domingo, 30 de novembro de 2014

Adriano Nunes: "Here and now" - to Arnaldo Antunes

"Here and now" - to Arnaldo Antunes



I
It
It a
It al
It alw
It alwa
It alway
It always
It always s
            It always se
            It always see
            It always seem
            It always seems
            It always seems i
            It always seems im
            It always seems imp
            It always seems impo
            It always seems impos
                                       It always seems imposs
                                       It always seems impossi
                                       It always seems impossib
                                       It always seems impossibl
                                       It always seems impossible
                                       It always seems impossible u
                                       It always seems impossible un
                                       It always seems impossible unt
                                       It always seems impossible unti
                                                                                 It always seems impossible until
                                                                                 It always seems impossible until i
                                                                                 It always seems impossible until it
                                                                                 It always seems impossible until it i
                                                                                 It always seems impossible until it is
                                                                                 It always seems impossible until it is d
                                                                                 It always seems impossible until it is do
                                                                                 It always seems impossible until it is don
                                                                                 It always seems impossible until it is done
L  e  t      y  o  u  r      t  h  o  u  g  h  t      r  e  m  o  v  e      t  h  e      f  i  r  s  t      s  t  o  n  e


Mark Strand: "Keeping things whole"

"Mantendo as coisas inteiras" (tradução de Adriano Nunes)

Mantendo as coisas inteiras

Em um campo
eu sou a ausência
de campo.
Isto é
sempre o caso.
Onde quer que eu esteja
eu sou o que está faltando.
Quando caminho
eu separo o ar
e sempre
o ar se move
para encher os espaços
que ocupava o meu corpo.
Nós todos temos razões
para nos mover.
Eu me movo
para manter as coisas inteiras.

Mark Strand: "Keeping things whole"

Keeping things whole

In a field
I am the absence
of field.
This is
always the case.
Wherever I am
I am what is missing.
When I walk
I part the air
and always
the air moves in
to fill the spaces
where my body's been.
We all have reasons
for moving.
I move
to keep things whole.


STRAND, Mark. "Sleeping With One Eye Open". In:____. Collected Poems. New York: Knopf, 2014.

E. E. Cummings: "when god decided to invent"

"quando deus decidiu inventar" (Tradução de Adriano Nunes)

quando deus decidiu inventar
todas as coisas ele tomou
um fôlego maior que uma arena
e tudo inventado entrou em cena

quando o homem decidiu destruir
a si escolheu o que devido
era e encontrou-o apenas porque
dilacerou isso com juízo.

E. E. Cummings: "when god decided to invent"

when god decided to invent
everything he took one
breath bigger than a circustent
and everything began
when man determined to destroy
himself he picked the was
of shall and finding only why
smashed it into because

CUMMINGS, E. E. "One times One". In:____. Complete poems 1904-1962. Revised, corrected, and expanded edition. Edited by George J. Firmage. New York: Liverignt Publishing, 1994, p. 566.

sábado, 29 de novembro de 2014

E. E. Cummings: "love is a place"

"o amor é um lugar" (tradução de Adriano Nunes)

o amor é um lugar
& através deste lugar de
amor movem-se
(com fulgor de paz)
todos os lugares
sim é um mundo
& neste mundo de
sim vivem
(engenhosamente ondulados)
todos os mundos

E. E. Cummings: "love is a place"

love is a place
& through this place of
love move
(with brightness of place)
all places
yes is a world
& in this world of
yes live
(skilfully curled)
all worlds


CUMMINGS, E. E. "No Thanks". In:____. Complete poems 1904-1962. Revised, corrected, and expanded edition. Edited by George J. Firmage. New York: Liverignt Publishing, 1994, p. 443.

E. E. Cummings: "into a truly"


"Numa forma" (Tradução de Adriano Nunes)

numa forma
mesmo curva
entra minha
alma
sente os mínimos
fatos dissolvidos
por devassa conjectura
de fabuloso infinito
o céu clamara
o sol já era)
o navio ergue-se
sobre férreos mares
exalando alto tragando
aclive o
navio ascende
murmurando argênteos montes
que
somem(e

noite era
e através só desta noite uma
poderosa forma se move
cujo passageiro e cujo
piloto meu espírito é.

E. E. Cummings: "into a truly"

into a truly
curving form
enters my
soul
feels all small
facts dissolved
by the lewb guess
of fabulous immensity
the sky screamed
the sun died)
the ship climbs
murmuring silver mountains
which
disappear(and
only
was night
and through only this night a
mightily form moves
whose passenger and whose
pilot my spirit is


CUMMINGS, E. E. "No Thanks". In:____. Complete poems 1904-1962. Revised, corrected, and expanded edition. Edited by George J. Firmage. New York: Liverignt Publishing, 1994, p. 419.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

E. E. Cummings: "little man"

"pequeno homem" (Tradução de Adriano Nunes)


pequeno homem
(apressado
repleto de
importante inquietude)
hesite pare esqueça relaxe


aguarde

(pirralho
que tem tentado
que tem falhado
que tem chorado)
deite-se bravamente

adormeça

chuva imensa
neve imensa
sol imenso
lua imensa
(adentram

a gente)


E. E. Cummings: "little man"

little man
(in a hurry
full of an
important worry)
halt stop forget relax

wait

(little child
who have tried
who have failed
who have cried)
lie bravely down

sleep

big rain
big snow
big sun
big moon
(enter

us)



CUMMINGS, E. E. "No Thanks". In:____. Complete poems 1904-1962. Revised, corrected, and expanded edition. Edited by George J. Firmage. New York: Liverignt Publishing, 1994, p. 393.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Adriano Nunes: "Do denso desejo"

"Do denso desejo"


A
Ap
Apa
Apar
Apare
Apareç
Apareça
Apareça p
Apareça po
Apareça poe
Apareça poem
Apareça poema
Concreto aconteça
Em  minha  cabeça

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Adriano Nunes: "O regresso do poeta" - para Fabiano Calixto

"O regresso do poeta" - para Fabiano Calixto


Regressa o poeta
À única urbe ubíqua e antiestética.
Mas não é só o que lhe resta.
Os amigos à espera.
As rimas a rir, as regras
Prestes a ser desfeitas,
Os ritmos do íntimo mesmo
Que causem desassossego.
As portas todas abertas.
E as pedras. Sim, as pedras -
Elas sempre nos cercam.
A trégua sem trégua.
O liame leve.
Jogam-se à vista as janelas.
O poeta regressa
Sem necessidade de nexo
Ou prática promessa.
E, sem pressa, acena
Para os demais poetas.
Já podemos dizer que
O mundo acaba de nascer.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Adriano Nunes: "As moiras"

"As moiras"


Quando tudo
Bem parece logo
Quando tudo
Bem parece leme
Quando tudo
Bem parece largo
Quando tudo
Bem parece livre
Quando tudo
Bem parece longo
Quando tudo
Bem parece lindo
Quando tudo
Bem parece louco
Quando tudo
Bem parece leve
Quando tudo

Láquesis, Cloto à Átropos
Levam o lábil laço.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Adriano Nunes: "Que em verso verte-se"

"Que em verso verte-se"


Abro a janela.
A brisa, a noite
Com as estrelas,
Tudo parece
Ter harmonia
Por ser tão breve.
Quântico corte
Sobre a retina,
Por um açoite
De sentimentos.
E o além se abriga
No próprio ver
Que em verso verte-se.
Tudo é tão tenso!
Eis que em algum
Recanto, as Parcas
Astutas traçam
A vida e a morte
Pra qualquer um.
O que haveria
De ser, o que
Tanto ilumina.

sábado, 22 de novembro de 2014

Antonio Machado: " I " de "Proverbios Y Cantares"

"I" de "Provérbios e Cantares"  (Tradução de Adriano Nunes)


Nunca persegui a glória
nem imprimir na memória
dos homens minha canção;
eu amo os mundos sutis,
graciosos e gentis
como bolhas de sabão.
Gosto de vê-los pintar-se
de sol e gérmen, voar
sob o céu azul, vibrar
subitamente e quebrar-se.


Antonio Machado: " I " de "Proverbios Y Cantares"


Nunca perseguí la gloria 
ni dejar en la memoria 
de los hombres mi canción; 
yo amo los mundos sutiles,  
ingrávidos y gentiles 
como pompas de jabón. 
Me gusta verlos pintarse 
de sol y grana, volar 
bajo el cielo azul, temblar 
súbitamente y quebrarse. 



MACHADO, Antonio. Poesías completas. Madrid: Publicaciones de la Residencia de Estudiantes, 1917, p. 221.


sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Adriano Nunes: "Mesmo a sério" - Para Leoni Siqueira

"Mesmo a sério" - Para Leoni Siqueira


Ele e ela -
O desejo
Esfacela-se
Sob a bola
Amarela
Que nos vela
Do céu alto,
Um contrato,
Lábia e lábios,
Leve laço
Que é levado
Mesmo a sério.
Ela é tudo,
Ele é outros
Mundos, juntos
São a dádiva
Tão querida:
Verso e vida.



quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Adriano Nunes: "Narciso"

"Narciso"


E fizeste de tudo para estar
Ao meu lado.
Sol à palma.

Quando estava
Certa que engendraríamos um par,
Pensei: não

Dá! Não dá!
Preciso a todo custo me encontrar,
Tirar máscaras, 

Regras, restos de mim, tantas lembranças
Que até me amedrontavam, as amarras
Da existência, as mordaças da inconstância. 

E falaste
Que a poesia era a grã culpada,
Por doar-me 

Essas asas.
Como não perdoar-te pela falta
De ilusão? 

Foi com a poesia que te dava
Que pude, sem receio, explicitar
Que te amo.

As alegres libélulas levaram
O meu canto
A ti, claro,

Instante a instante, o amor, esta palavra.
Não ouves repetindo tal palavra,
Tanto, tanto,

Meu coração pulsando?
Afoga-te, Narciso! Sou a imagem
Que nas águas afagas!



terça-feira, 18 de novembro de 2014

Adriano Nunes: "Estantes cheias de virgens" - para Welton Roberto

"Estantes cheias de virgens" - para Welton Roberto


Entusiastas dos círculos
Socioculturais, os célebres
Caçadores de prodígios, 
Os colecionadores
De virgens empoeiradas
Nas estantes, pra prazer
De amigos e convidados.
Acham que sabem de estética,
Estatísticas e ética,
Porque mais detêm as regras
Da estreita esteira dos egos.
Umas três ou quatros frases
Decoradas e já se
Julgam Sócrates, Horácio.
Fazem questão de mostrar
Aquele raro exemplar
De A Terra Devastada,
Sem ter lido uma página.
Os dândis das desmesuras
A todo custo procuram
Disfarçar a ubíqua usura.
Sentem-se no Olimpo quando
Dizem-lhes que são prognatas,
Por pensarem ser palavra
Símile ao signo magnata.

domingo, 16 de novembro de 2014

Adriano Nunes: "O que preciso é" - para a minha mãe

"O que preciso é" - para a minha mãe


Passa encanto nas mãos
Prega asas no pé
Perpassa além do chão
Projeta o seu balé

Pra ser poeta então
O que preciso é?

Canta a própria canção
Comment pourrait-il faire
Contra impulsos em vão?
Consulta Baudelaire

Pra ser poeta então
O que preciso é?

Passeia co' atenção
Pelos signos que quer
Para a contemplação
Paquera o que puder

Pra ser poeta então
O que preciso é?

Corre sem direção
Cursa 'Cours de Français'
Como as coisas mais são
Capta: dê no que der!

Pra ser poeta então
O que preciso é?

Planta verve e invenção
Pinta o sete son cœur
Por ser dado à ilusão
Propaga um eu qualquer

Pra ser poeta então
O que preciso é?

Cinge metro e emoção
Cansa os dedos, pois é
Compelido à exaustão
Corta os pulsos até

Pra ser poeta então
O que preciso é?



Adriano Nunes: "Res publica" - Para André Vallias

"Res publica" - Para André Vallias


De prisão
Em prisão,
Todo o papo
Da Papuda
Empanturra-se,
Pouco a pouco,
De corrupto
Em corrupto,
Sem escrúpulo.
De político
Em político,
Sem prestígio.
De empreiteiro
A empreiteiro
Presepeiro.
Pobre o povo
Que mais pobre
Fica! Sofre
Tanto o povo
Que na mídia
A ver fica
Que o dinheiro
- Que é do povo? -
Foi-se inteiro
Pra Suíça
Ou pra outra
Conta ilícita.
Mas a culpa
É tão nossa e
Incomoda!
Farto furto,
Lábia e luxo,
Sem desculpa -
Prato leve,
Para o dia,
Que vicia.
A Papuda
Barriguda
Agradece.




sábado, 15 de novembro de 2014

Adriano Nunes: "Por dentro dos acasos dilacerantes"

"Por dentro dos acasos dilacerantes"


A nossa humanidade é esse cálice
De cristal que, triste, observo daqui
Do tapete da sala. Pois, tão frágil.
E todos esses cálices
Que haver imaginamos.
E cantamos o corpo,
O coito, o cerne e a casca.
Mastigamo-nos mudos
Ante o atentado ao arbítrio.
De repente, um tropeço, e
O cálice se parte,
Revelando-nos frágeis
Mais e mais, muito mais
Do que quaisquer cristais.
Não há vassouras que
Sirvam à urgência, e arde
Em nossa liberdade
O medo de cortar-nos
Com os pequenos cacos
Que mesmo somos. Nada
Parece ter um átimo
De desconhecimento.
Nem para outra lágrima.
E pranteamos qual
Antígona a dor máxima.
Assim, imerso em mim,
Estou. Sumo-silêncio.
Antígona por dentro.

Adriano Nunes: "Ser outros" - para Manoel de Barros

"Ser outros" - para Manoel de Barros


Ele queria ser outros.
Não um só
Homem. Talvez,
Fosse melhor
Ser um pássaro,
Uma cobra, um cacto, um lírio.
Mas não só isso.
Quem ser sabe
Outro tempo
Para que possa
Haver outro tempo, outros,
Pra ser amarrado ao poste.
Ser a poesia. E só.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Adriano Nunes: "Prova" - Para Antonio Cicero

"Prova" - para Antonio Cicero


Suponho que saberia
Apenas isso: que isso
Ser pode aquilo e
Que aquilo pode ser isso

Quando convir
Ou for preciso.
Logo te digo:
O que sei é que é possível

Tudo no infindo
Espaço da poesia.
Não vês os dragões azuis saindo
Do decassílabo,

Enfeitado de resquícios
De versos de Horácio e Ovídio,
Porque amas os seus ritmos,
Não vês grãs tigres

Saltando, já, sobre as rimas
Toantes que construí
Só para ti?
Não vês libélulas lindas

Levando-te, com capricho
E amor, num rito,
Sóis, crisântemos e lírios,
Nas maiores redondilhas?

Sim, acredita,

Na quadra finda
Em quatro sílabas
Bem cabe a vida.


segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Adriano Nunes: "Pra o que invade"

"Pra o que invade"


Noite e nada.
A palavra
"Amor" já
Desgastada
De ais acha-se,
Sequer calha
Pra o que tanto
Quer a alma.

Mito e mágica.
A saudade
De ti salta
Sobre a página-
Alvo alva.
Lei não basta
Pra o que invade.
Nem ter calma.

Lábia e lágrima.
Eis que fazem
Ruir a
Solidão
O luar,
A grã cápsula
Estrelada.
E a dor capta-te.

domingo, 9 de novembro de 2014

Maxwell Bodenheim: "To One Dead"

"A um morto" (tradução de Adriano Nunes)

A um morto

Eu caminhei sobre um monte
E o vento, solenemente bêbado com tua presença,
Vacilou contra mim.
Inclinei-me a indagar uma flor,
E flutuaste entre meus dedos e as pétalas,
Laçando-os juntos.
Eu cortei uma folha da árvore
E uma gota de água na verde jarra
Alojou uma perseguida parte de teu sorriso.
Tudo sobre mim estava imerso em tua lembrança
E tremendo enquanto tentavam-me contar isso.



Maxwell Bodenheim: "To One Dead"

To One Dead

I walked upon a hill
And the wind, made solemnly drunk with your presence,
Reeled against me.
I stooped to question a flower,
And you floated between my fingers and the petals,
Tying them together.
I severed a leaf from its tree
And a water-drop in the green flagon
Cupped a hunted bit of your smile.
All things about me were steeped in your remembrance
And shivering as they tried to tell me of it.


BODENHEIM, Maxwell. Selected Poems of Maxwell Bodenheim 1914-1944. New York: The Beechhurst Press, Bernard Ackerman, Inc., 1946.

Antonio Machado: "Acaso"

"Acaso" (Tradução de Adriano Nunes)


Acaso


E alerta não mais à minha quimera
não reparava em meu redor, um dia
surpreendeu-me a fértil primavera
que em toda a vasta várzea só sorria.

Brotavam verdes folhas
das tumefactas gemas da ramagem
e flores amarelas, brancas, roxas,
alegravam a mancha da paisagem.

E era uma chuva de setas de ouro,
o sol por sobre as frondes juvenis;
do amplo rio no caudal sonoro
observavam-se os álamos gentis.

Atrás de tanta trilha é a primeira
vez que vejo brotar a primavera,
disse, e depois, declamativamente:

? Quão tarde já para a minha alegria!?
E, logo, ao caminhar, como quem sente
as asas de outra ilusão: E ainda
alcançarei a juventude um dia!


Antonio Machado: "Acaso"

Acaso

Como atento no más a mi quimera 
no reparaba en torno mío, un día 
me sorprendió la fértil primavera 
que en todo el ancho campo sonreía. 

Brotaban verdes hojas 
de las hinchadas yemas del ramaje, 
y flores amarillas, blancas, rojas, 
alegraban la mancha del paisaje. 

Y era una lluvia de saetas de oro, 
el sol sobre las frondas juveniles; 
del amplio río en el caudal sonoro 
se miraban los álamos gentiles. 

Tras de tanto camino es la primera 
vez que miro brotar la primavera, 
dije, y después, declamatoriamente: 

?¡Cuán tarde ya para la dicha mía!? 
Y luego, al caminar, como quien siente 
alas de otra ilusión: ?Y todavía 
¡yo alcanzaré mi juventud un día!



MACHADO, Antonio. Poesías completas. Edición de Manuel Alvar. Bracelona: Espasa Libros,1999.

Adriano Nunes: "Dessa solidão"

"Dessa solidão"


Cantarola agora,
À minha janela,
Insólito pássaro. 
Não sei bem se são
Notas da canção

Ou se é um chamado.
Encantado, abro
A porta da vida.
Não tenho saída.
As asas serão

Os braços que caço?
Não há bico, há
Lábios e libido.
Que estranho embaraço!
Lanço-me à vidraça.

Não percebo penas.
Eis que logo passa
- Ou será que voa? -
Pulsátil pessoa,
Dádiva e delícia,

Que alegre se arrisca e,
Com o olhar, enigmas
Em meu ser decifra.
Cantarola um pássaro...
E tudo é pensado!

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Adriano Nunes: "Uma fresta"

"Uma fresta"



Sim, não se engane.
O corpo é granada
Sem pino que acaba
De cair da aljava,
Pronta pra explodir,
A qualquer momento.
Então tudo ame.

O corpo é a bomba
Feita em casa, prestes
A estourar, não se
Iluda. Que custa?
Cada dor e cada
Doença e desânimo,
Cada desatino

Cada desafio,
Um evento que
Pode acender, de
Repente,  seu curto
Pavio.  Assim, tudo
Ame, pode ser
Que sejam pra sempre

O amor, seus liames.
Seria uma sorte!
Saiba, não se assuste.
O corpo é a ponta
Do iceberg. Não se
Sabe que mistérios
Cobrem todo o resto.

Cada fase que
Segue e que confirma
Ser sua existência
Breve apenas ao
Espelho reconta
O que mesmo conta,
O mudar-se a cada

 Hora. Não se traia.
O corpo é a corda
Que, aos poucos, seus fios
E nós solta e logo
Rompe-se. É a pólvora
Perto da faísca
Traquinas, o traque

Das festas juninas,
Nitroglicerina.
Destarte, que importa
Se o meu corpo arde
E abre-se à porta
Quântica do olho,
Do ouvido e demais

Órgãos dos sentidos,
Das deliciosas
Quimeras e das
Possibilidades?
O corpo é a fresta
Por onde o desejo
Tanto nos observa.



quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Adriano Nunes: "O artista triste" - Pra Fred Girauta

 "O artista triste" - Pra Fred Girauta


Por causa de um traste,
Triste está, que triste!
Seria um desastre
Ser um traste, acredite.
Melhor ser só triste
E artista! Pois trate
De esquecer o traste!
Ponha o riso em riste!

Adriano Nunes: "Pleno portento"

"Pleno portento"


Estranhamente
Este fragmento
Que penso ser
É mesmo este
Fragmento que
Estranhamente
Faz-me escrever

Este poema
Que me concebe
Ao concebê-lo:
O meu ser cedo
A cada verso
Ante o arremedo
De ser eu mesmo,

Memória, metro,
Mudança e medo.
Espertamente,
Servo de Euterpe,
De Erato servo,
Contente e cego,
Tal qual o velho

Tirteu, poeta
Grego que fez
Esparta a guerra, em
Messênia, ter
Vencido, sem
Nem lutar nela,
Mas não inerte,

Ia dizendo
Para os guerreiros
Os seus poemas.
Estranhamente
Este fragmento
Que penso ser
É mesmo este

Fragmento que
Estranhamente
Faz-me esquecer
Que dor haver
Pode, que tenho
Algum tormento,
Qualquer problema.



terça-feira, 4 de novembro de 2014

Adriano Nunes: "Dogma"

"Dogma"


Sinal verde
Amarelo
Sinal verde
Amarelo
Sinal verde
Amarelo
Sinal verde
Amarelo
Sinal verde

Carros seguem
Seguem seguem
Mas percebe
Alguém que
Não se vê
O vermelho
Diz alguém
E cadê
O vermelho?

Interferem:
Não se deve
Falar em
Cor vermelha!
É de gente
Dessa esquerda
Que, vê, pensa!,
Come gente
Bem pequena!

Cruzamento
À direita
Curva em "esse"
À direita
Ponte estreita
À direita
Pensamentos
E existência
À direita!



domingo, 2 de novembro de 2014

Adriano Nunes: "Tão só"


"Tão só"


Eu, só,
Absorto
Jasmim,
Um porto
Pra o sim,
Pra o ouro
Sem fim
Do olho,
Enfim,
Sou todo
Em mim.

Eu, só,
Tão solto,
Clarim
Sob sopro,
Nanquim
No corpo
Chinfrim,
Sem louro,
Assim,
Um outro
Sem mim.

sábado, 1 de novembro de 2014

Adriano Nunes: "Sem receio"

"Sem receio"


Tanto talento
Por aí,
E vós, aqui,
Querendo ser
O supra-sumo.
Tanto talento
Total
Pelo mundo,
E vós, às cegas,
Pensais mesmo
Que, no fundo,
Tudo é banal,
Etc e tal
E não presta.
Tanto talento
Além do vosso
Conhecimento,
Algo óbvio,
E vós, por dentro,
Morrendo,
Pensando
Em prêmios,
Achando-vos o tal.
Vós nem vos
Importais em
Ser hipócrita,
Não enxergais além
Da ponta do nariz,
Da porta entreaberta,
Nada notais
Alem de ais.
Tanto talento
Cosmo afora,
E o vosso ego a quebrar
O espelho
Que a vós, um grão
No meio da multidão,
Sem receio,
Bem mostra.



Adriano Nunes:"Oito ou oitenta"

"Oito ou oitenta"


Todo ser tem medo
De ação,
De ser acionado, 
Todo mundo disso sabe.
Todo ser tem que
Saber que pode se
Defender, e quase
Pouca gente se vale
Dessa possibilidade.
Toda ação tem mesmo
Uma reação
Que pode ser uma
Contestação, uma
Exceção ou uma
Reconvenção que é
Aquele dito válido
Que vive a repetir os sábios:
Antes que seja tarde,
A melhor defesa é
O ataque!