sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Adriano Nunes: "Soneto VIII"

"Soneto VIII"


Quando te vejo, tudo vibra,
Minha vida, todo universo.
Parece que nada mais quero.
É como se perdesse a fibra.

Depois, o meu mundo é desfeito,
Mas permanece tua imagem.
Eu nunca sei por que interagem
Os sonhos dentro do meu peito.

Mesmo confuso, não te busco
Nas batidas do coração.
Quando banido desse brusco

Desejo da minha visão,
Quase pára. Tudo rebusco
Na minha alma: que solidão!







domingo, 19 de outubro de 2008

Adriano Nunes: "Inconfidente"

"Inconfidente"



lutava por algo possível.



bra
ços
per
nas
mãos
pés



expostos sob a luz dos postes.



pe
da
ços
do
bra
sil



enforcaram o homem ali.



ca
be
ça
tron
co
membros



minas: tudo findava abril.









sábado, 18 de outubro de 2008

Adriano Nunes: "À noite" - Para Carlos Drummond de Andrade

"À noite" - Para Carlos Drummond de Andrade

À noite,
Penso os versos.
Às vezes,
Nada mais quero.

Então,
Quase absorto
Decido dormir, mas
Aqui
Vinga o indivisível:
Abro um livro...

À noite,
Sinto estar comigo.
Às vezes,
Reinam regra e ritmo.






Adriano Nunes: "O poema"

"o poema" 



papel tinta
quase mundo



quântico universo
quase vácuo



o poema

sempre tudo.











Adriano Nunes: "Dar-se ao infinito." - Para Alice Ruiz

Adriano Nunes: "Dar-se ao infinito." - Para Alice Ruiz


Cora-se de
Azul o cosmo.
Da chuva à chama,
Acha-se o ver

Verde e amarelo,
O sol  a pino,
As novas nuvens,
Manto-algodão.

Fósforo aceso...
Alto revoa a
Ave, no avião
Pousa o chão, Sísifos.

Ponte e promessa e
Prisma e projeto e
Primeira aurora
Para despir-se

Do agora: glosa
E mote e moda
E modo e moto-
Contínuo e música.

O coração...
Ele não sabe
Desse querer
Dar-se ao infinito.




sexta-feira, 17 de outubro de 2008

MARIO QUINTANA: "O Poema"

O POEMA





O poema é uma pedra no abismo,
O eco do poema desloca os perfis:
Para bem das águas e das almas
Assassinemos o poeta.






De: QUINTANA, Mario. In: O Aprendiz de Feiticeiro. São Paulo: Editora Globo, 2007.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

ADRIANO NUNES: "Enlatado"

ENLATADO





CONS)C(ERVA
DORR(I)ETOS
ÂNGU)R(LOSI
GUAI(C)SQUA
TROL)U(ADOS
QUAT(L)RORE
TRÓG)A(RADO

QUAD(R)RADO








quarta-feira, 15 de outubro de 2008

FERNANDO PESSOA: poema 157 do "Cancioneiro"



O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão...


São as formas sem forma
Que passam sem que a dor
As possa conhecer
Ou as sonhar o amor.


São como se a tristeza
Fosse árvore e, uma a uma,
Caíssem suas folhas
Entre o vestígio e a bruma.




Fernando Pessoa, 5-9-1933

De: PESSOA, Fernando. "Cancioneiro". In: Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2006.


terça-feira, 14 de outubro de 2008

Adriano Nunes: "Entrave"

"Entrave"



E eu que sustentava
O peso das tuas manias,
Que suportava calado
Todos os teus devaneios,
Que faço agora?

Que farei
Da cama e dos livros,
Depois? Como maliciar
As minhas fraquezas de
Menino

Perdido?
Como fecharei a porta
Dos fundos?
Não mais terei coragem
De apagar as luzes?
Os demônios
Da solidão,
Como exorcizarei?
Os meus sonhos
Por quais campos de intrigas
Andarão?

As minhas dúvidas
Que farão
Das horas
Quando descobrirem
Que já foste
Embora?

E eu que achava
Que eras só um poema
À-toa.


quinta-feira, 9 de outubro de 2008

WALY SALOMÃO - "Exterior"

EXTERIOR (WALY SALOMÃO)








POR QUE A POESIA TEM QUE SE CONFINAR
ÀS PAREDES DE DENTRO DA VULVA DO POEMA?
POR QUE PROIBIR À POESIA
ESTOURAR OS LIMITES DO GRELO
DA GRETA
DA GRUTA
E SE ESPRAIAR EM PLENO GRUDE
ALÉM DA GRADE
DO SOL NASCIDO QUADRADO?


POR QUE A POESIA TEM QUE SE SUSTENTAR
DE PÉ, CARTESIANA MILÍCIA ENFILEIRADA,
OBEDIENTE FILHA DA PAUTA?


POR QUE A POESIA NÃO PODE FICAR DE QUATRO
E SE AGACHAR E SE ESGUEIRAR
PARA GOZAR
- CARPE DIEM -
FORA DA ZONA DA PÁGINA?


POR QUE A POESIA DE RABO PRESO
SEM PODER SE OPERAR
E, OPERADA,
POLIMÓRFICA E PERVERSA,
NÃO PODER TRAVESTIR-SE
COM OS CLITÓRIS E OS BALANGANDÃS DA LIRA?









De: SALOMÃO, Waly. "Exterior". In: Lábia. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Adriano Nunes: Crítica musical de "Maré" de Adriana Calcanhotto

Crítica musical: "Maré" – Adriana Calcanhotto
por Adriano Nunes
  



que faz um artista retomar um tema e conduzi-lo à máxima experiência, a retoques implacáveis e sutis, a uma peneira, um filtro? maturidade. sim, amadurecimento – mar de cimento – firme mar de ondas criativas que vão-e-vêm cada vez melhores, cada vez mais querendo roçar a tez da areia – a praia nua da boa música. e a praia de adriana calcanhotto é a sua música. 

ao encerrar o cd “a fábrica do poema” com a décima quinta canção intitulada “minha música”, a cantora e compositora adriana calcanhotto diz em seus últimos versos: “minha música quer só ser música: minha música não quer pouco.” 

talvez, à época desse disco, calcanhotto não tivesse noção de que a inspiração, o seu dom, a sua racionalidade, a sua sensibilidade, a sua música trariam à tona uma maré cheia de pérolas, sereias, portos, segredos, mulheres, saídas... para lá: três! sim, uma trilogia, não obrigatória, mas um passo (ou uma braçada? ou um mergulho?) para alcançar o esplendor-reflexo do seu canto marítimo. 

“maré” é o novo cd de adriana calcanhotto. é uma sequência tardia, pensada, cristalina e bela, do seu cd "maritmo". se neste é o paragolé que impera, naquele é o azul em linhas desconexas, em areia azul turquesa, mulher sem razão: sereia. assim é “maré”, álbum dedicado ao poeta baiano waly salomão, amigo e companheiro de composições. 

a música de abertura e que dá nome ao cd, composta por adriana e moreno veloso, remete-nos à expectativa do que virá a ser esse mar poético e deliciosamente musical que a autora pretende que nós, ouvintes, críticos, fãs de música e poesia, naveguemos: “o mar se dá como imagem” ou “será só linguagem”? são os violões de adriana e de moreno as ondas que ecoam pelas batidas de domenico lancellotti. aqui o mar não é para tragédias ou descasos; é para o azul do céu, para as esperanças, para as notas que emergem e mergulham como golfinhos. 

“seu pensamento” composta por dé palmeira e adriana calcanhotto traduz o ceticismo da compositora para lugares além-mar, sólidos, firmes – “pés na pedra”, “estacionamento”, “na terra”, “areia”, “apartamento" – onde? – movidos poeticamente pelo “vento no cabelo” e pelas “voltas na terra”. como não pensar nos cellos de moreno veloso e no piano elétrico de kassim? 

a música “três” dos marítimos irmãos marina lima e antonio cicero antecipa o encantamento das sereias. seus compositores presentearam o cd com uma canção bem dilacerante – nossa alma parece ser fisgada por uma das três tentativas harmônicas de expressar o mar ali oculto: “o sol”, “naufragar” e terminando “ao mar”. “três” é boa demais! 

eis que começa “porto alegre", criada por péricles cavalcanti para homenagear a cidade natal de adriana calcanhotto. alegre, musicalmente envolvente, popular, sem preconceitos, mitológica: a estória de ulisses, envolvida pelo ritmo calipso, ao partir da ilha de ea onde reside a feiticeira circe, para cruzar com as sereias – “amarrado num mastro, tapando as orelhas”. ficar atento aos poderosos cantos da encantadora sereia marisa monte. 

as batidas leves e soltas do violão de adriana e o arranjo de metais de rodrigo amarante transformam “mulher sem razão” no divisor de águas melódicas do disco. feita por dé, bebel gilberto e cazuza (o poeta gravou esta canção em seu disco burguesia – faixa 11), “mulher sem razão” é um liame que faz de “maré” uma sequência-corpo de “maritmo”, já que neste há a belíssima canção “mais feliz” do trio mais feliz e sem razão. 

a partir daí, o disco projeta o lado intimista e poético – diga-se de sua admiração pela poesia – da cantora: “teu nome mais secreto” possui fragmentos do poema “madeiras do oriente” de waly salomão (de “pescados vivos”, editora rocco, pg. 55) – são as “grutas ignotas” ou conchas do mar? 

e o momento segue com “sem saída” de cid campos e augusto de campos, “para lá” de adriana e arnaldo antunes – pura poesia: o mar ganha dimensões incalculáveis; entretanto, deve ser explorado todo o seu infinito. 

kassim e torquato neto nos brindam com a doce “um dia desses” e “onde andarás” de caetano veloso e ferreira gullar é re-encontrada intacta pela escafandrista adriana calcanhotto. o cd está prestes a acabar e a viagem pelo “sargaço mar” de dorival caymmi só nos indica agora que direção tomar: ouvir tudo novamente como se fosse a chance enigmática de encontrar a pérola, ali, escondida na ostra acústica. 


produzido por arto lindsay e adriana calcanhotto, “maré” é, sem dúvida, o melhor lançamento do ano em música: marmorável!

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Adriano Nunes: "Aniversário" - Para Antonio Cicero (pelo seu dia!)

"Aniversário" - Para Antonio Cicero (pelo seu dia!) 



não apagar as velas.
deixá-las acesas. 

não cortar o bolo.
dá-lo – meu pedaço 

para quê? o sol
não se reparte 

e ilumina tudo.
apenas cantar-te! 

amar-te,ó poeta,
o acontecimento 

como vier.
assim é a arte. 

balões, bardos, bares
presentes, ausentes, 

memórias: mas quando
nós nascemos mesmo? 

brotar do tempo
que já não sobra. 

lembrar que ainda
há muito a fazer. 

que fazer então
nesta tua hora 

com o coração?
que outro prazer 

sempre mais importa?
viver? criar?

tudo?
nada?

sonhar-te e beijar
a tua alma!