"O pequeno pardal" - Para Édith Piaf
No prostíbulo, mal
Poderia pensar
Em planar, em pleno ar,
O pequeno pardal
De Paris. Da pobreza
Ao primeiro poema,
A promessa suprema
Dos palcos. Que proeza
Plástica do porvir!
Do pássaro à pessoa,
De quem vive a quem voa,
Do verso que servir
Ao que o coração soa,
À canção, mesmo à-toa.
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Adriano Nunes: "Desencontro"
"Desencontro"
Eu não me encontro
Em nenhum verso.
Vivo disperso
Num desencontro
Eterno, preso
Ao tempo. Enfim,
Procuro a mim
Em mim. Que peso!
De madrugada,
Pleno apogeu:
Penso ser eu
E não sou nada.
Eu não me encontro
Em nenhum verso.
Vivo disperso
Num desencontro
Eterno, preso
Ao tempo. Enfim,
Procuro a mim
Em mim. Que peso!
De madrugada,
Pleno apogeu:
Penso ser eu
E não sou nada.
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quarta-feira, 9 de setembro de 2009
Adriano Nunes: "Pepita" - Para Glauco Mattoso
"Pepita" - Para Glauco Mattoso
Todo poema tem data
Pensada, tempo de vida
Indeterminado, lida
Com liames, nós desata,
De tudo trata, retrata
Tudo, sofre e sempre dita
A regra do jogo, fita
A métrica, toda nata
Da alma, à palavra, credita
Vingar, à luz dilatada,
Procura-a, a pura pepita
Perdida, nessa empreitada
Sináptica, não transcrita
À prova do tudo ou nada.
Todo poema tem data
Pensada, tempo de vida
Indeterminado, lida
Com liames, nós desata,
De tudo trata, retrata
Tudo, sofre e sempre dita
A regra do jogo, fita
A métrica, toda nata
Da alma, à palavra, credita
Vingar, à luz dilatada,
Procura-a, a pura pepita
Perdida, nessa empreitada
Sináptica, não transcrita
À prova do tudo ou nada.
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Adriano Nunes: "Poema" - Para a minha amada mãe
"POEMA" - Para a minha amada mãe
Poema: ponte
Entre o poente
E o sol nascente,
Formosa fonte
Da juventude,
Felicidade
Que tudo invade,
Que tudo ilude,
Primeiro amor,
Primeiro laço,
Prisma a compor,
Onde me caço,
Sublime ardor
Em que me faço.
Poema: ponte
Entre o poente
E o sol nascente,
Formosa fonte
Da juventude,
Felicidade
Que tudo invade,
Que tudo ilude,
Primeiro amor,
Primeiro laço,
Prisma a compor,
Onde me caço,
Sublime ardor
Em que me faço.
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segunda-feira, 7 de setembro de 2009
Adriano Nunes: "Tempo"
"Tempo"
Tempo para o quê?
Tempo para quando?
E até mesmo quando
Ou mesmo por quê?
Tempo para o verso
Ou versos ao tempo
Desse contratempo
Temido e perverso?
Por que o tempo passa
Demolindo a linha
Da vida que é minha
E tudo devassa
E tudo devora,
Símiles, opostos,
Mantendo-os expostos
No momento agora?
Por que não se despe-
De, volta a ser deus
E vislumbra os seus,
Do céu, não se despe
Do relógio, dígito
Do despertador,
De toda essa dor,
Do caos que cogito?
Por que nunca foge
De si, da Seara-
Láctea, gira e pára
Para ver São Jorge
Na Lua e na sua
Responde: Pra quê?
Pra quando? Por que
Mais se perpetua?
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domingo, 6 de setembro de 2009
Adriano Nunes: "Exérese poética"
"Exérese poética"
É preciso expor o poema
No vão da folha, revelá-lo
À vista, dentro do intervalo
Existente, exérese extrema,
Suprimindo qualquer verdade,
Qualquer promessa, mesmo que
Pese a pergunta 'mas por quê?'
Relevando tudo mais tarde?
Ou quem sabe abraço esse fardo
Factível de fracasso e farpa
E, refaço a vida, enquanto ardo,
Enquanto nem um verso escapa
Ao corte temido do dardo
Lançado por mim, à socapa.
É preciso expor o poema
No vão da folha, revelá-lo
À vista, dentro do intervalo
Existente, exérese extrema,
Suprimindo qualquer verdade,
Qualquer promessa, mesmo que
Pese a pergunta 'mas por quê?'
Relevando tudo mais tarde?
Ou quem sabe abraço esse fardo
Factível de fracasso e farpa
E, refaço a vida, enquanto ardo,
Enquanto nem um verso escapa
Ao corte temido do dardo
Lançado por mim, à socapa.
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sexta-feira, 4 de setembro de 2009
Adriano Nunes: "Retratamento intensivo"
"Retratamento intensivo"
Todo poema tem pernas,
Perambula por aí,
Passeia, tonto tropeça,
Às vezes, foge de si,
Vadia, vagueia só,
Vagabundo, solto, bêbado,
Às vezes, fratura um osso,
Fêmur, fíbula, uma vértebra,
Ou surge com pé quebrado.
Todo poema tem braços
Rimados ou livres, laça
Vácuos, abraça metáforas,
Atira pedras, as asas
Inventa com as palavras,
Atiça-se , acena adeus.
Todo poema tem olhos
Vendados e bem abertos,
Flerta o que quer, quando quer
Cega, observa, mira, admira,
Penetra através das frestas
Das pupilas, feito luz,
Profundo, no olhar alheio,
Vasculha os nervos, os músculos,
Desvenda-se por ser único
E muitos, todos e tudo
E nada: pálpebras, prisma,
Ponte, precipício, lágrima.
Todo poema tem língua,
Boca, dentes, lábios, glote,
Grita, bebe, come, morde,
Fala, xinga, berra, cala,
Tem a voz aguda ou grave,
Vibra a fibra da garganta
De grafite da memória,
Das páginas apagadas
Do agora: diz o que diz.
Todo poema tem pênis,
Vulva, vagina, testículos,
Ovários, útero, trompas,
Excita e fica excitado,
Transa, masturba-se, goza,
Engravida, aborta, pare.
E como rejuvenesce,
Ninguém consegue explicar.
Alma? Se há, sabe-se lá.
Todo poema tem pernas,
Perambula por aí,
Passeia, tonto tropeça,
Às vezes, foge de si,
Vadia, vagueia só,
Vagabundo, solto, bêbado,
Às vezes, fratura um osso,
Fêmur, fíbula, uma vértebra,
Ou surge com pé quebrado.
Todo poema tem braços
Rimados ou livres, laça
Vácuos, abraça metáforas,
Atira pedras, as asas
Inventa com as palavras,
Atiça-se , acena adeus.
Todo poema tem olhos
Vendados e bem abertos,
Flerta o que quer, quando quer
Cega, observa, mira, admira,
Penetra através das frestas
Das pupilas, feito luz,
Profundo, no olhar alheio,
Vasculha os nervos, os músculos,
Desvenda-se por ser único
E muitos, todos e tudo
E nada: pálpebras, prisma,
Ponte, precipício, lágrima.
Todo poema tem língua,
Boca, dentes, lábios, glote,
Grita, bebe, come, morde,
Fala, xinga, berra, cala,
Tem a voz aguda ou grave,
Vibra a fibra da garganta
De grafite da memória,
Das páginas apagadas
Do agora: diz o que diz.
Todo poema tem pênis,
Vulva, vagina, testículos,
Ovários, útero, trompas,
Excita e fica excitado,
Transa, masturba-se, goza,
Engravida, aborta, pare.
E como rejuvenesce,
Ninguém consegue explicar.
Alma? Se há, sabe-se lá.
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