quarta-feira, 30 de março de 2011

Adriano Nunes: "outra canção" - Para Caetano Veloso.

"outra canção" - Para Caetano Veloso


cantar o quanto
cantar o quando
cantar o quântico
cantar quiçá

cantar o quase
cantar o quarto
cantar quasares
cantar quintais

cantar as quartas
cantar as quadras
cantar quaresmas
cantar o quê

cantar querelas
cantar quereres
cantar quesitos
cantar quedê

cantar quantias
cantar quadrilhas
cantar quartetos
cantar qualquer

cantar quebrantos
cantar quebrado
cantar queixumes
cantar questões

cantar o quadro
cantar a quebra
cantar o quem
cantar o qual

cantar quimeras
cantar as queixas
cantar as quotas
cantar quindim

cantar a química
cantar quilômetros
cantar quilombos
cantar quadris

cantar quem sabe
cantar quem dera
cantar quem sou
cantar cantar









domingo, 27 de março de 2011

Adriano Nunes: "Reflexo submerso" - Para Eleonora Marino Duarte

"Reflexo submerso" - Para Eleonora Marino Duarte


Na garganta, o engasgo...
No quarto, o universo
Guardado, imerso...
Mas agora o rasgo

Na memória. Afago o
Sonho e me disperso
Num dever diverso:
Narciso no lago o-

Culto do ser, mágico
Naufrágio, perverso
Espelho-amor, trágico

Reflexo submerso
No flerte hemorrágico...
À verve de um verso.



sábado, 26 de março de 2011

Adriano Nunes: "Do ritmo da ilusão"

"Do ritmo da ilusão"

Sinto o meu coração
Ferindo-se no peito.
Do ferimento é feito
Um filme de ficção.

Sonho... Tudo é perfeito
A cada contração:
Que conta é a emoção
Com a qual me deleito,

O medo de um defeito,
De uma parada, não
De um sentimento vão!

Como tirar proveito
Do ritmo da ilusão
Se as coisas reais são?






sexta-feira, 25 de março de 2011

ADRIANO NUNES: "a vida" - Para Péricles Cavalcanti.

"a vida" - Para Péricles Cavalcanti.


a vida tem vidas
a vida tem voz
a vida tem véus
a vida tem vez
a vida dá vôos

a vida é vestígio
a vida é vontade
a vida é vampira
a vida é vassala
a vida é veloz

a vida tem vícios
a vida tem vínculos
a vida tem vírgulas
a vida tem vértices
a vida dá voltas

a vida é volúpia
a vida é vocábulo
a vida é verídica
a vida é vertigem
a vida é visão

a vida tem vácuos
a vida tem vultos
a vida tem vistos
a vida tem vermes
a vida dá valsas

a vida é vexame
a vida é viagem
a vida é vaidade
a vida é viável
a vida é valor

a vida tem válvulas
a vida tem veios
a vida tem vênus
a vida tem verbos
a vida dá vaias

a vida é tão vasta
a vida é tão vista
a vida é tão velha
a vida é tão vaga
a vida é vulgar

a vida tem vísceras
a vida tem víboras
a vida tem vetos
a vida tem vestes
a vida dá versos

a vida é vigente
a vida é volátil
a vida é volúvel
a vida é vedete
a vida é voraz

a vida se vira
a vida se vela
a vida se vinga
a vida se varre
a vida se vai.






quinta-feira, 24 de março de 2011

Adriano Nunes: "Eu não sabia que era assim"

"Eu não sabia que era assim"



Lanço-me ao espelho...
Outro cara me encara
Outro ser diz ser eu
Gestos
Gostos
Gritos
Gozos
Frente a frente as faces

Confundem-se,
Espalham-se: ilhas
De sonhos frustrados,
Repetidos lances
De acasos,
Recheios de receios, 
Casca... E quase mais
Nada.

Quantas efígies
Existem
Em mim que desconheço?
Uma? A que convivo
Sempre sem um apreço?
Duas, tais cara e coroa?
Ou Caeiro, Ricardo e Álvaro
Vivos em minha pessoa?

Quantos eus e outros eus e
Máscaras
Mesclam-se ao que sou?
As afeições fictícias
Quem em mim as fixou?
Dr. Lao e suas sete faces?
As sessões de psicanálise?
Iago, Otelo, Hamlet, Falstaff?

O medo inicial de ser médico?
O temor profético
De que a vida se completa
Quando me vingo poeta?
Ou as vagas lembranças
De quando eu era criança
E amava andar de bicicleta?
Os amores que não tive e

Tive em memória, ilusórias
Imagens - mágica vontade
De ser amado -
De mim para tudo que me sinto?
Quantos espectros
Ainda resistem recalcados,
Ante o vazio do quarto, e pesam
Ser o ser que me cabe?

Quantos estão dispostos
A vir à tona?
Quantos querem
Surgir sem trauma?
Quando terão coragem de
Ser quem me abrigo agora?
Quando virão sem medo
À mostra?

Lanço-me ao verso...
Desisto de ser qualquer
Tempo que de mim espero.
Tudo é o oposto do coração...
Sou urgentemente eu mesmo.
Ninguém me chamou pelo nome.
Ninguém contou até trinta
Para ver se eu me escondia.

Ninguém me deu a chance
De rasgar de vez a fantasia.
Ninguém ousaria. Ninguém
A sangrar
Sobre as sombras
Da minha rebeldia mais íntima.
Ninguém me acenou na despedida...
Eu não sabia que era assim.







segunda-feira, 21 de março de 2011

Adriano Nunes: "A que voz satisfiz?" - Para José Mariano Filho

"A que voz satisfiz?" - Para José Mariano Filho


Certamente feliz,
Em mim tudo já fui,
Em mim tudo já fiz.
Abriguei-me em tal luz:

Sou poeta, um poeta!
E tudo é por um triz...
Quando uma mágoa aperta
O ser, algo me diz

Em segredo: 'que mundo
Não é teu, aprendiz
De Proteu?'
Mas no fundo...
A que voz satisfiz?

domingo, 20 de março de 2011

Adriano Nunes: "Outro drama grego"

"Outro drama grego"


Às três. Depois, nem
Mesmo às dez pra seis.
O amor não vem... Eis
Que nada convém.

Ao coração? Resta
Só satisfazer
O próprio prazer
De bater... Seresta

De desassossego!
Ouço: logo chego
Ao peito! De vez,

Estranha escassez
Toma-me... Talvez,
Outro drama grego.












sábado, 19 de março de 2011

Adriano Nunes: "Um pedacinho que vai" - Para Antonio Cicero

"Um pedacinho que vai" - Para Antonio Cicero


A vida é a vida.
Cedo ou tarde, tudo
Nela cabe: surtos,
Mentiras, vontades, 

O que ninguém sabe,

Áurea realidade.
A vida é a vez,
O que não se pode

Perante o silêncio 
Do acaso, da sorte.

Se assim nos assusta,

Se assim nos alegra 
Com rígidas regras,
Se até nos abriga

Com a gravidez 

Múltipla, não é
Senão voraz Arte?
Dentro da memória,
Fica um pedacinho
Que vai, sem mais volta,


Verso declamado 
Outrora, o amor mor
Com a eternidade
À prova, a grã dúvida
Do que se fez vasto,


Necessário, inúmeras 
Portas: esta vida...
Como decifrá-la,
Com a fala, enquanto 
Ela nos devora?

sexta-feira, 18 de março de 2011

ADRIANO NUNES: "pop-up" - Para Pound.

"pop-up" - Para Pound



p o p
p o u s o

p o p.......... u p
p o u.......... p a
p o u.......... p a r
p o u.......... p a r t e
p o p.......... p o r t o
p o u.......... p a r
p o u.......... p a
p o p...........u p

p o p
p o u n d






quarta-feira, 16 de março de 2011

ADRIANO NUNES: "Outros versos e..."

"Outros versos e..."



Outros versos e...
Mágica parece:
Trouxe-te de volta!
Olho para os lados

De mim, teu espectro
Tanto me conforta.

Liame de lábios...
Em rimas, beijá-los
Já posso! Parece
Mágica, decerto.
E não são só versos!

Outros versos e...
O momento breve

Faz-se mesmo eterno, e
Teu existir capto.
Rasuro o caderno


Com os teus abraços,
Faço um embaraço
De ritmos e metros,
Redondilhas traço
Pra que em mim conserve-te.

Nesta estrofe, vejo
Findar o meu verso
Astuto. Em mim, tenho-te.
Aqui, estás, claro.
Aqui, estás, mesmo.
E parece mágica!


domingo, 13 de março de 2011

Adriano Nunes: "Pra a Arte"

"Pra a Arte"



As portas?
Janelas?
Que importam
Agora?

Que fresta
Pra a Arte
Bem resta?
A vez 

Da lida?
A cor 
Dos átimos
Do fado?

Devasta-me
O que não
Há para
Dizer.

Sentenças 
Sangrando...
Silêncios
Nos cantos

De mim.
E era
Assim
Que vinham

Dos báratros
Do acaso,
Dispersos,
Meus versos.

Agora?
Nem portas
Nem práticas
Janelas.

Os versos
Só vêm
Se esqueço
Que sou

O bardo
Que os teço.
Um outro...
Que houvera.









quinta-feira, 10 de março de 2011

ADRIANO NUNES: "outro grito ouviu-se perto"

"outro grito ouviu-se perto"



veio a notícia, - serpente
pronta para dar o bote -
(talvez da dúvida brote
a alegria) de repente.

entre parentes, o medo
viraria um alvoroço,
ponte para o fim do poço...
algo que não me concedo.

outro grito ouviu-se perto
do peito. o pranto lá fora
amalgama o tempo agora.

o silêncio... que deserto!
o tormento está desperto...
o amor por amor implora!







quarta-feira, 9 de março de 2011

Adriano Nunes: "Arte poética"

"Arte poética"



Em que alegria
Abrigar tudo
Com que me iludo?
Como seria

Depois o mundo?
Que o salvaria
Da alegoria
Do eu profundo?

A minha vida
Vinga incontida...
Que grande susto!

Que instante augusto,
Saber que a lida
Faz-se cumprida!








quinta-feira, 3 de março de 2011

Adriano Nunes: "Fundo é o outro"

"Fundo é o outro"

Do topo, lançam-me
Alheios olhos...
Ilhas de globos!
Fundo é o outro...

Fenda do corpo,
Frêmito e fogo,
O cosmo cômico
Desconcentrando-se

Em um ser todo.
Sou de mim solto
E, aos poucos, cavo
Um vasto báratro.


Que a fazer há?




Adriano Nunes: "A lei do amor"

"A lei do amor"

Olhou para os lados...
Ninguém 

Observava nada.
Flertou-me,
Flechou-me,
Feriu-me

Com o fulgor do amor.

Ferida funda
Fundada
Sob a infinda arquitetura 

Das delícias puras
Das súbitas taras,
Das horas mais fogosas
Da astúcia do amor.

Falou-me 

De Grécias, de Macondos, de Atlântidas
Íntimas. Lábias,
Lábios ante lábios,
Lances sobre lances,
O que era melhor, o que era pra ser

A lei do amor.

Instalo-me em mim.
Calo-me.
Talvez bem eu saiba da palavra,
Do instante que calha,

Do segundo sangrante
Dos segredos. Talvez, tenha medo.
Do amor.

Do tempo do seu tempo.

Das intempéries, das suas convulsões
Avulsas, de suas loucuras
Miméticas. De suas técnicas histéricas.
De tudo.
Enquanto tudo.

Enquanto amor.

E disse-me, sem metáforas ou medidas:
Algumas mentiras.

E acreditei mesmo no que me dizia.
Mágica quimera, a poesia.

Aquela das ruas abertas e luzes tão vivas,
Aquela do impossível, do gesto despido.
A poesia do amor.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Adriano Nunes: "carnaval"

..............................carnaval



....................ser
....................ser.... ..pen tin.........a
....................ser de. pe n........ de
....................................n t.........e
....................ser......pe.n t.........e
....................ser................. ei
...................................................a
....................ser................. ei. ...a
....................ser..................ei..... o
.......................r..................ei
..................................mo
..................................mo
..................................
..................................
........................con..f
.................... e............t.......e
........................con.... t.........i
.................................... go
........................con.....t
.....................e.....n.... t.......e
.......................................
.......................................
..............................pierrô
..............................baila ri
..............................na
......................................rua
......................................rio
......................................sal
.........................................
.....................................(va dor!)
.........................................
...................................
...........................serderepente
...........................sem ti
...............................no.
.......................................
........................................
....................................
............................carnaval!