,
Das tais tarifas de embarque,
De selo óptico, anais
De sentenças pré-sinápticas,
De somas que dão em nada.

Tristeza? Talvez, ferrugem,
Fúria ou solidão em fuga.
Todas as quimeras quânticas 

Não conseguiram romper 
Do meu coração as fibras.
A ficção da infinitude 

Fixou-se firme em meu flerte.
Jamais se deve temer
O estado acrítico, apático,
Dessa Crítica cocote,

Que vive a correr atrás
De modas e mídia e motes.
Ou não se pode ser Sísifo?


Ontem visitei as Górgonas,
Antes de chegar Perseu.
Medusa era o silêncio 

De silício a desfazer 
A miragem de haver tempo.
Não demorei muito não.
A verdade bem me deve
Um certo acerto de contas...
Aquelas tardes em pranto,
Aqueles túneis sem luz,
Os brinquedos nas vitrines,
Todos os medos insólitos,
Embaraços e desculpas,


Num repetir esperado:
 - Eu não sou domesticado
Por vis vírgulas ou margens,
Parênteses ou parágrafos. -

Mas como não me lançar
À vida através do vão
Da janela e ver o dia
Assumindo a dimensão 

Do agora? Os rascunhos têm 
O mundo sem um enfeite.
Eu não quero mais contar 

Até dez, para que a Arte
Ajeite-se e desencalhe.




segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Adriano Nunes: "Olvido"

"Olvido"



Esquece Helena
Esquece o mundo
Esquece a fundo
Esquece a pena

Esquece o verso
Esquece o susto
Esquece, é justo
Esquece emerso

Esquece mesmo
Esquece o rumo
Esquece o sumo
Esquece a esmo

Esquece a Grécia
Esquece a luta
Esquece-a! Custa?
Esquece a astúcia.





video

domingo, 23 de outubro de 2011

Adriano Nunes: "Sobretudo, sombras"

"Sobretudo, sombras"


Ainda que a mesa estivesse à vista,
Co' as rotineiras especiarias,
Esses cheiros conhecidos, palpáveis,

Com a arquitetura silenciosa
Das cadeiras, dos talheres, dos pratos,
Ainda que a visita anunciasse

A vinda, ainda assim, todo o pensar
Temia o inesperado, pois, de fato,
A ululante lembrança da toalha

Bordada, a vasta astúcia das crianças
Acolhidas sob a mesma, engendrava
Em meu peito um passado inacabado.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Adriano Nunes: "e c t"

.............."e c t"




o......r....emet...ente
...............met
..................et
c................et....er..a
e.....................c...t


..............m......ente








obs.: emet = verdade/ Deus e met = morto.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Adriano Nunes: "melhor"

‎"melhor"



h o m em
m u lh er

o lh em
me lh or
me o lh em









segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Adriano Nunes: "A palavra bruta" - Para João Cabral de Melo Neto

"A palavra bruta" - Para João Cabral de Melo Neto




essa brusca busca,
pesada, à procura
do nada, a palavra
feito brasa, pura,
por que mais se ofusca

quando a quero, justa-
mente à frente, cúmplice
do tempo, pensada,
feito chama, augusta,
súdita, em rascunho,

quando a quero, justa-
posta, rente, pública,
sem entrave, súbita
tal faísca, mágica,
sem mancha, rasura?

por que me seduz
essa estranha luz,
inefável mundo -
a palavra bruta -
pra lançar-me à culpa-

lapso, sobre tudo?
o olvido profundo
de si - qual palavra
intacta - sem justa-
posição, que assusta.

essa única luta,
penada, à procura
do nada, a palavra
feito bruma, plúmbea,
por que mais se oculta

quando a quero, justa-
posta, à frente, múltipla,
moderna, moldada,
feito charge, avulsa,
sulfúrica, súplica,

quando a quero, justa-
mente, réstia, púrpura,
sem estorvo, supra-
sumo, sonho, sútil,
sem mácula, adubo?

a que me conduz
essa estranha luz,
infindável mundo -
a palavra bruta -
pra lançar-me ao surto-

eclipse, sob tudo?
o olvido profundo
de si - qual palavra
inútil - sem justa-
posição, me assusta.









Adriano Nunes: "Pra abrigar outra manhã"

"Pra abrigar outra manhã"



Olhava pra o sol, o alvo
A ser sempre contemplado,
Até branco estar o campo
Do flerte, a folha fugaz
Da vida em volta: guardava o

Arcabouço de luz, mágico.
Com força, apertava as pálpebras,
Pregas, poentes, paisagens
Além. Depois, com as mãos
Dadas ao nanquim, cantava,

Com altivez, todo o acaso
Sináptico, à tez das flâmulas
Azuis, os sonhos mesclados
Por matizes do amor magno,
Pra abrigar outra manhã.




sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Adriano Nunes: "À beira de qualquer rabisco"

"À beira de qualquer rabisco"

Abrigam-se em mim tempos 
Que nunca sonhei.
E, sem compreender como sonhá-los 
De fato, de mim mesmo abdico e
Abro violentamente as frenéticas frestas
Do meu ser,  ( Muito me arrisco? )
Tentando entender esse estranho trânsito,
Gasto gesto a passar,
Sem pressa, sem se ver a presa fácil,
Por avenidas travestidas de vestígios,
Carros dispersos
Em mil movimentos complexos, átomos
Palpáveis, as engrenagens mágicas
Do agora, dígitos-voadores,
Eclipses de disse-não-disse, os lapsos-computadores,
Os clichês.

Não será preciso 
 Verter-me no que já vi pela janela.
Não me indico a direção
Onde vingam portas entreabertas,
Quimeras quânticas sem fim,
Frases epilépticas com gosto 
De tédio e  solidão.
O cinema lá fora, 
Ainda que à espera do primeiro pagante,
É o meu coração.
Aqui, tudo passa, perpassa, mas para
Ante o contato refratário
Das deliciosas tentações da palavra
Ao olvido dada,
No primeiro instante 
Do grã corte.

Longe? Que lugar é esse,
Onde se diz haver
O in-dizível, o in-finito, o in-alcançável
À beira de qualquer rabisco?
Eis o que canto: o não-canto prismático
Da promessa in-contida
De saber-me ilusão. Que re-canto é esse
Em que o peito se esconde,
Onde se voa pelos cotovelos
Dos desejos, onde se rasga a página
Do presente, do que se sente,
Onde a regra é a atriz coadjuvante,
Onde os bastidores são mais
Importantes, as miragens, 
Os oásis de nitrato de prata,
Não só me salvam?

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Adriano Nunes: "La Poesía" - Para Paulo Sabino

‎"La Poesía" - Para mi amigo Paulo Sabino



Tengo en mi vida
Un laberinto: la Poesía.
Quién entraría
En mi corazón,
En su callejón
Sin salida?

Todos los miedos son
De grafito...
Algo que no tengo dicho,
Algo que necesito
Vivir - el nicho del
Minotauro - dilacerar

El silencio de silicio,
Herir mi soledad.


sábado, 8 de outubro de 2011

Adriano Nunes: "a não ser, a vida" - Para Fred Girauta

"a não ser, a vida" - Para Fred Girauta



o
qu
e ac
resc
entar
à vida a
não ser a
vida a não
ser mais vi
da a não ser t
oda a vida a nã
o ser toda esta
vida a não ser qu
alquer outra vid
a a não ser algo que
conforte a não ser a
morte a não ser amor




sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Adriano Nunes: "l o n g e" - Para Fabiano Calixto

"l o n g e" - Para Fabiano Calixto



som
e...

som
en

te
em

son
ho

o
ver

so
a

que m
e

pro
po

nho
vem

pron
to o

olv
ido

o co
n

so
me

dis
sol

ve-
o

no
ín

ti
mo

do
in

fini
to

lon
ge