quinta-feira, 30 de junho de 2016

Adriano Nunes: "Elizabeth chegou!"

"Elizabeth chegou!"


Elizabeth chegou.
A algaravia confirma
A sua chegada.
Que será que trouxe distinto
A grande Elizabeth
Dos ruínas de Alijazerbawdek?
Sim, Elizabeth chegou.
Os gritos tantos e a correria brusca
A sua presença constatam.
Que será que trouxe diferente
A magnânima dama
Dos desertos de Oliurkidum?
De fato, falas e feitos forjam
A chegada de Elizabeth.
Até os mortos põem-se em vigília
Para aplaudir a passagem
Da poderosa Elizabeth.
Que será que trouxe esquisito
Dos mares de Trietzavan?
As janelas e portas escancaradas
Demonstram que certa foi
A sua chegada.
As vozes, as veias, as vísceras saltam.
Elizabeth a qualquer momento
Passa por aqui.
Que será que trouxe dos confins
De Margrev-Tzazt?
Aponta para as
Prováveis pegadas da excelsa
Senhora, mascate destes pastos,
O sol a pino.
Ah, a vinda de Elizabeth
Como tudo modifica e alegra!
Ah, a vinda do nada!
Joias baratas, tecidos coloridos,
Artefatos mágicos, invenções da moda,
Pérolas raras, feitiços e pragas,
Tudo o que nos esfola,
Marasmos e esmolas e molas,
Tudo o que as sinapses não captam!
Tudo! Tudo! Tudo agora!
Sempre estamos à espera de tudo -
Ela bem sabe. Do cancro à cor.
Elizabeth chegou! Elizabeth chegou!
Gritam todos! Gritam outros
Enfileirados, com olhos de ânsia e
Assombro. Que será que trouxe,
Dessa vez, a velha Elizabeth,
Das florestas violentas de Ardrákia?
As nuvens atestam a sua chegada.
As porcas gordas carimbam
A sua chegada!
A nossa fome de tudo jorra
A sua chegada.
Ah, velha traiçoeira Elizabeth!
Por que nos engana com os sonhos
Que já são nossos?
Por que nos massacra com
As nossas próprias esperanças?
O fel da felicidade fatalmente
Irá apalpar os amontoados de balaios
Cheios de cosmos e confusões.
Ah, velha e formidável Elizabeth,
Por que nos traz sempre
O nosso despreparo para a vida,
Entre os seus límpidos dentes?

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Adriano Nunes: "Regresso" - para Alberto Lins Caldas

"Regresso" - para Alberto Lins Caldas


Da praia
Ainda
Dá para
Ver as
Muralhas
Em gritos,
Em chamas.
Helena -
Quem sabe
Aonde
Foi, quem
Dirá
Pra qual
Lugar?
Nem Páris.
Que seja
Explícita
Verdade.
Que vale
Da casca
À carne?
Só cinza
E sobras
De egos.
Só caos
E sombras
Perpétuas
Qual régua
Medindo
O tempo
Tão ínfimo.
Ao vácuo,
São vistos
Os barcos
Voltando
À Grécia.
Que prece
Dar a
Apolo
Pra que
Ressurja
O novo
Propósito,
Sem culpa?
Os mares
Estão
Convulsos.
As lágrimas
São só
Embrulhos
De mágoas
E marcas.
Já somem
Ao longe
Os mastros...
Mar alto!
Da praia
Ainda
Dá para
Ver a
Memória
Sangrando.
Que a acalma?



segunda-feira, 27 de junho de 2016

Adriano Nunes: "Que faço pra fincar-te"

"Que faço pra fincar-te"

De mim partiram barcos
Com destino ao mar alto
Do q' eu sempre quis ser.
Crisântemos do ser.
Líricos lírios, ou
Seja: o que em mim sonhou
Ser: amador amor
Em um soneto heroico
Quebrado, dado aos olhos
Do acaso. Quando o acabo
Ainda em mim navego
Ou só são mesmo versos
Que faço pra fincar-te
Em minha carne-arte?

Adriano Nunes: "Música"

"Música"

CAETANO
CAETANG
CAETAGI
CAETAGIL
CAETGILB
CAEGILBE
CAGILBER
CGILBERT
GILBERTO

Adriano Nunes: "De memórias e mar"

"De memórias e mar"


Chove. Não há pensar
Que não se volte a ti.
Por que me reparti
Em tantos sem um lar?
Por que me converti
Em outros sem um par,
Enquanto estava a amar
O que vinha de ti?
Chove... E o frio a velar
Este vazio atí-
Pico: não desisti
De ir fundo... E sonhar!
Porque me revesti
De memórias e mar,
Vejo o vento a espalhar
Versos que fiz pra ti.

domingo, 19 de junho de 2016

Adriano Nunes: "Uma coisa que parece"

"Uma coisa que parece"


Uma coisa que parece
Não é a coisa que se
Parece. Uma coisa meio
Como que uma coisa não
É a mesma coisa. Não é.
Não é isso aquilo. Isso
É isso. Outra coisa, digo.
Só pelo olhar não dá para
Dizer que isso é o que é.
Pode ser homem, mulher.
Isso não precisa ser
Tese nem mesmo conceito.
O que se vê como quer
Pode até ser preconceito.

Adriano Nunes: "Passagem da noite"

"Passagem da noite"

A noite não passa.
Silêncios,
Sementes,
Saudades,
Como me dão asas!

A noite até tarda.
Suspenses,
Surpresas,
Suplícios,
Do miolo à casca!
À noite, mais nada?
Sujeitos,
Sorrisos,
Sentidos
Agora me alargam!

Adriano Nunes: "Dize que me amas"

"Dize que me amas"

Dize que me amas,
Pois dar-te-ei Ítacas,
Macondos, Atlântidas,
Caríbdis e Cila,
Vesúvios e versos...
Nada de ideias fixas.
Porém já te peço
De antemão: não, não
Exijas verdades
Nem sinceridades
Do meu coração.
Podes, sim, fingir -
As coisas só são
Como são, então
Dize que me amas!

Adriano Nunes: "Não será assim" - para Filipe Catto & Ricky Scaff

"Não será assim" - para Filipe Catto & Ricky Scaff

Alegre estava
A digitar
Outro poema

Errático,
Erótico,
No celular,
Mas, quase ao fim,
Denso
Desastre: a tela
Pifou,
Sequer um brilho
Restou,
Só dígitos
E o vácuo
Dos embaraços
Da estranha perda,
Sem mais
Nem menos.
Não será assim
O amor?
Não, não...
Pois, sem demora,
Louco infinito
Solta-se, brota
Do coração!

Adriano Nunes: "Ainda a amar"

"Ainda a amar"

Desnorteado
O amor me tem
Feito. De sábado 
A mesmo sábado,
Demais perdido,
Sem um lugar
Para parar.

Desconfiado
Tem-me deixado
O amor: com quem,
Em que chão, mar,
Quem te deu isso,
Outro infinito?
Quando aqui vens?
Tomou-me o olhar.
A vida linda
Como enxergar?
Raivas, amarras,
Pra tudo ou nada.
Quanta mancada
Resta-me ainda?

Adriano Nunes: "Pelas frestas do átimo mais denso"

"Pelas frestas do átimo mais denso"

Depois dos laços audaciosos
De tuas pernas, pouco me importo
Com os rumos do amor.
Cantante é o calor dos abraços
Dessas metáforas desmedidas
Que nos acontecem, de manhã,
Na cama. Não são só chamas.
Não são só atritos epidérmicos
E suores perfumados,
Hálitos sem qualquer norte.
Por que a vida se veste de ausência
Quando o desejo ferve
No desnudo corpo? Que sobra
Dos olhares, dos pelos eriçados, das ereções
Que erram, que se dispersam
Pelas frestas do átimo mais denso,
Aquele em que, em mim, se amalgama,
Adentro, fundo, forte, sem pressa,
Beijando-me cegamente
Como se o porvir fosse desnecessário?
Não será apenas mais um ato
Nesse espetáculo de proezas espertas?
Ah, como a memória nos esfacela!

Adriano Nunes: "Relax"

"Relax"

The sea sees a beautiful girl
Fighting boxing on the beach.
The existence streaks!
The asphalt flirts a handsome boy
Dressing top and miniskirt.
The freedom streaks!
Only the desire repairs
What seems more than mere magic.
I see the city give up itself unfinished:
Ruins, remains, rats and bursts of bullets.
Fades away a smiling boy who sings
In front of the flirtation of quantum chimera.
Everything is a fairy tale!
Fades away a very shy girl
In front of the applause of sunset which gushes.
Oh, how the chance makes slyness!

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Adriano Nunes: "Relax"

"Relax"

O mar observa uma menina linda
Lutando boxe na areia da praia.
Como a existência raia!
O asfalto namora um menino lindo
Vestido de top e minissaia.
A liberdade raia!
Só o desejo repara
O que parece mais que mera mágica.
Vejo a cidade dar-se inacabada:
Ruínas, restos, ratos e rajadas de balas.
Esvai-se um menino que a sorrir canta
Perante o flerte da quimera quântica.
Tudo é um faz-de-conta.
Esvai-se uma menina demais tímida
Perante o aplauso do ocaso que mina.
Ah, como o acaso apronta!

Adriano Nunes: "À astúcia das áleas"

"À astúcia das áleas"

Você diz que anda
Tudo pela corda da bamba
Do amor,
Que a emoção
Ainda adianta, que nos reinventou.
Você diz que quer tanto,
Com espanto,
O meu coração, enquanto
Traça seu plano de ação.
Sei não...
Chega dessa insatisfação!
Pulsando mesmo fortes
As quimeras estão.
Você diz que vem
Mais soft, feliz, fora de ordem,
Quer levar-me à Ítaca,
Nos braços, de cá pra lá,
Causar impacto, vasto embaraço.
Que não dá, acho...
Que não dá.
Mas como deixar passar
Essa chance, tão única!,
De mudar o átimo sem graça,
De moldar-me à astúcia
Das áleas, dar-me asas?

Adriano Nunes: "A que a vista se lança" - para Carmen Silvia Presotto

"A que a vista se lança" - para a amiga Carmen Silvia Presotto

Acabo de chegar
Aos arredores de
Troia. Tudo fervendo
Está. Todo lugar
A que a vista se lança.
Das muralhas ao mar,
Quão pesa o entendimento!
Dispersam-se horror, ânsia
Pelo que já não há.
Que porvir violento
Pressinto pelo olhar
De Príamo, a chorar.
Heitor morto, sem lança,
Arrastado, sob ventos
Fortes, sob gritos densos,
Uns gregos, outros já
Da terra em chamas, lar
Do que a dor mais alcança.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Adriano Nunes: "Mistura"

"Mistura"


O amor
Bem era
Silêncio.
Pensei:
Estou
Errado,
Não amo
De fato.
Depois
Virou
Ruídos
De festa.
Pensei:
Ser deve
Paixão
De leve.
Agora
Mistura
Ruído e
Silêncio
Adentro.
Já penso
Que amor
É mesmo.
Ah, como
Dá medo!

domingo, 12 de junho de 2016

Adriano Nunes: "Pulse"

"Pulse"

Do not
Forget
The things
That you
Said when
You saw
A man
Kissing
A man

Sometimes
Words can
Kill more
Than guns
And wars
They can
Kill more
Than bombs
And knives
Try to
Destroy
Your hate
Inside
You. Open
Your mind.
The world
Does not
Need it.

Adriano Nunes: "A algaravia do acaso" - para a minha mãe

"A algaravia do acaso" - para a minha mãe

Desprende-se do breu infindo
A madrugada.
Tudo é silêncio.
Solidão calha.
Quem sabe venha Dionísio
Com o seu séquito
De vida e verso e
Traga-me o vinho
De algum portento.
Espero, espero...
Ouço a algaravia do acaso
Fazer estardalhaço
Do que em mim ponho.
Bacantes? Onde?
Nem mesmo Príapo
Mostra-se ao longe!
Sangro. Desfaço-me,
E o instante some.
Ah, tudo é frágil
Dentro do sonho!

Stephen Crane: "A Man Said to the Universe" (Tradução de Adriano Nunes)

"Um homem disse ao universo" (Tradução de Adriano Nunes)


Um homem disse ao universo:
"Senhor, existo"
"Entretanto", replica o universo,
"O fato não gerou em mim
Um senso de obrigação".


Stephen Crane (1871 - 1900): "A Man Said to the Universe"


A man said to the universe:
“Sir, I exist!”
“However,” replied the universe,
“The fact has not created in me
A sense of obligation.”



CRANE, Stephen. The Complete Poems of Stephen Crane. Edited with an introduction by Joseph Katz. New York: Cornell University Press, 1972.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Adriano Nunes: "Do que se quer fincar"

"Do que se quer fincar"


Tarde de calor e tensão.
Pensamentos se dispersam
Pelas folhas anêmicas, enquanto 
Tudo insiste em ser tudo além.
Não há propósitos no peito.
Ouço Sísifo sussurrar-me "vem!".
Desatam-se de mim os tantos
Que fui outrora, outros que sou
Quando o lápis não se conforma
Com o breu das sucessivas sobras
De esperanças já gastas com a lida.
O vazio de tudo em mim também
Maliciosamente me retém,
Com sua linguagem coercitiva.
Ah, o rebuliço convulsivo
Da métrica astuciosa de cada desejo!
Ah, a solidão exasperada e exímia
Colecionadora de práxis, proezas e prantos!
Tudo nesta tarde... Medos mancos
Que se amalgamam em quimeras líricas -
Um barco com aquele furinho à vista
Depois do mar alto e da tempestade!
Quântica tarde de memórias e voltas
Por cima e acima do que se quer fincar
Em meus nortes, por dúvida e descaso.
Nada demora e nada passa rápido...
Coração, que me deste, que fizeste
Das minhas Medusas e Esfinges,
Dos meus Proteus? Que agora faço?
A vida tem sido dura e leve, decerto.
Ela tem-se esmagado para estar na moda
Nefasta dos estilhaços estéticos
De ser como se tem, por ordem, que ser.
Até quando posso, tenho sido eu.
E tenho-me dado alguns versos.
Tarde de calor e desprendimento.
Rasga o instante o ruir do relógio na parede
Da sala do sonho que já não há.
Que nunca houve.
Volto-me à janela e, perplexo, descubro
O que me liga às mágoas do mundo.
Ah, as máscaras às taras atadas!
Ah, os carrascos sem máscaras!
Como seria tedioso e sem essência
Se bastasse um passe de mágica!
Se bastasse dizer: "basta!"
Dá-me o Nada, dá-me o Nada,
Coração desobediente e crápula!

terça-feira, 7 de junho de 2016

Adriano Nunes: "Prontos para o amor"

"Prontos para o amor"

Teu ser era assim
Um tapete persa
Que eu tanto queria
Que voasse. Certa
Manhã, debruçado
Em teu calor, vi
Que do chão distavas
Já, símile à mágica.
Algo se operou
De repente, rápido.
Estranha alegria!
Era uma manhã
Sem medos, e estávamos
Prontos para o amor.

Adriano Nunes: "Para nada"

"Para nada"

Amanhece a
Foz do mundo,
Entre orquídeas
E memórias
Que não duram
Um segundo e
Quase vingam.

Aqui, dentro,
Caos de tudo,
Mais me busco.
Vou-me ardendo
Em tropeços
E feridas
Que são ímãs.
As migalhas
Da ilusão
Até raiam
Presas ao
Coração.
Para tudo,
Para nada.

Adriano Nunes: "À tez do momento"

"À tez do momento"

Dou-me ao verso, certo
De que o que mais quero
É isso: escrever,
Ver signos nascer
Do íntimo metro,
Por prazer. Confesso
Que de arte impregno-me,
Entre ritmos e
Rimas, sóis tão belos,
Porque tudo peso
Em mim. Eis o que
- Não vês? - posso mesmo,
À tez do momento:
Um soneto ser!

domingo, 5 de junho de 2016

Federico García Lorca: "El niño loco" (Tradução de Adriano Nunes)

"O menino louco" (Tradução de Adriano Nunes)

Eu dizia: "Tarde"
Mas não era assim.
A tarde era outra coisa
que já havia zarpado.
(E a luz encolhia
seus ombros como uma menina.)

"Tarde" Mas é inútil!
Esta é falsa, esta tem
meia-lua de chumbo.
A outra não virá nunca.
(E a luz como a veem todos,
de estátua brincava com o menino louco.)

Aquela era pequena
e comia romãs.
Esta é imensa e verde, eu não posso
tomá-la nos braços nem vesti-la.
Não virá? Como era?
(E a luz que se esvaía ofertou um faz-de-conta.
Separou do menino louco a sua sombra)

Federico García Lorca: "El niño loco"

Yo decía: "Tarde"
Pero no era así.
La tarde era otra cosa
que ya se había marchado.
(Y la luz encogía
sus hombros como una niña.)
"Tarde" ¡Pero es inútil!
Ésta es falsa, ésta tiene
media luna de plomo.
La otra no vendrá nunca.
(Y la luz como la ven todos,
jugaba a la estatua con el niño loco.)
Aquélla era pequeña
y comía granadas.
Esta es grandota y verde, yo no puedo
tomarla en brazos ni vestirla.
¿No vendrá? ¿Cómo era?
(Y la luz que se iba dio una broma.
Separó al niño loco de su sombra.)


LORCA, Federico García. "El niño loco". In:_____. "Canciones". In:____.http://federicogarcialorca.net/obras_lorca/canciones.htm#74. Acesso em 05/06/2016.

sábado, 4 de junho de 2016

Adriano Nunes: "Corretor"

"Corretor"


Você quer dizer
Que ama
Alguém, ele diz
Cama. Mas
Se quer cama,
Vê adiante
Cana ou gana.
Se diz
Preferido,
Grita proferido.
Se pede
Socorro
Do Índico,
Lá vem ele
De índio.
Tudo com
Algum sentido
Implícito,
O id dos dígitos.
Pelo avesso
O inverso, avulso,
Desconexo.
Ainda bem
Que tudo
Pode virar verso.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Adriano Nunes: "Entre signos, quis-me"

"Entre signos, quis-me"


Do infinito íntimo
Salta quem me sinto.
"Tudo dói, menino,
Tudo fere!" - insisto
Em repetir isto
Para mim. Assim,
Saio do limite
Cruel que reside
No mundo visível,
Porque penso ir
Bem mais fundo em mim
Quando um verso arrisco.
Entre signos, quis-me
O amor mesmo livre.