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quarta-feira, 7 de julho de 2021

Adriano Nunes: "Sobre uma passagem de Νεφέλαι, de Aristófanes" - para Caetano Veloso

 Sobre uma passagem de Νεφέλαι, de Aristófanes (para Caetano Veloso)


Ao fim da peça Νεφέλαι (As nuvens), de Aristófanes, apresentada aproximadamente em 423 a.C., temos algo inusitado: o autor sugere explicitamente que Sócrates (que está na plateia, segundo relatos antigos!) e os seus amigos seguidores sejam mortos, por não acreditarem nos deuses da πόλεως. O que era para ser uma simples comédia satírica, tornar-se-á, 25 anos depois, um sério instrumento de acusação contra Sócrates o qual será condenado à morte.

O texto grego original é este, em que a acusação é resumida:

Στρεψιάδης (Strepsíades)
τί γὰρ μαθόντες τοὺς θεοὺς ὑβρίζετε,
καὶ τῆς σελήνης ἐσκοπεῖσθε τὴν ἕδραν;
Ερμῆς (Hermes)
δίωκε βάλλε παῖε, πολλῶν οὕνεκα,
μάλιστα δ᾽ εἰδὼς τοὺς θεοὺς ὡς ἠδίκουν.

Pus o texto para evidenciar algo também importante: nas edições diversas, todos esses fragmentos têm sido atribuídos a Strepsíades, quando, em verdade, os dois últimos versos desses fragmentos (versos 1008 e 1009) são ditos pelo deus Hermes. Por que Aristófanes põe esses 2 últimos versos na voz de um deus? O que está por trás dessa acusação de fundo dogmático religioso?

Primeiro, vamos à tradução:

Strepsíades:
Por que insultas os deuses e contemplas a morada da Lua?
Hermes:
Persegue, ataca, destrói! Eles merecem por motivos vários, máxime porque insultaram os deuses.

Mesmo a edição em que Carlo Rovelli se baseia para escrever o seu brilhante livro "Che cos'è la scienza. La rivoluzione di Anassimandro" não faz essa pequena distinção. Nem mesmo a edição The Complete Plays of Aristophanes, editada e com introdução de Moses Hadas faz. Inúmeras importantes edições fazem símile, inclusive algumas brasileiras, como a traduzida por Gilda Maria Reale Starzynski. Os motivos? Talvez, nunca saberemos. A fonte em que se debruçaram para traduzir? Mesmo no site Perseus, importante sítio de cultura grega e latina, que traz o texto grego original, com a fala de Hermes, suprime Hermes ao traduzir, pondo tudo na boca de Strepsíades.
Voltemos aos possíveis motivos das acusações. O real sentido deste pequeno ensaio sócio-histórico crítico.

A primeira razão para não suprimirmos a fala do deus Hermes parece óbvia: se se está a criticar moralmente um descrente, nada mais coerente que um deus pronuncie a sentença radical, cruel. A presença da fala de Hermes marca a última possível palavra para os rumos da existência humana. No teatro grego antigo, as ações humanas são in totum determinadas pelos deuses, pela vontade divina. Essa ruptura teatral dar-se-á apenas com Shakespeare e a sua "invenção do humano", como defendeu e atestou Harold Bloom. Hermes ditar o que deve ser feito com Sócrates, põe uma ordem no universo de tudo que há. Mas há algo mais...

Por que Strepsíades se refere a contemplar a morada da Lua? Em grego antigo, lua é ἡ σελήνη (no nominativo, por Selene, Selena e termos derivados). O texto grego traz τῆς σελήνης (no genitivo). A lua, como todos os astros, está acima da terra, no céu. E estar no céu significa pertencer ao reino dos deuses. O céu é o âmbito inviolável do divino, logo tudo que nele ocorre se dá por vontade divina, por ordem divina. Os fenômenos celestes, incluindo os raios, os trovões, as nuvens, a chuva, etc. são as mais visíveis manifestações da divindade, isto é, há uma ordem além-humanidade onde as coisas acontecem porque fazem parte exclusivamente do divino. Por isso, os gregos antigos, além da palavra ἄνθρωπος, para indicar seres humanos, humanidade, usavam uma específica para demarcar o traço mais humano que há: a mortalidade. Para indicar que o ser humano é mortal, distinto dos deuses, os gregos usavam a palavra βροτός. Insultar os deuses é uma forma de atestar que o insultador é um mero βροτός.

A palavra grega antiga ἕδραν significa "situação" ou "posição" e também "nádegas". Refere-se, então, às investigações meteorológicas dos socráticos e à sua insolência e indecência; Precisamos, assim, aqui, também pensar na Lua personificada como uma mulher. E mais: é importante lembrar que ἕδραι são os quadrantes do céu em que os presságios aparecem, acontecem, como percebemos esse sentido nos textos de Ésquilo e Eurípides. Agora sim, estamos quase lá! Por que Sócrates e seguidores ofendem os deuses? O que eles defendem que seja tomado como uma ofensa grave? E de onde será que partiu essa defesa, qual a sua origem?

A palavra ὑβρίζετε vem do verbo ὑβρίζω que, em Atenas, tinha um sentido legal, significando fazer um ultraje pessoal, maltratar, agredir. Usá-la, neste sentido, já que possuía outros, significa mesmo reforçar o caráter de ofensa. E a palavra ὕβρις, em seu sentido mais comum, significava devassidão, violência desenfreada ou insolência. A acusação feita contra Sócrates era então mesmo grave, pois mexia, abalava e insultava a ordem das coisas, o κόσμος como um todo.

Aproximadamente 2 séculos antes de Sócrates, um pensador de Mileto dava início a esse abalo na ordem das coisas: Anaximandro, que viveu aproximadamente entre 610-546 a.C. E o que fez Anaximandro? De acordo com Carlo Rovelli, a partir de Anaximandro, nasce a ideia de que seja possível compreender os fenômenos celestes e meteorológicos como ligados a causas naturais, independentemente das vontades e decisões divinas. A chuva, para Anaximandro, é um fenômeno natural. Surge a partir da evaporação da água do mar. Esta se acumula, formando nuvens (Νεφέλαι). Dizer isso, abertamente, promoveu uma das maiores rupturas na história do conhecimento humano. E as implicações disso trariam consequências sérias e até mesmo letais, como a morte de Sócrates.

Aprendemos, com Jean-Pierre Vernant, que a religião grega, além do θάμβος (temor reverencial, espanto, o maravilhar-se) e do sentimento difuso do divino (δαιμόνιον e θεῖον), apresenta-se como uma vasta construção simbólica, complexa e coerente que compreendia, assim, mito, rito e representação figurada. Esse conjunto de signos e sentidos configuravam uma ordem divina que se distinguia plenamente da esfera humana, ainda que com ela muito e intensamente se relacionasse. E era essa mesma ordem divina que era tomada por homens que se diziam descendentes direta ou indiretamente dos deuses, que ditavam, também a bel-prazer, os νόμους como se fossem legitimados pelos deuses citadinos, principalmente por Zeus. E, também, a partir daí, talvez, uma das origens do homem violento, da intolerância, como parte paradoxalmente do processo civilizatório.

A acusação de Strepsíades contra Sócrates e seus amigos. A sentença bárbara de Hermes. O motivo real disto, isto é, a ousadia racional de pensar o mundo fenomênico não mais como um objeto de vontades e caprichos dos deuses, apesar de sua consequência funesta para Sócrates, lançou mundos no mundo. Este lançar mundos no mundo abriu a existência para as possibilidades do conhecimento, das verdades fatuais, das ciências. Quase 2500 anos depois, ainda nos deparamos com novos Strepsíades, com novas sentenças de novos Hermes impiedosos, que buscam, a todo custo, negar a razão e seus fundamentos e efeitos mais visíveis: liberdades, conhecimentos, verdades fatuais. A pandemia veio mostrar-nos que os novíssimos tribunais da Inquisição ainda estão com as suas fogueiras acesas, com a sua barbárie prêt-à-porter, seus séquitos de negacionistas, irracionalistas, de intolerantes violentos.

Adriano Nunes

domingo, 20 de dezembro de 2015

Adriano Nunes: "Arnaldo Antunes​: o maior herdeiro do popconcretropicalismo"

"Arnaldo Antunes​: o maior herdeiro do popconcretropicalismo"



Hoje, concluí a leitura do esteticamente belo livro "agora aqui ninguém precisa de si" (Companhia das Letras, 2015) do amigo estimado Arnaldo Antunes.


 Após as vanguardas, muitos poetas puderam usufruir de todas as opções estéticas por elas ofertadas. Uns tantos ainda se aventuram pelo concretismo como se este fosse algo fácil, como se a poesia concretovisual, ou melhor, o que se pode traduzir  e decantar da expressão joyceana "verbivocovisual" fosse experimental a ponto de validar como belo qualquer emaranhado de signos, como se engendrados pelo acaso fossem esses signos, sem qualquer labor. Há nisso um engano sério. A arte exigida pela poesia concreta é uma arte em que as faculdades intelectuais precisam trabalhar intensamente, para que o seu resultado estético possa ser considerado, primeiro como arte, e, a seguir, como belo. Hannah Arendt em "Entre o passado e o futuro diz que "apenas as obras de arte são feitas para o fim único do aparecimento." Poucos são os que conseguem tal façanha. Entre estes, Arnaldo Antunes é o que mais se destaca, o que consegue dar fulgor àquilo que, em aparência, parece ser o resultado de um simples ato sináptico. Herdeiro legítimo dos Campos, de Pignatari e de Grünewald, Arnaldo deve ser considerado não só como herdeiro de tais magnânimos mestres, mas a esse grupo deve ser prontamente incluído, porque, apesar de vir depois do, faz-se, a priori, parte do, por ser um poeta inventor-aperfeiçoador da geração Noigandres. Vamos ao livro! 

São 65 poemas que se movem para além-folha, espaço-página. De início, a existência questionada, no nada que é alguma coisa, que é nada, que é alguma coisa no nada que é. Qualquer coisa. Qualquer nada. Tudo-nada. Por trás da vidraça, o nada nos escapa para ser alguma coisa. A métrica certeira, com 6 sílabas tônicas, imposta/posta em cada verso central parece querer nos avisar de uma harmonia no nada, uma ordem repetitiva que gerará o tudo e que, no fundo, é nada. Do nada vem o tudo-nada, com aliterações e anáforas. É arte bela que se admira aqui. Segundo Immanuel Kant, "para a arte bela se requer imaginação, entendimento, espírito e gosto.". Há tudo isso já na abertura do engenhoso novo livro do Arnaldo Antunes.

O musicalmente belo poema "ileso em meu asilo" põe em jogo todo o conhecimento e espontaneidade tão familiares ao poeta. O agora em que tudo acontece. Se antes havia o nada, agora o agora prepara o impulso estético para o porvir da sala vazia em que o eu irá esvair-se um dia para ser útil/fútil. E o que mais se teme, acaba acontecendo. Não acaba somente. Acontece: e tudo se dissolve/envolve no ver/véu, no breu/céu da gravidade grávida de seus eus.  A poesia não pode mais, a partir daqui, conter-se. Tudo é possível. Dentro do im-possível.

Com "fruto e furto", Arnaldo recria a tentação e dá-nos a treva do futuro no cotidiano sagrado, livre de paraísos. O céu é mesmo um ciclo, um elo, um eco, um um. Com "toda mancha", vê-se a construção circular de um conceito, o de ponto: que pode ser uma mancha a partir do ponto de visão do observador astuto, que pode ser a ilha-mancha na alva folha ou lençol, quase gota de sangue, mais que gota. A busca da forma. Parece mesmo indicar ao leitor que o que importa é a forma, kantianamente a forma - onde o belo mora.

Melhor será que descubra o leitor a obra inteira que funciona como um todo, um todo poético que exige atenção, perspicácia, des-prendimento, porque, aqui, agora, dentro do que há, ninguém precisa de si. Por isso Arnaldo diz-se que é sem ele, e, nós, por encanto, por ele ser múltiplo, in-contido-in-contável, não sabemos que logo nos esqueceremos, se não pararmos para reparar o raio de ser, de sol, de soslaio. É preciso parar para reparar na grandeza, na beleza desse livro, herdeiro do infinito.




Adriano Nunes 

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Adriano Nunes: "Beleza e poesia: os liames da indeterminação" (parte I)

"Beleza e poesia: os liames da indeterminação" (parte I)



Vez ou outra, alguns escritores, máxime poetas, quando indagados sobre o que é a poesia, vêm munidos de respostas que nos levam a crer/creditar/supor que a poesia é uma forma de revolução contra qualquer coisa estabelecida ou mesmo não-estabelecida e que, por isso, a beleza de um poema residiria em sua existência fora de qualquer padrão presumido, suposto, imaginado. Vê-se, então, o grande e grave engano que esses autores cometem por causa da própria definição que dão à poesia. 

Assim, analisando essas teses, sob os ditames da razão e também sob os juízos estéticos, desde logo deve ser percebida a primeira tentativa sub-reptícia de que, por essa via estética subversiva, tudo que fosse estranho, não-convencional, destituído de quaisquer regras ou recursos formais seria, por lógica, novo, e tudo que fosse novo, consequentemente, seria belo. Então, teríamos, também por dedução lógica, que admitir que os erros grosseiros e inaceitáveis gramaticais fossem perdoados em nome de uma arte que se pretende obra de arte, teríamos também que admitir que palavras desconexas, postas aleatoriamente, sem constituir qualquer sentido semântico, léxico, constituiriam poemas e estes deveriam ser tomados por belos. 

Se se quer que a poesia seja o contra, primeiro dever-se-ia perguntar: contra o que especificamente? E por quê? Contra a linguagem comunicativa? Mas um poema em si não pretende mesmo comunicar nada. Não seria por isso, tendo em vista o conceito kantiano de o poema ser uma finalidade sem fim, que esses escritores achem, por causa dessa razão, que a poesia deva ser o incomunicável in totum? Não seria então preferível o silêncio a quaisquer rabiscos destituídos do mínimo necessário de inteligibilidade? Ainda nesta perspectiva, acreditam certos poetas que têm que romper com algo, seja presente, passado ou futuro. Portanto, demarcam a linha de beleza nesse estágio de rompimento. Concretizam o seu padrão de beleza no rompimento, mas não apresentam um juízo estético capaz de justificar o que eles aceitam como belo. E quando propõem um pretenso juízo de gosto são ineficazes para universalizá-lo e destituí-lo de interesse. 

Pois bem, chegamos ao cerne do problema estético: incapazes de em seu juízo de gosto afastar quaisquer interesses, propõem, à socapa, um juízo estético impregnado de suas ideologias políticas, reacionárias ou não, de seus arquétipos religiosos, de seus dogmas mais fecundos e cheios de raízes profundas, dando à poesia, além da ausência de beleza, um caráter panfletário, quando muito, pois, numa miríade de vezes, só querem não fazer parte de coisa alguma, principalmente da bela poesia.




Adriano Nunes

terça-feira, 15 de abril de 2014

Crítica sobre a minha poesia feita por poetas e críticos aclamados

Estimados amigos, convido-os para a leitura de fragmentos de textos críticos sobre a minha poesia escritos por poetas/críticos aclamados:




"Gostei muito de todos os seus poemas. 'De repente' surpreende op-poema." Augusto de Campos

"Adriano Nunes faz do poema um trabalho do pensamento que é pura beleza e deleite. Uma guerrilha prazerosa e uma poética que já no seu começo se apresenta madura e inescapável." Alberto Lins Caldas

"É impressionante a desenvoltura com que Adriano Nunes passeia pelo amplo repertório de formas, sempre com competência e intimidade no trato com a linguagem, mantendo ao mesmo tempo uma voz própria, original, cheia de belos achados." Arnaldo Antunes

"Não tendo a menor dúvida de que Adriano Nunes é um dos mais expressivos poetas de sua geração ou de que, livre de amarras, dogmas, ideologias e escolas, Laringes de grafite é um dos mais belos livros de poemas dos últimos tempos." Antonio Cicero 

"Se fosse um verso, Antípodas tropicais teria sete sílabas. E é no andamento do verso curto que Adriano Nunes, neste novo livro, alcança excelentes resultados. Nele avulta a rigorosa consciência da forma não apenas em seus sinais externos – a consistente prática do soneto, por exemplo – mas no domínio rítmico, na amplitude vocabular. Tudo isso, porém, ao largo do mero virtuosismo, pois Adriano conjuga a técnica a um efetivo e intenso temperamento lírico-meditativo, na insaciada e inestancável busca do outro, ainda que esse outro resida no próprio eu. A metalinguagem, que em muitos poetas se restringe a receitas domesticadas, em Antípodas tropicais comparece viva e vigorosa, lançando-se sem cessar ao “precipício de sentidos”, destinação derradeira de todo poema."  Antonio Carlos Secchin

"Entre o passado que é presente e o presente que já é passado Adriano Nunes se movimenta: irônico, zombeteiro, desenvolto, comedidamente meigo, sensível às lições do espólio inumerável. Exibindo louvável jogo de cintura – que é uma das seduções desta coletânea de versos inaugurais – exibe e sua reflexão maliciosa, a sua habilidade irradiadora." Lêdo Ivo

"O poeta alagoano vem passando em revista as formas, as dicções, as épocas, as latitudes e longitudes, a poesia de ontem e também a de hoje. Seja como leitor, como tradutor ou como poeta, tudo faz parte do mesmo exercício: o seu exercício do fazer poético." Ricardo Silvestrin

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Lêdo Ivo: " A voz e o lugar"


"A VOZ E O LUGAR"


Laringes de grafite, de Adriano Nunes. A laringe é um dos esconderijos da voz, um lugar da enunciação e nomeação do mundo. E o grafite, estampado no muro planetário, é o espaço que se abre à insubmissão, ao protesto, à reivindicação utópica, ao bel aujourd’hui mallarmeano.

Entre esses dois espaços, entre esses dois mundos, o da voz ao mesmo tempo imemorial e cotidiana, ou enobrecida pela arte poética, e destinada ao ouvido, e a voz imagística que, em todos os lugares do mundo, é endereçada ao olhar, transita a poesia do alagoano Adriano Nunes. Nela, duas inclinações se cotejam e dialogam; e os procedimentos canônicos convivem com invenções já inventadas e ousadias já alcançadas pela pátina do aplauso academizador.

Entre o passado que é presente e o presente que já é passado Adriano Nunes se movimenta: irônico, zombeteiro, desenvolto, comedidamente meigo, sensível às lições do espólio inumerável. Exibindo louvável jogo de cintura – que é uma das seduções desta coletânea de versos inaugurais – exibe a sua reflexão maliciosa, a sua habilidade irradiadora.

Embora procedente da República das Alagoas, há nele um veemente selo emigratório. Há algo ou muito de paulista ou paulistano – ou de carioca que segue na praia os passos do admirável  Antonio Cícero.
Na sua capacidade assimiladora, latejam tanto as experimentações já tornadas vetustas – como o letrismo, a desarticulação verbal, o namoro da chamada poesia culta com a poesia dos compositores populares – como o cultivo das formas veneráveis.

As influências ou afinidades indicam a sua procedência, as águas que contribui para o seu rio pessoal. Aliás, no poema “Confissão”, ele diz claramente de onde vem, embora não diga para onde vai ou pretende ir.

Adriano Nunes rima e desrima. Metrifica e desmetrifica. Brinca e desbrinca, finge gravidade, ciceroneia o leitor nas paragens em que o soneto se dessonetiza e o famigerado verso livre se espartilha, graceja num diapasão às vezes embalador. E lida com aspirações, coisas etéreas, sentimentos, pensamentos. Há desvairados ares em sua expressão poética – e, em contrapartida, uma falta de terra, de natividade, de berço geográfico.

E, isolado neste livro de tantas evanescências exprime a sua solidão um poema nativo, dedicado a outro poeta alagoano, que celebra em seus versos os mangues da terra natal. Os caranguejos, goiamuns, peixes e demais habitantes da manguelândia, lembrados por Adriano Nunes, agradecem, sumamente honrados, a menção confortadora.


Lêdo Ivo

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Tânia Du Bois: "Descubra a poesia no dia a dia: ADRIANO NUNES"

Texto crítico feito por Tânia Du Bois sobre a minha poesia: 


Descubra a poesia no dia a dia: ADRIANO NUNES
por Tânia Du Bois

“O VersO O /retém / DISPersO / POR DENTRO. / não vê?”

A literatura e a arte nos fazem acreditar e nos ensinam a viver neste mundo cada vez mais acelerado, materialista e individualista. A poesia como expressão literária é força libertadora, e sabemos perfeitamente quando estamos diante dela.

Conhecer Adriano Nunes na arte de escrever é colocar ritmo em nosso dia a dia; ter atitude inspirada na arte ao abrir espaços no cotidiano, para brilhar como leitor. Isso mostra as mudanças que vêm com a poesia, porque muitas decisões são tomadas através da presença com que ela atua direta ou indiretamente em nossas vidas. Segundo Adriano, “... Porque, ó poesia, nítida / Miragem, grã estampido, / A teus pés tenho caído?”

Para Nunes, a poesia vai além das letras, porque ele dá forma ao pensamento que se encadeia, “Um poeta não se faz só / De palavras e pensamentos / Nem do que tanto pulsa adentro. / Um poeta não se faz só...”

Adriano é dotado da capacidade de evadir-se ao mostrar, nos poemas, conhecimento e, ainda, acrescentar ao ser a ideia de que a linguagem está ligada a algo que causa a sensação de lapidação da palavra. Consequente, sua obra passa a fazer parte do nosso dia a dia. Nas suas palavras, “Que mais dizer agora, / ante o sonho que aflora, / dia a dia, mas sem / poder doá-lo a alguém? // ...Como pensar o mundo, / descravar-lhe a lança? / E que ilusão é essa / que a mente não alcança?”

Mais que isto, o poeta retrata com motivação e, certamente, alcança êxito com a força de nova visão, como revelação destinada a nos proporcionar interações diferenciadas com o seu processo de criação. Segundo ele, “...O sorriso-sol de alguém vindo / Sondar-me, - Meu bem? – Ou me iludo? - / Os sonhos todos e o mais lindo / De um amor: Entender que é tudo. // ...mas quem vem, ao longe , que fito / com o coração pleno e puro, / Enquanto desafio o infinito?”

Descobrir a poesia de Adriano Nunes no dia a dia é vencer e gostar dos desafios, como característica do leitor. Mas, a qualidade da obra é do poeta. Esse escritor promissor que descreve os poemas com talento. Quando dizemos da sua poesia, é inquestionável a qualidade e a conquista das palavras, como retrata, “... Lança-te ao íntimo. / Não sejas tolo / Um poema é / o que tem / Valor / Infinito.”





Tânia Du Bois, Professora, Bibliotecária, Editora da Poesia de Pedro Du Bois, escreve em Vidráguas, Recanto das Letras, Jornais Catarinenses e em A Revista.