sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Adriano Nunes: "Amor explícito"

"Amor explícito"


Amo os livros (Amo os livros!)
De Poesia. E a Poesia dos livros
Todos por serem livros. Amo-os do íntimo
À casca do que me sinto.
E os discursos súbitos e tão precisos
Em defesa do que, dito,
Humano precise ser reconhecido. 
Máxime repetir isso:
Amo todos os livros como um menino
Que ama o gasto carrinho,
Os seus brinquedos antigos.
Porque é aí, afirmo, 
Nesse estranho labirinto
De significados, signos,
Que mais arde o infinito, 
E a Liberdade faz  o seu grácil nicho.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Juan Ramón Jiménez: "Amor" (tradução de Adriano Nunes)

"Amor" (tradução de Adriano Nunes)

Amor

Não estás morto, não.
Renasces,
com as rosas, em cada primavera.
Como a vida, tens
tuas folhas secas;
tens tua neve, como
a vida ...
Mas tua terra,
amor, está semeada
de profundas promessas,
que hão de cumprir-se ainda no mesmo
olvido.
Em vão é que não queiras!
A brisa doce volta, um dia, à alma;
um dia doce de estrelas,
desces, amor, aos sentidos,
casto como a primeira vez.
Pois és puro, és
eterno! À tua presença,
regressam pelo azul, em branco bando,
ternas pombas que acreditamos mortas...
Abres a flor só com as novas folhas ...
Douras a imortal luz com línguas novas ...
És eterno, amor,
Como a primavera!

Juan Ramón Jiménez: "Amor"

Amor

No has muerto, no.
Renaces,
con las rosas, en cada primavera.
Como la vida, tienes
tus hojas secas;
tienes tu nieve, como
la vida…
Mas tu tierra,
amor, está sembrada
de profundas promesas,
que han de cumplirse aun en el mismo
olvido.
¡En vano es que no quieras!
La brisa dulce torna, un día, al alma;
un día dulce de estrellas,
bajas, amor, a los sentidos,
casto como la vez primera.
¡Pues eres puro, eres
eterno! A tu presencia,
vuelven por el azul, en blanco bando,
tiernas palomas que creímos muertas…
Abres la sola flor con nuevas hojas…
Doras la inmortal luz con lenguas nuevas…
¡Eres eterno, amor,
como la primavera!

JIMÉNEZ, Juan Ramón. "La Frente Pensativa". In:___. Obra Completa - Poesía. Madrid:  Visor Libros, 2008

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Adriano Nunes: "Enquanto o eu se desmembra"

"Enquanto o eu se desmembra"


Rendido à rede de renda,
A ver o verso verter-se
Em vida, vislumbro a vez
De ter disso a consciência. 

O balanço abriga bem
Ritmo e rima e risco e rege
Todo o espetáculo estético,
Enquanto o eu se desmembra.

Aonde me leva a fresta
Que se faz infinda festa
De ideias? Que pode além
Haver dessa hora intensa?

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Adriano Nunes: "Canção"

"Canção"


A morte
Não pode
Co' a Arte.
Bem pode
Ter corpo,
Ter alma,
Ter grana
Juntada,
Ter o
Vazio
Deixado,
O que
É chato.
Porém
Co' a Arte
Não pode:
Não vês
A lei
Da estética,
Das coisas
Mais belas
Gerar
O tempo,
O que
Perpassa
Além
Do tempo:
A Arte
Em si
Mil Gênesis
Abriga.
Adentro:
A morte
É só
Vil vírgula.
E ela
Bem sabe
Que não
Possui
Saídas.
Perdida
Está.
A Arte
É mesmo
Precisa.
Cantemos
O metro
Melhor,
A rima
Arisca,
O amor
Que há
Pra amar:
A vida!


Adriano Nunes: "Maraes" - para Adriana Calcanhotto

"Maraes" - para Adriana Calcanhotto


Amar é cais
E mar e mais

Mar íntimo
Mar morável
Mar infindo

Elo Mor
Ares e Eros

Amores iguais
Maritmo, Maré, Moraes...
Há mares totais!

Adriano Nunes: "Saudade"

"Saudade"


Um canto -
Talvez dissesse outro.
Um porto -
Talvez o que se espraia.
A praça -
Talvez para cantá-la,
Ó dádiva,
Diva que divisa a vida dada -
O tudo
Ou nada.
A carne,
O soro,
Os ossos,
Os gestos,
O olho
A olho,
O gozo
E o sol
De cada
Palavra
Que jamais fora pronunciada!
Um cosmo -
Talvez quisesse pouco.
Um prédio -
Talvez valesse o passo.
A ponte -
Talvez lhe desse um nome,
Ó música,
Musa que é multiforme e ameaça -
A mágica
Quimera,
A pele,
Os pelos,
Os poros,
O peito,
O pé
Quebrado,
O estímulo
E a estética
De cada
Metáfora,
Para que a saudade se desfaça.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Adriano Nunes: "Ars poetica" - para o amigo Aetano Lima

"Ars poetica"  - para o amigo Aetano Lima


Então o criador,
- um bardo, por favor! - 
Repleto de esplendor
A imaginar ficou
Seu infinito cosmo.
Pedras e plantas pôs.
Pensou: do bicho homem,
A vã semente só
Depois! E a engendrar foi
A serpente, e o pior:
Em sua mente um corpo
De um deus amorfo e morto.
Assustou-se. E, por pouco,
Não se viu mesmo louco.
Criou a cabra e o porco.
A vaca, o breu e o boi.
Em preto e branco todos.
Somente o tempo cor
Tinha. E de medo logo
Encheu-se. Era óbvio
Que poderia só
Criatura ser, pois
Não tinha sequer nome.
Precisava do homem.
Era preciso o homem! 
Súbito, teceu rosto,
Pernas, pau, braços, boca.
E à semelhança do
Ser criado de assombro
Fora tomado. Solto
De si moldou-se molde
Já supondo em que ponto
Fincava a própria morte.
Fez orelhas e olhos,
A língua, a carne e os ossos. 
Co' imensurável sopro,
Encheu d' ar o protótipo
De si, enquanto sonho.
Contente do controle
Sobre o incrível esboço,
Postergou o seu gozo:
Era um deus, era homem! 
E, tirânico e tonto, 
Soube que estava pronto.
Do barro dos negócios
Mundanos outro tornou-se.
E das costelas dos
Ditos deliciosos
Forjou o sexo oposto.
Era tudo por seu modo.
Era tudo pra seu jogo.
Cansado, descansou
No grã trono. Pesou:
Agora tudo posso.

domingo, 25 de janeiro de 2015

Adriano Nunes: "O que me concebe"

"O que me concebe"


Por ti, meu amor é
Apodítico.
Poesia, afirmo-te: 
Infinito até.

Porque somos
Um arcabouço só,
Feito das horas todas,
Dos propósitos, o pó.
Por ti, minha verve,
Minha persistente poiesis,
O que me concebe:
Solto de mim, absorvo-te e teu sou.
Porque somos íntimos,
Casca e cerne,
Ritmo e risco,
Mar aberto e galé.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Adriano Nunes: "Amor"

"Amor"


Alegria: outro predicado
Para o amor. O âmago e a amplidão.
Imerso em mim, medindo quais são
As vantagens de até ser amado,

Com as garras da emoção deparo-me,
E o infinito íntimo se parte,
Com astúcia, alegoria e arte.
Bem me conforta, mas logo some.

Coração, já te dei outro nome
Pra o que sinto, será complicado
Separar sujeito e predicado,
Engendrar um novo codinome,

Apenas para em versos cantar-te.
Que tal então "incompreensão"?
Ou quem sabe a elástica "ilusão"?
Não! Amor, és mesmo baluarte!

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Adriano Nunes: "Ao vasto silêncio" - para a minha mãe

"Ao vasto silêncio" - para a minha mãe

Às vezes, encontro-me
A recitar William Shakespeare para as paredes.
Os espelhos, à espreita, esperam
Pelo instante íntimo e solitário.
Outras vezes, de Verlaine embriago-me.
Outras, declamo alto Juan Ramón Jiménez.
E a imaginá-los fico, com seus risos,
Diante do meu sotaque nordestino,
Do meu inglês caipira,
Do meu francês interiorano,
Do meu espanhol sertanejo.
E dou gargalhadas junto com eles -
O amor e os seus assombrosos feixes
Fazendo valer e vingar a vida!
Depois, silenciamos.
Prestamos atenção ao silêncio, ao vasto silêncio
Que tem engendrado Shakespeares, Verlaines, Jiménez.
E boas gargalhadas. O Tudo e o Nada.
E as páginas que já podem ser rasgadas.
Dez para as três da tarde.
A solidão, tão gasta, da casa esvai-se.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Adriano Nunes: "Para entregar-me ao que me invade"

"Para entregar-me ao que me invade"



Para pertencer a mim mesmo,
Sem medo, ao clã da liberdade,
Para entregar-me ao que me invade,
Subitamente, todo, a esmo,
Canto o instante que me completa,

O ritmo do rio que varre
As minhas afoitas sinapses, 
As voltas no parque, sem pressa,
As corridas de bicicleta,
Os descomedidos desejos,

E o amor, claro, que sequer tenho,
Do quarto, o sangrante silêncio,
Meu mundo pequeno, sob metros
E rimas toantes, sob erros
Importantes, e sob a ausência

De quaisquer regras, pra ser eu
Mais e mais, um pleno Proteu.
Liberto-me até de mim, vejo!
Logo, alheio a quem me penso,
Imerso em amplidão estética,

Reconheço em mim isso apenas:
Como as aves que do céu servem-se
Para fundar o belo baile
Dos seres livres, do poema
Sirvo-me pra que ele apenas

Seja um poema, e assim sendo,
Confirme em meu ser o que atesta
A minha grã felicidade,
Para cantá-la, porque arde
O portento de ser poeta!


domingo, 18 de janeiro de 2015

Adriano Nunes: "From the serious things"

"From the serious things"



Cross the dubious line
Of what you think,
And feel fine.
Like Albert Einstein
Who showed his tongue


irreverently,
Show your tongue.
Look around!
Look around!

Shine! Shine like
The sun every morning!
Destroy your personal bombs,
Abandon your selfish weapons.
How can you go on?
Sing the song of freedom
For a long time. The lifetime
Changes your mind.
Stones are stones.

Find the breadth of poetry
Then you will see
That it opens all doors.
There currently are two
Blue dragons waiting for you.
Share with them your temptations.
Everything is allowed.
Praise senses and signs!
Shoot down the inhuman walls!

sábado, 17 de janeiro de 2015

Adriano Nunes: "De algum mar perto de Ítaca"

"De algum mar perto de Ítaca"


Então deixa que a vida alargue a vista,
Que te encontre a saída e que te diga
Quanto de ti há no mar e na brisa,
Que o quantum quântico do amor repita,
Se o desejo for isca, cada sílaba.
Sim, ilusão, por prazer arde e arrisca,
Vê a grã graça que te fez ubíqua,
Que em promessa bordou a despedida,
Que desfez, fio a fio, o medo e finca
A eternidade no ser, lábio e língua.
Dá-me a mão, sente que te sinto ainda.
És sereia secreta e preferida.
Amarrei-me ao teu canto, à tua química,
E já não me importa o regresso à Ítaca!

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Adriano Nunes: "Poesia"

"Poesia"


Entre alfarrábios e bibliotecas, 
Em busca das pérolas do vernáculo, 
Atrás do que ao meu âmago interessa, 
Sem pressa, sem temer erros de métrica,
Entregue às soluções, quase pragmático, 
Sem proezas supérfluas, sob a fresta
Da emoção de que a leitura me alarga,
À procura da metáfora bruta, 
Da palavra que verse, vingue e valha
Além do cerne, da carne e da culpa,
Mais que miragens, memórias ou mágicas,
Insólita caçada que me ocupa,
Que exige de mim leve lábia e luta,
Que quer a qualquer custo grácil canto,
Mesmo pronto pra vida eu não estando,
Para dizer-te, com prazer, meu bem,
Com os clichês que calham e convêm,
Como em mim, Poesia, ardes tanto!

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Adriano Nunes: "Engenho" - para Alex Varella

"Engenho" - para Alex Varella


Tudo é tão distante.
Tudo é mesmo árduo.
Tudo é mesmo tarde.
Tudo é quase quase.
Tudo é nem metade.
Tudo não se sabe.
Que dificuldade!

Não! Tudo estará
À mão, co' emoção,
Bastam folha e lápis!
Vê, co'o deslizar
Do grafite um mar
Já existe, um canto
De amplidão que arde!

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Adriano Nunes: "Que a grã solidão sempre tem a ofertar"

"Que a grã solidão sempre tem a ofertar"


Constato agora: os teus braços ensinaram-me
O que era preciso aprender da carne.
As tardes testemunharam a lição
Que a grã solidão sempre tem a ofertar.
Rabiscos ao ritmo do lance - está claro
Que te devo vários versos arrancados
De mim e que ao fogo e ao lixo chegaram,
Com medo de que o amor arruinasse a arte
De amar com palavras. Eis o meu olhar
A alargar o que sou por ti, ilusão!
E já é tanto o amor que pesa ser vate,
Ter que arquitetar com as técnicas tantas
A vida, o sorriso, o infinito, o que há
Além de nós dois, sozinho, aqui, no quarto.

Adriano Nunes: "Quase um canto"

"Quase um canto"


Madrugada...
Tempo faz
Que eu não
Sinto o rastro
Da amplidão
Tua a alçar
Voo para
Dentro da
Minha casa.
Tu, sol quântico
Que se espraia,
Esperança
Que renasce
Ante o lápis
E a grã página
'Inda branca,
Prestes a
Estar grávida,
Tu, a mágica
Que à vez dá
Ritmo e laço,
Rima e elástico
Metro, quando
Tudo já
A findar
Sem metáforas,
Sem anáforas,
Sem a alma
Da linguagem,
Sem a carne
Do impensável,
Logo estava.
Tu, palavra
Desejada,
Entra e alarga-me!




terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Eugenio Montejo: "La poesía" (tradução de Adriano Nunes)

"A poesia" (tradução de Adriano Nunes)


A poesia cruza a terra sozinha,
apóia sua voz no pesar do mundo
e nada pede nem sequer palavras.

Chega de longe e sem hora, nunca avisa;
Possui a chave da porta.
Ao entrar sempre se detém a fitar-nos.
Depois abre sua mão e nos entrega
uma flor ou um cascalho, algo secreto,
mas tão intenso que o coração palpita
demasiado veloz. E despertamos.


Eugenio Montejo: "La poesía"


La poesía cruza la tierra sola,
apoya su voz en el dolor del mundo
y nada pide ni siquiera palabras.

Llega de lejos y sin hora, nunca avisa;
tiene la llave de la puerta.
Al entrar siempre se detiene a mirarnos.
Después abre su mano y nos entrega
una flor o un guijarro, algo secreto,
pero tan intenso que el corazón palpita
demasiado veloz. Y despertamos.




MONTEJO, Eugenio. Antologia. Caracas: Monte Avila Editores Latinoamericana, 1a ed edição, 1996.


Adriano Nunes: "Egle"

"Egle"


Estás em mim,
Ditosa hora.
Vê, é sem fim
O amor lá fora,
Entre os jasmins,
E a áurea aurora,
Afago e afins.
E tudo aflora!
Alegre em mim,
O canto agora
À vez diz: sim!
E comemora.
Baco ao festim
Vem sem demora.
Não vês em mim
Da vida a pletora?

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Adriano Nunes: "Nada fazeis, vede!"

"Nada fazeis, vede!"


Nega-se à Nigéria
A atenção que se
Deve dar, também
A tutela que
De todos se espera.
Vós que sabeis e
Nada fazeis, vede
Como tudo fede
Em vós! A voz seca
De clamar não cessa.
A questão é séria.
Enquanto a vez tende
À magna miséria,
Vós dizeis que a regra
Que seguis é a velha
História: só vedes
O que apenas vedes:
O que pra vós presta.
Vós sabeis sequer
Que vós é que é
O culpado de
Toute cette merde!

Adriano Nunes: "Tudo que pudesse mesmo ser dito"

"Tudo que pudesse mesmo ser dito"


Disse-me que outro tempo queria,
Dei-lhe a tarde ensolarada, a alegria
Do voar das aves, chaves pra o escrito
Silêncio que teria em verso o infinito,
Dei-lhe a astúcia da hora fugidia,
O humano que de Shakespeare irradia,
Os rabiscos de mim, memória e mito,
Tudo que pudesse mesmo ser dito.
Então, fincando-me em suas retinas,
Detive-me no amor que tanto sinto.
E um sorriso lhe entreguei, por instinto.
Ítaca e Macondo aos pés seus, esquinas,
Mares e montes, as métricas finas
Do que sou eu, liame e labirinto.

Adriano Nunes: "Entre os versos que me concedes"

"Entre os versos que me concedes"


Porque há esta urgência em mim,
Esta angústia de ser, só ser,
Espero por quântico canto.
Sempre o correr à porta, o olhar

Pra os lados, em busca do que
Penso ser eu, do que me sinto,
Porque em mim ardem outros tantos.
A alegria imerge em meu âmago,
Ante a emergência de mais ser.
Então, invadido por signos,
Percebo a tua voz, Euterpe,
Que infinitos ao mundo dá.

Não vês como me realizo
Entre os versos que me concedes?

sábado, 10 de janeiro de 2015

Adriano Nunes: "Retórica"

"Retórica"



Sempre lhe fora exigido
Que se comportasse conforme
Os preceitos dos bons
Costumes e do Direito.
Apenas isso.
Andar direito.
Falar direito.
Ouvir direito.
Pensar direito.
Sentir direito.
Escrever direito.
Ser todo direito.
Ser um robô direito.
Repetiam-lhe, num grave tom:
A liberdade é um direito mor!
Agora se questiona:
Que tem feito o Direito para
Dar à crítica a cara
Além da cara, para
Andar direito,
Falar direito,
Pensar direito,
Sentir direito,
Escrever direito,
Ser Direito só?
A liberdade virá à tona
Quando mesmo?

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Adriano Nunes: "Só a Poesia mesmo pode" - Para a amiga Carmen Silvia Presotto

"Só a Poesia mesmo pode" - Para Carmen Silvia Presotto


A poesia é que é poderosa.
Apresenta fantástica força
De criação. É capaz de, agora, 
Por exemplo, engendrar uma rosa
E dá-la ao leitor. Não uma rosa
Qualquer. Uma rosa que comporte
O infinito, o amor, a vida toda.
Só a Poesia mesmo pode
Desafiar a astúcia da morte,
Proporcionando a tudo sol novo,
(Uma rosa. Outra rosa. Qualquer rosa!)
Ainda que para isso molde,
No soneto, um pé quebrado, pondo-o
Ao fim de um terceto como prova.

Adriano Nunes: "Bem de perto"

"Bem de perto"


Neste momento de barbárie e treva,
Um dilema,
Pensamentos,
Uma prece
Ao deus da razão pra que se revele.
Tanta pena.
Tanta perda.
A voz presa.
Imerso em sóis de Voltaire e Vieira,
Bem percebo
A sujeira,
A tragédia
Que a vida ferida segue
Bem de perto.
De ódio, bárbaros cegos!
Uma fresta.
Uma pedra.
Muitas feras.
Que o inesperado projétil
Não se atreva
Mais, é sério!,
A mexer
No silêncio
Tão alegre
Da liberdade de um mero desenho.
Pelas pétalas,
Pelo pranto que não cessa e tudo impregna,
Pela lei
De imperar uma lei do amor apenas,
Contra a intolerância plena e perpétua,
Contra os instintos violentos,
Outra trégua,
Um poema
Como alento.



quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Adriano Nunes: "O sonho de ser não descarte"

"O sonho de ser não descarte"

Refaça a mala da esperança.
O sonho de ser não descarte.
A alegria atrasada é Arte
Que a dor dribla, e a alma alcança.
Deixe que o impossível a parte
Que lhe cabe arquitete, a dança
Do acaso que à vida se lança.
Que de sóis o verso se farte!
Aguarde. Guarde-se pra a festa
Das sinapses. Ainda resta
O infinito que da vez mina.
Atravesse a estética fresta.
Um poema é a essência fina
Pra o que se celebra e se atina.

Adriano Nunes: "In the labyrinths of Language" - For Antonio Cicero (translated to English by Hamish Danks Brown)

O poeta australiano Hamish Danks Brown fez uma uma bela tradução do meu poema "Nos labirintos da Língua".


A poem by Adriano Nunes (Brazil)

"In the labyrinths of Language" - For Antonio Cicero

Traffic on this shortcut,
For this trace track
Inaccurate, oblivious to everything,
In a trance, free, looking
The unpredictable word,
Essential to a bard.
And that vacuum takes me
on a voracious path to nothing.
Giving in to Art burning.
In transit, in silence, alone,
Among mistakes, ingenuity and intimacy,
In the labyrinths of language.
I do not know what begins or ends.
But this my destination!

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Adriano Nunes: "Nos labirintos da Língua" - Para Antonio Cicero

"Nos labirintos da Língua" - Para Antonio Cicero


Trafego por esse atalho,
Por essa trilha de traço
Impreciso, alheio a tudo,
Em transe, livre, à procura

Da palavra imprevisível,
Imprescindível a um vate.
E que me leve do vácuo
Voraz do nada à vereda

Que dá na Arte que arde.
Transito, em silêncio, só,
Entre engano, engenho e íntimo,

Nos labirintos da Língua.
Não sei o que se funda ou finda.
Mas a isso me destino!

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Adriano Nunes: "Engano estético"

"Engano estético"


Um belo verso faz faísca.
(Desde Homero há quem o diga!)
Rimas pobres? Ou Rimas ricas?
Um belo verso: quem o explica?
Ritmo fixo, métrica rígida...
Um belo verso, que o edifica?
Tudo é só fórmula falida.
Belo verso: o que em Arte finca-se.
Eis que já não há mais saídas:
Que o poeta de Arte viva!

domingo, 4 de janeiro de 2015

Adriano Nunes: "Arte"

"Arte"


Eis a rosa
Ultrarrosa,
Violeta,
Na proveta
Do pensar.

Que a descubra
Infrarrubra,
Amarela,
Na aquarela
Do que há.

Aproveite-a
Vítrea, plante-a
Na Odisseia
Dessa ideia,
Desse mar

Áureo, sol-
Vendo o sol,
Flor vermelha
Da centelha
A saltar

Diagnóstica,
Semiótica
Dessa gama
De quem ama,
Tanto amar.

Quase foto
Quando a noto,
Quando tala,
Quase fala,
Deixo-a estar.

Entreolha a
Frágil folha,
O poema
Que se esquema e
Quer brotar.



quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Adriano Nunes: "m e d o d e a m a r"

"m e d o d e a m a r"


d e a M o r a a m o r
d E a m a r a a m a r
d e a m o r a a m a R
d e a m a r a a m O r
d e m o r e i a M o r
d E a m a r a a m a r
D o m e l d o a m a r
d e s a m o r a m O r

m o r d a m e a m O r
m o l d e s e a M a r
m o l h E m e a m o r
m o s t r e S e a m o r
M o v a s e a a m a r
m u d e m e o a m O r

Adriano Nunes/ Roberto Bozzetti: "Nome e número"

Adriano Nunes/ Roberto Bozzetti: "Nome e número"


Nós e o mundo.
Que profundo!
Nós no mundo.
Muito é o mundo
Em nós! Tudo
Sem nós, sumo
De nós, um
De nós, múltiplos.
Caos e custo,
Nome e número.

Adriano Nunes: "Rebento"

"Rebento"


Tão novo!
Tão lindo!
Vê, como 
Sorri
Pra todos
O tempo
Que nasce.

Vê, como
O sol
Desponta
Já pronto
Pra a mágica
De um outro
Momento.
Vê, quantos
Sentidos
E sonhos
Desprendem-se
Do brilho
Infindo
Da esp'rança.
Então,
Com olhos
Abertos,
Agarra
A vinda
De tudo
Pra tudo,
Decanta
Teu canto
E faz
As contas
- O quantum
De ser -
Pra ser
Feliz,
Pois é
A hora.
Não vês
O dia a
Contar-te
Bem isso?
Não vês
A paz
Que te
Alcança
E até
Atira-te
À vida?
Abraça a
Certeza
Do instante
Que vinga.
Tão lindo,
Tão novo
O ano!