Pode machucar o meu coração, Dilacerá-lo, triturá-lo, Pedaço por pedaço. O amor, bem sei, quando vem Não é em vão, Pode até ser mesmo O contrário do que é esperado, O amor é mágico, O amor é trágico, É fato. Só o tempo a passar É tão comportado.
Pode maltratar o meu peito então. Os dragões da insegurança Foram-se. Os medos Do além-amar já Não me alcançam. Fragmento por fragmento, Batida por batida, O meu coração está disposto A provar do gosto Da desilusão incontida, Pode soltar a sua gargalhada
De conquista e império. Servo dos meus desejos, Aceito, contente, o que quero. Parte por parte, Ritmo por ritmo, Do nervo à carne que arde, O meu coração O impacto acata, Não se importa mais com nada. Pode alardear sua vitória, Obter seus louros agora.
Fibra por fibra, Frequência por frequência, Contra toda a expectativa, Meu coração se dá Por dominado. Que interessa o desabrochar Das rosas, o sonhar a pino, Outra tentação surgindo, A flauta de Pã, O amanhã, A lira de Erato?
Aconchega-se o dia em mim. Tudo é saber-te, ó mãe, manhã. E sinto-te. E canto-te em lírica Alegria, pra eternizar-te Em meu âmago, em minha arte. Mas a arte da qual se vale O meu coração não se finca No que se pretende só ser. Procuro, apressado, um jardim Florido. Não há. Não desisto. E transformo, em folhas e pétalas, Cada palavra que me atesta, O bailar do lápis, e em rosas, O que co' amor escrevo agora.
"A dinâmica perfeita" Quando se finca No ato a cabeça, O desejo quer mais E mais e mais ainda, O gosto, O suor, O olhar que já Não é mais só, A desesperada hora, O corpo todo, Os gemidos, Os sussurros fortuitos, Os ais, A dinâmica perfeita Do gozo, O jorro, A metáfora Que aflora. Pois bem: Debruçado no catre, O poeta tece a Sua arte, Entregue ao lápis E à folha virgem, Segue, além, Do que se sabe, Íntimo, Convulso, Contente, Dado a regras e impulsos, Finge que finge, E penetra fundo Na linguagem - Quântica viagem - Para engendrar - quem o sente? - Mundos múltiplos.
"Entre as dores que me atestam" É preciso estar desperto Para o tempo Ilhado do alheamento. Que perigo ronda, perto, O que quero! Só um verso! Só um verso! Entre as dores que me atestam Ser quem sou, apenas esta Em mim pede Ao que lhe Mais interessa Para ser (ou pra ser breve?) Quem a escreve. É preciso estar atento Para o que Vinga adentro. Eis a regra: ser poeta! Que perigo sonda, vejo, O desejo: Só um verso (será um beijo?) Contra o tédio!