terça-feira, 17 de outubro de 2017

Adriano Nunes: “Que basta?”

“Que basta?”

Só neste
Lugar
Sacana,
Capenga,
Careta,
Carente
De gente
Pra frente,
Nascer
Já pobre
Ou preto
Ou fora
Do fixo
Padrão
Dos brancos
Da elite,
Só neste
País
De brutos
Bacanas
Babacas,
Que beira
À farsa,
Em que a
Miséria
Impera
Em riste,
Que cheira à
Desgraça,
Sem ter
Ouvida a
Palavra

- É mesmo
Não ter
Direito
A nada! -

Que fede
À bala
Perdida,
À escola
Fechada,
À fraude
Fiscal,
A igrejas-
Empresas,
A escândalos
De sul
A norte,
Que fez
Um pacto
Co’a morte,
Co’a lei
Dos que
São fortes,
Mais fortes,
Ser gay,
Ser gótico,
Ser puta,
Ser punk,
Ser por
Ser o
Que se
Quer ser,
É mesmo
Ser nada.
Ó, quando
Diremos
Que basta?

Adriano Nunes: "Ciranda nefasta"

“Ciranda nefasta”


A cultura da superficialidade festejada,
A burrice crônica aplaudida,
O jeitinho brasileiro como didática,
A preguiça elástica condecorada,
Os discursos sofismáticos premiados,
A pós-verdade que não diz nada bajulada,
Os políticos vitalícios e seus lesivos conchavos,
Os corruptos homenageados nas praças com estátuas,
Os egos superinflados comissionados,
A inveja prêt-à-porter admirada,
As ideologias cegas implantadas na alma,
A moral moralizadora imposta à crença ou à bala,
Os pastores midiáticos milionários,
Os hipócritas com pedigree venerados,
Os séquitos de imbecis proliferados,
A todo momento, por todos os lados,
Ó, povo cordeiro,
Ó, massa prendada,
Ó, povo solícito,
Ó, massa alienada,
Ó, povo que a tudo se dobra!
Sonhar é fácil!
Sonhar é de graça!
Para que essas algemas?
Para que esses cabrestos?
Para que essas bitolas?

Adriano Nunes: "Ou nada"

“Ou nada”

De beijo
A beijo,
A boca
Já busca
O vinho
De Baco,

E, abaixo,
A bunda
Desnuda
Do broto
E, fundo
Na carne,

Aquela
Mordida
Ardente
Engendra,
Dá, sem
Pudor,

Sem ter
Receio
De mácula
Ou mágoa.
Agora
Só falam

Que o amor,
Ou o que
Sobrou,
Caminha
Na corda
Elástica

Do tudo
Ou nada.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Adriano Nunes: "Poesia" - para André Vallias (por seu aniversário)

"Poesia" - para André Vallias (por seu aniversário)

Eis o que
Quer a
Poesia, além 
Do fato de
Ser poesia

(Ela nem
Sempre vem
Como a gente
Arquiteta e
Gostaria!)

Apenas:
Ter a alegria
Irreverente
Das ironias e das
Paráfrases

Engendradas,
Pra tudo ou nada,
Pelo André
Valias, não é
Mesmo, Poesia?

Adriano Nunes: "Ideias"

"Ideias"


Se em sua mente
Uma ideia fez-se,
Casualmente, 
Semente
Somente,
E a razão
Conta dela dera
Criticamente,
Ainda bem!
Poderia ser
Bem diferente.

Poderia ser uma
Ideia que se fizesse
Potente
E quisesse
Inibir qualquer outra
Ideia, como se
Ela fosse
A gênese
- Ou o chefe
Da mente -
E gerasse ideias
Totalitárias sempre.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Adriano Nunes: "Contra a censura"

"CONTRA A CENSURA"


LIBERDADEFULGURA
LIBERDADEFULGURD
LIBERDADEFULGUDI
LIBERDADEFULGDIG
LIBERDADEFULDIGA
LIBERDADEFUDIGAM
LIBERDADEFDIGAMN
LIBERDADEDIGAMNÃ
LIBERDADDIGAMNÃO
LIBERDADIGAMNÃOÀ
LIBERDDIGAMNÃOÀC
LIBERDIGAMNÃOÀCE
LIBEDIGAMNÃOÀCEN
LIBDIGAMNÃOÀCENS
LIDIGAMNÃOÀCENSU
LDIGAMNÃOÀCENSUR
DIGAMNÃOÀCENSURA

sábado, 7 de outubro de 2017

Adriano Nunes: “Ylyalim”

“Ylyalim”


Nada foi fácil - repete pra si
O velho Ylyalim, enquanto brinca
Com algumas pedrinhas, ante a bica,
Aquela mesma bica de marfim
E medos, de esmeraldas, onde Sísifo
Banhava-se nu, antes do castigo
Infindo. Por que brinca, só, ainda
O velho Ylyalim, enquanto a vida
De tudo parece dar-se a um porvir
Sem portentos, como se um cruel crime
Estivesse pra cometer, no mínimo?
Nada é fácil - diz o velho feliz.
Há muito está só, lúcido e até livre
De suas grãs astúcias e tolices.
Livre, brincando com as pedrinhas
Ante a bica de pedras e marfim,
Sem lamentar coisa alguma, nem isso
Que lhe furta os pensamentos - Aqui -
Diz para a água que escorrega fria
Entre os dedos enrugados, feridos -
A tocar-te estou, líquido destino!
Segues sem mim e assim símile sigo!
Agora brinco com as pedras, vivo!
Agora brincas, com arte, comigo.
Para quê? Não me digas! Não me digas!
Nada foi fácil! - repete pra si
O velho Ylyalim, enquanto ri
Do acaso que arquitetara o devir.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Adriano Nunes: "A falar de versos" - para Antonio Cicero (por seu aniversário)

"A falar de versos" - para Antonio Cicero (por seu aniversário)


Praia planejada
No primeiro encontro.
Mas a chuvarada
Veio forte e... Pronto:

Estamos nós dois
A falar de versos
E do que depois
Será, mais imersos

Em cada poeta
Que amamos. O mar
Até nos completa,
Neste patamar

De alegria estética.
Do Latino, as Odes
Belas, as grãs Odes!
Do Helênico, a Ética...

Na prima visita,
Rápida, na praia,
A arte se espraia,
E a vida se agita.

Adriano Nunes: "Canção de amor"

“Canção de amor”


Verso, se for
Pra ser de amor,
Em hora dessa,
Esqueça, por
Favor, a métrica
Que já lhe estou
Mesmo a impor.
Veja se leva
A lida, à flor
Da verve, à vera.
O que passou
Que mal deixou
Senão a pressa
De amar o amor?
Verso, se for
Pra vingar mera
Espécie estética,
Será melhor
Deixar-me só
Co’ a minha meta
De ser poeta
Só, sem louvor,
Sem céus ou cédulas.
Poeta só,
Atado à tétrica
Noite em que só
Ser o conecta
Ao ser que sou.

Adriano Nunes: "Da grã tristeza"

“Da grã tristeza”


Sim, estou triste
Como estar posso.
Parece lógico
Estar assim.
Dores existem,
Eu já te disse.
Não passam logo.
Umas sem fim
São, sem propósito.
Gravam-se em corpos.
Guardam-se em óbvios.
Lágrima, enfim.
Às vezes, noto
Que fico triste
Porque sou livre,
De qualquer modo.
Quem soa em mim?

domingo, 1 de outubro de 2017

Adriano Nunes: "Um mar a mais"

"Um mar a mais"


Ah, o devir contra o dever!
Este mar a mais pode ser
O amar, outra trilha a buscar
Qualquer lugar, qualquer saída,
Outro ritmo, lá no Pelô,
Onde sequer sei como estou,
Porque a lira livre delira.

Pode ser o que já não cabe
No sentir, por amalgamar-te
No intacto existir, pra cantar-te,
Pra dar-te o que em ser mais admiras.
Pode ser que seja este canto,
Onde a onda do a-mar advém
Da língua a roçar a alegria
- Mais que as verdades, as mentiras, -

Que é o amor, que já transbordou,
Que vem água e espuma virar
Na orla aleatória de Ondina
Onde tudo se descortina,
Para ser mesmo imenso mar,
Como se arrebentasse adentro
Do sonhar, a cada momento,
Pois certo é que o mundo gira.

Ah, disperso mar de silêncios
Que é todo o gostar de pensar-te
Assim, areia e sol, calor
E cor, sereias e tritões,
Ipanemas, Leblons, sons bons,
Fundo em mim, pra não estar só
Com metáforas e desculpas,
Acendendo no peito a pira

Do desejo que te deseja,
Pra singrar em ti, em sentidos,
Mergulhando no abismo íntimo
De um ritmo, duma valsa avulsa,
Porque tudo no verso pulsa,
Porque tudo no verso é risco,
Porque o infinito o verso aspira.

Adriano Nunes: "Quando tudo já não vale"

"Quando tudo já não vale"


Para que pressa
Se o poema pronto só está
Quando bem quer, quando diz
Ao poeta: "pronto! Estou
Pronto!". Pode levar dias, meses, anos.
Pode levar o quanto
Necessário for,
Para espanto do leitor,
Para espanto do autor.
Pode dar em nada.
Se o poema estiver certo de que já pode brotar
Na folha alva, ele para ela salta,
Ele sempre quer dar as cartas.
Mas como sabê-lo perfeito em si mesmo?
Como parar a caneta, o lápis, o dígito
Do teclado automático?
Como deixar falá-lo?
Às vezes, deixo-o vir, versos em falso,
Tropeçando, pisando em ovos,
Até quase me enganando
Em seu estético propósito.
O poema é, não duvidem, acertar na trave,
Quando tudo já não vale.

sábado, 30 de setembro de 2017

Adriano Nunes: "The new clothes of censorship"

"The new clothes of censorship"


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sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Adriano Nunes: "Que és, mundo?" - para a minha mãe e meus irmãos

"Que és, mundo?" - para a minha mãe e meus irmãos


Do sertão
Para cá,
Nunca quis
Encontrar
Um tesouro
Que pudesse
Dar-me o mínimo
Que procuro,
Pouco a pouco,
Sem estorvos.
Não sou tolo.

Antes, digo,
Bem prefiro
O sossego
Do silêncio,
A memória
Do instante
Que me ignora.
A saída
Para o canto
Dos acasos.
Pra que tanto?

Entre medos
E mentiras
Que me deram,
Fui crescendo.
Muito livre,
Muito lúcido,
Entre os livros.
O perigo
Era o cosmo
Conhecido.
Não sou tímido.

Depois, vi
Que ter vida
Era mesmo
Ter que dar
Outro salto
Para o íntimo.
Diferente
Era o jeito
De saber-me
Tão pequeno!
Já me entendo.

Então, posso,
Sem propósitos,
Propor a
Meu ser, outro
Ser agora.
Sou feliz
Com as sobras
Dos enganos
E tropeços,
Já me fundo.
Que és, mundo?

Adriano Nunes: "Nu"

"Nu" 


Antes da folha
na pelve
Antes da pele 
na pele
Antes do couro
de bicho
Antes até
dessa noção
de corpo explícito
Muito antes mesmo
De algum vestido
Antes da sunga
Antes da capa
Antes da blusa
Antes do short
Antes do corte
E da costura
Antes da moda
Antes da bruta
Lei da censura
Antes da agulha
Antes da linha
Antes da estética
Antes do belo
Antes do feio
Antes até
Do que já veio
Por carta e email
Antes da meia
Antes do nó
Do fixo laço e
Do da gravata
Quase sem graça
Antes da marca
Antes da grife
Antes da loja
Antes do olhar
Pela vitrine
Antes do preço
Antes da nota
Antes do dólar
Antes de tudo
Entregue ao mundo
Todo desnudo
De leste a oeste
De norte a sul
O corpo nu.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Adriano Nunes: "Tristeza"

"Tristeza"


De alguma
Maneira,
Eu queira
Ou não,


Bem fundo
Na alma,
Já quase
Cravada

Na carne,
Na córnea,
Na verve,
Na voz,

A vasta
Tristeza.
Ao menos,
Não deixa

De ser
Precisa
Às raspas
Da vida.

Talvez,
Um dia
Termine,
De vez,

Virando
Só verso,
O qu'eu
Queria.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

T. S. Eliot: "Song" (tradução de Adriano Nunes)


"Canção" (tradução de Adriano Nunes)


Se espaço e tempo, dizem os cultos,
São coisas que não podem ser,
A mosca que vive um dia único
Viveu o que podemos viver.
Então vivamos enquanto é justo,
E livres são o amar e o viver,
Pois o tempo é tempo e segue o rumo,
Embora discordem a valer.
As flores enviei-te quando o orvalho
Estava trêmulo na videira,
Úmidas antes do voo da abelha
Para sugar o roseiral bravo.
De novo, rápido, vamos colhê-las
Sequer lamentemos pinho vê-las,
E embora as flores do amor poucas sejam
No entanto, que elas divinas sejam


T. S. Eliot: "Song"

If space and time, as sages say,
Are things which cannot be,
The fly that lives a single day
Has lived as long as we.
But let us live while yet we may,
While love and life are free,
For time is time, and runs away,
Though sages disagree.
The flowers I sent thee when the dew
Was trembling on the vine,
Were withered ere the wild bee flew
To suck the eglantine.
But let us haste to pluck anew
Nor mourn to see them pine,
And though the flowers of love be few
Yet let them be divine.


ELIOT, T.S. The complete poems and plays. 1909-1950. San Diego: Harcourt, Brance Jovanovich, 1971.

domingo, 24 de setembro de 2017

William Carlos Williams: "Portent" (tradução de Adriano Nunes)

"Portento" (tradução de Adriano Nunes)


Rubro berço da noite,
Em ti
O sombrio bebê
Dorme logo até que
Seu poder tenha fim
Tendão por tendão.

Rubro berço da noite,
O sombrio bebê
Dormindo fica em pé.
Ó como
Os ventos sopram agora!
Ele retorna,
Os ventos suaves já são.

Quando os braços estende,
Rubro berço da noite,
Berram os alarmes
Da árvore nua à árvore,
Selvagens
De repente!
Forças irá ter,
Rubro berço da noite,
O sombrio bebê.


William Carlos Williams: "Portent"


Red cradle of the night,
In you
The dusky child
Sleeps fast till his might
Shall be piled
Sinew on sinew.

Red cradle of the night,
The dusky child
Sleeping sits upright.
Lo how
The winds blow now!
He pillows back;
The winds are again mild.

When he stretches his arms out,
Red cradle of the night,
The alarms shout
From bare tree to tree,
Wild
In afright!
Mighty shall he be,
Red cradle of the night,
The dusky child!!

WILLIAMS, William Carlos. "Portent". In:_____. "The Tempers". In:____. The collected poems of William Carlos Williams. Vol. I. Edited by Walton Litz & Christopher MacGowan. New York: New Directions, 2001, p. 10.

Adriano Nunes: "Do mercado"

"Do mercado"


Caixa livre!
Em dinheiro 
Ou cartão?
Aproveita a
Promoção!
Façam fila!

Caixa livre!

Vê se não
Dá pra em dez
Dividir!
Paga aqui?
Quanto fica?

Caixa livre!

Olha o troco!
Olha a nota!
Pra presente?
Não divide,
Se comida!

Caixa livre!




"Do mercado II"


Esvai-se o expediente.
Tudo é lacrado à chave.
Pronto o alarme somente.
De repente, qual mágica

Abrem-se, em coro, ardem
As gavetas dos caixas
Como se houvesse nada
Mais a fazer: e fazem,

Indomáveis, as farras:
"Caixas livres à frente!"
"Caixas ágeis que atendem!"

Como se fossem gente!
"Caixas livres à frente!"
"Caixas hábeis que falam!"

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Adriano Nunes: "Amor"

"Amor" 


Contra o amor nada pode
Nem mesmo a morte


Nada pode a força
Nada pode a flecha
Nada pode o fogo
Nada pode o ferro
Nada pode a forca
Nada pode a farsa
Nada pode o fel
Nada pode o fim
Nada pode a fúria
Nada pode a foice
Nada pode o freio
Nada pode o fútil
Nada pode a física
Nada pode a fórmula
Nada pode o fato
Nada pode o fardo
Nada pode a fama
Nada pode a fala
Nada pode o faro
Nada pode o falso
Nada pode a firma
Nada pode a farpa
Nada pode o forte
Nada pode o fraco
Nada pode a farda
Nada pode a faca

Contra o amor a lei
Não pode nada

domingo, 17 de setembro de 2017

Adriano Nunes: "Marina" - para Marina Lima, por seu dia

"Marina" - para Marina Lima, por seu dia


Do mar
À margem
Da língua,


Do encanto
De Circe
À lida

Mais linda,
Aquela
Que ainda

Mais brilha
Por ser
Infinda:

Da nota
À música
Que a adota,

A marca
Da gata:
Marina.

sábado, 16 de setembro de 2017

Adriano Nunes: "Átimo"

"Átimo"


Cidade
À tarde.
Ruídos
E riscos.

Não há
Trem bala.
Não há
Silêncio

A não
Ser dentro.
Pra não
Ser, penso-o.

E neste
Vai-vai,
Vem-vem,
A vida

Encanta
Meu ser
Que já
Não sabe

Ser quem.
Quem ser?
É tanta
Voz íntima,

Estranha!
Sequer
Dá para
Saber

Se vinga
Lá fora
Ou na
Memória

Que aflora
Agora.
Cidade
À tarde...

Retinas,
Rebentos,
Rotinas
Retendo-os.

De mim
Que sei
Sem fim,
Quem sabe?

Adriano Nunes: "Som sempre" - para Mauro Santa Cecília

"Som sempre" - para Mauro Santa Cecília


Poderia
Ser textura
Cor mais pura

Alegria
Que até dura
Porventura

Poderia
Ser leitura
Que se apura

Rebeldia
Sem frecura
Travessura

Dia a dia
A estrutura
Da cultura

Que irradia
Desventura
Que captura a

Poesia
Que é semente
Do som, sempre,

De rasura
Em rasura.
Quem diria?

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Adriano Nunes: "Solilóquio"

"Solilóquio"


Verso, leva-me
Pra a Mongólia,
Para fora
Dos tentáculos
Dessa lógica
Que precisa
De sentido,

Para longe
Da memória,
Para além
De alguém ser,
Pra não ser
Coisa alguma,
Não ser nada,

Verso, vê
Se não falhas!
Se puderes,
Nem que seja
Por um breve e
Frio instante,
Bem carrega-me

Para lá
Onde há
Outro tempo
Pra pensar,
Pra sentir,
Para dar
Outra volta

Muito acima
Do que já
É possível
Mesmo dar.
Verso, joga
O meu âmago
E o meu corpo,

Para dentro
Do infinito
Do que vinga
Em ti, quando
Viras canto.
O que peço
Não é tanto.

Verso, deixa a
Folha em branco.

Adriano Nunes: "Do amor"

"Do amor"

Ah, sempre
Amei!
Errado
Ou certo,
Amei,
Decerto!
Quis ser
Amado
Urgente,
De fato,
É claro,

Mas não
Sei se
O amor
É isso
De estar
Atrás
De algo
Que se
Quer válido
Pra ambos
Os lados.

O amor
Ser deve
Mais leve
E solto,
Um sopro...
Qual verso
Que se
Constrói
Aos poucos
E engendra um
Ser outro.

Adriano Nunes:"De todo escrito"

"De todo escrito"


Agora o grito
De todo escrito,
De tudo dito.
Outro infinito
No peito inscrito
A moldar isto,
O veredito :
Corpo e conflito!
Mesmo sem rito,
O amor, aflito,
Finge ser visto,
Por amor, mito.

sábado, 9 de setembro de 2017

Adriano Nunes: "já é quase tarde" - para Augusto de Campos

"já é quase tarde" - para Augusto de Campos


manhãqueparte
manhãquepartj
manhãqueparjá
manhãquepajáé
manhãquepjáéq
manhãquejáéqu
manhãqujáéqua
manhãqjáéquas
manhãjáéquase
manhjáéquaset
manjáéquaseta
majáéquasetar
mjáéquasetard
jáéquasetarde
jáéquasetardn
jáéquasetarno
jáéquasetanov
jáéquasetnove
jáéquasenover
jáéquasnovers
jáéquanoverso
jáéqunoversod
jáéqnoversodo
jáénoversodov
jánoversodova
jnoversodovat
noversodovate

Adriano Nunes: "Poesia" - para Adriana Calcanhotto

"Poesia" - para Adriana Calcanhotto


A face mais fácil da palavra,
Qual é? Brada!
Qual a próxima astuta investida
Contra a lida
Que se alarga?
Será que dá pra ver esquecida
A mancada
Que tudo esfacelara e acabara,
Quando retirei do verso a máxima
Alusão
Demais íntima
Ao que em mim se via e arquitetava?
Bem deixaste
Escondidas a saída e a chave?
Para que
Macular
De tédio o tempo, o devir, a tara?
Que universo
A ti basta?
Por que rasgaste a última página
Da memória
Quando por ti atirei-me às máscaras
Do que vinga
Além, fora,
Da história parca que tinha nós dois
Qual metáforas?
Por que foste
Logo embora,
Deixando riscos, na folha alva,
Que não geram
Áleas, átimos, Ítacas, almas?
E por que
Dos meus braços
Tomaste a lira, a linguagem clara?
Por que, livre,
Já partiste,
Dizendo que também me adoravas?
Ah, e agora,
Poesia?
Com qual rima e qual metro te agarro
De vez, sem
Embaraços,
Neste momento de tudo ou nada?


Adriano Nunes: "Bel" - para Isabel Santos (in memoriam)

"Bel" - para Isabel Santos (in memoriam)


E entre as
Manhãs
E as tardes,
Durante o
Trabalho,
E as noites,
Na sala,
Ouvindo
Canções...
Manaus
- Tão vasta! -
Achava-se
Pequena
Perante
Nós dois:
Passeios,
Poemas,
Baladas,
As nossas
Conversas
Espertas
E mágicas,
E tudo
Que dito
Não fora,
Sequer
Escrito.
Ah, isso
Que rasga
O peito,
A dor
Que salta,
Qual lágrima
Que cai
Pra dentro
Da alma!

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Adriano Nunes: "Das áleas da emoção"

"Das áleas da emoção"


A lâmpada apagada.
Não há mais a ilusão
De haver nova ameaça 
Ao tédio. Tudo escapa
Das áleas da emoção
E avança contra a elástica
Indeterminação
Do porvir, do que não
Mais cede à razão, para
Deixar, sem regra clara,
As coisas como estão.
E tudo sangra, então,
Como se fosse, em vão,
Alarme que dispara.

Adriano Nunes: "Ode à enxaqueca"

"Ode à enxaqueca"

Entre o piscar
Das luzes ávido
E o abrupto estalo
Sobre o que há

Por trás do olhar
De cada átimo,
O impulso rápido
Que a fibra dá:

E tudo dói
Por mesmo ser
Tudo, por ser-

Vir-se do ser,
Pra só doer...
E como dói!

Adriano Nunes: "Medusa" - para Emerson Oliveira Do Nascimento

"Medusa" - para Emerson Oliveira Do Nascimento


Então, muito cansado, chego à gruta
Onde se encontra a górgona mortal,
Que outrora fora bela, sem igual,
E, agora, agita serpes, luz refuta.

Vê-la é revertê-la em pedra, bruta
Matéria que se engendra crucial-
Mente em astúcia e grito, em ritual.
Ela sabe a que vim, mas não me escuta,

Não me procura em si. De que se furta
Enquanto a vida vinga cruel, curta?
Por que se deixa à lâmina, tal qual

Vítima de algum sonho, do seu mal?
Escondo-me. Perseu, tão jovial,
À cega, o alvo acerta e, assim, só, surta.

domingo, 3 de setembro de 2017

Adriano Nunes: "Como se dá a alma"

"Como se dá a alma"


Eu sei que eu poderia te ofertar
O mar e as ondas altas,
O ar e para voar as asas,
O que não há,
Toda álea,
O que pode já o pensar,
Até a alegria que Spinoza retrata.

Ah, eu dei para me conformar
À tua ausência vasta,
À tua outra casa,
Àquela viva valsa
Que insiste em povoar a mente cansada,
Porque, dizem, que o amor basta,
Porque disseste: "basta, não é nada!".

Eu sei que eu poderia chegar a
Teu ser, com o furor lírico de uma rima rara,
Presentear-te com o que pode a fala,
O silêncio de um átimo que te caça
Pelos arredores e corredores das palavras,
Eu bem que poderia voltar atrás...
Mas por que parece não dar mais?

As plantas secaram, rasguei as cartas nunca enviadas,
Deixei também de dá-las!
Ah, furtei-me de ir mais fundo sem traumas,
Deixei o medo cercar-me qual dádiva,
Cantei o tédio e a raiva mais demorada
Para ver se me sonhavas.

Ah, eu poderia dar-te céus e estradas
E tudo que tudo enfim significa às claras,
O lado de lá, as ilhas Galápagos, Saaras,
Gobis, Atacamas, as montanhas geladas,
Atlântida, Macondo, Ítaca, Esparta!
Ah, eu poderia retirar de tudo o que tudo exala,
Só para te dar, como se dá a alma.

sábado, 2 de setembro de 2017

Adriano Nunes: "Mais que 7 bilhões"

"Mais que 7 bilhões"


Eu, que agora estou conectado
À minha solidão, ao fado
De ficar conectado, lado
A lado co' a solidão, dado
Como constatável tomado,
Até acho que seja válido
Estar a tudo conectado,
Mesmo que apenas para, do
Coração à voz, ver atado
À existência um significado:
O que possa já ser sonhado
Sonhar, amar demasiado.

Adriano Nunes: "Faz tempo que sonetos eu não faço "

"Faz tempo que sonetos eu não faço "


Faz tempo que sonetos eu não faço.
Não sei se por receio de fazê-los
Com múltiplos defeitos, por apelos 
Do peito que os deseja qual abraço.

Então tento fazer, sem embaraço,
Um só, entre cuidados, lapsos, zelos.
Ao fim destes quartetos, por tecê-los
Assim, mesmo será que me desfaço?

Sem perceber que ao báratro da arte
Lancei-me inebriado, novo verso
Fiz para concluir este terceto,

Esfacelando a rima, pois me meto
À besta, ainda que negue, e, diverso,
Deixo-te, metro, porque sei moldar-te!

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Adriano Nunes: "Tobe Hooper" (in memoriam)

"Tobe Hooper" (in memoriam)

Tonight
Shadows
And 
Ghosts
And
Monsters
And
Poltergeists
And
Chain saws
Are quiet
And
Silent.

Adriano Nunes: "Leveza"

"Leveza"


Já estive nos arredores do Reno,
Com a rima ferida,
Sentindo-me pequeno.
Sentei-me à mesa de atentas famílias
Inglesas, convidado
Por causa de uns talentos vãos jamais
Comprovados por mim.
Corri de leões em Serra Leoa,
Enquanto coisa boa
Era correr de leões, como dádiva.
"Depois, o mundo escapa!" -
Falava o ser que em mim fazia estada.
Ah, tais sobras de sombras!
Ah, labirinto de laços que assoma e
Assusta e acerta as contas
Com tudo que me sinto ser, enquanto
Dilacera-me o fluxo
Que sempre vem forjado de futuro!
Já estive por aí,
Sem ter norte, contando com a sorte
Dos acasos propícios.
Onde mesmo repousa esse lugar
Que se grava palavra?
Agora me agarro à alegria grácil
De constatar quão mágico
É fincar-me, carne e estímulo, em casa,
Fazer chá de hortelã,
Para mim e minha mãe, nas manhãs
Em que a esperança em nada
Poderia até dar.

Adriano Nunes: "Ars poetica"

"Ars poetica"

Canto o ver-
So curto, o ver
So longo, o verso métrico, medido,
Bem como o verso que não precisa ser escandido.
Canto a verve do vate e o que vale
A pena, mesmo que a calma seja
Pequena: canto a vida
Desde a sua face mais incompreendida.
Canto e já me dou
Por satisfeito. A Safo dediquei
Até alguns sonetos. A Baco
Outros tantos.
É assim, sem mim, que,
Com prazer,
Canto.
E não preciso sequer me convencer
De que ergui um monumento
Que, ao contrário do de Horácio,
Durará apenas
O tempo necessário
E, nem de longe,
Pode durar mais que o bronze.
Entretanto,
Poderão dizer os mais assanhados,
Os experts em vernáculos,
Os arautos da estética kantiana,
Os doutores e os bacanas,
Et cetera et tal,
Na primeira página de algum jornal
De circulação local:
Dele era o canto de fato!


Adriano Nunes: "Da luta" - para Roberto Bozzetti

"Da luta" - para Roberto Bozzetti


Na era
Das feras,
Das iras,
Das liras
Feridas,

Dos erros
Grosseiros,
Dos urros
Espúrios,
De Eros

Só em
Apuros,
De muros,
De miras,
De mídias

Medíocres,
Dos podres
Poderes,
Das pernas
Já bambas,

A gente
Precisa
É mesmo
Viver,
Erguer

A fronte,
A vista, a
Cabeça,
Seguir
Em frente,

Ainda
Que reste a
Tristeza,
Que a gente
Perceba

Que a era
Dos ratos
Impera,
A era
Do horror

Adriano Nunes: "Carmen" - para Carmen Presotto, por seu dia.

"Carmen" - para Carmen Presotto, por seu dia.


Só o verso
Reveste-se
De verve e
De vida.

A vida
Que te
Revira,
Revista.

A lida a-
Inda! És
Assim,
Pra mim:

A vida
De um ver
Diverso.
É certo

Que, enfim,
Mistério
Estético
Não há.

Há só
Cantiga,
Amada
Amiga.

Adriano Nunes: "Estética estratégia"

"Estética estratégia"


Se meu olhar te flerta,
É flecha.
Se meu pensar te pesca,
É pressa
Se meu beijo te breca
À beça,
O amor mesmo começa.

Se meu corpo te cerca,
É certo
Que meu sentir, às cegas,
Conecta
O meu sonhar àquela
Ideia:

De que amar nao é mera
Metáfora,
Mas estratégia e meta:
Conversa
Que se converte em verve,
Em verso e
Vinga e vinga-se e vela.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Adriano Nunes: "Até a vírgula"

"Até a vírgula"


Está barato
Tudo de fato
A vida tida
A vida dada
A vida ainda

Tudo com preço
De promoção
O corpo mísero
O corpo mítico
O corpo morto

A prazo à vista
E parcelado
Qualquer virtude
Qualquer vergonha
Qualquer verdade

Paga-se com
Dor dotes dom
Sem fila sem
Firma sem nem
Ser mesmo alguém

Vende-se tudo
Deuses espúrios
Deuses espertos
Deuses estúpidos
De brinde o mundo

Todo alfabeto
Palavra signo
Sentido som
Voz vez vício
Início e fim

O sonho enfim
A chance o charme
O cheiro o sangue
A pele e o osso
O trema e a crase

De oferta farta-se
Quem comprar pode
Do medo à morte
Do tédio à tara
Não sobra nada

De vez em quando
O preço sobe
Fulano é forte
Beltrano berra
Sicrano sofre

Ninguém se espanta
Nem se incomoda
Com os esquemas
Vis sub-reptícios
Reina o mercado

Sem qualquer ética
À venda filho
À venda pai
À venda espírito
Grátis a serpe

E o paraíso
Mas não só isso
À venda a ética
À venda o éden
À venda o hífen

Até a vírgula
O ponto e a reta
O que se pensa
O que se sente
O que bem há

Está barato
Tudo de fato
A vida nítida
A vida ávida
A vida válida

Bem aproveitem
O tempo clama
O tempo chama
Tudo com preço
De promoção

Inferno e céu
Sem nenhum juro
Sem correção
Tudo tudo
O sim e o não

Adriano Nunes: "Ser é risco"

"Ser é risco"


Chove. Penso
Em teu riso,
O que o escrito
Não diz, isto
Que, de imenso,
Faz-se vivo

Em mim, misto
De mar, mito
E portento.
Chove. Sinto
O teu íntimo
Dar-me o infindo

Olhar, centro
Do que arrisco.
Chove. Digo:
"Já não ligo!"
"Nada entendo!"
"Ser é risco".

Adriano Nunes: "Só contigo"

"Só contigo"


Nem metade
Sequer marco
Nem meado
Sequer margem
Nem metâmero

Sequer marca
Nem medida
Sequer mídia
Nem maldade
Sequer mira

Nem matéria
Sequer meio
Nem metáfora
Sequer mito
Tudo, tudo

Só cantando
Só contente
Só contigo
Outros rumos
Sem mais muros

Adriano Nunes: "Por que não, platônico?"

"Por que não, platônico?"


Li tanto Platão
Que agora mais não
Sei o que fazer
Com este prazer

Estranho, de amar,
Sozinho, sem par
Sequer pra jogar
Baralho, nas noites

Infindas, pois foi-se
A razão, às pressas.
Ideias, ah, essas
Ideias que nos

Modelam pequenos,
Que são só venenos!
Querer sem poder,
Querer por querer!

Cegando, cegando...
Idealizando
Tudo, tanto quanto
Dá, qual neste canto.

Adriano Nunes: "Por sonhar-te agora"

"Por sonhar-te agora"


Quem és, corpo e flerte,
Que me flechas forte,
Fixando-me à sorte
Do sol do querer-te?

Quem és, tara e transe,
Que me tomas todo,
Tornando-me um outro
Até que me canse

De ser que me sinto,
Por sonhar-te agora,
Atando-me à aurora
Deste amor faminto?

domingo, 20 de agosto de 2017

Adriano Nunes: "Poetry" - to my dear friend, Australian poet Hamish Danks Brown (for his birthday)

"Poetry" - to my dear friend, Australian poet Hamish Danks Brown (for his birthday)


Poetry is
What it is not
It is light
It is another night
To fight
Against fixed spot
Against impossibilities
Poetry is hot

It burns
The careless and hurried bards
Why is everything so hard?
It hurts
Because it starts it all
Inaugurating several
Cosmos of multiple senses
In this gray world

Oh this we know and
They know it too -
The enemies of poetry,
Those who destroy
Hopes, dreams and simple joys.
What they do not know is
That poetry is stronger than
Their hate and their cruel plan.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Adriano Nunes: "A trilha inteira"

"A trilha inteira"


Entre as olheiras
E o que o ver queira,
A trilha inteira
Para aprender,
-Ah, que poder!-,
Uma maneira
De feliz ser
Junto a você.
Até fazer
Da vez, à beira
Do bis, certeira
Escolha: ter
Que conviver
Com a cegueira
Do amor, primeira
Certeza, a que
Tudo valer
Faz, com prazer.

Adriano Nunes: "A cantar o amor"

"A cantar o amor"


Se nada der certo,
Ao menos, é certo,
Vingará meu verso,
Distinto, disperso

A cantar o amor
Que pude propor
A ti, ou supor
Que assim era amor.

Se nada for justo
Qual teci, é justo
Que a ti fique junto o
Sonho de conjunto