domingo, 25 de junho de 2017

Elinor Wylie: "Beauty" (tradução de Adriano Nunes)

Elinor Wylie: "Beleza" (tradução de Adriano Nunes)


Não afirmes da beleza que ela
Seja qualquer coisa além de bela,
Ou às asas de madeira das pombas suave
As suas asas selvagens de ave


Não a chames cruel; o toque dessa palavra
Consume-a como uma praga;
Mas não a ame de maneira infinda,
Pois isso é pior ainda.

Ó, ela não é má ou boazinha,
Mas inocente e selvagem!
Exalte-a e ela morre, quem tinha
O pétreo peito de um jovem.

Elinor Wylie: "Beauty"

Say not of Beauty she is good,
Or aught but beautiful,
Or sleek to doves’ wings of the wood
Her wild wings of a gull.

Call her not wicked; that word’s touch
Consumes her like a curse;
But love her not too much, too much,
For that is even worse.

O, she is neither good nor bad,
But innocent and wild!
Enshrine her and she dies, who had
The hard heart of a child.


WILYE, Elinor. Collected Poems of Elinor Wilye. New York: Alfred A. Knopf, 1932.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Adriano Nunes: "Das armadilhas íntimas e, ainda,"

"Das armadilhas íntimas e, ainda,"

Quem és que tanto atiças o desejo
De ter-te, a todo custo, de tocar-te
Plenamente, sem medos, outras artes,
Obra-prima de flerte e sóis, que almejo?

Quem és que quando a vida despejo,
Em êxtases, em tudo, me repartes,
Esfacelas meu mundo, por sonhar-te?
És da chance somente o relampejo?

Ah, mistério do agir, grácil paquera
Que me leva a pesar o que não era
Para só ser o instante que já finda!

Ah, sináptico escudo que me blinda
Das armadilhas íntimas e, ainda,
Faz-me refém do olhar que dilacera!

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Adriano Nunes: "Das bi" - para Leandro Colling

"Das bi" - para Leandro Colling


Ler o sex
O do sex
O do ser
Dar ao ser
O ser sex
O ser sol
To do ser
Sol to de
Si das bi
O gra fi
As das bi
Re ver os
E los de
E ros e
Es cre ver
As his tó
Ri as só
Fler tes e
Trans as trans
As das bi

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Adriano Nunes: "Átimo"

"Átimo"


Entre o
Ar
Que
Sai

Da
Boca
E o
Ar

Que
Para
Dentro
Vai,

O
Verso
Vivo
Faz-se.

domingo, 18 de junho de 2017

Adriano Nunes: "Tensa chuvosa noite"

"Tensa chuvosa noite"


Ninguém mesmo perto. Só
O relógio grita o seu ponto
De avisos, dá novo nó
Em tudo que se diz pronto.

Ah, eu não estou pronto
Para o que agora proponho
Aos versos, um trololó,
Sem metro certo, pra o sonho

Que não vem, depois do pó
Das horas: estou tristonho!
Volto ao inicial ponto...
Quem pra o devir disso pronto

Está? Ah, este acento em "o"!
Por que logo não me exponho
E a face pra o soco ponho,
Enquanto a voz arde e so-,

Pra o abrupto pranto pra o olho,
Enquanto rimas escolho?
Ah, vontade de ser solto
De mim, de dar vez aos outros

De mim, talvez, até todos,
Lerdos e leigos e loucos,
Um a um, livres, aos poucos.
Ah, tensa noite, estou só!


quarta-feira, 14 de junho de 2017

Adriano Nunes: "Da inocência"

"Da inocência"


Acredite
No requinte
Das parábolas,
No apetite
Das metáforas,
Nas laringes
De grafite,
No palpite
Das elipses,
No convite
Das silepses,
Na chatice
Das crendices,
No limite
De algum chiste
Que se preze.
A Afrodite
Quem resiste?

Acredite:
Nisto aqui
E mais, cri.
Até no
Que você
Pra mim disse.
Que tolice!

terça-feira, 13 de junho de 2017


"ENTREVISTA COM MAURO STA CECÍLIA" (por Adriano Nunes)



Mauro Sta Cecília é um dos letristas que mais admiro. Autor de belíssimas canções como "Por você" e "Amor pra recomeçar", cantadas pelo Barão Vermelho e pelo grande Frejat, entre outras. É poeta e fotógrafo. Eis a entrevista que fiz com o amigo estimado, meu parceiro musical na nova canção do Frejat:



1) Quando se deu a consciência reflexiva de que música e a poesia estavam definitavamente ligadas à sua existência? 

A música veio primeiro. Sempre fui louco por música. Mas como ouvinte. Aprendi os acordes básicos no violão, mas logo me dei conta de que meu negócio era mais com as palavras... No colégio eu era aquele cara que era bom em português e redação. Daí para descobrir a poesia foi um pulo. Drummond foi um alumbramento, com 13, 14 anos. Comecei a escrever meus primeiros versos por essa idade. Chacal também foi muito importante, um pouco depois. E aí vi que não ia ter volta. Música e poesia, tudo junto e misturado, pra sempre.

2) Como se deu a amizade com os integrantes do Barão Vermelho? Como se deram as parcerias?

O primeiro integrante do Barão Vermelho que eu conheci foi o Frejat, desde a época do colégio, muito antes da banda existir. Depois foi o Maurício Barros, numa festa de seu irmão, meu amigo Pequinho (roteirista e coautor de algumas das primeiras músicas do Barão). Não por acaso, minha primeira música gravada foi com esses dois, Maurício e Frejat, a "Por você". A partir daí, eu conheci os outros integrantes do Barão da época, Guto, Rodrigo, Fernandão e Peninha, e as parcerias foram surgindo naturalmente. 

3) Que fatos marcantes, durante as composições, você poderia dizer como memoráveis e impactantes para a sua vida pessoal e artística?

O fato mais impactante para mim, via de regra, se dá quando o parceiro musical me mostra a melodia e a harmonia. Quando acontece o casamento da música com a letra. A hora em que a composição se revela. Esse momento para mim é sempre emocionante. Tenho a sorte de ter grandes parceiros, músicos talentosos, que transformam essa união da letra e da música numa terceira coisa que me encanta e surpreende. Agora há também o momento em que surge a ideia ou o título da canção. Gosto muito de começar pelo título. Para citar um exemplo, lembro de uma vez em que deitado, naquele estado de vigília, me veio o título "Lançado ao mar". Anotei num papel e voltei a dormir. Quando acordei fiz a letra. Virou a faixa-título do disco de um dos meus parceiros, Wilson Sideral.

4) Até que ponto confundem-se o artista e o cidadão Mauro Sta Cecília?

Desconfio que sejam a mesma pessoa... Mas sei que o lado "artista" domina a minha vida completamente. Tudo que faço e penso tem uma ligação visceral com a arte. É o que me move. Já a política e a cidadania são fundamentais para o homem-artista estar no mundo e se expressar. E vivemos tempos em que é impossível não se indignar diariamente com o estado das coisas.

5) Em 2001, Frejat lançava   "Amor pra recomeçar", seu primeiro disco solo, que impulsionaria a sua carreira e a dele. De lá para cá,  que mudanças aconteceram em seu modo de compor e ver-se artista? 

Acredito que tanto o disco quanto a canção "Amor pra recomeçar" representam a continuidade  de um processo que começou com "Por você", no disco "Puro êxtase", do Barão, em 1998. Inclusive é o mesmo trio de autores nos dois casos, Frejat, Maurício Barros e eu. Naquele ano de 98,  pedi demissão do meu emprego (trabalhava no Consulado do Japão) e passei a viver, desde então,  exclusivamente do que eu escrevo. Aí eu fui compondo cada vez mais, me tornando cada vez mais consciente das particularidades da letra de música. Me tornei um dos parceiros mais frequentes de Frejat em sua carreira solo. E passei também a escrever outras coisas: escrevi crônicas em jornal, publiquei dois romances, tive uma peça de teatro encenada. E mais recentemente comecei a fotografar e a estudar artes plásticas, tendo participado de três exposições ano passado.

6) Que composições e parceiros você toma como fundamentais para a completitude de sua obra?

Certamente "Por você" e "Amor pra recomeçar" estão entre elas, pois são minhas musicas mais conhecidas, foram as que me possibilitaram sobreviver de direitos autorais e, principalmente, me abriram caminho para novas composições e parcerias, para musicas em trilhas de novela, de cinema e também de teatro. Elas mudaram minha vida, mas muitas outras que não obtiveram o sucesso comercial também me dão orgulho de ter feito, como por exemplo, "Embriague-se", com Frejat (para o disco do Barão Vermelho de 2004), inspirado no poema em prosa homônimo de Baudelaire, ou "Nunca fui a Paris", com Humberto Effe, do Picassos Falsos, que gravei no meu disco autoral, de 2013, e o Picassos gravou no disco deles que acaba de ser lançado, agora em 2017. Mas na verdade eu estou de olho sempre é na próxima, independentemente do que possa vir ou não. Sobre os parceiros fundamentais, além do Frejat e do Maurício Barros, é evidente que o pessoal todo do Barão também é, Rodrigo Santos, Fernando Magalhães, Guto Goffi... mas tem mais gente aí que é muito importante para mim como o próprio Humberto Effe, George Israel, do Kid Abelha, Sérgio Serra, que foi do Ultraje a Rigor, mais recentemente o Leoni, o pessoal do Blues Etílicos... O Sideral, talvez um parceiro improvável, muito ligado ao Jota Quest e com uma carreira muito centrada em Minas Gerais, mas que fizemos algumas coisas que marcaram a discografia dele... Enfim, não vou citar todo mundo que é importante para mim porque posso deixar um ou outro de fora e não quero causar ciumeiras...

😎 O Frejat tornou-se um parceiro constante e, juntos, vocês fizeram grandes sucessos musicais, sendo elogiadas essas composições tanto pelo público quanto pela crítica. Como é compor com Frejat? Como se deu essa bela amizade? Parece haver uma relação familiar entre vocês e suas respectivas famílias. Seus filhos são músicos e tocam juntos, certo?

Sim, nossa parceria e grande amizade se refletiram em nossos filhos, Julio Santa Cecília e Rafael Frejat, que tocam e compõem juntos e têm uma banda bem legal, o Amarelo Manga. Nossas famílias se relacionam, nós já passamos vários finais de ano juntos. Eu e Frejat, a quem chamo de "Roberto", porque o conheço dos tempos de escola, estreitamos nossa amizade a partir do amor pela música. Lembro dele no pátio do colégio sempre com um disco debaixo do braço, ou ainda tocando "Eleanor Rigby", no bandolim, na hora do recreio. Compor com Frejat é uma delícia, porque além de ele ser um mestre, com quem muito aprendi, ele é um gentleman, que não impõe nada, nunca deixa de consultar o parceiro sobre eventuais mudanças e, apesar de pouco escrever letra de música, tem um olhar muito afiado para o texto. Afinal, foi parceiro do Cazuza, né, com quem compôs grandes pérolas não apenas do rock, mas da música brasileira.

9) Como surgiu "Amor pra recomeçar" e "Por você"?

"Por você" surgiu de um poema que fiz. Na época estava vivendo um romance que não estava dando muito certo e resolvi escrever em versos as loucuras que faria para conquistar a moça. Depois percebi que o poema tinha um ritmo musical e mandei pro Frejat. Ele e o Maurício Barros acabaram fazendo o recorte da letra, pois alguns versos não entraram na canção. Este poema está no meu segundo livro, "Olho frenético", de 2005. Já "Amor pra recomeçar", de 2001, surgiu a partir de um poema que circulou bastante na internet com o título de "Desejo" e era atribuído a Victor Hugo, o romancista francês (como se sabe, autoria na internet é um negócio complicado, nem sempre é o que se apregoa... nós nunca conseguimos descobrir a real autoria desse poema). Fiz uma adaptação livre deste poema. Cheguei a fazer umas duas versões antes da letra definitiva. E depois Frejat e Maurício fizeram a música.

10) O que há de bom na nova música brasileira? Quem Mauro anda ouvindo?

Acho que muito do que rola hoje de bacana na música vem da mistura de gêneros. Gosto muito do Lucas Santtana, do Marcelo Jeneci, do Criolo, do Jonas Sá, da Céu, da Mãeana, da Mariana Aydar, da Ava Rocha, do Thiago Amud, do Cidadão Instigado, do Passo Torto, do Romulo Froes... Tenho ouvido recentemente o último do BNegão, os discos do Baiana System, do Boogarins e do Alvaro Lancellotti.

11) E a poesia... Qual a sua relação com poetas e poemas? Que anda lendo o poeta Mauro Sta Cecília? 

É curioso que tudo que faço vem da poesia, mas tenho mais amigos músicos do que poetas. Em relação aos poemas, não sou daqueles que falam seus poemas prediletos de cor... Nem os meus eu consigo decorar. Mas ultimamente tenho gostado muito de falar em publico (com a devida cola) um poema de Charles Bukowski, "Definindo a mágica", que trata do fazer poético. Sobre as leituras, tenho lido muitas mulheres. Há uma safra muito boa de poetas como Ana Martins Marques, Angélica Freitas, Bruna Beber, Matilde Campilho, Masé Lemos, Maria Isabel Iorio. Mas curto também bastante o trabalho de poetas homens como Carlito Azevedo, Fabiano Calixto e Marcelo Montenegro.

12) Fizemos uma composição juntos. Como foi que aconteceu musicar com o Frejat um poema de um poeta alagoano, tão aparentemente distante do circuito artístico sul-sudeste?

Você, Adriano Nunes, é um poeta que colocaria também entre aqueles de que mais gosto do cenário contemporâneo. Nós nos conhecemos pela internet. Se não me engano, através do blog do Antonio Cicero, um poeta que nós dois admiramos muito. Logo percebi a sua enorme capacidade de versejar sobre qualquer tema, sua formação consistente, sua sede de conhecimento. E lendo seu livro "Laringes de grafite", me deparei com um poema, "Tudo ainda", que me chamou a atenção pela musicalidade dos versos. Fiz uma adaptação do poema e mostrei pro Frejat. Lembro do dia em que ele compôs a música. Era final de ano, estávamos viajando, e ele me chamou em seu quarto antes do almoço para ouvir a composição. Ali naquele momento caíram duas ou três lágrimas e me dei conta de que tínhamos feito uma bela canção, emocionante, e que ainda - espero eu - vai nos dar muitas alegrias. 

13) Previsão de livro novo? Canções novas? Parcerias novas?

Tenho dois projetos de livros novos: o primeiro, uma coletânea dos meus quatro livros de poesia, com 26 poemas e 26 fotografias, unindo o passado e a minha trajetória com o meu trabalho atual, que cada vez mais procura integrar texto e imagem, a partir do meu crescente interesse pelas artes visuais; o segundo, é um projeto de livro em parceria com o cantor, compositor e hoje poeta Leoni, que anda escrevendo coisas muito boas. Sobre canções e parcerias musicais, tenho muita vontade de intensificar a troca tanto com artistas da nova geração quanto com artistas de outros gêneros, seja do rap, da música eletrônica ou do samba. Me interessa cada vez mais borrar as fronteiras. 

14) O Brasil atual para Mauro: qual a sua visão político-crítica de tudo que está acontecendo?

Não só o Brasil mas o mundo passa por um momento muito delicado de intolerâncias, radicalismos religiosos, crescimento conservador. No caso específico do Brasil, ainda tem o câncer da corrupção generalizada. Vivemos uma época de pobreza intelectual. De muito google e pouca poesia... O mundo virtual anda ganhando de goleada do mundo real. Por outro lado, acredito que há também uma nova geração bacana aí, menos preconceituosa, menos machista, que reivindica seus direitos, mais ligada à alimentação natural, à ecologia e ao meio ambiente. Não sei. Posso estar errado. Mas, como gosto dos paradoxos, enquanto o mundo não acabar eu prefiro acreditar que nem tudo está perdido.

Adriano Nunes: "Se for amor"

"Se for amor"


Se for
Amor,
Celebre,
Não deixe
Que lhe
Estraguem
O dia,
A vida
Por ser
Tão breve
Precisa
Ser leve.

Se for
Amor,
Não se
Apegue
Ao medo
Do que
Os outros
Irão
Pensar,
Dizer.
Entregue-se
À verve.

Se amor
For, vire
A página,
Bem saiba
Dar foras
No ódio
Que gosta
De estar
Na moda.
Por ter
Amor,
Alegre-se.

Mais ame
E dê
Vazão,
Agora,
Ao que
Importa.
Observe
Em volta.
O amor
O instante
De amor
Reveste.

Adriano Nunes: "Dia dos namorados"

"Dia dos namorados"

Quase todo mundo já
Teve um amor, dizem
Os experts no amor. 
Eu até que tive alguns,
Uns dois, uns dez, acho.
Mas, agora, repensando
Bem, não sei se fora
Amor. O que sei é
Que, hoje, dia dos pares
Apaixonados, estou
Sozinho em meu quarto,
A escrever estes versos
Que não são de amor,
Decerto. Quase todo
Mundo já escreveu
Versos de amor mesmo
Quando não havia amor
Nos versos. Quem sabe,
Nos versos, eu encontre
O amor que está longe.
Ah, amor de tantos nomes!

segunda-feira, 5 de junho de 2017

"Entrevista com Frejat" (por Adriano Nunes)

"ENTREVISTA COM FREJAT" (por Adriano Nunes)



Para dar uma pequena introdução, Frejat é um dos grandes, um dos maiores compositores/cantores brasileiros, autor de belíssimas canções. Viva Frejat!

1) Quando se deu a consciência reflexiva de que música estava definitivamente ligada à sua existência?

Muito cedo, desde muito novo comecei a comprar discos e ouvir música de uma forma bastante atenta, acho que de uns dez anos em diante isso se cristalizou no fato de eu me tornar um ávido consumidor de discos e com o tempo ampliei os meus interesses iniciais do rock para outras formas de música, mas ter certeza que era isso que eu queria fazer na vida acho que só a partir dos dezesseis, dezessete anos, mesmo assim, sem ter a menor ideia de como isso aconteceria.

2) Como se deu a amizade com os integrantes do Barão Vermelho? Como surgiu a ideia da banda?
Fui convidado a participar de um evento que o Guto e o Maurício tinham marcado para a apresentação da banda que estavam formando, esse foi o motivo para o meu encontro com eles e o Dé, e também para a chegada do Cazuza uma ou duas semanas depois, assim se formou o núcleo original do Barão Vermelho.
Não os conhecia anteriormente, com exceção do Dé que cursava a mesma escola de música que eu.
Fui indicado por um amigo em comum chamado Edon de Oliveira, um grande guitarrista, por sinal.

3) Como era compor com Cazuza? Que fatos marcantes, durante as composições, você poderia dizer como memoráveis e impactantes para a sua vida pessoal?

Nós dois nos descobrimos compositores juntos e havia claramente o deslumbramento de perceber que estávamos fazendo algo que tinha consistência, mas era totalmente novo para nós dois.
Acho que a nossa alegria ao terminar essas canções era imensa e isso certamente fortaleceu a nossa amizade e a levou a um nível muito especial.

4) Até que ponto confundem-se o artista e o cidadão Roberto Frejat?

Acho que tem muitos pontos em comum, mas eu não saberia dizer quais são. risos
É muito difícil você não refletir nas suas canções a sua maneira de pensar, por outro lado, existe claramente o personagem de cada música e ele não sou eu.

5) Em 2001, você lançava "Amor pra recomeçar" que impulsionaria a sua carreira solo. De lá para cá, que mudanças aconteceram em seu modo de compor e ver-se artista?

Acho que tenho mais conhecimento do ofício e pude apresentar algumas canções de forma diferente do contexto de uma banda de rock.
Aprendi a entender um pouco mais as minhas obrigações dentro do meu dia a dia.

6) Você já compôs com vários nomes consagrados da música brasileira. Que composições e parceiros você toma como fundamentais para a completitude de sua obra?

Nomear uns em detrimento de outros seria muito constrangedor e indelicado.
Eu tenho um carinho enorme por todos os meus parceiros, pois dividir uma parceria é muito mais profundo que o resultado final, tudo que acontece no meio do processo da criação de uma canção também tem uma importância muito grande.
Tenho parceiros que trabalhei com mais frequência e isso torna nossa parceria mais visível, mas tenho um sentimento profundo por todos eles, inclusive você.

7) Você compôs "Bagatelas" com o filósofo e poeta Antonio Cicero. É uma belíssima canção. Como se deu a parceria e a composição?

Ela aconteceu imediatamente após a saída do Cazuza da banda. A maneira que encontrei para ocupar o espaço de letrista que ele exercia na banda com tanta qualidade.
Fui atrás de quem poderia me dar letras de qualidade para musicar e o Cícero foi uma dessas pessoas.
Agora recentemente fizemos outra, desta vez com Mauro Santa Cecília também na parceria, que ainda está inédita, mas brevemente devo gravá-la

8) O Mauro Sta Cecília tornou-se um parceiro constante e, juntos, vocês fizeram grandes sucessos musicais, sendo elogiadas essas composições tanto pelo público quanto pela crítica. Como é compor com Mauro? Como se deu essa bela amizade? Parece haver uma relação familiar entre vocês e suas respectivas famílias. Seus filhos são músicos e tocam juntos, certo?

Eu e Mauro fomos colegas de turma durante alguns anos e mantivemos nossa amizade mesmo depois de pararmos de estudar juntos.
Nossa parceria é fruto de muitas conversas e pensamentos convergentes, além da sensibilidade de cada um que estimula o parceiro a fazer algo à altura do que está sendo proposto.
Hoje além de parceiros musicais, temos a alegria de assistir a parceria dos nossos filhos numa banda muito legal que se chama Amarelo Manga.

9) Vê-se que você é admirado por jovens e pelos fãs da época do Barão. Como você explicaria tal fenômeno e o que ele representa para o Frejat?

Não tenho explicação, mas acredito que seja pelo fato do discurso não ficar datado.
Isso me traz uma alegria enorme e me considero presenteado por ter esse tipo de resposta de várias gerações, mas não faço isso premeditadamente,
até porque acho que seria impossível.

10) O que há de bom na nova música brasileira? Quem Frejat anda ouvindo?

Gosto da Céu, do The Baggios , de O Terno , Criolo, SILVA, não ouço mais coisas porque não tenho tido o tempo que gostaria para me atualizar.

11) E a poesia... Qual a sua relação com poetas e poemas? Que anda lendo o compositor?

Eu leio de forma dispersa. Adoro Quintana, Drummond, Manoel de Barros, Ricardo Chacal, os poetas beats e por aí vou.

12) Fizemos uma composição juntos. Como foi que aconteceu musicar um poema de um poeta alagoano, tão aparentemente distante do circuito artístico sul-sudeste?

Meu parceiro Mauro Santa Cecília me mostrou uma letra que tinha feito a partir de algo que você tinha escrito, não lembro se um poema ou um texto, eu gostei e disse que faria música para ela.
Algum tempo depois fiz e agora estou gravando.
Ela será lançada em breve junto com outra canção inédita.
Gosto muito da canção e estou tentando fazer um arranjo que lhe dê uma apresentação bonita.
13) Previsão de disco novo? E o show atual, em que se baseia, qual o formato?

Não pretendo lançar disco novo.
Penso em lançar músicas em grupos, como farei com essas duas em breve nas plataformas digitais, pois nesse momento, com exceção de um consumo de nicho como o vinil, não existe um formato físico que atenda o público de música.
Eu tenho dois shows que acontecem paralelamente: o "Frejat ao vivo", que é com minha banda e tem um conceito mais festeiro e dançante e o "Frejat voz e violão" que só faço em teatros com um repertório autoral que inclui músicas que nem sempre toquei ao vivo misturado com canções mais conhecidas.

14) O Brasil atual para Frejat: qual a sua visão político-crítica de tudo que está acontecendo?

A população tem obrigação de ficar atenta e mobilizada para que a classe política não faça mal maior ao país, pois nesse momento só se mobilizam para resolver seus problemas e não os interesses nacionais.
A necessidade de novos nomes é urgente, e temos de ficar atentos para não dar espaço para os "salvadores da pátria".
Não se constrói um país numa década, mas pelo menos o caminho certo tem de ser escolhido, caso contrário , anda-se para o lado errado que é o que fizemos e ainda não conseguimos resolver de forma definitiva.
Isso é motivo de muita angústia para mim, pois sempre acreditei no potencial do país de se tornar uma grande força mundial, mas acho que perdemos a grande chance e agora temos que colocar as coisas nos lugares certos.


Obrigado, grande amigo! Beijos mil
Adriano Nunes


domingo, 4 de junho de 2017

Adriano Nunes: "The night of Poetry"

"The night of Poetry"


I will be wrong and you
Will be right next night.
Because I love chimeras
Everything will be alright.

Ah, our illusions are so aloof!
Because I do not know what I
Want to do with this memory
Without your guffs and lies

Everything goes by fastly
Like a dream suddenly,
A dangerous dream that sores
And does not exist anymore.

For an aesthetic lonely love
So you are wrong and I
Am right tonight
Between your frenzy and mine

Between your unrest and my desire.
Everything seems real and shines
Because it is the night of Poetry
And in it my ridiculous rhymes

Can change any realities
(Are we fools?)
- If you allow yourself, without fear,
That the Muses say other truths to you.

sábado, 3 de junho de 2017

Adriano Nunes: "Este mundo"

"Este mundo"


Na cabeça
De Medusa,
Vida pulsa.
Não só serpes
Que se mexem.
Não só verve
Com veneno.
Sequer víboras
Que se agitam,
Que se torcem,
E não se
Picam, botes
Não engendram,
Não por sorte.
Que não podem
As serpentes
Aderidas
À estranhíssima
Nova Górgona?
Não se atrevem
A ver óptica
Morte, todas
Elas, cobras
Sem um norte.
Eis que logo
Surge, súbito,
Grande grito
Na caverna.
Obras pétreas?
Ou Perseu
Que aparece
Com a lâmina
Luminosa,
Pronta para
Arrancar
A cabeça
Da telúrica,
Num só golpe
De reflexo?
Já despido
Do seu elmo
E do escudo,
Aos céus volta-se.
Morto o monstro,
Nada sabe
Do destino
Que, a acasos,
Seguirá.
O artefato
Da proeza
Junto ao corpo,
Já cansado,
Com pavor
De si mesmo,
Bem carrega.
Na cabeça
De Medusa,
Que não pulsa?
Mesmo morta,
Pedras gera
Com o olhar
Que não era
Mais o dela.
Para Atena
Oferece
Sua astúcia,
Seu ser único,
Por ser filho
Do deus Zeus:
A cabeça
De Medusa,
Este mundo.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Adriano Nunes: "June" - to Marjorie Perloff

"June" - to Marjorie Perloff


For Juno,
It's June,
Sixth month.
Not for
The Ancient
Greeks that
If could
They would
Have written
Like this:

The month of
The Wife
Of Zeus,
Of Hera.
In the
North, Summer
It shelters.
High heat
And slender
Tan bodies.

Wild Wishes,
Indeed.
In the south,
Chill Winter,
With winds
And rain
Stronger than
Those of
The north.
All bodies

Are dressed.
Is what
It seems,
Isn't it?
Strange
Damages,
Like Hera’s
Wrath.
Half of
A year.

Adriano Nunes: "Junho"

"Junho"


Por Juno,
És junho,
Mês sexto.
Não para
Os gregos
Antigos
Que se
Pudessem
Teriam
Escrito
Assim:
O mês
Da esposa
De Zeus,
De Hera.
No Norte,
Verão
Acolhes.
Calor
E corpos
Esbeltos.
Desejos,
Decerto.
No Sul,
Inverno,
Com ventos
E chuvas
Mais fortes.
Os corpos
Cobertos.
Estragos
Estranhos,
Qual ira
De Hera.
Metade
Do ano.


quinta-feira, 1 de junho de 2017

Adriano Nunes: "Nas raspas últimas do desejo"

"Nas raspas últimas do desejo"


Nas raspas últimas do desejo,
Um tumulto entre as sinapses.
Estrondo? Estorvo? Excitação?
Não há como saber se
Ainda vale a pena rasgar-me
Com as miméticas metáforas que
Afiadas foram com o afinco dos outros,
Com a aflição dos sonhos que são
Os sonhos de todos.
O que importa a esta hora mesmo
Em que tudo me fere e forma?
Ah, esquecimento de ser só
A desventura do átimo-nó
Das expectativas de fugir,
De vez, de quem me sinto e penso!
Ah, sulfúrea saudade de não-ser!
No breu desta madrugada,
A vida de tudo do infinito salta.
Até este risco perigoso
De haver deuses e desencontros adentro,
Este risco de engendrar-te, ó gozo
Ante o espelho: palavra quase
Pele e ponte, proezas peripatéticas e carne.
E, subitamente, quanto mais quero
Que não passe o tempo,
Sobre tudo que vinga e arde
A manhã vejo
Lançar-se.

domingo, 28 de maio de 2017

Adriano Nunes: "Portento" - para os outros de mim

"Portento" - para os outros de mim


Tenho comemorado o que só sou,
O que em mim me soou, uns rasos voos
Entre o chão da razão e a escuridão 
Que entre o sim e o não vingam. Já são

As venturas da verve que me estão
A levar nesta vida, atado ou não
Às tensas incertezas do que sou
Por ser tantos, de vez, sem ser censor

Dos eus que, bem distintos, vão formando
Um todo heterogêneo, como um bando.
Tenho comemorado, feito louco,

Todos em mim, sem fim: sonhar é pouco!
Dizer de mim quem sou, ouso tampouco.
Ah, mistério em que estou me amalgamando!

Adriano Nunes: "Aniversário"

"Aniversário"

Neste dia
De ser tantos,
De ser todos,
De ser tudo,
De ser todo,
De estar tonto
De só ser,
Deixo o ser
Desfazer-se
Em sentidos,
Entre amigos.
Alegria
É saber
Que nasci
Para ti,
Poesia,
Neste dia.

sábado, 27 de maio de 2017

Adriano Nunes: "A sorte de ser ninguém" - para o poeta português, meu amigo Tiago Torres da Silva

"A sorte de ser ninguém" - para o poeta português, meu amigo Tiago Torres da Silva 



Nesta tarde de nada mesmo importar,
Poderia tecer outro soneto
De amor ou de ilusão, criar um mar
De imagens sem fim, de mim repleto,

Ou, quem sabe, a canção que, já no ar,
Deixa-se desfazer, por ser, decerto,
O certo a acontecer, para alargar
O lugar do devir, estar desperto.

Ah, fome de ninguém ser desde já!
Ah, gozo de ninguém ser por completo!
Dize-me, coração, ser em que dá?

Nesta tarde de vácuos, sou objeto
Das minhas esperanças, obsoleto,
A sorte de ninguém ser, aqui, lá.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Adriano Nunes: "Propinolândia"

Propinolândia"


Na crise,
Não cruze
Os braços,
Não corte
As pernas,
Não corra
De si,
Não se
Entregue
Ao primo
Estorvo,
Não se
Contenha.
Espalhe
A vez
De tudo
Que há
E cante
A vida.

Há sempre
O crime
Medonho,
O medo
Do sonho,
O podre
Poder,
A sombra
Da dor,
A tática
Do tédio,
Corruptos
Em série,
O crime
Sem culpa,
O meio
De fuga,
O mito.
A mídia.

Na crise,
Não cerre
Os olhos,
Não tampe
Orelhas,
Não fuja
Da luta,
Não se
Entregue
Ao mínimo
Cansaço,
Às falhas,
Que custa?
Espalhe
A voz
De tudo
Que é
Ainda.

Adriano Nunes: "Outro todo"

"Outro todo"

Nesta noite,
Outra noite,
Outro norte,
Outro nome,
Outro nume,
Neste nada.
Nesta noite,
Outra nata,
Outra nota,
Outra norma,
Outra nave,
Outro nunca.
Depois outro
Serei, outro
Sem lei, outro
Ser sem outro
Ser, sem ser
Outro, todo
Triste, tolo,
Sem ter tempo
Pra consolo,
Sem ter dentro
Qualquer outro
Eu: que ouso?

Adriano Nunes: "Desejo"

"Desejo"


Como cegar meus olhos
Pelo que vejo
Como culpar meu cérebro
Pelo que penso
Como lacrar meus lábios
Por tanto beijo
Como punir meu senso
Pelo que quero

Ah, o desejo que me deseja!
Ah, o desejo que me deixa!

Como perdoar o que vejo
Com outros olhos
Como ponderar o que penso
Com este encéfalo
Como bloquear tanto beijo
Com lábeis lábios
Como amalgamar o que quero
Ao sério senso

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Marianne Moore: "Under a Patched Sail" (tradução de Adriano Nunes)

"Sob uma vela remendada" (Tradução de Adriano Nunes)


"Oh, beberemos novamente
Quando costeiro está o vento"
Da velha jarra beberemos,
E ao porto então,
Para o tempo vingar pequeno.
Vem rapaz - aos dias que são!


Marianne Moore: "Under a Patched Sail" 


“Oh, we’ll drink once more
when the wind’s off shore,”
We’ll drink from the good old jar,
And then to port,
For the time grows short.
Come lad—to the days that are!



MOORE, Marianne. Complete Poems. New York: Penguin, 1994.

Adriano Nunes: "O poema" - para Fátima Castro (por seu aniversário)

"O poema" - para Fátima Castro (por seu aniversário)


Uma tela
Para ela,
Para vê-la
Leve, nesta
Sua vera
Primavera.

Que sol vela
Esse esquema
Que, à espera
De voz bela,
Ou quimera,
Não se entrega

Fácil? Era a
Verve pela
Vez ou sê-la,
De vez, nesta
Lei suprema:
O poema.

domingo, 21 de maio de 2017

Adriano Nunes: "Chuvosa manhã"

"Chuvosa manhã"


Não há mesmo pensar que não te sinta,
Ó molhada manhã! Tudo se esvai
Com as águas da chuva, até meus ais!
Que ilusões poderás tanto ainda?

Será que assim darás à vida mais
Do que espera e atenção ou, na berlinda
Dos acasos do olhar, tiras a tinta
Das paredes, o sol que do ver sai?

Ah, miríade móvel de esperança,
Ah, gota de devir que a alma alcança,
Como métrica dar ao que não finda?

Como ao verso lançar tua beleza
E, aquosa e acesa, atá-la à correnteza
Do agora que me afaga e me distrai?

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Adriano Nunes: "Εὐριπίδης" - para Alberto Lins Caldas

"Εὐριπίδης" - para Alberto Lins Caldas


Agora que a
Ágora está
Vazia, que
Não há mais grego
Ou grega nos
Vãos, arredores,
Que não há deuses
A velar pelo
Porvir mimético,
Pelo devir
Que muito mais
Pode, que Hélios
Carrega embora
O sol, sem pressa,
Dá pra sentir
Já por que todos
Saíram em
Silêncio. Não
Há mais consenso.
Ah, nunca houve!
Consenso era
O ideal de
Que tudo mesmo
Seria igual.
Agora que
Todos se foram
E dispersaram-se
Por vias e
Vácuos, bem vê,
Rest' uma rédea
Ainda presa
À ideia, como
Cláusula pétrea.
Sonha o silêncio!
Ao longe, escuta-se
O baque agudo
De pedra. Um eco
Em direção
Ao que se mexe.
Nem grego ou grega
Pra trás se voltam.
Apenas dizem,
Impressionados,
Que um jovem bardo,
De nome Eurípides,
Cantando Alceste,
Os concorrentes
Logo elimina,
Com magna arte e
Talento. Quase
Nada mais sabe-se
Dele, a não ser
Que bem nascera
Em Salamina.

Adriano Nunes: "Votar já!"

"Votar já!"


Tantos ratos
Pelos ocos
Dos esgotos
Do Planalto
Tantas tretas
E conchavos
Pouco a pouco
Revelados
Tantos pactos
Contra o povo
Tão tramados
Já expostos
Tantos vácuos
Na moral
Do negócio
Eleitoral -
Tantos! Qual
A saída
Dessa zorra
Sem igual?
Tanta mídia
Sub-reptícia
A abafar
Tanto escândalo!
Tanto podre
Poder pelos
Corredores
Do Congresso.
Tanto jeito
Brasileiro
De furtar
Bens, dinheiro.
Cidadãos,
Tão sofridos,
Enganados
Pagam pato
Desse estrago
Democrático.
Não se ouve
Mais panela
Das janelas
Dos Jardins,
Do Leblon?
Outro som
Pelas ruas
Faz gerar
Um desejo
Verdadeiro:
Votar já!
Votar já!
Votar já!
Votar já!

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Jaime Sabines: "No quiero paz" (Tradução de Adriano Nunes)

"Não quero paz" (tradução de Adriano Nunes)

Não quero paz, não há paz,
quero minha solidão.
Quero meu coração desnudo
para atirá-lo à rua,
quero fincar-me surdo-mudo.
Que ninguém me visite,
Que eu não veja ninguém,
E que se há alguém, como eu, com asco,
que o trague.
Quero minha solidão,
não quero paz, não há paz.

Jaime Sabines: "No quiero paz"

No quiero paz, no hay paz,
 quiero mi soledad.
 Quiero mi corazón desnudo
 para tirarlo a la calle,
 quiero quedarme sordomudo.
 Que nadie me visite,
 que yo no mire a nadie,
 y que si hay alguien, como yo, con asco,
 que se lo trague.
 Quiero mi soledad,
 no quiero paz, no hay paz.


SABINES, Jaime. "No quiero paz". In:_____."La señal". In:_____. Horal/La señal. México, D.F.: Joaquín Mortiz, 2013.

Adriano Nunes: "Nossa podridão contra o outro"

"Nossa podridão contra o outro"


Massacrados.
Todos os dias somos massacrados
Pela massa que somos,
Por sermos quem somos,
Por sermos quem não somos,
Por sonharmos, pelos sonhos.
Massacrados
Pelo escárnio de sermos o escárnio
Da intolerância, o excremento
Da indiferença
Enquanto ejaculamos, à socapa,
Nossa podridão contra o outro,
Aquele que não somos,
Aquele que nos odiamos por não o ser,
Aquele do aceno grácil e das fraquezas,
Aquele da raiva e do rancor, das regras rígidas,
Dos assombros, dos furtos de esperanças e da fome faraônica,
Massacrados
Pelos convites, dos convictos de tudo,
Para os seus séquitos de ordem e glória,
Pelos bordões anedóticos dos racismos intitucionalizados,
Pelos egos bordados a ouro e dominação,
Pelas desculpas na hora do exílio social,
Pelas panelas de aço e de hipocrisia,
Pela tosse crônica dos mais e porquês.
Massacrados por crases e gerúndios,
À revelia dos que estão engendrando
Poder, pranto e ponto eletrônico e carteiras assinadas
Pelo horror de tudo que há.
Massacrados pelo nada.
Porque é tempo de ser nada.
O nada faminto e sedento.
O nada arquitetado por métodos e melodramas,
Por astúcias e armadilhas.
Massacrados pela tirânica justiça dos que clamam
Pela balança desequlibradamente para o lado de lá.
O lado que pesa.
O lado que despreza a razão crítica.
Mas o que seria do lado de lá se não fôssemos, nós,
Esse apoteótico rebanho hightech pop midiático,
Esse estrume esdrúxulo e espúrio e purgante
A reinvidicar os restos do que não mais somos,
Do que não mais seremos,
Esse atropelo feroz de identidades mesquinhas,
Prontas para esfacelar o dia, a vez, a voz.
Massacrados pelos feitos à imagem e à semelhança
Das ilusões dos que atiram pedras das alturas.
Massacrados pelas ideologias e dogmas,
Pelas nossas escolhas, pelas nossas dúvidas,
Porque sempre houve juízos
Injustamente justos e justificáveis e acima do bem e do mal.
Massacrados pela felicidade e
Pela tela de trinta e duas polegadas de tédio e farsa,
Pelas tropas de trumps e tremendous traps,
Pelos populismos doentios e cegos,
Pelo moralismo nefasto dos moralizadores ad hoc,
Para sempre,
Sem previsão de férias.
Massacradamente humanos.