quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Adriano Nunes:"Para que a democracia não pereça"

"Para que a democracia não pereça"


Pra que Constituição
Se o desmedido deputado a despreza,
Diante de todos, em plena sessão?
Pra que Direitos Humanos
Se o despótico deputado os desdenha
Sem pena, ante o povo, ano após ano,
Com seus discursos insanos?
Pra que democracia, eleições diretas,
Se tal deputado a ditadura prega e
A Câmara parece a isso estar cega?
Pra que Código de Ética?
Para que Cláusulas Pétreas?
Cadê certa punição
Pra esse que se aproveita da liberdade
De expressão, pra destilar, com tanta raiva, 
Preconceito, sob proveito 
Do privilégio da pressão partidária,
Por saber que pode mesmo dar em nada?
Cadê o probo Congresso
Que, passivo, não demonstra que o decoro
Parlamentar precisa sempre imperar,
Pra que não caia a Casa
Pela falta de respeitabilidade,
Nem se torne a imagem do descaso e outros
Desdéns? Pra que um deputado
Que propaga, pelos mil cantos da alma,
Tantos pensamentos de inquisidor bárbaro?



quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Emily Dickinson: "By homely gift and hindered Words"

"Por parco dom e ditos sem fundo" (traduzido por Adriano Nunes)

"Por parco dom e ditos sem fundo
O peito humano está consciente
Do Nada -
"Nada" é o agente
Que renova o mundo.

Emily Dickinson: "By homely gift and hindered Words"

By homely gift and hindered Words
The human heart is told
Of Nothing—
“Nothing” is the force
That renovates the World—


DICKINSON, Emily. The Collected Poems of Emily Dickinson. Edited by Rachel Wetzsteon. New York: Barnes & Noble classics, 2003.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Adriano Nunes: "Pretenso Proteu moderno"

"Pretenso Proteu moderno"



Eis que não basta
A forma humana,
Que não mais calha
Cometer falhas
E a si culpar
Do ato insano.
De concursado
Funcionário 
À Divindade
No vago horário.
Voz sempre alta e
Carteira, à mão, 
Pronta pra dar,
À vista, a marca
Da pretensão.
Hora é capaz
De um ser a mais
Outra é demais 
Ser quem lhe cabe.
As regras são 
As suas, não 
A da usurpada
Repartição.
Os flashes ama
Da mídia prática 
Para ganhar
Num tribunal
Grana legal.
Mas o que ama
Mesmo é sonhar
Que não há nada
Que bem à vontade
Não possa já 
Modificar
Quando propaga
"O senhor sabe 
Com quem está 
Aqui falando?"

sábado, 6 de dezembro de 2014

Adriano Nunes: "Na arte de um verso"

"Na arte de um verso"


Perdido poeta,
Na arte de um verso,
Procura, sem pressa,
Ritmo e forma certos,
Palavra que preste
Pra labor imenso.
Migalha de tempos
E restos de métrica
Servem, desde que
O amor possa ser
Visto, mesmo breve.
Se, com um soneto,
Deres, frente a frente,
Pega-o! É urgente!

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Adriano Nunes: "Que em sermos não nos cabe"

"Que em sermos não nos cabe?"

As pedras.
Os muros.
As muralhas. 
As fortalezas farpadas.
As montanhas tamanhas.
A poça. O buraco. O báratro profundo.
As intempéries.
Tudo que nos persegue.
Os desassossegos.
Os medos.
Os erros. O eterno retorno.
As setas de Eros.
O ébrio ego.
O mundo. O outro
Mundo. O que vai além
Do que aqui possa estar junto.
Viver é tão cedo!
Vencermo-nos é tão tarde!
Que em sermos não nos cabe?
Desertos, disfarces, desejos...
E há entre todos o máximo obstáculo
Que precisa ser sempre ultrapassado:
Nós mesmos.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Adriano Nunes: "Este soneto"

"Este soneto"


Urgente! Urgente!
Um verso com (pé?)
Quebrado ritmo
A precisar
De outro marca-
Passo de outro
Miolo métrico
De outro bardo
Mesmo exigente e

Que agora o pense!
Este soneto
Precisa de
Ser diferente
Mas não perfeito.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Adriano Nunes: "Ó manhã, manhã! "

"Ó manhã, manhã! "


Padece o palácio
de Minos ainda.
Aos poucos se vê
o sol a soletrar
do alto o seu átimo,
entre o emaranhado
da grã trama branco-
azulada de
nuvens e o concreto
de egos espertos.
Eis a dada dádiva,
sem que possa ser
sequer plagiada.
Ó manhã, manhã
igual para tantos!
Perante o teu canto
de esperança, aprontam-se,
sós, Dédalo e Ícaro.
Penas, cordas, cera
forjam a artimanha.
Os olhares brilham.
Um reconhecer
mútuo - o entendimento.
Não atentam para
Átropos que, tendo
à mão a tesoura,
com pressa, procura
o fio da vida
daquele que irá
imergir no mar
sem que nada o salve.
Ó manhã, manhã
igual para Ícaros,
Dédalos, que mescla,
com estranha métrica,
dor e liberdade!