quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Adriano Nunes: "Que engendram este átimo implacável"

"Que engendram este átimo implacável"



Talvez ela gostasse mais da casa
Refeita, alva, o espaço aberto, a vasta
Área pra ter os netos à vontade. 
Mas, agora, bem sei: tudo renasce
De tudo, do pensar que o amor abarca,
Da memória, a manhã tão já marcada
Pela ação da ilusão e pelos laços
Que engendram este átimo implacável,
O vicejar das dálias, todo o impacto
Causado pela falta, a gana gasta
Na tentativa quântica de atar-se
À mágica guinada: perdurar
Para sempre. Quem sabe se abrigasse
Em  algum verso e desse ao olhar um lar.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

"Era entender quase alegria" - para Péricles Cavalcanti


Quando não havia palavra,
Só selva e os primos primatas,
Só o corpo bruto importava.
Quando já se ouviam ruídos,
Só a gritaria alertava.
Qual fora o signo primitivo
Imaginado pelos símios?
Quando não havia grafito
Nem folha, a pedra reinava
Furada, pintada, riscada,
A gruta era a galeria
Da arte que sequer sabia
Que arte viraria um dia,
Imagens de todo o convívio,
A vida visual vingava.
Quando os fenícios, no princípio,
Deram na telha e edificaram
A primeira letra - vertida
Para os negócios do comércio
Marítimo - que rebuliço!
Quando até ler não se sabia,
Era entender quase alegria.
Que palavra: amor, arma, água,
Deus, pai, mãe, sede, fome, casa,
Fora - quem a confirma? - escrita?
Quando não havia papiro,
Mandar mensagem era um risco,
Tudo mudava de sentido,
Não-dito era o dito, e nada
Era certo ao longe, só mito!
Quando não se escrevia carta
Nem havia sequer telégrafo,
Nem telefone ou telegrama,
Sedex, fax, celular, WhatsApp,
Facebook, essas máquinas rápidas
De qualquer mensagem levar
A distantes destinatários,
Só o gesto e o olhar importavam,
Não havia ânsia nem drama,
E o silêncio era sagrado.


segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Adriano Nunes: "Las lágrimas de las máquinas" - para Gilles Deleuze

"Las lágrimas de las máquinas" - para Gilles Deleuze


Él - ¿cuántas veces, cuántas!?
La sonda nasogástrica, 
Cuántas veces máscaras
Y sedantes. Entonces, no se sabe 
Si el alivio o desastre: la marca
De que la vida ha terminado. 
Y las lágrimas de las máquinas,
De los amigos desconsolados.
Y el cansancio como memoria exacta
De la acción precipitada...
Alguien debe leyendo estar,
En este instante,
'La Philosophie Critique de Kant'.
Después, todo se vale!
Después, todo sigue las reglas implacables
De los cotidianos engranajes. 
Luego se va a escribir unas pocas palabras
Acerca de Ítaca, de su llegada.
¿Dónde Poseidón estaba
Que no agitó los mares?



sábado, 13 de dezembro de 2014

Langston Hughes : "Who But The Lord?"

"Quem senão o Senhor?" (tradução de Adriano Nunes)


Eu vi e observei
Esse homem que eles chamam a Lei.
Ele estava descendo
A rua,vindo a mim!
Tive visões na mente
De ser atirado frio e morto,
Ou assassinado então
Pelo Terceiro Escalão.

Eu disse, Ó Senhor, faz-me um bem,
Salva-me desse que a mim vem!
Não o deixes reduzir-me a nada!
Porém o Senhor agiu tarde -
A Lei ergueu sua vara
E bateu vorazmente
Sobre mim!

Agora, não compreendo
Por que Deus não protege a gente
Da brutalidade policial.
Sendo preto e pobre,
Não tive arma pra o contra-ataque -
Quem senão o Senhor
Proteger-me pode?



Langston Hughes : "Who But The Lord?"


I looked and I saw
That man they call the Law.
He was coming
Down the street at me!
I had visions in my head
Of being laid out cold and dead,
Or else murdered
By the Third Degree.

I said, Oh, Lord, if you can,
Save me from that man!
Don’t let him make a pulp out of me!
But the Lord he was not quick.
The Law raised up his stick
And beat the living hell
Out of me!

Now, I do not understand
Why God don’t protect a man
From police brutality.
Being poor and black,
I’ve no weapon to strike back
So who but the Lord
Can protect me?



HUGHES, Langston. "Who But The Lord". In:___. Poetry Magazine. February 1947, p. 249.



sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Adriano Nunes: "Para que o seu amor em mim eu bem imprima" - para a minha mãe

"Para que o seu amor em mim eu bem imprima" - para a minha mãe


Enquanto leio um livro de filosofia
Grega, observo a velha senhora a sorrir,
Como se alguma alegre lembrança a dis-
Traísse, a alçasse à vida infantil e, assim, livre,

Alcançasse a grã paz, sob os pratos à pia
Que, amontoados, vida em casa evidenciam.
Que dádiva poder vê-la, presença e espírito,
E, com arte, louvá-la com alexandrinos

Versos, quase concretos, se não fosse o rito
Que engendro na minh'alma: sequer saberia
Medir o sentimento pela mamãe minha.

E já não me interessam as filosofias
E as reflexões exatas. Bastam folha e tinta,
Para que o seu amor em mim eu bem imprima.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Adriano Nunes: "Poesia é alegria"

"Poesia é alegria"


Bem que Espinosa dizia
Ser o amor uma alegria.
Agora a cantarolar
Fico, por todo lugar,

A escrever a poesia
Que jamais engendraria,
Sem tal magnânimo mar,
Sem que eu estivesse a amar.

Nada, nada valeria -
Bem que Pessoa advertia -
Se pequena a alma. Já
A vingar o verso está,

Quem não o perceberia?
O amor é só poesia,
O que além vai do pensar,
Êxtase extra e exemplar.

Emily Dickinson: "I had no time to Hate"

"Não tive tempo pra odiar" (tradução de Adriano Nunes)


Não tive tempo pra odiar -
Pois a cova a esperar-me estava -
E a vida não era mesmo
Vasta que eu
Pudesse a rixa dar um fim

Nem tive tempo para amar -
Já que
Algum empenho deve ser-
O pequeno labor do amor-
Que achei
Ser demasiado pra mim -



Emily Dickinson: "I had no time to Hate"


I had no time to Hate—
Because The Grave would hinder Me—
And life was not so
Ample I
Could finish—Enmity

Nor had I time to Love—
But since
Some Industry must be—
The little Toil of Love—
I thought
Be large enough for Me—



DICKINSON, Emily.The Complete Poems of Emily Dickinson. Ed. Thomas H. Johnson. (New York: Back Bay Books / Little, Brown and Company, 1961. Print); David Preest. “Emily Dickinson: notes on all her poems.” Emily Dickinson Poems (2012. Web. 18 Nov. 2013).