domingo, 6 de dezembro de 2015

Adriano Nunes: "Construto"

"Construto"


Primo passo
Eu já está pasmo
Sem/com plexo
Eu já está perto
Tão sem pino
Eu já está pífio
Pouco a pouco
Eu já está posto
Tão sem prumo
Eu já está puro

Eis o ponto
Eu não estou pronto

sábado, 5 de dezembro de 2015

Adriano Nunes: "símiolacros" - para Alberto Lins Caldas

                          "símiolacros" - para Alberto Lins Caldas





ir
do ser ao signo
de mim a mim:
ir-me
a fundo, firme.
ruir-me
e roer-me a epi-
derme do si, símio-
lacro epicêntrico de si-
lêncios si
multâneos, simulácios, enfim,
construir-me: desmonstruir-me.
constatar-me in-
dissolussolvido - o mín
imo que posso fazer, isso,
por mim:
desconstruir-me, livre
de medos míticos
do astucioso íntimo.
reconstruir-me
íntegro. abismo
ab initio,
filme,
fio,
fim.  

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Adriano Nunes: "Nem o que não há sequer" - para a minha mãe

"Nem o que não há sequer" - para a minha mãe



Não é o mundo que o meu coração 
Quer nem o que não há sequer.
Às vezes, quer só sair dessa
Gaiola torácica, quer bater
Por outros matizes de amplidão,
Pelos labirintos íntimos do que não 
Pode ser apenas ritmo e eco.

Às vezes, é que em mim dá-se
O seu mistério de ser mais que carne.
Um engano métrico!
Talvez isso expresse o agora,
Essa tormenta de sentidos e angústias,
Essa solidão sem mesura,
Esse despertar descomedido.

Talvez apenas constate 
Um pouco do que fora a saudade
De mim, por em mim faltar-me.
Ou essa dor de existir,
Porque só existir já pesa.
Eu, Sísifo a amar a pedra,
A subida árdua, a descida frustrante.

Ilusões de estranheza num único lance.
Ah, e esses olhos de humanidade 
Sem norte, sem bússolas!
Tudo do até-mais-sentir-tudo
De mim se ocupa.
Não é qualquer lugar
Que o meu coração quer.

O amor é recanto pra o que é livre.
Não é qualquer tempo
Que o meu coração quer amalgamar 
Em cada batida intensa, única.
Ai, os desejos se dissolvem adentro, 
Mesclam-se a sonhos tirânicos,
À vez dos acasos!

Deve ser por isso que me penso
Mesmo triste.
Deve ser por isso que me desfaço,
Sísifo pela pedra encantado.
Deve ser por isso que a noite se alarga,
Construindo quimeras em minh'alma,
Deve ser a poesia, prisma que pulsa.


quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Adriano Nunes: "Falta um liame a mais"

"Falta um liame a mais"


Às vezes, a voz vai
Em busca de nós dois.
Salta janelas, corre 
Atrás do trem já ido,
Morde o umbigo do íntimo
Do infinito, por nós.
Às vezes, bem descansa
No cárcere frenético
Da garganta. Seu modo
De não ser. E até canta.
É seu veraz comércio.
Mas nem sempre te traz.
Falta um liame a mais.
Às vezes, é só voz.

Adriano Nunes: "Metáforas enquanto nada"

"Metáforas enquanto nada"


Essa alva rosa, essas
Estranhíssimas promessas
De rosa, de dar-se à rosa,
De ser qual rosa, de formosa
Ser, com ilusão, às pressas.
Essa ilusão de jardim
No corpo, espinhos em mim,
Talas, folhas, cores, pétalas,
Cheiro de orvalho, quais essas
Metáforas enquanto nada.
Ah, por que me arrancaste,

Raiz, espinhos e caule,
Por que me atiraste à página
Anêmica dos desejos?
Agora quero ser cravo,
Crisântemo, solo e água,
Sereno, chuva, sol alto,
E tudo que em flor concebo,
Pra ter alívio ou placebo.
Ah, por que me deste - vejo-os!-
A todos os buquês e jarros
Do desassossego, ao amor?

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Adriano Nunes: "À espreita, agora"

"À espreita, agora"


Antes da porta,
A rua em volta.
Antes da volta,
Aberta a porta.

Agora importa
A tua volta.
Antes, a porta
Aberta: a porta

Que era a ponte,
Um horizonte
A mais, um nome.
Que me consome?

Que mais se rompe,
Só? Outro nome
Além e longe,
O teu, qual fome.

Antes da volta,
A lua aporta
Antes - que porta
Mesmo conforta?

Tudo se dobra:
A rua e a porta,
Por tua volta.
Amor, não notas?

Adriano Nunes: "O sono de Trieminant"

"O sono de Trieminant" 



Desde o século dois
Que Trieminant os olhos
Não abre. Em coma 
Não está. Nem morto.
Apenas dorme, dorme.
Acordará logo, logo,
Antes do jornal das nove.
Talvez antes das oito.
Ela sabe que logo
Acordará. Pouco a pouco,
Irá estirar todo o corpo,
Bocejar e ver em volta
Tudo como tudo pode
Ser e estar. Que sonhos
Devem tê-lo invadido, por
Que demorou tanto por
Isso? Faz parte do
Jogo de Trieminant só
Acordar depois de todo
Esse tempo. Pouco
A pouco, erguerá a fronte,
Os ombros, a voz,
E pedirá, de novo,
Como antes, que lhe mostrem
Que ainda tem os tesouros
De Ualaroévnia em cofres
De diamantes e ouro.
Todos estão curiosos
Para saber que gostos
Terá Trieminant agora,
Depois de tanto tempo solto
De tudo que há no cosmo
Infinito, do que há lá fora.
Trieminant apoiou-se no
Mastro da cama e na cômoda.
Olhou para todos. Havia outros.
Repetiu o que lhe era óbvio.
Trouxeram-lhe os cofres.
Trouxeram-lhe a água forte.
Trouxeram-lhe as dores e o amor.
Ah, é o amor que importa
Para Trieminant! Que estorvo!
Nada disso mesmo importa!
Súbito, bastante trôpego,
Tombando nos velhos móveis,
Chega à janela. O mundo olha,
Põe os seus desejos à prova.
Põe tudo de novo à prova.
Ah, ele não quer mais a sorte
De não poder ir mais longe!
O dia parece que já some.
Dá uma gargalhada, retorna
À cama. E, sem dizer por
Que à janela fora, dorme.


Adriano Nunes