domingo, 17 de agosto de 2014

Hazel Hall: "Hours"

"Horas" (tradução de Adriano Nunes)


Conheci horas feitas qual cidades,
Casa a casa cinza, com ruas entre
Que a alteradas rotas levam e esvaem-se, 
Olvidadas em um campo virente;

Horas feitas qual montes que sublevam
Cristas alvas além da névoa e chuva,
E tecidas de proibida música -
Em seu sofrimento horas eternas.

Tapeçaria de horas, a vida
A suavizar no tom para sempre,
Onde tudo se mescla, até a saudade
Das horas por meu ser desconhecidas.


Hazel Hall: "Hours"

I have known hours built like cities,
House on grey house, with streets between
That lead to straggling roads and trail off,
Forgotten in a field of green;

Hours made like mountains lifting
White crests out of the fog and rain,
And woven of forbidden music—
Hours eternal in their pain.

Life is a tapestry of hours
Forever mellowing in tone,
Where all things blend, even the longing
For hours I have never known.



HALL, Hazel. The Collected Poems of Hazel Hall. Edited by John Witte. Corvallis: Oregon State University Press, 2000.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Adriano Nunes: "O corpo de Lorca"

"O corpo de Lorca" 



Entre Vísnar e Alfacar
Ou num distinto lugar
Deve encontrar-se o teu corpo,
Ó, poeta. Aquele agosto
Repleto de agouros era
O que a ardilosa megera
Queria pra arrebatar-te, 
Pois, ela, por tua arte
Estava muito encantada,
Desde o primordial ano
Do Romancero gitano.
Ela: sempre astuciosa,
Nada prega, pesa ou dosa.
Ela: politicamente
Perversa, faz-se presente.
A filha do inesperado,
Átropos, tem a seu lado
Sempre uma carta na manga.
Na verdade, guarda tantas
Quanto necessário for.
Deleita-se com a dor
Alheia. E assim corta o fio
Da esperança, com ardil,
Do que passou a existir.
E não está nem aí.
Entre Vísnar e Alfacar
Ou num distinto lugar
Deve encontrar-se o teu corpo,
Poeta. Qual os de outros
Fuzilados. E em teus versos
Encontro-me mesmo imerso.
Chego a ter medo e arrepios.
"Frío, frío, como el agua
Del río."O corpo é nada.





domingo, 10 de agosto de 2014

Adriano Nunes: "Átimos" - para Carmen Silvia Presotto

"Átimos" - para Carmen Silvia Presotto


Para espantar os pássaros, os braços
Abre o espantalho. O vento forte bate
Em suas velhas palhas. Outra esvai-se.
Porém eis que se atreve um corvo a dar
Seu ar de graça sobre a mão de pano
E tralha. Cisca, bica, e já não há
Mão, mas um grácil ninho. Ora, para
Que sirvo se nem mesmo um corvo espanto? 
Pensa o espatifado espantalho. Nada
Parece contentá-lo. Os muitos grãos
Da fazenda furtados pelos pássaros
Permanecem. O sol cega seu olhar
Despido de farrapos. Nem um traço
De medo impõe às aves. Que dor vasta
Atinge-lhe os recheios! Bem será
Que o fazendeiro irá fora atirá-lo
Feito um trapo. Nem corvos nem as gralhas
Dão por isso. Disputam todo o milho,
Rasgam as vestes gastas, e até dançam!
Vez ou outra defecam sobre a face
Do estático artefato. Antes não
Era assim. Com a palha a brilhar tanto,
Nenhuma praga aérea ser capaz
Era de atormentar o seu pensar.
Resta um contentamento: a floração
Da primavera, a ágil esperança
De que do inesperado ninho nasça
Um outro sol, a arte de haver átimos.




Adriano Nunes: "No íntimo do que há"

"No íntimo do que há" 



À vidraça a chuva se agarra.
Com o frio, esvai-se o olhar
Além da paisagem. Nada
De nítido quer restar.

Trôpega, para, à socapa, 
Uma andorinha. Solar
Alegria se amalgama
No íntimo do que há.

Faz-se quântica emoção
Em minha retina. A mágica
Palavra me sonda e arde:
É verão uma só ave!

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Adriano Nunes: "De densa saudade"

"De densa saudade"



Com angústia, aguardo
O instante preclaro
Para declarar
A ti, solidão, 
A veraz vontade
De em um lar estar.

Talvez porque já
Ingressei no átimo
Do amor lancinante,
Ou, quem mesmo sabe,
Em uma sinapse
De luz, pra enfeitar-me

Do que foge ao alcance.
É tudo um quiasma
De medos e mágoas.
Penélope faz
E desfaz a manta
Nupcial, errática.

Que dela bem saibam
As minhas pancadas
Popconcretas, mas
Escondam-lhe as lágrimas
Que agora desabam.
Entrego-me ao vácuo

Da vingança e lanço-me
À Ítaca. Abraço
O silêncio prático
De saber-me mais
Em mim. Risco e tática.
Não vês, solidão,

Que apertas bastante
O meu coração?
Tento, -Será tarde? -,
À língua entregar
O incomunicável.
E dá-se o espetáculo

De sentença e sangue.
Um mar se amalgama
Nos corpos tombados.
O tédio virá! -
Assalta-me o lapso
De densa saudade:

As Sereias, as
Praias escaldantes,
Os muros em chamas
De Troia, as vãs mágicas,
Os braços e lábios
De Circe. A ilusão.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Emilio Prados: "Aparente quietud..."

"Aparente quietude..." (tradução de Adriano Nunes)


Aparente quietude ante teus olhos,
aqui, a ferida - sem alheios limites -,
É o fiel do teu equilíbrio estável. 
A ferida é tua, o corpo em que está aberta
é teu, teso e lívido até. Vem, toca,
baixa, mais perto. Não vês tua origem
entrando por teus olhos a esta parte
contrária da vida? Que tens achado?
O que não seja teu em permanência?
Atira a tua adaga e teus sentidos.
Dentro de ti engendra o que tens dado,
fora teu e sempre é ação contínua.
Tal ferida é testemunha: sem mortos.


Emilio Prados: "Aparente quietud..."


Aparente quietud ante tus ojos,
aquí, esta herida - no hay ajenos límites -,
hoy es el fiel de tu equilibrio estable.
La herida es tuya, el cuerpo en que está abierta
es tuyo, aun yerto y lívido. Ven, toca,
baja, más cerca. ¿Acaso ves tu origen
entrando por tus ojos a esta parte
contraria de la vida? ¿Qué has hallado?
¿Algo que no sea tuyo en permanencia?
Tira tu daga. Tira tus sentidos.
Dentro de ti te engendra lo que has dado,
fue tuyo y siempre es acción continua.
Esta herida es testigo: nadie ha muerto.


PRADOS, Emilio. "Signos del ser". In:___. Antología Cátedra de Poesía de las Letras Hispánicas. Selección e introducción de José Francisco Ruiz Casanova. Madrid: Ediciones Cátedra, 2005, p. 721.

sábado, 2 de agosto de 2014

Emma Lazarus: "Life and Art"

"Vida e Arte" (Tradução de Adriano Nunes)




Não enquanto o fulgor do sangue seja intenso,
Pulsa alto o peito, o olhar oculto, não menos
Com paixão do que com pranto, a Musa ungirá
O vate pra amparar e acalmar co’ o cantar.
Logo não pede que expressem aos lábios tímidos
Dolorosa alegria, o pesar libertino.
A vida é seu poema; carne, gênio, e senso,
Lira cheia de cordas concorde ao contento.
Mas quando o sonho é concluso, falham os pulsos,
A ilusão do dia, co’o cair do crepúsculo,
Ele, sozinho, na penumbra, observa o pálido
Consolador Divino, vertido em Desgosto,
Adentra e apertar-lhe a mão, e beija-lhe o rosto.
Como agora os meus - abrem-se a cantar seus lábios.



Emma Lazarus: "Life and Art"


Life and Art


Not while the fever of the blood is strong,
The heart throbs loud, the eyes are veiled, no less
With passion than with tears, the Muse shall bless
The poet-sould to help and soothe with song.
Not then she bids his trembling lips express
The aching gladness, the voluptuous pain.
Life is his poem then; flesh, sense, and brain
One full-stringed lyre attuned to happiness.
But when the dream is done, the pulses fail,
The day's illusion, with the day's sun set,
He, lonely in the twilight, sees the pale
Divine Consoler, featured like Regret,
Enter and clasp his hand and kiss his brow.
Then his lips ope to sing--as mine do now.






LAZARUS, Emma. Selected Poems. Edited by John Hollander. New York: Library of America,  2005.