segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Adriano Nunes: "06 de agosto de 1945"



"06 de agosto de 1945"


o vácuo 

assas-
sino 

o nada
a que- 

bra
do dna 

a queima- 

dura
na alma 

a macabra
nuvem 

de neutrinos
o calor 

sorrindo
vindo de ci- 

ma e caindo 

desumana-
mente 

sobre
hiroshima.











Adriano Nunes: "O silêncio" - Para Cecília Meireles


"O silêncio" - Para Cecília Meireles 



que nem o sexo
dos
anjos
que nem o nexo
de
augusto
que nem o plexo
do
braço
que nem o quanto
de
tudo


que nem o traço
do
espelho
que nem a traça
do
entulho
que nem o truque
da
caixa
que nem a troca
de
vícios


que nem a pedra
de
drummond
que nem o podre
da
alegria
que nem o padre
do
sermão
que nem o pranto
do
poeta


que nem o som
da
raiva
que nem o sim
da
noiva
que nem o cem
do
século
que nem o san-
to
remédio.

Adriano Nunes:"Isca"

  
"Isca" 



Ela está pronta para mergulhar 

Um peixe
Um pequeno peixe
Um feixe além do olhar

Outro peixe
Outro pequeno peixe
Ou o eixo do desejo que há? 

Ela está pronta para mergulhar 

Outra isca
Outra aguerrida isca 
Outra isca perdida 

Outro anzol
Outro anzol preso ao que finda
Outra isca arisca 

Ela está pronta para mergulhar 

Um peixe ao menos
A mesma isca
Outra isca outra isca outra vida 

A mesma metade da isca
Outro peixe pequeno
Um sapato velho

Sob o sol
Vinga outro verso 
E o agora a alegria de tecê-lo fisga.




domingo, 21 de setembro de 2008

ADRIANO NUNES: "Desamparo"

DESAMPARO






DEUSDECI
DASESOME
OUSEDESC
EATÉAQUI
NOPAPELE
TERMINAO
UNIVERSO.





ADRIANO NUNES: "Frêmito"

FRÊMITO




SO ( NOS( DES
( EM
MIM )F

AÇO )SO
)NHO
EM( DES( NÃO(

O SO
M ) SE )FAZ

)NÓS


BE ( LÁ( EM(

SÓ( D
OR
ME ) O SOL

)SI ) R
EVER) RA










sábado, 20 de setembro de 2008

ADRIANO NUNES: "Adução"

ADUÇÃO





ASABRA
ÇOUSOA
SABRAÇ
OUSOAS
ABRAÇO






ADRIANO NUNES: "Incerteza"

INCERTEZA


INCER
TATEZ
T
ALVE
ZAZUL

TREVA
















Adriano Nunes: "Cisco"


"Cisco"



V I O N I R
A
C L
A C A
M S A I U Q
O C
I T P O
A N I T E R
V I
T R E O
C R I S T A
L I N O A Q
U O S O
I R
I S C O R N

E A V O C
E











sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Adriano Nunes: "Deleite" - Para Caetano Veloso

"Deleite" - Para Caetano Veloso



pescar
silen-
- cio - 

sa-
mente
o sol. 

amar o
santo –
canto no 

canto
que se des-
pe. des- 

prende-se
além
cá: 

transamba.
servir
à língua 

(léxica
leve
libé- 

lula
louca
linda) 

beijar o ver-
náculo:
ecoar 

de lábios
glote
úvula. 

pôr o seio
à flor
do âmago 

ao meio.
do cacto
à luz

do mar
de araca-
ju à tez 

do araçá
da lapa
à voz 

de ca-
da eco
pondera 

e rever-
bera:
concha 

acústica
do caos.
dentro 

o que
pensa
calha. 

lavar
os pratos
e depois 

ir – ou
rir? – ao
cinema 

ver godard.
sol-
ta-se 

e tu-
do ali
amplia.





segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Adriano Nunes: "Da vidraça"


"Da vidraça"


Eu observo a chuva
que cai.
Sinto a tentativa dela,
tão bela,
de chegar até a mim.
A tarde vai cinza
ficando.
As pombas se encolhem
e vão se alojando
como podem.
Eu, que nada posso
ou possuo, vou
sufocando um grito
de angústia
e desespero.
Da vidraça,
eu vejo
as minhas lágrimas
despencarem
do céu.

Adriano Nunes: "CASULO"


"CASULO"



O OVO
A VEZ
O ÓVULO
A ÚVULA
( A VOZ )


OU VOCÊ VEM
OU OUVE
OU VOCÊ VÊ
OU VOA


( A VOZ )
A ÚVULA
O ÓVULO
A VEZ
O OVO

domingo, 14 de setembro de 2008

Adriano Nunes:"Uma lágrima" - Para Cecília Meireles


"Uma lágrima"- Para Cecília Meireles


Sai
do meu coração
e vai
aos olhos,
mas
não me importo:

Depois cai
nas
profundezas
do seu
insólito
propósito.

ADRIANO NUNES: "noitedia"

NOITEDIA





ANOITEODIA
ANOITEODIA
ANOITEODIAANOITEODIAANOITE
ANOITEODIAANOITE
ANOITE
ANOITEODIAANOITE


ODIA ODEIA
O TE
DI
O

Adriano Nunes: "Dona Adélia Prado"


"Dona Adélia Prado"


As coisas de casa.
Aquelas conversas familiares
Enfeitadas de sorrisos
E gritos e... Televisão ligada,
Cheiro bom de comida ainda
No fogo, alguém batendo
À porta, vizinha querendo
Panela, fósforo, óleo
Ou sei lá emprestado.
Só um pouco, dona Adélia,
Não é que o gás, mulher, acabou
Agorinha!
E tudo da vida...
A mesma vida que depois de tudo
Sempre nos põe lágrimas no âmago e
Poeira nos sentidos.
Virgem Maria!
Ri e transcendi:
“ CU É LINDO “.

Adriano Nunes: "Cérbero"

"Cérbero"


Cérebro: o cão devasso do meu inferno.



Adriano Nunes: "Água benta" - Para a minha mãe


"Água benta" - Para a minha mãe



Cai do céu, água.
E ao céu volta evaporada.

No extremo sul
e no extremo norte,
fica congelada.

Mas ainda assim é água.

Corre com os rios
e nas poças fica parada.

Às vezes, inodora,
incolor, insípida, outras
vezes turva, salgada,
contaminada.

Apesar de tudo ainda é água.

E quando brota
lá, na fonte da alma,
é que se percebe
o seu valor:


Agora é uma lágrima.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Adriano Nunes: "Κίρκη" - Para Antonio Cicero


Κίρκη
Para Antonio Cicero



Ouve-me, agora, tão bravo guerreiro:
À Grécia, tua glória, nunca tardes!
De tudo, que terás? Tantos alardes?
Ainda assim partindo, finca-te inteiro.


Cala-te e vai. Sereias? Talvez Arte
De encantar teus ouvidos, teu segredo.
Os meus versos marítimos, concedo
A ti - Sabes viver preso destarte?

Que poderá tal mar vivo, violento,
Se tudo pronto está para a partida
E o Destino veloz vem se movendo

Contra toda intempérie desta vida?
E qual engano, amando-te, não tenho?
Guarda-te. Não há dúvida devida!

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Adriano Nunes: "Por Que Zé Matou Maria?"

"Por que Zé matou Maria?"







Chegada a hora, tudo deveria ser rápido e total. Aquela cadela vai me pagar! Porra, logo eu que a amava tanto! Bem que me avisaram. Bem que eu devia ter seguido os conselhos de Dona Santinha. Olha compadre, esse tipo de mulher eu conheço tanto quanto as rugas que tenho. Basta um arzinho de capricho, e você verá os desejos dela tomarem corpo e alma. Basta um galanteio e um assovio para que as carnes tremam, e a libido cresça feito capim. Não, comadre. A Senhora está enganada. Maria não fará nunca uma coisa dessa. Puta que pariu! E logo com o João! Logo com o meu amigo João! Dez em ponto. Peixeira na cintura. Taquicardia de quem está com medo ou vai arrepender-se logo. Um Pai-Nosso. Bandido também reza e faz toda encenação de alma boa. Droga! Oi, Zé! Por que não vem deitar, homem? Parece que viu um fantasma! Calma...

O dia amanheceu vermelho. Ei Zé, que pressa é essa? Hoje é dia de sinuca, viu. Vamos estar todos lá, no bar do Seu Serafim. João disse que vai apostar contigo duzentos contos. A vida tem dessas ciladas. Zé e João continuarão amigos. Ninguém soube do paradeiro de Maria. Dizem as más línguas que ela fugiu com Toninho para perto do mar. Dona Lila acha que ela foi embora, lá para a capital. Zé demonstra uma tristeza de abandono. Ninguém é feliz completamente. João ainda suspira quando se lembra das noites em que ele e Maria trepavam como bichos em desespero. Mas... E Maria? Por onde será que anda a danada? O quintal. Sim, o quintal. Lá está Maria deitada. Plácida, estática, pó. Desfigurada. Sem poesia. Sem João. Sem poder ver a luz do dia. Com os vermes a penetrarem em suas intimidades.

Corre Zé! Vem depressa! Maria ligou para Dona Santinha e disse que está arrependida e quer voltar, se você perdoá-la. Tudo já está resolvido. Dois tiros e só. Sangue para todo lado. O amor evoca certos demônios que a nossa desnatureza não sabe por que os compreende. Ou violentamente os vinga.

Maria chegou numa terça-feira. Era tarde. Chovia. João chorou de alegria e seu coração quase para. Zé gostava tanto dela que não se importava mais com os comentários ruidosos e cheios de treva. O amor enfim vencerá. A noite veio leve. João gozou em cima mesmo do púbis toda a sua força de homem que sabe mesmo como se faz uma noite valer a pena. Dois tiros! Meu Deus! Meu Deus! Que pesadelo terrível! Dois Pais-Nossos. Muitas desavenças e Ave-Marias.

Maria menstruara. O medo de estar grávida denunciaria sua traição. Zé tem gala rala. É “goro”. Todos sabem. Das três mulheres que já teve, nenhuma deixou a marca do seu suor como herança. Muita raiva. Muito sexo. Nada.

Sexta-feira. Meia-noite. Nenhum grito. Maria deixava de ter esperanças. Dizem que ela viajou para visitar umas tias num interiorzinho distante daqui. Bem que Dona Santinha tinha razão.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

ADRIANO NUNES: "Roentgen"

ROENTGEN




O RADIOTRANSPARENTERADIOPACORADIOTRANSPARENTERADIOPACO
RADIOTRANSPARENTERADIOPACORADIOTRANSPARENTERADIOPAC
ADIOTRANSPARENTERADIOPACORADIOTRANSPARENTERADIOPA
DIOTRANSPARENTERADIOPACORADIOTRANSPARENTERADIOP
IOTRANSPARENTERADIOPACORADIOTRANSPARENTERADIO
OTRANSPARENTERADIOPACORADIOTRANSPARENTERADI
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NSPARENTERADIOPACORADIOTRANSPARENTE
SPARENTERADIOPACORADIOTRANSPARENT
PARENTERADIOPACORADIOTRANSPAREN
ARENTERADIOPACORADIOTRANSPARE
RENTERADIOPACORADIOTRANSPAR
ENTERADIOPACORADIOTRANSPA
NTERADIOPACORADIOTRANSP
TERADIOPACORADIOTRANS
ERADIOPACORADIOTRAN
RADIOPACORADIOTRA
ADIOPACORADIOTR
DIOPACORADIOT
IOPACORADIO
OPACORADI
PACORAD
ACORA
COR
O






Antonio Cicero: "Guardar" (Começo o blog em sua homenagem!)


Guardar é o primeiro livro de poemas de Antonio Cicero
(Vencedor na categoria poesia do Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira 1997)




Antonio Cícero
"Guardar"



Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.